Neste segundo texto da série, trago o resultado de minhas visitas às coleções especiais do acervo a partir de uma seleção dos três materiais mais surpreendentes que tive a oportunidade de consultar: respectivamente, Garrett MS. 14, um manuscrito com as homilias de São João Crisóstomo sobre o Evangelho segundo São Mateus; Garrett MS. 16, uma cópia da Escada da Divina Ascensão, de São João Clímaco; e, por fim, o já mencionado manuscrito raro das obras do Organon de Aristóteles, Princeton MS.173.
Ainda que eu tenha descoberto o caminho para os manuscritos raros da Firestone Library nos primeiros dias da minha visita acadêmica a Princeton, reservei para os últimos meses o deleite de conhecê-los de fato e sem pressa. Ao longo do semestre letivo, a incansável Firestone mantém suas portas abertas madrugada adentro, funcionando até as duas da manhã em alguns dias da semana. Por mais que explorasse a biblioteca entre uma e outra sessão de estudos, até o último mês ainda descobri corredores, salas de estudo e seções inteiras pelas quais nunca havia passado.
Minha maior surpresa foi observar que uma peça ao lado das escadas de acesso aos subsolos era nada menos do que um mosaico antigo de Antioquia: nem réplica, nem mera decoração, mas um pedaço vivo da história que, entre muitos aspectos, é também a história do próprio acervo de Princeton — o centro de excelência que ao longo do último século se tornou o lar de, entre tantas outras, uma coleção inestimável de manuscritos escritos em grego do período bizantino e pós-bizantino.
Essa história nos leva a Howard Crosby Butler (1872-1922), célebre historiador e arqueólogo formado em Princeton, e responsável pela organização de quatro expedições à Síria. Um dos interesses de Butler era a expansão dos estudos da história e arqueologia cristãs da Síria antiga. Algumas dessas expedições foram financiadas pela universidade e também incluíam alunos — entre os quais se destaca Robert Garrett (1875-1961). Da classe de 1897, além de um estudante exemplar, Garrett foi uma estrela das primeiras olimpíadas modernas, levando quatro medalhas para seu país. Sua participação nas expedições foi essencial para despertar nele o desejo de se tornar um colecionador. Após sua graduação, Robert Garrett voltou para Baltimore, sua cidade natal. A partir desse momento, ocupou-se dos negócios de sua família com a mesma maestria com a qual posteriormente empreendeu sua carreira como colecionador de antiguidades. Sua brilhante coleção foi deixada como legado para a instituição, com a qual manteve laços até o fim de sua vida. Como o nome indica, parte desse legado inclui dois dos manuscritos mais impressionantes do acervo da universidade: Garrett. MS. 14 e 16.

GARRETT MS. 14
Encontrado no catálogo como “Commentary on the Gospel of Matthew, Homilies 1-45” (Comentário ao Evangelho de Mateus, Homilias 1-45), Garrett MS.14 é um dos tesouros do acervo da universidade. Esse manuscrito possui três partes, as quais foram elaboradas por escribas distintos, sendo Nikephoros o principal deles. As ilustrações acompanham os títulos das homilias e destacam algumas palavras do Evangelho de S. Mateus.
Ainda que a cópia tenha sido inteiramente disponibilizada em formato digital — de modo que é possível consultar todos os materiais aqui descritos na página da biblioteca, em alta resolução, como resultado de um trabalho primoroso da equipe —, a consulta à cópia física me trouxe de volta aos meus anos no departamento de História, discutindo a importância da materialidade nas aulas de Patrimônio. Essa viagem no tempo surgiu do estranhamento ao reparar algumas manchas nas páginas que, na versão digital, facilmente me pareceriam marcas de tempo. Porém, observando pessoalmente, constata-se com facilidade que se trata de cera de vela — algo típico, indicando a frequência com que o material era lido e utilizado no mosteiro.

Embora esse manuscrito tenha uma assinatura e data, sua origem ainda é discutida. Nikephoros finalizou seu trabalho em 3 de maio de 955, como indica o catálogo. Atualmente, acredita-se que venha de Jerusalém, em vez do sul da Itália — uma das evidências para tal hipótese são os retratos em formato redondo, muito semelhantes aos de um manuscrito anteriormente do Mosteiro de São Sabas de Jerusalém, e também por conter em um dos fólios (Homilia 21: fol. 151v) um busto de S. Modestos, Patriarca de Jerusalém, e hegúmeno da lavra de São Teodósios. Apesar de já ter sido erroneamente lido como se fosse um retrato do apóstolo e evangelista São Mateus, o busto traz a representação de um dos responsáveis pela reconstrução de Jerusalém após a invasão persa em 614.

