Na última década do século 20, a humanidade atravessava um de seus muitos momentos de otimismo e percepção de estabilidade. Nesse período, o mundo passava pelo fim da Guerra Fria, pela consolidação de democracias em regiões antes marcadas pelo autoritarismo (como América Latina e países do leste asiático), pela inserção da China e da Índia na economia internacional e por um processo de globalização sem precedentes, em termos econômicos e culturais.
A liderança triunfalista do modelo norte-americano, após décadas de polarização com a União Soviética, parecia inabalável. A Europa, integrada pela União Europeia, parecia ter superado definitivamente os conflitos que marcaram o início do século 20. No “Terceiro Mundo”, os velhos problemas pareciam estar com os dias contados. O destino da humanidade, finalmente, seria baseado na paz, na democracia e na prosperidade econômica. Num nível mais cotidiano, o acesso cada vez maior à universidade e a empregos estáveis e o fascínio causado pela popularização de computadores pessoais traziam uma sensação de enriquecimento constante e duradouro. No âmbito social, preocupações com o meio ambiente e com a inclusão ganhavam cada vez mais espaço nas agendas governamentais e nas práticas empresariais.
Na terceira década do século 21, os diversos conflitos e impasses vigentes soam como inimagináveis numa percepção média da virada do milênio: a China enquanto força geopolítica e econômica relevante; a guinada isolacionista dos EUA; a ascensão de grupos tidos como “radicais de direita”; os dilemas éticos trazidos pelas redes sociais e, mais recentemente, pela Inteligência Artificial (IA); e novas relações de trabalho baseadas em aplicativos, plataformas e numa ressignificação da ideia de “empreendedorismo”, bem como uma percepção de declínio do modelo “fordista” (anos na mesma empresa, no mesmo ofício e com ganhos em poder de compra de uma geração para a outra). Todas essas transformações parecem indicar a emergência de um novo período histórico, significativamente diferente daquele vivenciado a partir de meados do século 20.

Ao mesmo tempo, a criticidade sobre essas transformações e seus significados parece secundária e superficial. Redes sociais oferecem “bolhas” e respostas simplificadas (muitas vezes em vídeos de menos de 1 minuto) para questões complexas. A IA, por sua vez, responde de maneira “mediana” a qualquer pergunta que se faça a ela, desde onde se divertir no final de semana até os rumos da humanidade nas próximas décadas. As novas gerações, nascidas após a virada do milênio e “nativas digitais”, parecem ter pouca paciência para reflexões mais complexas e aspiram a realizações materiais imediatas. Diante disso, podemos questionar: qual o papel do conhecimento histórico nessa sociedade? Como uma área marcada pela multiplicidade de interpretações, cujos profissionais se dedicam a um trabalho “lento”, quase artesanal, pode oferecer respostas ao mesmo tempo consistentes e “simples”? Mais especificamente, quando se pensa nas relações entre História e Economia, como a primeira pode contribuir com a última (atualmente tão marcada pela densidade matemática e pelo pragmatismo)?
Neste ensaio, nos propomos a tentar responder por que a História é útil para a compreensão da Economia, a partir de um eixo central: ilustrar como a compreensão de alguns fenômenos econômicos perderia consistência sem o devido suporte da História. Esse intento não é aleatório: os dois últimos Prêmios Nobel de Economia, em 2024 e 2025, foram conferidos a autores com pesquisas profundamente relacionadas à História Econômica.
Podemos começar por algo bastante conhecido pelos brasileiros: inflação. A relação entre juros e inflação é conhecida: em geral, diante do aumento da inflação, utiliza-se do aumento da taxa juros para contê-la. Há explicações técnicas e fórmulas matemáticas para isso. No entanto, no caso brasileiro, há um componente a mais: tivemos uma experiência histórica traumática com a hiperinflação, que, no início da década de 1990, chegava a quatro dígitos anuais. Atualmente, índices de dois dígitos despertam severas crises políticas e convulsão social. Mas nem sempre foi assim. No período desenvolvimentista, desde a década de 1930 até a década de 1980, diferentes governantes e economistas acreditavam que a inflação era um efeito colateral do crescimento econômico. Até que, em dado momento, o crescimento cessou e a inflação disparou, dando origem a um fenômeno até então desconhecido por políticos, economistas e pela sociedade: a estagflação.
