O que as virtudes têm a oferecer em meio à COVID-19

por Julian C. Hughes

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Agora, mais do que nunca, em meio à pandemia da COVID-19, precisamos das virtudes e dos esclarecimentos (insights) que a ética das virtudes nos oferece. Todos nós lemos ou ouvimos o dilema: há escassez de profissionais ou leitos de terapia intensiva, de maneira que a triagem deve ocorrer e com isso os médicos se encontram em uma posição terrível. A pessoa idosa com comorbidades, em oposição à pessoa mais jovem e em boa forma, provavelmente perderá. O dilema é descrito em termos da tensão entre o dever de cuidar dos pacientes e a exigência de que os resultados dos cuidados de saúde, em nível populacional, sejam maximizados. O argumento consequencialista da saúde pública vence, ao invés da preocupação deontológica sobre a pessoa diante de você. O resultado é que os profissionais de saúde experienciam “sofrimento moral” (moral distress).

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(Reuters/Carl Recine)

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Este cenário é de fato profundamente angustiante (distressing). Mas será que a ética das virtudes pode vir em nosso auxílio? Se a resposta for positiva, é de se notar que essa possibilidade seja tão pouco discutida. Diz-se algumas vezes que a ética das virtudes é boa em descrever questões, mas não tão boa em prescrever o que deve ser feito. Nesse caso, quem quer que o especialista em ética das virtudes se volte para as pessoas e comece a lhes dizer até que ponto elas têm ou não as virtudes? Então, como a ética das virtudes ajuda?

Bem, a ética das virtudes descreve o que está acontecendo, e isso, por si só, já pode ajudar. No dilema que estamos considerando, podemos formular o problema em termos de uma tensão entre diferentes disposições internas ou virtudes. A médica ou a enfermeira deseja ser compassiva e mostrar fidelidade ao paciente diante dela, mas a sabedoria prática diz a ela que deve seguir as orientações nacionais e o protocolo para decisões de tratamento. Isso é simplesmente reafirmar o dilema de uma forma diferente, exceto que a consideração das virtudes é psicologicamente mais sutil que a formulação anterior. Pois as virtudes não são, na realidade, exercidas uma de cada vez. Elas refletem o caráter moral, que é composto de numerosas disposições, não apenas compaixão e fidelidade versus sabedoria prática, mas também honestidade, justiça, firmeza, humildade, coragem, integridade e assim por diante. Enfrentamos esses dilemas como pessoas íntegras e, além disso, junto a outros e com a virtude da solidariedade. Haverá uma tensão que leva ao sofrimento moral, mas isso está no contexto de outras características morais internas que ajudarão. Pelo menos, as virtudes podem ajudar uma vez que sejam nomeadas e reconhecidas.

É possível fazer uma analogia com o luto. Por ser um processo, ele pode parecer diferente do sofrimento moral. No entanto, chegar a um acordo com o sofrimento moral também é um processo. Assim como aprender que as pessoas costumam sentir raiva ou depressão como parte de uma reação normal ao luto pode ajudar, assim também em relação ao sofrimento moral. É normal que, se você tiver a virtude da caridade, sentirá uma profunda tristeza ao ter que permitir que alguém morra, porque você também tem a virtude da prudência. E pode ajudar ser informado de que você foi justo; e que se ater às diretrizes requer um espírito firme, que exige coragem.

Un enterrement à Ornans, Courbet, c. 1849-1850

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É claro que, assim como o luto pode ficar “entalado”, ou pode tudo consumir, também o sofrimento moral pode ser esmagador. Nesse caso, a pessoa precisa de ajuda. Mas parte dessa ajuda pode envolver a discussão das suas disposições internas conflitantes. Compreender as virtudes, estar ciente delas, pode se revelar terapêutico.

Além disso, a ética das virtudes também possibilita prescrições. Isso sugere que devemos olhar para o que a pessoa virtuosa faria. Assim, a ética das virtudes pode muito bem dizer ao médico ou a outro profissional da saúde: mostre compaixão, seja corajoso, demonstre alguma integridade e assim por diante. Mas, novamente, ela não faz isso de maneira grosseira.

Uma vez que estivermos cientes das virtudes e do papel que elas desempenham em nossas vidas, nós poderemos desenvolver a tendência de nos fazer perguntas sobre as decisões que estamos tomando. Nós podemos fazer isso com gentileza e de uma maneira humana. Fazer isso não é um exercício intelectual, como seria se eu me perguntasse se o que acabara de fazer iria maximizar o bem-estar, ou se seria o que eu escolheria por trás do véu da ignorância. Não, as virtudes sugerem que eu possa me perguntar: “Será que eu poderia ter transmitido essas notícias de uma maneira melhor aos parentes?”; ou eu posso fazer uma pausa para verificar mais detalhes nos prontuários antes de tomar uma decisão específica; ou eu posso primeiro respirar fundo e dizer a mim mesmo “seja corajoso” ao telefonar para alguém com más notícias, que sei que devo transmitir se quiser ser verdadeiro. É frequentemente dito que a ética das virtudes é sobre o que você se torna pelo que você faz. É sobre o modo como nós nos desenvolvemos e nos tornamos seres humanos melhores, mais plenos, até mesmo face a uma tragédia. Não evitamos a tragédia ou o sofrimento moral. Nós não podemos metaforicamente dar um tapinha nas nossas próprias costas por ter feito a coisa certa em nível populacional. A pessoa virtuosa se sentirá aflita (distress), mas entenderá isso como uma consequência natural das tarefas que ele ou ela é requisitado(a) a realizar.

Finalmente, a virtude da solidariedade também significa que nós estamos todos juntos nisso e nos lembra que as virtudes estão em evidência em tudo à nossa volta durante esta crise. Elas são vistas nas pequenas gentilezas oferecidas por uma vizinha, bem como no compartilhamento de dados de pesquisa de forma aberta e transparente entre instituições e nações. Nós não podemos e não devemos ignorar as virtudes. Elas são onipresentes, como deveriam ser, e deveríamos exaltá-las. Elas nos dizem como viver bem como indivíduos e sociedades diante de aflições (distress) e dificuldades.

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Julian C. Hughes (Reprodução)

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Este ensaio foi originalmente publicado no Journal of Medical Ethics (JME) Blog <https://blogs.bmj.com/medical-ethics/2020/04/19/what-the-virtues-have-to-offer-in-the-midst-of-covid-19/>, em 19 de abril de 2020.

A tradução foi realizada por Adriano Bechara, João Cortese e Marcos Paulo de Lucca Silveira, do Núcleo de Bioética da Fundação José Luiz Egydio Setúbal.

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Julian C. Hughes é consultor há mais de 20 anos e professor de psiquiatria da terceira idade (old age psychiatry). É Professor Honorário da Universidade de Bristol e Professor Visitante da Universidade de Newcastle, Reino Unido.