Tarsila do Amaral: o encontro com uma coleção

Pela primeira vez, as dezesseis obras da artista pertencentes ao Acervo dos Palácios foram apresentadas de forma reunida ao público.

No dia 25 de janeiro de 2026, data que marcava o aniversário da capital paulistana, formou-se uma fila de visitantes para o encerramento da exposição São Paulo-Paris: a descoberta de Tarsila do Amaral, inaugurada em 05 de novembro de 2025 no Palácio dos Bandeirantes. A visita, conduzida pela curadora da mostra e do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo naquele momento, Rachel Vallego, ocorreu em torno das obras Operários (1933), A Samaritana (1911), Estudo (Nu de perfil), Estudo de nu (Modelo em pé, com mão aberta), Estudo (Nu sentado) (1921), Retrato de Fernanda de Castro (1922), Retrato de Mário de Andrade (1922), Religião Brasileira I (1927), Auto-retrato I (1924) e Segunda classe (1933), sendo a última pertencente a uma coleção particular. Pela primeira vez, as dezesseis obras de Tarsila do Amaral que integram a coleção do Acervo dos Palácios — Bandeirantes e Boa Vista, este localizado em Campos do Jordão — foram colocadas diante do público de forma reunida. Para Tarsila do Amaral, em afirmação no ano de 1971, essas seriam suas melhores obras: “Sou uma otimista e tenho muita fé: ainda quero ver a sala Tarsila do Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão, que reúne minhas melhores obras […]”.

Vista da exposição São Paulo-Paris: a descoberta de Tarsila do Amaral. © Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo.

Se o título da exposição provoca para a ideia de descobertas artísticas de Tarsila do Amaral entre as décadas de 1910 e 1960, no seu trânsito entre São Paulo e Paris, refletimos sobre ela ser, antes, a descoberta de uma rica coleção. Valter Augusto Fernandes, em 2023, realizou estudo sobre as obras de Tarsila do Amaral no Acervo dos Palácios, apontando que foram treze obras adquiridas diretamente da artista na década de 1970. As obras circularam por outras instituições, a exemplo do Museu de Luxemburgo, na exposição Tarsila do Amaral. Pintando o Brasil Moderno, em Paris, no ano de 2024 e, entre 2009 e 2010, estiveram na sala especial “Tarsila em família”, no Palácio Boa Vista, onde também ocorreu, em 2024, a exposição Centenário Autorretrato I, com a curadoria de Rachel Vallego. Do gabinete e dos aposentos do governador para a sala de reuniões do Palácio dos Bandeirantes, em conexão com a arquitetura e o mobiliário do espaço recém-reformado, as obras suscitaram diferentes olhares e conexões.  

Operários, destaque central, foi instalada frente à entrada principal do espaço, iluminada pelo lustre imponente. Elaborada no ano de 1933 e considerada na historiografia da arte sobre Tarsila do Amaral, notadamente por Aracy A. Amaral (1975), como “a obra mais reconhecida da sua fase social”, remete ao período histórico do entreguerras, à trajetória pessoal da artista, que viajou pela União Soviética em 1931, e à crítica da arte, que levanta a possibilidade de Tarsila do Amaral ter tomado como referência para sua construção obras de autores russos. Na exposição, Operários dialoga mais diretamente com Segunda classe e Estratosfera (1947), traz alguns rostos conhecidos pela artista que se misturam a outros, desconhecidos, e aos de quem observa a pintura. Primeira obra a ser vista na exposição, abre um percurso ao encontro de outras, evocando aproximações, distanciamentos e inevitáveis tensões.

Vista das obras Operários e Calmaria II na exposição São Paulo-Paris: a descoberta de Tarsila do Amaral. © Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo.

Destaca-se Auto-retrato I, de 1924, com o rosto de Tarsila do Amaral mais afamado, uma das imagens que ela pretendia fazer de si. Pintura minimalista, convoca o observador a encará-la, sem fuga, deslizando o olhar para o ponto de cor vibrante e, em seguida, para o famoso par de brincos adquirido por Pietro M. Bardi. Filha do “barão de Piracicaba”, teve uma vida privilegiada no sentido das posses que sua família detinha. Porém, não escapou aos julgamentos da sociedade da época por ser uma mulher “separada” no início do século XX, antes de ser a “dama do Modernismo brasileiro”, ligada aos integrantes da Semana de Arte Moderna de 1922 e inspiradora do Movimento Antropofágico na literatura, em 1928. Outros retratos se relacionam a esse conjunto: pinturas realizadas a partir de cópias, como A Samaritana, estudos de nu em ateliê e trabalhos de maior experimentação e liberdade artística — como os retratos de Fernanda de Castro e Mário de Andrade. A partir de Auto-retrato I, explica a curadora, são extraídos os tons rosáceos para o mobiliário expositivo, contribuindo para a fluidez entre as obras. 

