Os Elementos da Teologia de Proclo

Leia um excerto da primeira tradução brasileira da influente obra do filósofo neoplatônico.

Por Antonio Vargas

Apresento aqui aos leitores do Estado da Arte, como convite para acompanharem minha tradução recente de ‘Os Elementos da Teologia’, de Proclo (412 e.c.  Constantinopla – 485 e.c. Atenas), uma pequena sequência de argumentos do filósofo platônico, que culminam na demonstração de que a origem última da realidade é idêntica ao Valor em si e à Unidade em si. ‘Os Elementos’ se organizam em uma sequência de 209 proposições, cada uma das quais é acompanhada de uma prova, com as proposições posteriores se valendo de anteriores para sua fundamentação. Essa obra de Proclo é a apresentação mais sistemática de metafísica que a antiguidade nos legou, e aqui o leitor tem as proposições 7 a 12, sobre a natureza do Valor (tò agathón) e da Causa primária, que sucedem a discussão inicial da Unidade primária (proposições 1-6). A tradução é publicada pela Odysseus Editora e vem acompanhada do texto grego em face e amplos comentários.

Proposição 7.  Toda causa produtiva de um efeito distinto de si mesma é mais potente do que a natureza de seu produto.

Pois, de três, uma:

  • ou [1] a causa e o efeito são igualmente potentes; 
  • ou [2] a causa é menos potente que o seu produto;
  • ou [3] a causa é mais potente que o seu produto.

[1] Primeiro, considere-se que a causa e o produto que dela vem sejam igualmente potentes. Nesse caso, há duas possibilidades:

  • ou [1.1] o produto é totalmente estéril;
  • ou [1.2] o próprio produto também possui uma potência produtiva de outra coisa.

[1.1] Mas, se for estéril, nisso ele será dotado de potência menor que a de seu produtor, e, sendo inativo, ele não será dotado de potência igual à daquele que é fértil e dotado de potência feitora.

[1.2] Mas, por outro lado, se o produto também produzir efeitos que dele são distintos, novamente, de duas, uma:

  • ou [1.2.1] ele produz efeitos de potência igual à sua;
  • ou [1.2.2] ele produz algo de potência desigual à sua. 

[1.2.1] Se ele produz um efeito de potência igual à sua, e se todo efeito produz da mesma maneira, todos os seres serão iguais uns aos outros (e nenhum será mais potente que os outros) já que, em todo caso, o produtor dará existência a um subsequente de potência igual à sua.

[1.2.2] Mas, se o [segundo] produtor produzir algo de potência desigual à sua, a sua própria potência não será mais igual àquela de seu próprio produtor [o primeiro da série]. Pois pertence a potências iguais produzirem produtos iguais. Mas os produtos desses dois são desiguais entre si, já que [o primeiro] produto é de potência igual à potência do produtor que  o antecede, enquanto o produto que lhe sucede é de potência desigual à sua.  

Logo, o produto necessariamente não tem uma potência igual à do seu produtor. 

[2] No entanto, o produtor tampouco será menos potente que o seu produto. Pois, se o produtor desse ao produto a sua duração, ele também lhe forneceria a potência própria a essa duração. Mas, se ele fosse produtivo de toda a potência de seu sucessor, então poderia fazer a si mesmo tal como aquele.7 Mas, se fosse assim, ele também poderia fazer a si mesmo mais potente. Porque disso não o impediriam nem a impotência — já que a potência para fazer lhe está presente — nem a falta de vontade — pois todas as coisas, segundo a sua natureza, almejam o seu valor.8 De forma que, se pudesse produzir algo mais perfeito que si mesmo, ele também se aperfeiçoaria antes de aperfeiçoar seu sucessor. 

Desse modo, o produto não é dono de potência nem igual nem maior que o seu produtor. Logo, o produtor é totalmente mais potente que a natureza do seu produto.

Proposição 8. O Valor primário conduz tudo que incorpora o valor segundo qualquer maneira de o incorporar, e ele não é nada mais do que valor.