Isso não foi exclusividade do Brasil. Os EUA, nos anos 1970, também tiveram sua Great Inflation. A deles, de dois dígitos, nunca experimentada antes naquele país, gerou mudanças de paradigma nas Ciências Econômicas. Após décadas de hegemonia keynesiana, a estagflação colocou em xeque o “moto-perpétuo” que parecia ter sido descoberto na década de 1930: estímulos monetários e fiscais geram crescimento econômico, ainda que se tenha que conviver com alguma inflação. Sem crescimento e com inflação, Paul Volcker, então presidente do Fed, sob o governo de Ronald Reagan, elevou as taxas de juros para níveis sem precedentes. Naquele momento, era preciso fazer uma escolha: aceitar crescimento mais baixo, eventualmente com alguma recessão no início, para controlar os recém-descobertos efeitos deletérios da inflação. Desde então, essa nova forma de fazer política econômica, com o controle da estabilidade monetária à frente do estímulo ao crescimento econômico, tornou-se o “novo normal”. Diversos países, em menor ou maior grau, passaram a seguir a mesma cartilha.

Isso não foi resultado apenas de uma decisão tecnocrática, mas de uma experiência histórica que até hoje serve como baliza. Mas nem sempre foi assim. E um dia pode não mais ser. Entender esse processo histórico pode auxiliar governantes, empresários e jovens economistas (que conhecem esses princípios “de manual”, mas não passaram pela experiência histórica) a não ficarem tão descontentes diante de juros altos.
No âmbito da economia global e da geopolítica, a ascensão chinesa desafia consensos e coloca diversos questionamentos. No final do século XX, as Ciências Econômicas passaram a reconhecer de forma consistente a relação entre democracia e crescimento econômico de longo prazo. Esse é justamente um dos temas de pesquisa dos laureados com o Nobel de Economia de 2024. A China, embora não seja suficiente para “refutar” a tese, coloca um certo incômodo em relação ao tema. Diferentemente do caso soviético, em que se propunha um novo tipo de organização da economia e uma nova concepção da relação com os bens materiais, o caso chinês mostra que é possível, pelo menos por enquanto, combinar padrões de consumo capitalistas e autoritarismo político.
A URSS pregava a estabilidade e a segurança em troca da perda das liberdades políticas e civis: o indivíduo não tem direito ao voto, à livre expressão, mas tem moradia, saúde, educação e alimentação garantidas. Porém, para por aí. Comodidades e consumo de supérfluos eram vistos como vícios do capitalismo consumista. Na China, diferentemente, ao longo das gerações, há um incremento nos padrões de consumo e na qualidade de vida. Um grande exemplo é o crescente consumo de proteína animal pelos chineses. Além disso, a “classe média” chinesa desfruta de carros, celulares e demais bens de consumo tipicamente ocidentais.
Essa aparente satisfação popular com o regime e a superação das falhas do modelo soviético pelo “socialismo de mercado” chinês, coloca a China como uma possível potência duradoura no cenário internacional. Além disso, apesar das tensões com os EUA e de possíveis conflitos regionais, a China não aspira “mudar o mundo” como a URSS, nem disputar diretamente a hegemonia com os EUA, como a Alemanha fez com a Inglaterra às vésperas da Primeira Guerra Mundial. No entanto, o sucesso chinês despertou a insatisfação dos EUA. Diferentemente do caso da Alemanha, potência em ascensão que declarou guerra em 1914, a “guerra”, dessa vez comercial, está sendo declarada pela potência consolidada. Sem se atentar a tais nuances, fica muito difícil compreender algo tão irracional do ponto de vista econômico, como o chamado “tarifaço” praticado por Trump.
Beneficiário desde 1945 do comércio internacional, os EUA passam por uma fase de insatisfação social, a chamada vibecession, que ocorre quando os números como crescimento econômico, inflação e pleno emprego não estão tão ruins, mas parte significativa da sociedade sente que não está melhorando seus padrões de consumo e ascensão social. Diferentemente da geração do pós-guerra, os famosos baby-boomers, as gerações atuais sentem que estão prosperando menos em relação a seus pais e avós. Do ponto de vista econômico, isso tem um motivo relativamente simples: ao alcançar determinado nível de crescimento, um país tem menos margem para crescer. Ao mesmo tempo, os mercados ficam mais competitivos e é mais difícil se destacar, preços de imóveis aumentam e assim por diante. Tal combinação entre satisfação chinesa e insatisfação norte-americana tumultua a concepção clara que havia até pouco tempo atrás sobre os benefícios da democracia e da globalização.
