A arte e seus monstros: “o dilema do fã” e o caso de Richard Wagner

Em livro que acaba de chegar ao Brasil, Claire Dederer explora a complexa convivência entre o gênio criador e o homem falho — uma experiência encarnada de modo emblemático pelo compositor alemão.

Artistas com posturas e atos terríveis influenciam a nossa percepção sobre suas criações? Somos coniventes com pessoas terríveis ao continuar gostando de suas obras, mesmo sabendo o que fizeram? Perguntas como essas são o ponto de partida de Monstros: o dilema do fã, que acaba de chegar ao Brasil em edição da Amarcord, com tradução de Joca Reiners Terron. No livro, a jornalista e escritora norte-americana Claire Dederer lança uma reflexão que é, ao mesmo tempo, uma provocação: o que fazer quando a grandeza de uma obra se entrelaça com a monstruosidade moral de seu criador? O dilema que ela aborda não é novo, mas se reveste de uma urgência peculiar à nossa época. Para os fãs de óperas, especificamente as de Richard Wagner, a pergunta que fica é: como lidar com a admiração pela arte deste compositor, cujos comportamento e ideologia são inegavelmente repugnantes? 

Wagner ressoa como uma tempestade no universo da música clássica, mas também como um trovão político que ecoou muito além das partituras. Não é exagero dizer que sua obra representa não apenas um marco artístico, mas um campo minado de controvérsias: por um lado, foi um gênio que seduziu pela beleza contida em suas partituras; por outro, tentou envenenar seus leitores com ideias publicadas em artigos infames como O Judaísmo na Música, no qual postulava a inferioridade da música judaica.

Richard Wagner, retrato por Caesar Willich, c. 1862.

Sua própria obra operística é repleta de insinuações antissemitas. Na tetralogia O anel do nibelungo (Der Ring des Nibelungen), Alberich e seu irmão Mime são as figuras mais associadas aos estereótipos antissemitas. Em Os mestres cantores de Nuremberg (Die Meistersinger von Nürnberg), Wagner desenha o personagem Beckmesser como uma caricatura grotesca do crítico judeu, aquele que não “entende” a verdadeira arte, que sabota e inveja. Trata-se de uma síntese do que ele via nos judeus da cena cultural alemã: usurpadores do sublime germânico. Em Parsifal também há evidências que a sedutora e demoníaca Kundry seja concebida como a “judia pecadora”, com todos os preconceitos wagnerianos. 

Cancelemos Richard Wagner? Não é fácil responder. Refletir sobre o compositor é algo que vai além da exaltação de sua música grandiosa. Na Tetralogia do Anel, mais que uma epopeia de mitos germânicos, temos um drama que transcende as notas e se embrenha nos pântanos da política e do nacionalismo. Sua obra não se limita ao plano do melodrama musical: ela também serve como espelho para a ascensão do nacionalismo germânico e o uso da arte como uma ferramenta ideológica. Hitler via Wagner como oráculo. Rienzi, ópera sobre o tirano romano, era a sua preferida por retratar o herói bélico e conquistador. Durante a gestão da Alemanha nazista, Bayreuth, o grande teatro-templo da Bavária para a exibição das obras de Wagner, virou uma espécie de santuário ariano, onde os deuses do Walhalla e os deuses do Reich se encontravam para dançar sobre o túmulo da humanidade.

Konigl. Hoftheater, Dresden: última cena do Ato IV de Rienzi, ópera de Richard Wagner. Gravura de Johann Jacob Weber, 1843. MDZ Munique.

Tribunal virtual

O cancelamento, especialmente como fenômeno da era digital, parece que veio para ficar. Trata-se de um rito moderno de linchamento virtual, no qual figuras públicas — ou até mesmo qualquer indivíduo com uma presença significativa nas redes sociais — são rejeitadas e excluídas de forma implacável por um tribunal sem rosto, mas com milhões de juízes. Um comentário infeliz, uma ação questionável ou uma declaração considerada ofensiva e pronto: o julgamento sumário está feito. Sem possibilidade de apelação. A questão que fica no ar, sem resposta clara, é se o cancelamento consiste em uma forma de justiça ou em um novo instrumento de opressão digital. E mais: será que existe espaço para a redenção? Após ser derrubado do altar virtual da moralidade, quem consegue subir de novo?