Pois, se todos os seres desejam o valor, é óbvio que o Valor primário está além dos seres. Pois, se o Valor primário fosse idêntico a um ser, de duas, uma: 

  • ou [1] ser e valor seriam idênticos nesse ser;
  • ou [2] o ser seria uma coisa, e o seu valor, outra. 

Mas, se [1] houvesse uma identidade entre um ser e o seu valor, esse ser não mais desejaria o valor, pois seria, ele mesmo, o valor. Porque ao que deseja falta o que é desejado; e o desejante é uma coisa, e o desejado é outra, afastada daquele. 

E, se [2] o Valor primário fosse um ser e nele ser e valor fossem distintos, então o ser incorporaria o valor, que seria incorporado no ser. Assim ele seria um certo valor, incorporado em alguma coisa, e seria desejado tão somente por aquilo que o incorporaria, mas não seria o Valor sem mais, i.e., o que todos os seres desejam. Pois esse é o desejado comum a todos os seres. Mas o que veio a ser em um ser específico pertence apenas àquele que o incorpora. 

Logo, o Valor primário não é nada fora valor. Pois, se algo fosse adicionado ao valor, esse seria diminuído pela adição, fazendo-o um certo valor, em lugar do valor sem mais. Pois o adicionado, por não ser o valor, mas algo menor que ele, o diminuiria pela sua presença.

Proposição 9. Todo ser autossuficiente (seja na sua duração, seja na sua realização) é superior aos seres não-autossuficientes, que são dependentes de outra causa, a causa de sua perfeição.

Pois, se [i] todos os seres, segundo sua natureza, desejam seu valor; e, se [ii] alguns seres providenciam seu próprio bem (enquanto há aqueles que precisam de outro ser que lhes providencie seu bem); e, se [iii] a causa do valor está presente àqueles, ao passo que está separada destes, então, uma vez que os aqueles estão mais próximos do provedor de seu desejo, eles são superiores ao ser que requer uma causa separada, e que recebe de outro lugar a perfeição de sua existência própria ou de sua realização. Como o autossuficiente é mais semelhante ao Valor primário [prop. 8] (e menor que ele, por incorporá-lo, e não lhe ser idêntico), ele lhe é de alguma maneira mais aparentado, já que é capaz, por si mesmo, de vigorar no valor. Mas o que incorpora o Valor e, ademais, o incorpora apenas por intermédio de outro ser, está longe do Valor primário, que não é nada senão valor. [Logo, todo ser autossuficiente (seja na sua duração, seja na sua realização) é superior aos seres não-autossuficientes, que são dependentes de outra causa, a causa de sua perfeição.]

Proposição 10. Todo ser autossuficiente carece do Valor sem mais para vigorar no valor.

Pois o que é o autossuficiente senão o que por si mesmo e em si mesmo alcança o valor? Assim sendo, ele já está pleno do valor e o incorpora, mas não é ele mesmo o Valor sem mais. Porque aquele é superior ao incorporar e à plenitude, (prop. 8). Então, se o autossuficiente se plenifica de valor, a fonte de sua plenitude lhe é superior e está além da autossuficiência. E o Valor sem mais não requer coisa alguma. Porquanto ele não deseja outra coisa (pois, consoante o desejo, lhe faltaria algum valor) nem é autossuficiente (já que, se o fosse, seria pleno de valor, e não o Valor primário). [Logo, todo ser autossuficiente carece do Valor sem mais para vigorar no valor.]

Proposição 11. Todos os seres avançam a partir de uma única causa, a causa primária.

Pois, do contrário, de três, uma:

  • ou [1] não há causa para nenhum ser;
  • ou [2] as causas dos seres formam um círculo, pois todas as coisas são limitadas;
  • ou [3] a ascensão das causas vai ao infinito, e uma coisa é causa da outra, e em nenhum lugar a anterioridade existencial das causas para. 

[Lema 11.1 Há causas entre os seres.]