GARRETT MS. 16
Se eu tivesse de eleger um favorito entre todos os materiais que tive a oportunidade de consultar, o primeiro da lista seria Garrett. MS. 16. Encontrado no catálogo americano sob o título de “Heavenly Ladder”, Garrett MS.16 é uma das cópias mais ricamente iluminadas da “Escada Divina”, datando o ano de 1081. Também conhecida como “Escada da Divina Ascensão”, a obra é da autoria de São João Clímaco, que viveu em meados do século 6.

Hegúmeno do Mosteiro do Sinai, onde atualmente se encontra o Mosteiro de Santa Catarina, São João Clímaco era um monge experiente, tendo passado mais de quarenta anos no deserto antes de assumir a responsabilidade daquele mosteiro. A fragrância espiritual de seu ascetismo lhe rendeu uma fama que se espalhava — ainda que contra a sua vontade. Certa vez, recebeu do hegúmeno homônimo de outro mosteiro, um pedido para que escrevesse um tratado para monges, compartilhando e eternizando sua vasta experiência ascética. Por obediência, ele não pôde recusar, e usou de toda a Graça que recebera em vida para iluminar a jornada daqueles que trilham o monasticismo. Como resultado, temos uma obra ímpar e atemporal, que ficou conhecida como a “Escada” (em grego, Κλῖμαξ), de onde vem o “Clímaco” de seu nome.

A Escada foi estruturada em trinta “degraus” temáticos, que partem da renúncia ao mundo até a theosis — palavra grega que representa a salvação daquele que buscou o caminho divino e atingiu a união completa com Cristo. Nesse percurso, por meio de uma linguagem simples e direta, São João mescla aforismos com relatos de suas experiências, apresentando um guia prático não somente para adeptos da vida monástica, mas para todos. Assim, a obra que foi inicialmente escrita e lida por monges, passou também a guiar a vida espiritual de leigos, atravessando os séculos e ainda hoje relembrada anualmente no quarto domingo da Grande Quaresma ortodoxa, quando se comemora o santo.
Ainda que existam outros manuscritos com cópias da Escada, Garrett MS. 16 se destaca por ser uma versão rica e detalhadamente iluminada. Mais que meras ilustrações, temos pequenos ícones, no mesmo estilo tradicional bizantino que preenche as colunas e paredes das igrejas ortodoxas, e de maneira didática e inspiradora, funcionam como janelas para o Eterno. Assim, percorremos os degraus da aquisição da mansidão e libertação da ira, da lembrança constante da morte, do luto divino que produz alegria no coração do homem, do arrependimento verdadeiro e distinto do remorso, da tristeza provocada pela calúnia, do desânimo desesperador da acídia, e mesmo da agonia dos tropeços e tentações que acompanham a todos que decidem escalar até o topo.

PRINCETON MS. 173
Estrela da coleção, Princeton MS. 173 foi adquirido em 2001 pelo programa em Estudos Helênicos da universidade de Princeton, com apoio da Stanley J. Seeger Hellenic Fund. Essa cópia do Organon de Aristóteles foi elaborada por um único escriba anônimo na segunda metade do século 13, e traz uma coleção única de comentários, scholia, diagramas e notas em suas margens, cobrindo praticamente todos os espaços em branco — tanto pelo escriba que o elaborou como por aqueles que o adquiriram posteriormente.
Organon, a palavra grega que, literalmente, significa “instrumento”, abrange o conjunto das obras lógicas do filósofo — a saber, Categorias, Da Interpretação, Primeiros e Segundos Analíticos, Tópicos e Refutações Sofísticas — comumente associado um período de juventude de seu autor. No manuscrito de Princeton, que conta hoje com 164 fólios, o texto começa com Da Interpretação, seguido dos Primeiros e Segundos Analíticos, e termina com uma versão incompleta de Tópicos. Parte dos fólios se perdeu — de modo que não é possível saber se as Refutações Sofísticas faziam parte do original —, e uma folha solta permanece conservada como o fragmento Princeton MS.173A.

