‘O Agente Secreto’ e o que não se transmite

No filme de Kleber Mendonça Filho, o que muitos interpretam como 'falta de ritmo' ou 'ausência de explicações' é, na verdade, uma arquitetura narrativa que se acumula por variações e lacunas.

Após cruzar o tapete vermelho da Academia, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, segue sua trajetória,  agora também no streaming, cercado por uma expectativa clara: a de que sua consagração internacional corresponda a um filme que se deixa organizar com nitidez. Sob a aparência de um thriller, o filme recusa a organização causal clássica. O que muitos interpretam como “falta de ritmo” ou “ausência de explicações” é, na verdade, uma arquitetura narrativa que se acumula por variações e lacunas. O descompasso não é acidental: ele nasce de uma divergência entre o que se espera ver e o modo como o filme organiza a experiência.

O Agente Secreto/Reprodução

Desde o início, o filme aponta para uma dificuldade de transmissão. As relações se formam, os encontros acontecem, os corpos compartilham o espaço; essa proximidade não se converte em continuidade vivida. Os vínculos existem e permanecem como contato sem maiores envolvimentos.

Essa dinâmica está nos gestos e nas situações. Um movimento retorna em outro contexto, um olhar se prolonga, uma presença reaparece com pequenas inflexões. Esses elementos se acumulam e se transformam discretamente, compondo um campo que se adensa sem se fechar. O espectador acompanha essa insistência sem reuni-la em uma linha única.

A cidade do Recife participa diretamente dessa construção. Grades se projetam no quadro como linhas duras, corredores comprimem o deslocamento, muros interrompem a continuidade do espaço. Cada ambiente impõe um modo de ver. A percepção se organiza nessa distância, ajustando-se ao que se oferece apenas em parte.

O Agente Secreto/Reprodução

É nesse ambiente que os personagens se movem. Há atenção ao outro e uma reserva constante, como nos encontros em que o olhar se detém por um instante a mais, sem se converter em aproximação efetiva. Na cena do grupo reunido na sala da anfitriã, essa condição se torna visível com precisão: corpos ocupam o mesmo espaço, compartilham o silêncio, dividem um tempo que é nitidamente o de espera, mas permanecem isolados. Cada um traz consigo uma história que não se comunica, uma ameaça que não se nomeia por completo. A proximidade apenas evidencia a solidão de cada um, como se estivessem juntos apenas naquilo que os separa.

A relação entre Fernando e o agente (Marcelo) concentra esse movimento. A filiação surge como dado que não se converte em memória. O vínculo não produz continuidade; permanece como informação sem inscrição, como um nome que chega sem história. A herança, aqui, se define por essa suspensão.

A figura da pesquisadora explicita o deslocamento. É ela quem escuta as fitas, organiza a voz, transporta o material. Quando entrega as gravações a Fernando, o gesto parece completar um circuito: algo passa de uma mão a outra, como se ali se desse a transmissão. O que circula, no entanto, é um conjunto de vozes separadas de qualquer situação que as sustente, preservadas como registro. Diante desse material, pode-se imaginar a escuta de Fernando como um contato sem aderência, a voz do pai presente, disponível, e ainda assim incapaz de se converter em experiência.

A memória muda de lugar. Circula como registro e fragmento disponível. O contato aproxima, sem restituição.

A violência se inscreve como condição. Aparece na forma como os personagens ocupam  o espaço, na cautela dos deslocamentos, no modo como um corpo hesita antes de cruzar um campo aberto, na atenção constante ao entorno. A figura do agente condensa essa condição: sua história se organiza com as interrupções que persistem.

O Agente Secreto/Reprodução

Algumas imagens tornam esse processo concreto. São elementos recorrentes, a perna cabeluda, o cartaz de tubarão, as notícias de assassinato, as gravações, participam de um circuito em que as narrativas se formam, se transformam e se fixam parcialmente. Cada reaparição reconfigura sua presença, deslocando seu sentido. O filme acompanha essa circulação, permitindo que esses elementos se relacionem por contiguidade, por ressonância, por retomada.  A perna cabeluda, inicialmente banal, retorna sob outra luz, deslocada de sua primeira inscrição. O cartaz de Tubarão reaparece em diferentes espaços e perde sua função decorativa, adquirindo uma presença mais opaca, como se sua repetição acumulasse uma ameaça difusa. As notícias de assassinato surgem como ruído contínuo, enquanto as gravações conservam vozes que persistem para além de quem as produziu. Em cada caso, a imagem se transforma ao retornar, carregando o traço do que não se deixa recuperar.

O enigma acompanha esse movimento. Ele se distribui por essas imagens que retornam e se reorganizam, como fragmentos que se aproximam sem jamais se encaixar completamente. A revelação final acrescenta um dado e delimita um vínculo, sem reorganizar o campo constituído.

O Agente Secreto/Reprodução

A presença de Wagner Moura se constrói nesse registro. Em uma cena de espera, ele permanece sentado, o corpo contido, o olhar deslizando pelo espaço antes de qualquer movimento. Há um intervalo entre perceber e agir. Quando se levanta, o gesto é mínimo, sem ênfase, como se cada ação precisasse caber dentro de uma margem estreita. O personagem se define nesse tempo curto, sempre ligeiramente em atraso. Esse modo de estar, sempre em ajuste, sempre em contenção, inscreve o personagem em um estado de vigilância contínua, no qual a ação nunca se separa inteiramente do risco.

Os enquadramentos fragmentam o campo visual. Grades e paredes ocupam o primeiro plano, estabelecendo uma distância em relação ao que se vê. O espaço se revela por camadas, acompanhando os deslocamentos dos corpos.

A aproximação com L’Argent, (O Dinheiro) de Robert Bresson, situa essa construção. Em Bresson a circulação de uma nota organiza a progressão do filme por transferências sucessivas, oferecendo ao espectador a materialidade do percurso. Em O Agente Secreto, a circulação não se concentra em um elemento identificável, mas se distribui pelas formas que retornam ao longo do tempo. A continuidade se constrói por ressonância, não por encadeamento.

O Agente Secreto/Reprodução

O desfecho mantém esse estado. Permanecem imagens, vozes e gestos que insistem.

Para um espectador brasileiro, essa experiência carrega um peso específico. O que o filme coloca em jogo é uma dificuldade de herdar. O passado não se consolida como memória compartilhada, chega em fragmentos, quando chega. O que se recebe não é uma história, mas seus restos.

Essa persistência do irrecuperável diz algo direto sobre o presente. Ela aponta para um país em que a experiência de uma geração não se converte plenamente em memória para a seguinte; em que a violência permanece inscrita nas formas de vida, em que há sempre algo que não pôde ser dito até o fim, como uma história interrompida no meio de sua transmissão.

O que escapa, então, não é apenas um elemento da narrativa. É uma forma de relação com o tempo. O filme sustenta esse intervalo e devolve ao espectador uma experiência que permanece, sem jamais se tornar plenamente disponível.


Valeska G. Silva é pesquisadora, professora e crítica de cinema. Co-editora da FOCO – Revista de Cinema, dedica-se ao estudo da ética da imagem, da abjeção e das relações entre estética e transcendência no audiovisual. Publicou ensaios sobre autores como Robert Bresson, Jean-Claude Brisseau e David Cronenberg.

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