Há quatro décadas, a História e a Arte chegavam ao fim

Um balanço das "teorias do fim de tudo" que surgiram a partir dos anos 1980.

Se todo tempo tem o seu espírito, o espírito do final do século 20 foi o da saturação. Um século que viveu duas guerras mundiais, grandes comoções sociais e inúmeras revoluções artísticas só poderia chegar ao seu fim com um sentimento de esgotamento. O que mais havia a se fazer? A se inventar? Uma tese de Hegel foi o mote para que, a partir dos anos 1980, diversos sociólogos, economistas, historiadores e críticos de arte ao redor do mundo, cada um em sua área, decretassem quase em uníssono que a História e a Arte haviam chegado ao fim.

Em 1989, um artigo publicado na revista The National Interest pelo filósofo e economista político nipo-americano Francis Fukuyama lançou uma onda de choque que extrapolou o campo acadêmico e abalou o mundo. O título do artigo era “O fim da História?”, e nele Fukuyama defendia que as democracias liberais triunfariam sobre todos os outros sistemas, e que a História havia chegado ao fim (lembremos que 1989 foi o ano da queda do Muro de Berlim, que aceleraria a derrocada do comunismo na Europa Oriental e Central e o fim da Guerra Fria). Fukuyama parte de uma leitura de Hegel feita por Alexandre Kojéve, filósofo político de origem russa, que ministrou um curso sobre a Fenomenologia do Espírito na École de Hautes Études, em Paris, de 1933 a 1939, e reacendeu o interesse no filósofo alemão e sua tese teleológica — para Hegel, após a Batalha de Jena (1806), o fim da História significava o fim das guerras, das revoluções e da relação senhor-escravo, quando o espírito humano atingiria o seu ápice. Logo o artigo de Fukuyama foi refutado e criticado por diversos teóricos de todas as matizes (principalmente filósofos, que viram em sua tese uma banalização das ideias de Hegel), mas o impacto foi tão profundo que ele publicou, três anos depois, o livro O fim da História e o último homem, que virou um best-seller instantâneo em todo o mundo. Outra ideia defendida por Fukuyama era a de que a tecnologia possibilitaria um acúmulo ilimitado de riquezas, portanto a satisfação de todas as necessidades humanas — ainda que tal fato nos aproximasse do enfado confortável do último homem nietzschiano. Tal processo garantiria uma crescente homogeneização de todas as sociedades humanas, independentemente de suas origens históricas e heranças culturais: “Todos os países que passam pela modernização econômica se parecem cada vez mais uns com os outros”. 

Um termo que se popularizou para descrever a sensação de esgotamento — e desilusão — do século 20 foi posthistoire, ou Pós-História. Em 1989, o filósofo alemão Lutz Niethammer publicou o livro Posthistoire: ist die Geschichte zu Ende? (Posthistoire: a História chegou ao fim?), em que traça as bases desse conceito, de Hegel e Arnold Gehlen, Baudrillard e Derrida. A posthistoire, para Niethammer, é vista como uma “história intelectual de desilusão e resignação”, em que todos os movimentos do século 20, de direita e esquerda, foram fracassados em seu intento de estabelecer uma nova ordem mundial. O livro de Fukuyama, de certa forma, foi uma tentativa de apresentar uma síntese desse processo dialético, e, tomando o bastão de Tocqueville, localizá-la nos Estados Unidos da América — embora muitas de suas ideias, vistas hoje, naturalmente não se sustentem. No prefácio de A era dos extremos — o breve século XX: 1914 – 1991, publicado em 1994, Eric Hobsbawm adverte: “Não é possível escrever a história do século 20 como a de qualquer outra época, quando mais não fosse porque ninguém pode escrever sobre o seu próprio tempo de vida (…)”.

