Volta ao campo: por que olhar para o espaço rural contemporâneo?

Pensar o campo hoje implica ir além de imagens estereotipadas e reconhecer as dinâmicas humanas, econômicas e territoriais que o estruturam.

O campo não é — como a cidade não é — uma coisa só. Ele não é apenas a paisagem infinita de uma plantação monótona ou um espaço bucólico parado no tempo. Ele pode ser isso — e, em vários casos, é. Mas a imagem estereotipada do espaço rural — um lugar ocupado, de um lado, por soja e máquinas, e, de outro, por pasto ou cupins — pode ignorar que o campo inclui o que a cidade tem de mais importante: pessoas.

E muitas. O economista José Eli da Veiga escreveu diversas vezes que subestimamos, no Brasil, o número de pessoas que vivem na área rural, porque fazemos essa conta de forma diferente da maioria dos países da OCDE. Subestimamos também a relação entre o espaço rural e as cidades em seu entorno — ou mesmo pequenas comunidades que pertencem a ele.

Em Dinâmica econômica e o mundo do trabalho no Brasil rural, recém-publicado, 61 pesquisadores escreveram 770 páginas sobre o espaço rural brasileiro contemporâneo. O título da resenha sobre o livro assinada por Zander Navarro no Estadão resume bem a limitada compreensão que, em geral, temos do campo: “O desconhecido Brasil rural”.

Crédito da foto: Pedro Kok.

E não é apenas o campo brasileiro que é esquecido ou subestimado. Rem Koolhaas, do escritório de arquitetura holandês OMA, coordenou uma investigação com mais de dez arquitetos e universidades para entender como o território rural é ocupado hoje — e como pode ser ocupado no futuro. O caminho em direção à urbanização total — em que mais da metade da população vive em apenas 2% do território —, escreve ele, precisa ser repensado.

Esse trabalho se desdobrou em um livro e em uma exposição no Guggenheim Museum, em Nova York. O título — especialmente se considerarmos que Koolhaas é autor de Delirious New York, de 1978, e dedicou uma vida a estudar cidades — indica onde ele acredita que o futuro está: “Countryside: The Future”.

O último capítulo do livro inspirado por esse trabalho, “Countryside: A Report”, talvez seja o mais lembrado. Ele é composto por uma lista de centenas de perguntas, como: “Como pensar sobre a África?”, “Por que gerações anteriores assumiam riscos?”, “Qual é a relação mais plausível entre intelectuais e o campo?”. Entre elas, ele se pergunta por que as brincadeiras acabaram, se é possível sermos rurais e urbanos ao mesmo tempo, onde estão os departamentos do MIT e de Yale dedicados a pensar o espaço rural — e o que Goethe pensaria de um trator. O nome desse capítulo é “Where Did the Cows Go?”.

“The Cow Went to the Swamp” é o título de um livro em que Millôr Fernandes traduziu literalmente mais de seiscentas expressões brasileiras para o inglês. Não podemos deixar que o livro de Millôr seja uma resposta à pergunta de Koolhaas — cujo livro, aliás, ainda não foi publicado no Brasil. Stefan Zweig acreditou que o Brasil fosse o país do futuro, em 1941. Oitenta anos depois, Koolhaas sugere que o futuro pode estar no campo — e nos provoca a pensar sobre ele. A vaca não pode ir para o brejo. O ambiente rural precisa ser estudado com profundidade e sensibilidade — como fez Antonio Candido em Os Parceiros do Rio Bonito, sua tese de doutorado.

O subtítulo da tese é “Estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida”, e o livro — hoje publicado pela Todavia — é de 1964. Entre 1948 e 1954, Candido realizou duas etapas de pesquisa de campo em Bofete, perto de Botucatu, e conversou com moradores da região. Seu trabalho serve de alerta para o cuidado — que temos de ter, ou que talvez devêssemos ter tido — com a chegada da economia moderna ao espaço rural, para “não favorecer a destruição irremediável das suas instituições básicas, sem lhe dar a possibilidade de ajustar-se a outras”. Não foi o que aconteceu.

Crédito da foto: Pedro Kok.

Nos anos 1960, o arquiteto e desenvolvedor Al Boeke teve a ideia de comprar uma grande área na costa da Califórnia. Reuniu um grupo de jovens arquitetos de Berkeley — entre eles Charles Moore — e desenvolveu um projeto que, entre seus princípios, trazia uma frase direta: “YES: rural. NO: suburbia.”

Em outubro deste ano, o Sea Ranch foi tema da seção de Arquitetura do El País, na Espanha: “Sem ruas, cercas nem jardins particulares: a utopia arquitetônica californiana que quis mudar o mundo”. No livro The Sea Ranch: Architecture, Environment, and Idealism, a curadora Jennifer Dunlop Fletcher (que o editou com Joseph Becker) escreve:

Cinquenta anos depois, a arquitetura residencial contemporânea já não está impregnada das mesmas aspirações comunitárias — e a nostalgia por uma arquitetura de meados do século XX, como símbolo de ideais sociais e criativos — de equidade racial e econômica, consciência ambiental e de uma qualidade de vida em que o trabalho era prazeroso e o lazer não era passivo — permanece.

O Sea Ranch foi também tema, no ano passado, de uma reportagem do Wall Street Journal: “Hippies Settled This Unusual California Community. Now Its Homes Sell for Millions” (Em tradução livre, “Hippies se estabeleceram nesta comunidade incomum da Califórnia. Hoje, suas casas são vendidas por milhões”). Koolhas, entre as centenas de perguntas que fez no seu livro sobre o campo, perguntou também se os hippies estavam certos. Em vários sentidos, talvez estivessem — inclusive em sentidos que eles próprios não gostariam de estar.


Eduardo Andrade de Carvalho é autor do livro Pequenas Tentações — Cidades, arquitetura e outros passeios (BEĨ Editora), que será lançado nesta terça-feira, 16/12, das 17h30 às 21h30, na Amarello, Loja & Café. Formado em Administração de Empresas pela EAESP-FGV, é sócio-fundador da Campo, uma empresa que integra em seus projetos agricultura, arquitetura e pesquisa histórica. Fundou e foi curador do Esquina, série de debates sobre cidades.

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