A cópia de Princeton é interessante para observarmos de que maneira um manuscrito vai além da mera transmissão de um texto antigo, sendo também fonte para a compreensão da vida intelectual dos autores de seu tempo. O conjunto de tratados que compõem o Organon é um dos mais populares entre a produção conservada daquela época, e não por acaso. O estudo da lógica era o primeiro passo na formação intelectual de qualquer cidadão bem educado no período bizantino. Antes que alguém pudesse mergulhar no estudo da ética e da metafísica, por exemplo, era preciso dominar a utilização da caixa de ferramentas dispostas por Aristóteles no conjunto de tratados que encontramos em Princeton MS. 173.
As dificuldades que a obra do filósofo provocam não são uma exclusividade do leitor e pesquisador contemporâneo. Desde a Antiguidade Tardia, o estudo vinha acompanhado da elaboração de comentários e paráfrases, a fim de facilitar a compreensão do texto e solucionar ambiguidades. Ao copiar um manuscrito, era comum acrescentar também um comentário inteiro entre as linhas do texto, deixando margens livres para acrescentar glosas e scholia. Porém, tanto o próprio escriba quanto quem quer que utilizasse o manuscrito em seus estudos acrescentavam suas notas pessoais, além de modificações e correções desses comentários — como um caderno pessoal —, de modo que raramente dois manuscritos são idênticos. Em particular, o manuscrito de Princeton traz em suas margens trabalhos de comentadores célebres das obras do estagirita, tais quais Alexandre de Afrodísias, Ioannes Philoponus, Michael Psellus e Themistius.

No catálogo dos manuscritos gregos da universidade, Sofia Kotzabassi reconheceu uma segunda mão no manuscrito, feita no século 14, e outra contribuição a partir do século 15. Acredita-se que Nikephoros Gregoras (1295-1360) adicionou algumas notas durante o período em que Princeton MS. 173 pertencera a ele, mas o trabalho mais notável é o do monge — e, posteriormente, metropolita de Selíbria — Ioannes Chortasmenos (1370-1439). O monge Ioannes tinha a sua disposição um acervo privilegiado de manuscritos, incluindo comentários antigos e bizantinos do texto que lemos no MS. 173. Foi bibliófilo, copista, professor de lógica e retórica de Scholarius e outros estudiosos, além de autor de um número considerável de epigramas, poemas, textos filosóficos, historiográficos, filológicos, com especial enfoque na lógica aristotélica.

Esse aspecto único do manuscrito de Princeton chamou atenção do pesquisador Stefano Valente, que, em 2021, analisou-o especialmente como um estudo de caso que, só para mencionar um exemplo, revelou-se uma fonte valiosa para a recuperação de um comentário perdido de Philoponus aos Segundos Analíticos — uma vez que algumas passagens do texto atribuído pelo monge a Philoponus não foi editado, e não coincide com a edição crítica de Wallies (1909).
Além disso, acredita-se que o trabalho do Chortasmenos com essa cópia não foi pontual, mas prolongado por décadas: de maneira semelhante ao filósofo de Estagira, Chortasmenos voltou inúmeras vezes ao texto, adicionando informações e modificando seu conteúdo — desde a construção de silogismos distintos daqueles deixados pelo escriba até a numeração de suas páginas e notas pessoais quanto a suas preferências entre esse ou aquele comentador.
Contentar-se com visitas pontuais a esse acervo, trazendo para casa apenas algumas anotações e questionamentos diversos, foi uma tarefa que gerou certa ansiedade, pelo desejo de aproveitar ainda mais seus materiais. De todo modo, foi uma experiência gratificante e inspiradora. Voltar ao solo brasileiro ao final de minha visita acadêmica só reforçou uma urgência pessoal de conhecer e explorar esse terreno fértil dos manuscritos gregos, e explorá-lo a partir da realidade brasileira será o foco do terceiro e último texto desta série.
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Nota:
Esse trabalho não teria sido possível sem o auxílio e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a quem agradeço imensamente pela concessão das bolsas tanto para minha pesquisa no país quanto no exterior.
Referências:
Kotzabassi, S., Ševčenko, N. P., Skemer, D. (2010) Greek Manuscripts at Princeton, Sixth to Nineteenth Century: A Descriptive Catalogue. Princeton: Department of Art and Archaeology and Program in Hellenic Studies, Princeton University.
Valente, Stefano. (2021) Annotating Aristotle’s Organon in the Byzantine Age: Some Remarks on the Manuscripts Princeton MS 173 and Leuven, FDWM 1, in: S. Brinkmann et al. (eds) Education Materialised: Reconstructing Teaching and Learning Contexts through Manuscripts. Berlin: De Gruyter.
Daniela Fernandes Cruz é mestranda em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), bacharel em Letras pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Atualmente, desenvolve pesquisa sobre a metafísica e filosofia da ciência de Aristóteles com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).




