Uma história moral: o legado de Gertrude Himmelfarb

No dia 30 de dezembro de 2019, recebemos a notícia da morte da grande historiadora norte-americana Gertrude Himmelfarb, aos 97 anos. Uma pensadora, pesquisadora, escritora de grande estatura intelectual e moral, que deixa um grande legado na forma de muitos livros e artigos publicados, alguns inclusive já traduzidos no Brasil.

Durante os últimos três semestres, tivemos a honra de dedicar as atividades do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia – Labô, da PUC-SP, ao pensamento de Himmelfarb. Sua obra se mostrou extremamente valiosa para compreender aspectos da vida cultural e política brasileira na atualidade.

Himmelfarb era de Nova Iorque, onde nasceu em 08 de agosto de 1922. Vinha de uma família judia de condição humilde que sobrevivia a partir do trabalho do pai, um fabricante de artigos de vidro. Em seus estudos no Brooklin College, obteve uma tripla formação: em história, filosofia e economia além de se graduar no Jewish Theological Seminary. Assim como vários de seus contemporâneos, na sua juventude ela se envolveu com o movimento trotskista novaiorquino. Em uma das reuniões do movimento, ela conheceu aquele que seria seu futuro marido, Irvin Kristol, um grande intelectual norte-americano, responsável por aquilo que ficou conhecido como o neoconservadorismo, uma vertente de pensadores de várias formações, a maioria oriundos do descontentamento e decepção com o marxismo, principalmente com a experiência da Segunda Guerra Mundial e com as notícias do que ocorria na União Soviética. O casal Kristol foi um dos principais alicerces do novo movimento, tanto no plano intelectual quanto no moral. Nos círculos mais íntimos, Gertrude Himmelfarb era conhecida como Bea Kristol.

A obra de Himmelfarb se constrói a partir de um núcleo central de reflexão que a acompanha em suas pesquisas como historiadora: a questão moral. Seus estudos em história a levaram ao doutorado sobre Lord Acton e, com isso, ao período vitoriano britânico, no qual veio a se tornar uma especialista de renome internacional. A partir de seus estudos, emergiu uma nova percepção deste período da história britânica, que constrastava radicalmente com a crítica e a ótica negativa impostas pelos intelectuais e ativistas do grupo de Bloomsbury, como Virginia Woolf e John Maynard Keynes.

Na visão de Himmelfarb, o período vitoriano tinha como característica a centralidade do aspecto moral na vida social britânica e isto fez com que, por exemplo, o envolvimento com o combate à pobreza no século XIX se desse como ação oriunda diretamente dos vários segmentos da sociedade britânica, independentemente das ações de governo que foram adotadas. O esforço vitoriano partia de uma decisão moral, não de uma adesão a uma política governamental amoral e técnica, e visava também provocar a reação e o envolvimento moral das populações atendidas. Por estas e outras razões, Himmelfarb apresentou uma perspectiva do período vitoriano que apontava a prática daquilo que ela destacou como o aspecto mais significativo do movimento chamado por ela de Iluminismo Britânico: a prioridade das “virtudes sociais” às estruturas argumentativas do racionalismo francês revolucionário. 

A propósito, uma das obras responsáveis pelo reconhecimento internacional de Himmelfarb como historiadora, pesquisadora e pensadora, é o livro Os Caminhos para a Modernidade, publicado no Brasil pela editora É Realizações. Nessa obra, Himmelfarb se propõe a estabelecer de vez a noção de que o Iluminismo não foi um fenômeno único e que deveria ser referido no plural, não no singular. Para tanto, ela apresenta três versões diferentes de movimentos filosóficos e políticos que recaem sob esse único nome: os iluminismos francês, britânico e americano. Dentre essas três vertentes, a que teve maior sucesso em se associar ao termo foi o iluminismo francês, porém, Himmelfarb se propõe a tarefa de provar que o Iluminismo britânico não é apenas anterior no tempo, mas que teria sido o iniciador do Iluminismo, precedendo aquilo que veio a ocorrer na França. O Iluminismo francês se caracterizaria por um confiança absoluta no poder da razão, estabelecendo a ideologia que conduziria à Revolução Francesa a partir daquilo que acreditava ser a verdade racional que deveria produzir a profunda transformação da França  pela radical  ruptura com o “antigo regime”.  Daí a forma tão violenta e radical que a Revolução Francesa adotou e os resultados catastróficos que produziu. Uma “ideologia da razão”: assim Himmelfarb se refere à versão francesa.

