Vidas Secas e 1984: Quando faltam palavras

por Elton Frederick

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Quando o menino mais velho pergunta para Sinha Vitória o que é inferno, recebe palavras insuficientes e um cascudo como resposta. O “cocorete” foi a paga pela curiosidade impertinente do filho e efeito da frustração irritadiça de quem se vê diante da própria limitação explicativa.

Os elementos que Sinha Vitória usa para descrever o território reservado aos condenados desta Terra não satisfizeram o filho. “Distraída, aludiu vagamente a um lugar ruim demais”. De vocabulário escasso, o menino “tinha querido que a palavra virasse coisa” e estranhou que um nome tão bonito — inferno — designasse algo ruim. Mais do que isso: o sentido obscuro sugerido pela mãe não correspondia à realidade. O mundo era duro, sim, mas as forças maléficas nunca triunfavam. E, uma vez derrotadas, eram como se nunca tivessem existido. Ao submeter a explicação da mãe às coisas que conhecia, o menino concluiu que não, o inferno não podia ser aquilo que Sinha Vitória insinuara.

Publicado em 1938, Vidas Secas é um livro sobre o qual a ação do tempo só faz amplificar seus sentidos. O enredo construído por Graciliano Ramos é conhecido: a família de retirantes — Fabiano, Sinha Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia — em marcha sobre a planície avermelhada do sertão, num círculo interminável de lutas, injustiças e sofrimentos. Precisavam chegar, não sabiam aonde. O que os move é a sobrevivência, a busca por um teto que os proteja até que a próxima onda de privações tenha início.

Graciliano Ramos

Nas primeiras páginas, ficamos sabendo que eram seis os viventes. O papagaio da família virou alimento. A culpa por comer a ave é aliviada pela lembrança de que era “muda e inútil”, informação que está longe de ser mera alavanca dramática. Graciliano Ramos está chamando a atenção para as limitações expressivas de uma família assolada por toda sorte de privações. Ao retratar a pobreza daquele microuniverso, o autor convida a refletir sobre a miséria linguística e suas implicações. Vidas Secas é um retrato da indigência de uma família, mas com luzes voltadas às consequências de uma penúria específica: a anemia vocabular.

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“Na beira do rio haviam comido o papagaio, que não sabia falar. Necessidade. Fabiano também não sabia falar”.  

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Como apontou Otto Maria Carpeaux, apesar da técnica ficcional aparentemente episódica, Graciliano conseguiu traçar um “panorama épico da vida do povo nordestino”, em uma brilhante combinação de classicismo e coloquialismo. O resultado é um livro que apresenta a secura da vida, em uma linguagem igualmente “seca”, sem nenhuma extravagância linguística, num casamento perfeito da ideia com a forma. “Havia muitas coisas. Ele (Fabiano) não podia explicá-las, mas havia”. A escassez perverte a capacidade de expressão e de abstração de Fabiano, o personagem da trama em que este traço se mostra mais, digamos, eloquente.

Apesar de sofrer as consequências da ignorância, Fabiano mostra-se conformado com ela. É assim que as coisas deveriam ser. E pronto. Um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo. “Utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos — exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas”. Sim, perigosas: “Sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difíceis, saía logrado”. Foi preso e torturado porque incapaz de explicar, incapaz de se defender. O patrão lhe roubava nos incompreensíveis cálculos que sempre resultavam em mais dívidas. Fabiano não sabia contar para além de 5, fato que Graciliano narra de forma magistral. “Fabiano tomou a cuia, desceu a ladeira, encaminhou-se ao rio seco, achou no bebedouro dos animais um pouco de lama. Cavou a areia com as unhas, esperou que a água marejasse e, debruçando-se no chão, bebeu muito. Saciado, caiu de papo para cima, olhando as estrelas, que vinham nascendo. Uma, duas, três, quatro, havia muitas estrelas no céu. O poente cobriu-se de cirros — e uma alegria doida enchia o coração de Fabiano”.

O assombro pelo significado das coisas é um traço atávico nas Vidas Secas. Na festa de Natal, a curiosidade infantil vem novamente à tona diante das preciosidades que se exibiam nos altares da igreja e nas prateleiras das lojas. Aquelas coisas certamente tinham nomes, os meninos disseram entre si. “Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas. Não tinham sido feitas por gente. (Os meninos) falavam baixo para não desencadear as forças estranhas que elas porventura encerrassem”. 

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Pouco mais de uma década depois de Vidas Secas, George Orwell publicou aquela que provavelmente é a obra literária que melhor explicita a relação entre linguagem e dominação: 1984. No mundo distópico vislumbrado neste clássico, a expressividade é reduzida para a manutenção de um regime totalitário. Winston Smith, funcionário do “Ministério da Verdade” (e protagonista do romance), tem entre suas atribuições reescrever o material jornalístico do passado, criando uma narrativa em que o apoio ao partido e aos seus ideais existe desde sempre. Além do revisionismo, o Ministério em que Winston atua também se ocupa em destruir documentos, quando estes não podem ser reescritos segundo os princípios do regime.