[1] Mas, se não há causa para nenhum dos seres, tampouco haverá uma ordem entre existências primárias e secundárias, ou entre fontes de perfeição e seres aperfeiçoados, ou entre fontes de ordem e conjuntos ordenados, ou entre genitores e gerados, ou entre agentes e objetos de ação. Nem haverá conhecimento demonstrativo de ser nenhum. Pois o conhecimento das causas é o ofício da conhecimento demonstrativo, e dizemos que temos conhecimento demonstrativo quando discernimos as causas dos seres. 

[Lema 11.2 As causas dos seres não formam um círculo.]

[2] Mas, se as causas formam um círculo, as mesmas coisas serão anteriores e posteriores, mais potentes e mais fracas; pois todo produtor é mais potente que a natureza de seu produto [prop. 7]. E não adianta conectar a causa a seu efeito e fazer um vir do outro por meio de mais ou menos causas intermediárias. Pois a causa será mais potente que todas as [causas intermediárias] — das quais ela também é causa — que estiverem entre ela e seu efeito, e, quanto mais intermediários houver, tanto mais potente será a causa.

[Lema 11.3 A ascensão das causas é finita.]

[3] Mas, se a ascensão das causas vai até o infinito e sempre há uma acima da outra, de novo não haverá conhecimento demonstrativo de nada. Pois não há conhecimento das coisas infinitas. Mas, se as causas forem desconhecidas, tampouco haverá conhecimento demonstrativo daquilo que as segue.

Logo, se [11.1] é necessário que haja uma causa para os seres; e, se [11.2] as causas são apartadas dos causados; e, se [11.3] a ascensão não pode ir até o infinito, então há uma Causa primária dos seres, a partir da qual cada ser avança como que a partir de uma raiz, alguns estando próximos a ela, [e] outros, mais distantes. Pois que a Origem é necessariamente única foi provado, porque toda multiplicidade tem uma existência secundária em relação à Unidade (prop. 5).

Proposição 12. O Valor é a origem e a causa primaríssima de todos os seres.

E dois argumentos o demonstram:

Primeiro, se todos os seres avançam a partir de uma única causa, é preciso dizer

  • ou [1] que aquela causa é o Valor; 
  • ou [2] que ela é superior ao Valor. 

E, se [2] a causa primária for superior ao valor, de duas, uma:

  • ou [2.1] não chega nada dela aos seres e à sua natureza; 
  • ou [2.2] lhes chega, sim, algo a partir dela.

Mas [2.1] é absurdo que da causa primária nada chegue, porque assim não a manteremos mais na posição de causa; pois é necessário, em todo caso, que esteja presente aos causados algo proveniente da causa — e, em particular, da causa primaríssima, da qual todas as coisas dependem, e pela qual cada ser dura. 

Mas, [2.2] se houver uma incorporação daquela causa nos seres, assim como outra incorporação do Valor, então a incorporação da causa primeira deverá ser algo superior ao valor nos seres, por chegar a eles a partir da causa mais primária. Pois não ocorre que a causa primária, embora seja superior ao Valor, dê aos secundários algo inferior àquilo que o Valor (que é subsequente àquela causa) lhes dá [prop. 7]. E o que seria então superior à valia, o dote do Valor? O que, de fato, se chamamos de superior aquilo que mais incorpora o Valor? E, portanto, o que não fosse valor não seria chamado de superior, sendo totalmente secundário ao valor. 

Segundo, se todos os seres desejam o seu valor, como pode, mesmo assim, haver algo anterior à causa do valor? Pois ou todos os seres o desejam mais que o Valor ou não; E, se o desejam mais que o Valor, como, então, desejam o Valor de maneira paradigmática [prop. 8]? E, se não o desejam mais que ele, como deixam de desejar a causa de todas as coisas, já que avançam a partir dela? E, se o Valor é aquilo de que todos os seres dependem, logo a origem e a causa primaríssima de todos é o Valor.


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