O corpo e a matéria, a individualidade e o coletivo, a vulnerabilidade como força radical. São esses os pressupostos a partir dos quais Michelle Moura e Andrea Peña criaram suas obras para a nova temporada do Balé da Cidade de São Paulo, que estreou no sábado passado, no palco da Sala de Espetáculos do Theatro Municipal, e fica em cartaz até 28 de junho.
Bailarina e coreógrafa brasileira radicada em Berlim, Michelle Moura apresenta até que se abra tudo, voltando a colaborar com o Balé da Cidade depois de tão carne quanto pedra (2025). Seu repertório conta com trabalhos apresentados em festivais internacionais de dança e performance, como Tanz im August (Alemanha), Sophiensaele (Alemanha), Bienal de Veneza (Itália) e Panorama (Brasil); dentro dessa variedade o que se mantém constante é a investigação sobre o corpo e seu potencial expressivo a partir do recorte das alterações físicas, afetivas e neurológicas, e das experiências singulares.
O verbo abrir dá inspiração à obra, tornando-se metáfora: abrir o corpo, seus espaços físicos, mentais e emocionais; abrir a composição coreográfica e desdobrar seus sentidos; escavar a terra e abrir precipícios; escancarar imaginários. até que se abra tudo estabelece uma conexão direta com a obra anterior, tanto nos conceitos que direcionaram o processo criativo quanto na investigação do movimento (a pesquisa dramatúrgica é de Maikon K e a assistência de coreografia de Clarissa Rêgo). Mantém-se a busca por uma expressividade do corpo trabalhada à luz da assimetria e do contraste, compreendendo como imagens corporais e posturas geram expressões: o belo e o disforme, a busca pelo sublime e pelo grotesco, o animal e o robótico se tornam marcas vívidas dessa poética. Permanecem a “intensificação músculo-esquelética que aciona novos arranjos, organizações, sensações e imaginações; uma perturbação no corpo” — como escreveu Michelle Moura na apresentação de tão carne quanto pedra —, a estética expressionista das mãos em garras e a qualidade fragmentária e sinuosa, que se tornam elementos característicos dessa linguagem coreográfica.
Além da sequência de movimentos, impressiona o trabalho físico e expressivo do elenco: são fascinantes as soluções que cada pessoa traz, os olhares, posturas e expressões, a gestualidade dos corpos que se recolhem e se expandem. Corpos magnéticos e estranhos, que mergulham em um espaço-tempo indefinido — fantástico, onírico, ao mesmo tempo pré-histórico e pós-humano, em que as subjetividades estruturam o coletivo e se transformam, vivenciando estados diferentes.
As criaturas de tão carne quanto pedra e de até que se abra tudo são seres múltiplos: simultaneamente humanos, animais, vegetais, minerais e ciborgues. O que interessa não é definir sua natureza, mas enxergar a vida e o movimento que os perpassa. O espectro de imagens fica em aberto — alimentado também pela trilha sonora (Kaj Duncan David) e pelo figurino (Thales Cristovão) —, ativando lugares da memória e visões em quem cria, dança e assiste. Criaturas jurássicas e robóticas, bando de aves, cobras brilhantes ou minhocas que abrem caminhos no solo: o público também participa dessa criação.

À ação de escavar se conecta também a obra de Andrea Peña, coreógrafa colombiano-canadense, fundadora da Andrea Peña & Artists (uma companhia de dança interdisciplinar), que pensa a dança contemporânea como prática espacial e conceitual: corpos em movimentos que dialogam com o design industrial, os materiais e a tecnologia. Andrea Peña apresentou suas coreografias em diversos festivais, na Bienal de Veneza (Bogotá, 2023), no National Arts Centre Southam Hall, no Canadá (Uaque, 2024), e foi a vencedora do CHANEL Next Prize 2026, que ressalta sua importância para a cultura contemporânea.
CORO UMBRAL é o título da criação que elaborou junto com o elenco do Balé da Cidade (com assistência de coreografia de Rebecca Margolick) e que marca para ela um momento fundamental: sua estreia na América Latina. Nesse trabalho, a autora quer ressaltar justamente a ideia de uma força latino-americana — as noções de coletividade e comunidade já estão no título — e dar centralidade a um continente que, no sistema da economia global, é ainda visto como periférico ou semiperiférico.
