Um conservadorismo para inglês (não) ver

por Celina Alcântara Brod

A revista britânica New Statesman, no dia 12 de junho deste ano, publicou um artigo escrito por Robert Saunders, professor de História na Universidade de Queens, intitulado The Closing of the Conservative Mind. A matéria foi a primeira de uma série de artigos que irá discutir os dilemas enfrentados atualmente pelo Conservadorismo. Na capa da revista, expostos em ordem decrescente, estão as figuras de Churchill, passando por Thatcher a “Dama de Ferro”, seguindo com David Cameron e terminando em um miúdo Boris Johnson. A imagem, muito bem escolhida, faz alusão ao apequenamento das ideias conservadoras, tanto na esfera intelectual quanto política. O encolhimento destas figuras públicas assinala o esvaziamento das contribuições de uma tradição que, desde a Revolução das Luzes, ficou conhecida pela visão empírica e prudente da atividade de governar.

O artigo de Sanders retoma a trajetória do conceito que, por gerações, impulsionou ideias públicas e influenciou grandes nomes. Uma forma de enxergar a esfera social e política a qual teve na obra contrarrevolucionária de Edmund Burke sua materialização conceitual. A visão conservadora reuniu notáveis intelectuais, cujos grupos de estudo e pesquisa produziram uma vasta literatura sobre a política da concretude em oposição ao entusiasmo utópico das ideologias. Esta ótica de mundo, que é pessimista aos voos da imaginação, produziu após os Gulags e Auschwitz do século XX, notáveis pensadores contemporâneos como Anthony Quinton, Russell Kirk, Raymond Aron, Michael Oakeshott, Roger Scruton e John Gray.

Porém, o conservadorismo tem mostrado pouco sinal de vida intelectual, desaparecendo das universidades inglesas e também do debate público. Sem visões para o futuro, propostas econômicas amplas ou representantes dignos, o partido Conservador agoniza com seu fracassado Brexit. Douglas Murray, um dos editores da revista The Spectator, declarou que o conservadorismo atual está “intelectualmente exausto”. Para Sanders, o partido conservador britânico teria se afastado das características que fizeram do conservadorismo uma perspectiva política respeitável, tanto pelas suas bases filosóficas de apelo empírico e ambições prudentes, quanto pelas suas boas ideias diante dos desafios das sociedades europeias. Segundo ele, no cenário atual, o Partido Conservador abandonou os três pilares da tradição: “parou de pensar, parou de conservar; parou de desconfiar das ideologias”. 

O partido teve com David Cameron um de seus últimos suspiros de lucidez. O ex-ministro ficou conhecido por modernizar as pautas políticas, mitigar diferenças partidárias e defender a igualdade de direitos LGBT. Sua defesa igualitária estava ancorada no fato de que as relações entre indivíduos são espontâneas e fruto das liberdades, as quais deveriam ser preservadas e garantidas pelo “império da lei”. Depois disso, o pensamento dos conservadores empobreceu com o cântico das conspirações.

Aqueles que estão mais familiarizados com os pressupostos da perspectiva conservadora sabem que se trata de um conceito político que é melhor apreendido por aquilo a que ele opõe-se: a fé política, aos modelos abstratos e reducionistas de mundo, ao entusiasmo utópico, ao pensamento intelectual alienado da vida comum, às inovações radicais e violentas, ao uso concentrado do poder e, finalmente, à imposição, via autoridade do Estado, do aniquilamento das convenções e instituições costuradas pelo tempo. Estas objeções orbitam uma premissa central: a perniciosidade da insinuação de que indivíduos são capazes de serem transformados pelas conclusões teóricas da razão; basta que alguém as aplique. Em resumo, o conservadorismo, como posição filosófica, insurge-se contra a evangelização da política.

Se esta tradição enfrenta uma crise de identidade em seu berço inglês, em terras brasileiras este “ismo” da prudência sequer atracou no porto. Mesmo antes destas versões esvaziadas de sentido filosófico e distorcidas pela polarização e tribalismo, muito pouco se conhece sobre a contribuição intelectual do conservadorismo secular britânico. Frequentemente, aqueles que se auto intitulam conservadores por aqui acreditam que costume está relacionado a imposição de valores, e que ser conservador significa resgatar as almas brasileiras das garras da indecência. Agem mais como um culto da salvação, do que como homens céticos e pessimistas. O uso do termo é feito sem qualquer rigor conceitual ou responsabilidade semântica, manipulado por políticos para enfeitarem suas posições tacanhas e reacionárias, ou por dissidentes que querem demonizar e assolar o termo.

Na realidade, a política identitária tem sido uma disputa tribal jogada em ambos os lados do espectro político e na qual as simplificações e os estereótipos alimentam o debate público. O que se enxerga é uma batalha sobre versões de mundo, não sobre conflito de interesses práticos. Ambos os lados, ao interpretarem a política como instrumento de melhorismo humano, agem impulsionados pelo mesmo estilo político: o da fé. Nele, “a atividade de governar está a serviço da perfeição humana”, observa Oakeshott. Na retórica dos ideólogos, há sempre um algo para alocar toda a culpa do mundo e em seguida uma alternativa para justificar a censura e o linchamento. No fundo, entusiastas políticos terceirizam suas responsabilidades individuais enquanto fantasiam-se de porta-vozes da benevolência. 

Onde está, afinal, a onda conservadora? Se há, de fato, uma maré do conservadorismo, não deveríamos estar inundados pela moderação? Ou seja, por que não estamos rodeados de pessoas e burocratas que ponderam suas decisões tentando ser o mais econômico possível no uso da fantasia e do poder?

