Por Gustavo Neves Coelho e Mitieli Seixas da Silva
Imagine ter até quatro horas para escrever um ensaio filosófico sobre um de quatro tópicos apresentados somente no momento do desafio. Considere agora que esses tópicos lhe serão apresentados na forma de pequenos trechos de textos filosóficos — clássicos e contemporâneos — sobre temas que podem abranger as mais diferentes áreas da filosofia. Além disso, você não poderá escrever o seu ensaio em sua língua nativa, e o seu texto deverá demonstrar relevância para o tópico escolhido, compreensão filosófica do tópico, argumentação persuasiva, coerência e originalidade. Agora imagine-se tendo de enfrentar todo esse desafio estando ainda no Ensino Médio. Difícil, não é? Mas esse é o desafio enfrentado todos os anos por estudantes que participam da Olimpíada Internacional de Filosofia (IPO), evento que reúne hoje representantes de mais de cinquenta países em torno de uma programação riquíssima que vai muito além de um concurso de ensaios. E o Brasil tem se destacado no evento.
Fundada em 1993, a IPO conta com apoio da Unesco e da Federação Internacional de Sociedades de Filosofia (FISP) e ocorre todos os anos em um país diferente, sempre ao longo de quatro dias do mês de maio, com custos de participação — exceto passagem aérea — cobertos para até dois estudantes e dois professores de cada país representado. No segundo dia de evento, os estudantes escrevem seus textos pela manhã, e os professores atuam no júri internacional tendo a tarefa de avaliar os ensaios em duas primeiras rodadas sem ter conhecimento de quem são seus autores. A tarefa básica desse júri é definir quais ensaios serão agraciados com menções honrosas e quais serão encaminhados para um júri final, independente e soberano, para a definição da distribuição das medalhas. Afora esse compromisso, estudantes e professores desfrutam, no restante do evento, de uma programação acadêmica, cultural e social variada em um ambiente que promove reflexões e conexões entre seus participantes.

A programação acadêmica é tradicionalmente composta por palestras e oficinas com filósofas e filósofos de destaque nos países sede, além de nomes de grande projeção internacional — tanto aqueles que circulam mais em meios especializados quanto aqueles que extrapolam os muros da esfera acadêmica. Em diferentes edições do evento, estudantes e professores puderam, por exemplo, acompanhar palestras e conversar sobre justiça com Michael Sandel, sobre linguagem com Noam Chomsky, sobre o problema do mal com Susan Neiman e sobre a reescrita do cânone filosófico com Ruth Hagengruber — esses são apenas alguns poucos exemplos. Frequentemente, também são promovidas atividades de produção colaborativa entre os estudantes, além de oficinas sobre ensino de filosofia para professores que atuam na educação básica.
A programação cultural, por sua vez, costuma girar em torno de atrações especiais dos países sede, as quais estão normalmente conectadas com eixos temáticos escolhidos para as atividades acadêmicas não relacionadas com o concurso de ensaios. Em Roma, em 2019, a 27ª IPO teve como tema “Herança Cultural e Cidadania”, e o comitê organizador promoveu passeios guiados ao Coliseu e aos Museus Capitolinos. Na Grécia, em 2023, o comitê organizador da 31ª IPO proporcionou visitas às ruínas e ao museu de Olímpia Antiga, que ficam a poucos metros do local que sediou o evento, a Academia Olímpica Internacional, que é também a sede do Comitê Olímpico Grego — o tema daquela edição foi “Uma Vida em Competição Justa”. Já em 2024, em Helsinque, estudantes e professores tiveram a oportunidade de vivenciar um pouco da forte conexão dos finlandeses com a natureza ao visitarem um parque natural com direito a um banho de lago e uma sessão de sauna a 85º Celsius para os professores.

Certamente, todos esses exemplos, além de evidenciarem a riqueza acadêmica e cultural da olimpíada, também deixam claro que a integração entre os participantes permeia diversas de suas atividades. E isso é, com certeza, o que é mais valorizado por todos. No entanto, a IPO promove mais oportunidades de integração do que conversas durante refeições, passeios e oficinas. Normalmente, uma pequena festa é oferecida na última noite, e às vezes ela envolve uma boa dose de criatividade. Esse foi o caso, por exemplo, em Rotterdam, em 2017, quando o comitê organizador da 25ª IPO proporcionou, em um belo terraço da cidade, uma silent disco, isto é, uma festa em que a música era ouvida em fones de ouvido com diferentes opções de canais de áudio sinalizados por diferentes cores nos fones utilizados. Apesar de ouvirem músicas diferentes, e de saberem disso, todos os participantes dançaram e se divertiram juntos. A opção do comitê organizador pela “festa silenciosa” não foi aleatória: o tema daquela edição era “Tolerância”.