Essas cores apreciadas pela artista estão presentes em outras obras expostas, como Calmaria II (1929), Estudo de Procissão (painel) I (1954), Santa Irapitinga do Segredo (1941) e Religião Brasileira I. A delicadeza das cores da infância, os objetos afetivos e as paisagens capturados por seu olhar, assim como as figuras humanas, a vegetação, os bichos e os artefatos da cultura popular — elementos recorrentes de seu mundo interior —, aparecem, muitas vezes de forma dispersa nas suas mais de duas mil obras. Em Religião Brasileira I, porém, esses motivos se condensam, configurando uma espécie de síntese da artista, ao reunir elementos que perpassam toda a sua produção. As figuras que causariam estranhamento em Abaporu ou Antropofagia, presentes de forma anterior e consistente no trabalho da artista, também estão nos desenhos que integram a exposição, Paisagem antropofágica (c. 1964) e Antropofagia (dec. 1960). Já Almoço na fazenda (déc. 1960), que apresenta uma cena do cotidiano oitocentista, pode ser admirada pelos traços ligeiros e delicados — mas não pode mais ser vista sem a percepção crítica do presente.

Vista das obras Auto-retrato I, Operários e Estratosfera na exposição São Paulo-Paris: a descoberta de Tarsila do Amaral. © Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo.

O conjunto de dezessete obras constitui um recorte significativo da produção da artista, ao atravessar seis décadas de trabalho e evidenciar duas das linguagens que a marcaram — as gravuras de seus desenhos e as pinturas (embora estas tenham sido menos frequentes no decorrer de sua carreira.

O conjunto de dezessete obras se configura muito interessante, atravessa seis das outras décadas de trabalho da artista e duas das distintas linguagens que marcaram a sua produção: tanto as pinturas — menos frequentes ao longo de sua carreira do que os desenhos — quanto as gravuras a partir de seus desenhos, realizadas com autorização da própria artista por Marcelo Grassmann. A exposição permite ver percursos de Tarsila do Amaral na perspectiva do modernismo brasileiro, incluindo os deslocamentos entre cidades na busca por formação, os estudos acadêmicos, as influências dos mestres, as fases Pau Brasil, Social e Antropofágica. Ao mesmo tempo, o encontro com a coleção de obras significativas para a própria artista permite reconhecer técnicas e aspectos de seu processo de composição — as pinceladas de tinta sobre tela, papel ou madeira, as camadas que por vezes se acumulam e sedimentam gestos da pintora, bem como a escolha de temas e cores que, a despeito das diferentes temporalidades, se repetem e dialogam.

Vista das obras Religião Brasileira I, Santa Irapitinga do Segredo e Estudo de Procissão (painel) I na exposição São Paulo-Paris: a descoberta de Tarsila do Amaral. © Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo.

Michele Petry é historiadora com pós-doutorado em História na UFSC e na Divisão de Pesquisa em Arte, Teoria e Crítica no Museu de Arte Contemporânea da USP. Doutora e mestre em Educação pela UFSC, mestre em História e graduada em Letras Francês pela mesma instituição e em História pela UDESC. Realizou período de Doutorado “Sanduíche” na École Normale Supérieure e Université Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines. Escreve e publica sobre história, arte, artistas e exposições, em especial, sobre Tarsila do Amaral.

[Atenção: Este conteúdo, incluindo textos, imagens e demais materiais, está protegido por direitos autorais e não pode ser copiado, reproduzido, distribuído ou utilizado, total ou parcialmente, sem autorização prévia e expressa da autora. Como citar: PETRY, Michele. Tarsila do Amaral no Palácio dos Bandeirantes, o encontro com uma coleção. Estado da Arte, mai. 2026. Disponível em: link. Acesso em: dia mês. ano.]

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