Por outro lado, é nos filósofos morais britânicos que ela vai encontrar a prioridade nos vínculos sociais fundamentais e na prática destes, os quais, como fundamento do pensamento britânico, vão constituir a marca da genialidade do Iluminismo britânico, sua precedência ao francês e americano, e sua ênfase nestas “virtudes sociais”. Se, para os Iluministas britânicos, a racionalidade era importante, e a empreitada do conhecimento era louvável — eles produziram a Enciclopédia Britânica –, ela não era mais importante do que os sentimentos morais que eram a base e fundamento da sociedade, da história, da cultura britânicas, sobre as quais se assentavam valores máximos como a liberdade individual junto com a ordem social. Tal ideia de liberdade vai ser o elemento mais importante da versão americana do Iluminismo, caracterizado por Himmelfarb como uma “política da liberdade”. 

Himmelfarb perscrutou atentamente a estrutura moral da sociedade americana e com a argúcia e fineza de sua inteligência e erudição, mostrou como a história recente dos EUA aponta claramente para uma íntima relação entre as novas formas de política que emergiram no início do século XX e que se consolidaram no período pós-guerra. Estas novas formas, marcadas pelo pensamento e prática política dos “liberals” –a versão americana do pensamento progressista–, influenciaram as políticas governamentais que produziram, entre outros efeitos, o paulatino desmonte da ordem moral e o contínuo expurgo da prática das virtudes sociais nos EUA desde a segunda metade do século XX até os nossos dias.

A sua discussão dos efeitos da pós-modernidade aponta exatamente para o relativismo moral e epistemológico, que se manifestaram na filosofia, na política, nas artes, portanto, na cultura em geral. Essas discussões podem ser observadas em grandes obras suas como The De-Moralisation of SocietyOne Nation, Two Cultures e também em The Idea of Poverty: England in the Early Industrial Age, assim como na sequência a este último título, Poverty and Compassion: The Moral Imagination of the Late VictoriansNo Brasil, além do estudo sobre os Iluminismos, temos disponíveis também os excelentes A Imaginação Moral e Ao Sondar o Abismo: Pensamentos Intempestivos sobre Cultura e Sociedade, ambos editados também pela É Realizações. Muitos de seus livros foram desenvolvimento de artigos publicados na revista Commentary, da qual foi uma colaboradora constante.

Na Introdução de seu livro Ao Sondar o Abismo, Himmelfarb dá uma definição de si mesma que sintetiza muito bem sua perspectiva intelectual e moral: “Talvez este livro devesse ser chamado de ‘Confissões de uma pedante incorrigível’, pois é dedicado à proposição de que existem coisas como verdade e realidade e de que há uma ligação entre elas, como há uma conexão entre sensibilidade estética e imaginação moral, entre cultura e sociedade.” A coragem e a firmeza em estabelecer sua posição crítica ao relativismo moral e epistemológico, a agudeza em trazer de volta ao debate público a noção de imaginação moral -conceito derivado de Edmund Burke e afirmado pelo amigo Lionel Trilling- e seu compromisso com as noções de verdade e realidade, mostram a têmpera moral e intelectual de Himmelfarb.

Por se tratar de uma autora dessa grandeza e com um tão importante legado intelectual, pretendemos dedicar alguns artigos neste espaço para abordar obras e ideias de Gertrude Himmelfarb para que o público brasileiro possa tomar contato com seu pensamento, compreender algumas de suas preocupações centrais e, assim, ao assimilar alguns de seus mais importantes conceitos, possa também aplicá-los na análise da nossa própria realidade. 

Luiz Bueno

Luiz Bueno é Bacharel e Mestre em Filosofia e Doutor em Ciências da Religião. Professor de Filosofia na FAAP. É autor do livro "Gertrude Himmelfarb: Modernidade, Iluminismo e as Virtudes Sociais", publicado pela É Realizações.