A proposta tem um forte caráter performático: uma coreografia que se cria à medida que acontece, em que as bailarinas e os bailarinos escavam a obra, em uma jornada de transformações que só pode acontecer de forma coletiva, alternando momentos de força e vulnerabilidade. São corpos presentes e resilientes, expressivos e com grande habilidade técnica, que, desde sua entrada em cena, questionam a plateia encarando-a diretamente.
Existem sequências coreográficas fixas, que são elaboradas dentro da performance: quem dança atua em um ecossistema feito de corpos, materiais, estruturas e som, que se reorganiza e se metamorfoseia no decorrer da ação, integrando a noção de agentividade, isto é, a capacidade de agir autonomamente e tomar decisões tempestivas, modificando as relações dentro do grupo e do espaço.
A iluminação, de Caetano Vilela, e a cenografia, de Jonas Soares, ressaltam momentos-chave da construção dramatúrgica. O piscar das luzes proporciona um olhar suspenso sobre a cena: os blackouts intermitentes se tornam os olhos da plateia, que se abrem e se fecham sobre o palco, concentrando ainda mais a atenção na dança do “coro”. Nesses brevíssimos intervalos, o uso da voz é também de impacto — grito de revolta e possibilidade de catarse coletiva —, acrescentando mais uma camada ao trabalho físico do elenco e à coreografia.
Em cena há uma estrutura metálica móvel, revestida com uma lona preta que parece reutilizada, que os bailarinos e as bailarinas deslocam pelo palco. É um elemento enigmático que se impõe como um monumento (e que pesa mais de uma tonelada), lembrando aquele misterioso monólito que surge em 2001: Uma Odisseia no Espaço. Um objeto de culto que reúne em torno de si o coletivo, catalisando força e presença, e proporcionando novas dinâmicas. O elenco sobe e desce por essas treliças, em um movimento que evoca o trajeto dos garimpeiros pela encosta de uma cava, como registram as fotografias de Sebastião Salgado ou as imagens de Powaqqatsi (documentário de Godfrey Reggio), na mina de ouro de Serra Pelada.
Extração de recursos, exploração do trabalho humano e do território. O uso de câmera lenta e de aceleração acentua a qualidade cinematográfica da composição — para a qual contribui a trilha sonora, elaborada por Coppélia LaRoche-Francoeur e Rodolfo Rueda (CIBER1A) —, bem como o movimento rotatório da estrutura metálica, que dá a impressão de uma imagem em contínuo movimento. A dimensão de uma travessia coletiva que passa pelo esforço físico e pelo contato com a terra é reforçada pela escolha do figurino (Marina Dalgalarrondo), que se utiliza de tons terrosos e acinzentados, de tecidos rasgados e resistentes.

até que se abra tudo e CORO UMBRAL são obras bem distintas, mas que se encontram em vários pontos. São também as últimas obras do Balé da Cidade concebidas sob a coordenação de Alejandro Ahmed e Ana Teixeira, respectivamente diretor artístico da Companhia e assistente de direção na gestão Sustenidos. Essa temporada se insere em um percurso amplo, construído ao longo dos anos, em que o objetivo foi proporcionar novas perspectivas sobre a dança, em diálogo com aspectos da cultura contemporânea, outras referências e linguagens.
As obras artísticas podem ou não agradar a expectativa de quem assiste (lê ou escuta), e o gosto é sempre subjetivo, não funciona como parâmetro crítico. Há obras que são feitas para um público e outras que criam seu próprio público, e a essa gestão se dá o mérito de ter trabalhado na segunda direção, incentivando presença e participação no Theatro Municipal, inclusive por meio de ações complementares, e ao mesmo tempo tirando os espectadores de sua zona de conforto. O mérito de ter proporcionado um repertório inovador e de trabalhar em primeiro lugar com artistas da América Latina — com destaque para coreógrafas mulheres — que têm circulação no mundo inteiro. O mérito de fugir do óbvio, apresentar o novo, criar ruptura.
Valentina Cantori é professora de Literatura Italiana na Universidade de São Paulo (USP), tradutora e pesquisadora. Escreve sobre literatura, dança e cultura contemporânea.