Dederer, em Monstros, aborda esse impasse com uma clareza brutal: como separar a arte da personalidade de seu criador? Como a música de Wagner, com sua intensidade emocional, intelectual e extraordinária, pode ser apreciada sem que o ouvinte se sinta cúmplice das ideias mais obscuras que ele defendia? A autora nos convida a ponderar a complexa coexistência entre a obra imortal e o homem falho, profundamente perturbadora em seu efeito sobre nós.

É aqui que reside a contradição que inquieta os admiradores da obra de Wagner. A música transcende a moralidade de seu criador e muitos encontram nela uma beleza que parece escapar às sombras de sua ideologia. A separação entre o artista e a arte se torna quase uma necessidade emocional: a grandiosidade da obra de Wagner para a história da música parece exigir uma suspensão de juízo sobre o homem. Mas, como Dederer aponta, essa separação não é simples, nem isenta de conflito. Para quem continua a se render à obra wagneriana, há uma constante tensão entre a nobreza estética e a repulsa moral que o compositor representa. Wagner foi revolucionário, rompendo com a tradição sinfônica germânica. Como propõe em sua filosofia, a soma da música com o texto e o drama fariam a obra de arte total, capaz de fazer transcender via ópera. E este seria o veículo legitimamente moralizador.

Entre a ética e a estética

Mas a beleza da obra pode, de fato, existir separada do caráter do artista, ou a arte, por mais sublime que seja, carrega consigo as sombras do ser que a criou? A questão é, portanto, profundamente inquietante: é possível amar a música de Wagner sem se tornar cúmplice de seu antissemitismo? Ou estamos, de algum modo, perpetuando uma ideologia perversa ao nos deleitarmos com sua arte? 

Em Wagnerism: Art and Politics in the Shadow of Music (“Wagnerismo: Arte e Política à Sombra da Música”, ainda não lançado no Brasil), de 2020, o crítico musical Alex Ross também examina este terreno minado, onde a arte de Wagner se cruza com as sombrias e inaceitáveis ideologias que marcaram sua vida. Longe de adotar um tom moralista, Ross equilibra uma admiração genuína pela profundidade da música de Wagner com uma condenação explícita das ideias preconceituosas do compositor. Seu livro não pretende apagar o antissemitismo de Wagner, mas entendê-lo como parte do processo criativo do artista e, mais amplamente, como parte de um movimento que reverberaria ao longo do século 20.

Uma das questões mais pungentes que Ross levanta é o dilema moral que a figura do compositor impõe a quem aprecia sua música. A admiração por sua obra vem com um peso: para alguns, sua música é tão sublime que transcende as falhas morais de seu criador, enquanto, para outros, continuar a celebrá-la é uma forma de negação histórica, uma forma de compactuar com uma visão de mundo racista e excludente. Em síntese, Ross nos força a confrontar a pergunta incômoda: é a estética ou a ética que deve prevalecer? 

A moralidade tribalista

O psicólogo Jonathan Haidt é um dos maiores investigadores atuais das questões que envolvem a moralidade. Bem antes de seu aclamado A geração ansiosa, ele publicou A mente moralista: Por que pessoas boas são segregadas por política e religião (publicado no Brasil em 2020 pela Editora Alta/Cult). Neste livro Haidt oferece uma perspectiva inovadora sobre esta questão distante das antigas noções de um código ético universal e imutável. Para o autor, a moralidade não é uma entidade única, mas um campo plural, composto por “fundamentos morais” que se desenvolveram ao longo da evolução humana e que são profundamente moldados pelos contextos culturais, sociais e emocionais. A moralidade, assim, é interpretada de maneira diversa, dependendo de quem a pratica, do ambiente e das normas que regem determinado grupo.