Talvez o problema esteja no próprio termo. Uma das dificuldades que os teóricos da política da imperfeição enfrentam é sistematizar os pressupostos desta posição. Justamente porque o conservadorismo quer, permanentemente, fugir daquilo a que ele próprio se opõe: as ideologias. No entanto, é relativamente fácil converter-se em uma ideologia ao organizar uma postura filosófica que se oponha a ela. Ironicamente, o ponto mais forte do conservadorismo é, simultaneamente, seu calcanhar de Aquiles. Mas nem tudo está perdido. É nesse sentido que o conservador toma para si uma postura singular diante da complexidade da realidade política, ele compreende que o termo vigora melhor como um adjetivo do que como um substantivo, isto é, manifesta-se em uma atitude diante dos assuntos humanos. 

No entanto, para entender o que significa ser conservador é preciso partir das ideias que inspiraram o conservadorismo antes de sua delimitação conceitual. O que é, afinal, essa postura que transita entre o senso comum e a reflexão? O trabalho de David Hume provavelmente reúne da melhor forma possível os pilares teóricos que influenciaram tal estilo de pensar a à atividade de governar. O empirista escocês, além de brilhante historiador, foi um filósofo cuja principal preocupação era desarmar os perigos do dogmatismo e do racionalismo. Hume escreveu suas obras da mesma forma que viveu sua filosofia: entre a reflexão e o jogo de gamão.  

Suas obras ensinam aos filósofos a tornarem-se mais modesto em suas ambições teóricas e a privilegiar o conhecimento extraído da observação. A razão, embora seja imprescindível, é falível, vaidosa e não articula grande parte daquilo que conhecemos como acordos coletivos espontâneos. A adaptabilidade dos homens com suas ordens sociais resulta, em grande medida, de juízos pré-reflexivos. A razão corrige-os, mas não pode pretender ditar algum fim universal e axiomático para todos. Somos infinitamente complexos para nos ajustarmos à equações teóricas, por isso nem todos os conflitos podem ser resolvidos por argumentos, inferências, tampouco, por engessamento de valores.

Tal posição intelectual se distancia de outras concepções políticas porque diferente delas não há um único fim norteador. O Liberalismo tem a liberdade, o Igualitarismo a igualdade, o Utilitarismo a utilidade, mas, diferente destes, não há qualquer tábua de princípios escrita em algum lugar sobre as coisas que devem ser conservadas. A ideia que resiste é a de uma postura ciente do fato de que o status quo não é produto de teorias elaboradas em gabinetes fechados, muito menos estático. Ninguém sabe o rumo da história, por isso, na política conservadora, menos é mais. O resultado final é uma atitude que equilibra viabilidade e conveniência, em que o governo é mero coadjuvante, pois o protagonismo é dos indivíduos e seus laços em sociedade. 

Por isso, muito embora haja elasticidade no termo, há alguns denominadores comuns: o ceticismo em relação à atividade de governar como um fim moral; a desconfiança em relação ao poder; um apego às contingências; o cuidado com as instituições e convenções humanas que se desenvolvem espontaneamente. Para o conservador, nunca é demais desconfiar dos bolsões de ignorância humana, por isso sonhos altos são sempre suspeitos.

Partindo deste DNA, é possível reconhecer que o que fala e caminha pelo solo brasileiro é um Frankenstein. Um movimento, cujos líderes e burocratas têm muita fé na capacidade do governo de ditar fins, pautam algumas de suas decisões em um modelo inexistente de Brasil, revolucionam com tom nostálgico e governam como se encarnassem uma vontade geral romântica. Se a Inglaterra, berço da política empírica e moderada, testemunha o apequenar de seus líderes, o que sobra para nós, que sequer tivemos o prazer de viver seus anos dourados?

Esta versão ideologizada de conservadorismo, que se espalha epidemicamente, dá trabalho para aqueles que conhecem as reais implicações dos seus fundamentos filosóficos. As conclusões práticas do conceito, guardadas as devidas proporções e diferenças, são inevitavelmente opostas a qualquer uso demasiado do poder político ou pretensão de grande reforma nas maneiras dos homens. Por essa razão, paternalismo, nacionalismo e socialismo sempre foram seus maiores antagonistas.

Quem sabe, o destino inevitável de qualquer sistema de conceptualização política seja sua perversão até a exaustão. A linguagem, sendo frágil e manipulável, pode alterar completamente o sentido enquanto mantém o mesmo signo. No entanto, é trabalho da filosofia denunciar as perversões utilizando como antídoto a mesma arma, palavras que remetam aos sentidos sadios. 

Não é fácil vender prudência. Ideias radicais têm apelo e seduzem. A razoabilidade faz da política um assunto meramente mundano. Prudência não queima carro, não infla bonecos gigantes com poderes supra-humanos e tampouco possui alguma espécie de slogan forte para ser martelado. Já as ideias, que prometem e idealizam, granjeiam massas com sede de justiça e identidades para chamaram de suas. Ser cético em relação à política é atribuir-lhe pouca importância, é enxergá-la como um mal necessário, que ajuda mais quando menos atrapalha. No fim das contas, como diz Oakeshott, “a política é um espetáculo desagradável em qualquer momento”, logo, inevitavelmente arbitrária.

Portanto, quem diz que ama determinado grupo, ideia ou líder erra o verbo, ou confunde amor com sujeição. Por essa razão, muito do que está aí é um conservadorismo cuja assinatura os filósofos não reconhecem. O conservador, ao que tudo indica, tornou-se uma espécie em extinção.

Celina Alcântara Brod

Celina Alcantara Brod é mestre e doutoranda em Filosofia Política pelo Curso de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).