Ora, apesar de tudo o que a IPO proporciona aos seus participantes, o Brasil demorou muito a entrar nessa história. Foi apenas em 2017, por iniciativa do professor Gustavo Coelho, do Colégio Israelita Brasileiro, de Porto Alegre, que uma primeira delegação representou nosso país no evento. Em 2018, motivado pela experiência vivida com seus estudantes em Rotterdam e contando com reconhecimento do Comitê Internacional da olimpíada, ele fundou a Seletiva Nacional para a IPO, a qual, ao longo de seis anos, mobilizou um número cada vez maior das mais importantes instituições de ensino, pesquisa e extensão de todas as regiões do País, bem como dezenas de professores e pesquisadores universitários em seu júri, a fim de alcançar e acolher um número cada vez maior de estudantes brasileiros interessados pela IPO. Graças a esse trabalho, a Seletiva também contribuiu decisivamente para que o Brasil se tornasse um dos países mais premiados na olimpíada internacional no período que corresponde à sua participação no evento, e o mais premiado em todo o continente americano. Ao todo, estudantes brasileiros conquistaram uma medalha de ouro (2021), duas medalhas de prata (2020 e 2024), uma medalha de bronze (2022) e sete menções honrosas (2017, 2018, 2020, 2022, 2023 e 2025 duas vezes). Em uma olimpíada em que somente dois dos aproximadamente cem classificados recebem medalhas de ouro, até três recebem medalhas de prata, e somente cinco costumam receber medalhas de bronze, esse é um resultado a ser muito celebrado.
No entanto, ainda mais importante é o fato de que o crescimento da Seletiva para a IPO no Brasil foi decisivo para o nascimento, em março de 2024, da Olimpíada Nacional de Filosofia (Onfil), que tem em seu núcleo um concurso de ensaios filosóficos escritos em língua portuguesa, e por isso é muito mais democrática e inclusiva. Idealizada e coordenada em nível nacional pelos professores Gustavo Coelho (CIB) e Mitieli Seixas da Silva (UFSM), que já presidia o júri da Seletiva desde 2019, a Onfil envolve uma parceria entre a Universidade Federal de Santa Maria e instituições de todas as unidades da Federação, contando com cinco coordenadores regionais, vinte e sete coordenadores estaduais e mais de duzentos professores e pesquisadores em seu júri. Também decisivos para o nascimento da Onfil foram o reconhecimento e a obtenção de verba do MCTI e do CNPq por meio de um edital para apoio a olimpíadas científicas de 2023, o que facilitou a mobilização de centenas de escolas de todas as UFs em torno da etapa regional da primeira edição da olimpíada e permitiu a realização de uma etapa final presencial em Santa Maria (RS) para cinquenta finalistas — acompanhados de seus professores — que vivenciaram uma programação marcante espelhada no modelo da IPO. A verba destinada ao custeio da olimpíada permitiu ainda a distribuição de dez bolsas de Iniciação Científica Júnior para estudantes de escolas públicas das cinco regiões do País. Para 2025, a Onfil acaba de ter o apoio do Governo Federal renovado no âmbito do Programa Pop Ciência (chamada nº. 38/2024).
Esse último tema também aponta para desafios enfrentados pelo trabalho de gestão tanto da olimpíada nacional quanto das participações do Brasil na olimpíada internacional. Em primeiro lugar, ainda se procura uma forma de garantir o custeio das passagens aéreas dos representantes do Brasil em diferentes edições da IPO. A verba que a Onfil recebe do Governo Federal só pode, por edital, ser usada para custeio das atividades nacionais da olimpíada, e uma condição para o recebimento dessa verba de apoio é que a Onfil não pode cobrar taxa de inscrição de seus participantes. Todos os anos, a falta de certeza em relação à viabilidade da viagem para a IPO coloca dificuldades para a organização da participação do País nesse grande evento. Um segundo desafio diz respeito ao alcance da Onfil no Brasil. O modelo de prova da olimpíada, que é certamente muito rico, depende da mobilização de muitos jurados especializados, o que limita o número de vagas que podem ser abertas. Visando a superar essa última dificuldade, a II Onfil inseriu em seu cronograma uma Etapa Escolar que permitiu a participação de milhares de estudantes, mas somente de escolas que conseguiram reservar vagas limitadas em sua etapa regional. Novas etapas e modelos de prova estão sendo pensados para que mais escolas possam ser envolvidas em etapas preliminares sem perda da qualidade e da segurança do processo avaliativo. Por fim, um grande desafio, que é também um sonho, é o de sediar uma IPO no Brasil dentro de alguns anos, e existe grande interesse nisso por parte do Comitê Internacional da olimpíada.
Para que esse sonho se realize e os desafios mencionados acima sejam superados, a Onfil precisa do apoio de pessoas e instituições que se reconheçam nos valores promovidos por ela e pela IPO, e que também reconheçam o valor do fortalecimento da presença da filosofia na educação básica do País. Nossos esforços são orientados pela convicção de que aulas de filosofia são o melhor espaço para que os estudantes brasileiros reflitam de forma consistente sobre questões fundamentais que interessam a todos nós, as quais eles começam a se fazer já em idade escolar. Além disso, como mostra a recorrente primeira colocação de estudantes de filosofia nas provas de raciocínio verbal e escrita analítica do Graduate Record Examination (GRE), sabemos que o ensino de filosofia pode viabilizar, no mais alto grau, o desenvolvimento de habilidades valiosíssimas. Acreditamos que, ao estimular milhares de estudantes brasileiros a desenvolverem essas habilidades e a refletirem, de forma aprofundada, sobre questões centrais a nossa experiência do mundo e de nós mesmos, a Onfil e a Seletiva para a IPO dão uma grande contribuição à educação básica do nosso país.
Saiba mais sobre a Onfil em
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@onfil_br