Winston é diligente em público e sonha com a rebelião contra o Grande Irmão em secreto. Um diálogo entre ele e Syme faz lembrar as angústias de Fabiano em Vidas Secas. Syme é um filólogo que se ocupa em concluir a nova edição do dicionário da Novilíngua — léxico criado para adestrar o pensamento. Winston pergunta a Syme como vai a empreitada. Estava devagar, o outro respondeu, ocupado com os adjetivos, mas feliz porque aquele seria um trabalho definitivo:

“Estamos dando à língua a sua forma final — a forma que terá quando ninguém mais falar outra coisa […] Tenho a impressão de que você acha que nosso trabalho consiste principalmente em inventar novas palavras. Nada disso! Estamos é destruindo palavrasàs dezenas, às centenas, todos os dias. Estamos reduzindo a língua à expressão mais simples”.

(Algumas traduções falam em redução da língua “ao osso”.)

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A Novilíngua, para orgulho e fascínio de Syme, é o único idioma do mundo cujo vocabulário diminui a cada ano. É forjado para substituir definitivamente o léxico anterior, a Anticlíngua, com todas as suas sutilezas e gradações de sentido. “Se temos a palavra ‘bom’, para que precisamos de ‘mau’? Cada palavra contém em si o contrário”. Depois de narrar as delícias de destruir palavras, o filólogo explica o verdadeiro propósito da mutilação linguística que ele opera: “Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? […] A Revolução se completará quando a língua for perfeita […] Todo o mecanismo do pensamento será diferente. Com efeito, não haverá pensamento como hoje entendemos. Ortodoxia quer dizer não pensar. Ortodoxia é inconsciência”.

Em um belo dia Syme desaparece; Syme nunca existiu; Syme foi cancelado. A Revolução devora seus filhos.

Orwell (Reprodução: BBC)

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Na apresentação que faz à mais recente edição brasileira de 1984, o crítico literário Marcelo Pen aponta que Orwell via nas frases feitas (ready-made phrases) um dos grandes problemas do idioma. Estes clichês linguísticos “não apenas constroem uma sentença para quem escreve, mas até mesmo ‘pensam o pensamento’ para ele”. Em “1984: Recepção problemática e o paradoxo do exílio”, Pen escreve que mais do que o empobrecimento da língua, a preocupação de George Orwell estava voltada para a “pobreza do pensamento que a língua padronizada e, por conseguinte, irrefletida, causava”.

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Há um problema de linguagem no Brasil. E ele está evidenciado nas disputas políticas. Vocábulos e conceitos perdem seus respectivos compromissos semânticos e, em vez de ajudarem a compreender e a explicar a realidade, acabam por deturpar o debate. Liberdade, democracia, conservadorismo, liberalismo, esquerda, direita: o pacote é extenso. Já é anedótico o “comunista” como xingamento direcionado a opositores e a traidores de um governo em que só devoção absoluta é aceitável. Nos totalitarismos (ou para aqueles que neles se inspiram) as adversativas não são bem vindas.

(Se o “comunista” virou troça, é importante a levar a sério quando nossos meninos mais velhos começam a perguntar o que é o fascismo. Diferentemente do inferno, o fascismo antecede a nossa capacidade de explicá-lo; não passa a existir apenas quando se chega a um consenso normativo:“ei-lo”. A lógica talvez seja outra. É justamente porque já está à luz, mostrando os dentes, que é urgente explicitá-lo para além da alusão vaga a um lugar ruim demais, como fez Sinha Vitória em relação ao inferno.)

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Um das cenas mais belas de Vidas Secas se dá quando Fabiano compreende algo. Depois de um momento de reflexão solitária, o sertanejo reconhece uma relação de causalidade. As árvores foram tomadas pelas aves de arribação. Sinha Vitória percebeu logo que isso era sinal de tempos difíceis. “O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas (as aves de arribação) levavam o resto da água, queriam matar o gado”. Fabiano considerou que a mulher estivesse maluca: um bicho de penas matar o gado? Impossível compreender o que a mulher queria dizer com aquela extravagância. Fabiano, para quem, até então, só a literalidade das coisas estava ao alcance, pôs-se a refletir. O encontro do sertanejo com compreensão daquilo que a mulher havia dito, o entendimento da relação de causa e efeito que ela propunha, é luminar: “A frase dela tornou ao espírito de Fabiano e logo a significação apareceu. As arribações bebiam água. Bem. O gado curtia sede e morria. Muito bem. As arribações matavam o gado. Estava certo. […] Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de Sinhá Vitória. Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha ideias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo. Nas situações difíceis encontrava saída. Então! Descobrir que as arribações matavam o gado! E matavam”.

A felicidade de Fabiano é o maravilhamento de quem entende uma fração do mundo. É a fagulha de luz em meio ao imenso breu que o impede de enxergar as coisas. Aquela sabedoria agora pertencia a ele e nem as desgraças que o acompanhavam poderiam mais arrancá-la. Naquele momento — e talvez só naquele momento — Fabiano desfruta de uma genuína liberdade. Uma sensação parecida àquela experimentada por Winston Smith ao aproveitar-se da topologia peculiar de um cômodo para escrever seu diário fora do alcance da teletela, que a todos via e a todos ouvia: a pena deslizando voluptuosamente pelo papel macio, grafando cinco linhas em letras de fôrma graúdas e nítidas:

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ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

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Graciliano Ramos foi preso em 1936 por conta de um suposto envolvimento com a Intentona Comunista. Nunca houve provas ou mesmo acusação formal. É deste período que ele resgata as Memórias do Cárcere, livro não concluído e publicado postumamente, em 1956. Nesta obra, Graciliano também reforça a importância de se chamar as coisas pelos nomes: “Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze”.

Graciliano

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Elton Frederick

Elton Frederick é jornalista e mestre em Ciências Sociais.