Apesar de estarem imersos em crises de diversas ordens, os EUA continuam um celeiro de inovações, como o é desde a Segunda Revolução Industrial, do final do século 19. A Inteligência Artificial surge como a principal promessa dos novos tempos. No entanto, alguns não compartilham desse otimismo. É o caso de dois dos ganhadores do Nobel de 2024, Daron Acemoglu e Simon Johnson. Em seu livro Poder e Progresso: uma luta de mil anos entre a tecnologia e a prosperidade (2022; editora Objetiva, 2024), os autores enfatizam que, apesar da evolução tecnológica ter trazido ganhos em termos de prosperidade econômica para toda a sociedade de forma geral, essa relação nem sempre foi automática.

De orientação reconhecidamente liberal, os autores enfatizam o papel dos sindicatos e das leis trabalhistas algumas décadas após a Revolução Industrial. Um leitor desconhecedor da trajetória dos autores poderia considerá-los “marxistas” que estão repetindo “mais do mesmo”. Mas há diferenças e sutilizas importantes: os autores não colocam as relações entre capital e trabalho numa perspectiva de luta de classes e de um inevitável acúmulo de contradições que levaria ao fim do capitalismo, mas de um equilíbrio de poder (por isso o título da obra) entre trabalhadores e os detentores não apenas dos “modos de produção”, mas da tecnologia. Bem à moda de James Madion (“se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário”), Acemoglu e Johnson destacam a importância de leis e regulamentações (instituições formais), mas também de posturas sociais e éticas (as instituições informais) que forneçam freios e contrapesos em relação à tecnologia e a seus beneficiários mais diretos.
Traçando um paralelo entre as “big techs” atuais e o “big business” dos EUA do século XIX, os autores relembram a história das leis antitruste, que regulamentaram o poder das novas empresas que surgiam naquele período, sendo a Standard Oil, de John Rockefeller, a mais famosa delas. Para os autores, naquele contexto, parecia impossível deter o poder desses conglomerados empresariais. No entanto, o descontentamento de parte do empresariado com menor poder, bem como a pressão de jornalistas e os novos valores da classe média americana naquele momento, deram origem a um “movimento progressista” (termo dos autores) que levou a modificações nas leis norte-americanas, limitando o poder das grandes empresas.
Em relação à IA e às “big techs”, os autores traçam uma perspectiva futura semelhante: os resultados dependerão das escolhas e respostas sociais. Sem regulamentações claras e sem um senso ético em sua utilização, Acemoglu e Johnson destacam que a IA pode levar ao excesso de vigilância e a uma “automação moderada” (outra expressão do livro) que trará ganhos às empresas, mas perdas aos trabalhadores, uma vez que, conforme os autores, nem sempre a inovação tecnológica traz uma “prosperidade compartilhada”. Em alguns momentos esse tipo de prosperidade ocorreu, como na Era de Ouro do segundo pós-guerra, muito em função da combinação entre novas tecnologias e Estado de bem-estar social. Em outros momentos, como no surgimento da robótica, por volta da década de 1980, esse processo não ocorreu, deslocando parte dos trabalhadores industriais para outros setores, nem sempre tão estáveis. Assim, a incerteza quanto ao futuro do trabalho e das relações entre empresas e sociedade surge como uma das principais preocupações do século 21.
A Economia, doméstica ou global, do cotidiano do trabalho ou dos padrões de crescimento econômico, ganha mais consistência e, ao mesmo tempo, mais nuances quando lida pela lente da História. É improvável que o conhecimento histórico ou das Humanidades em geral volte a gozar do prestígio de outrora, mas é necessário encontrar um lugar de diálogo entre a velocidade da tecnologia, a objetividade matemática e a densidade das Ciências Humanas, sob pena de simplificar ou ignorar questões que poderão fazer diferença em decisões futuras.
Caio Vioto é Doutor em História pela UNESP.