Haidt sugere que a moralidade, frequentemente, é algo construído em torno de uma percepção de pertencimento a um grupo. E é exatamente aí que a cultura do cancelamento se conecta com essa dinâmica. A polarização que caracteriza esse fenômeno coloca “os certos” (aqueles que defendem valores específicos) contra “os errados” (aqueles que violam as normas do grupo). A moralidade, então, se torna mais uma ferramenta de distinção social do que uma busca genuína pelo bem. Em vez de ser um princípio universal, torna-se uma bandeira de identidade, por meio da qual as pessoas se definem por suas crenças e condenam aqueles que se desviam delas.

Haidt alerta, com razão, para o perigo de uma moralidade tribalista. Quando os grupos se concentram excessivamente em punir os transgressores e abandonam o espaço para o diálogo, para a reflexão e, eventualmente, para a reconciliação, criam-se as condições para a polarização. As linhas entre “os bons” e “os maus” se tornam cada vez mais rígidas, dificultando a convivência, o entendimento mútuo e o contraditório profícuo. Nesse cenário, o que se perde não é só a chance de discutir e aprender com o outro, mas a capacidade de se construir uma sociedade mais inclusiva e menos fragmentada.

É o que acontece com muitos de nós quando consideramos o trabalho dos gênios/monstros. Dizemos a nós mesmos que estamos tendo pensamentos éticos quando o que temos são “afetos morais” e não do pensamento. Colocamos palavras em torno dessas emoções e sentimentos e os chamamos de julgamentos: o que Richard Wagner falou e deixou registrado em seus escritos foi repugnante. O resto? O resto é história… com uma música esplêndida!

Um exercício de reflexão

Em última análise, o dilema Richard Wagner é um reflexo de um impasse ético mais amplo que atravessa a arte e a política. Sua obra continua a ressoar, mas a sombra de suas ideias também segue pairando sobre sua música. O debate sobre o cancelamento do artista não é apenas sobre o que fazer com um legado tóxico, mas sobre como lidar com a complexa relação entre o valor da arte e as falhas morais de seu criador, que concebeu algo único e transcendente, com uma força e beleza nunca repetida ou superada.  

Para alguns, a solução é simples: ignorar o homem, apreciar a obra. Para outros, o gesto parece um acinte. Mas será que o esquecimento é mesmo a resposta? Para uns, sim, pois esquecer é sempre mais fácil. Para outros, o ato de reconhecer a obra sem passar pelo crivo moral do autor equivale a uma traição. O artista e a arte estão sempre conectadas. É correto separá-las? O gênio criador tem, afinal, um passe livre para suas atitudes? A linha entre o que se aprecia e o que se repudia torna-se tênue, e a reflexão ética é, então, inevitável.

Busto de Wagner em Veneza. Crédito: Daderot/Wikimedia Commons.

A arte, em sua essência, é poderosa o suficiente para ser tanto um instrumento de libertação quanto de opressão. Ela nos diz que o criador de mitos pode ser, ao mesmo tempo, o monstro repulsivo. E ela nos lembra que a música, tal como as ideias, não pode ser simplesmente dissociada do seu contexto. A obra de Wagner, hoje, está inevitavelmente ligada à política, à história e, por que não, à tragédia humana.

A tentação de cancelar o autor, por mais legítima que seja, pode também se transformar num exercício de reflexão. E se aprendermos a separar apreciação da intenção do autor e o examinarmos pelo seu aspecto estético poderemos, enfim, seguir mais confortáveis e nos entregarmos a uma boa montagem das óperas de Wagner sem nos considerarmos monstros por isso.


José Paulo Fiks e Andres Santos Jr são psiquiatras, psicanalistas, pesquisadores em Neuroestética e colaboradores do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP/EPM. São autores de livros que articulam saúde mental e cultura.

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