Em 1992, o historiador e filósofo marxista inglês Perry Anderson publicou o livro O fim da História: de Hegel a Fukuyama, em que defende a ideia de que o liberalismo econômico é excludente, e que somente o socialismo poderia produzir um mundo mais justo: “Se todas as pessoas da Terra possuíssem o mesmo número de geladeiras e automóveis que as da América do Norte e da Europa Ocidental, o planeta ficaria inabitável. Hoje, a ecologia global de capital, o privilégio de uns poucos, requer a miséria de muitos, para ser sustentável. Menos de um quarto da população do mundo detém atualmente 85% da renda mundial. (…) Nos anos 80, mais de 800 milhões de pessoas — mais do que as populações da Comunidade Europeia, Estados Unidos e Japão somadas — tornaram-se ainda mais excrucialmente pobres, e uma a cada três crianças passava fome”. 

Em seu livro, Fukuyama afirma que “não resta dúvida de que os países mais desenvolvidos são também as democracias mais bem-sucedidas” — porém, nas últimas décadas, a China destruiu essa tese. Ele também não poderia imaginar que, quatro décadas depois, os Estados Unidos enfrentariam uma de suas maiores crises institucionais. Em entrevistas recentes, Fukuyama afirmou que a atual administração de seu país oferece uma séria ameaça ao estado de direito. 

Arthur Schopenhauer, contemporâneo de Hegel e provavelmente o seu maior (se não o único) inimigo declarado, refutava a tese de que a história evolui dialeticamente rumo ao estado ideal da liberdade do espírito humano. Em 1960, na ocasião do centenário de sua morte, Max Horkheimer proferiu um famoso discurso intitulado A atualidade de Schopenhauer, em que faz uma crítica feroz à tese hegeliana: “O desenvolvimento do intelecto se funda sobre o da necessidade. Os maiores promotores das ciências foram fome, desejo de poder e guerra. A fábula idealista da astúcia da razão, por meio da qual os horrores do passado são atenuados através de um final feliz, revela a verdade de que sangue e miséria se vinculam aos triunfos da sociedade. O resto é ideologia”.

Marcel Duchamp por Mark Kauffman, 1965.

O fim da arte

Na arte, o século 20 foi a era dos movimentos e dos manifestos. Até o final do Século 19, havia uma forma certa e uma forma errada de pintar; Cézanne e Manet inauguraram uma forma nova de ver o mundo e retratá-lo através da pintura, e deram início a uma série de movimentos — impressionismo, cubismo, expressionismo, fauvismo etc — que, durante todo o século 20, evoluíram para uma miríade de novas formas de se fazer arte, como o abstracionismo geométrico, pop art, body art, land art, arte povera, as instalações, as performances, as apropriações. Se a invenção da fotografia, no Século 19, foi o prego no caixão da arte mimética — aquela que se limita a copiar a realidade — ao final da Primeira Guerra Marcel Duchamp passou a rejeitar o que chamava de arte “retiniana”, feita para agradar apenas aos olhos. Porém, foi em 1964, após ver as caixas de sabão Brillo, de Andy Warhol, na Stable Gallery, em Nova York, que o filósofo e crítico de arte norte-americano Arthur Danto começou a desenvolver a sua tese de que a arte, a partir daquele momento, deixava de ser arte e passava a ser filosofia da arte. Warhol, assim como Duchamp, antes de fazer arte estava pensando a arte e produzindo crítica da arte. Em 1984, Danto publicou um artigo sobre o tema, que mais tarde seria desenvolvido no livro After the end of art. Em 1983, o historiador da arte alemão Hans Belting publicou Das Ende der Kunstgeschichte? (O fim da história da arte?), em que defende a ideia de que a história da arte como uma progressão cronológica de movimentos e estilos não era mais possível, numa época em que tudo acontecia ao mesmo tempo. E se o início do Século 20 nas artes é muitas vezes chamado de a era dos manifestos (que, vistos em retrospecto, soam idealistas e até ingênuos) hoje o que impera na arte é o individualismo — como afirma Belting, “este é o tempo do monólogo, não do diálogo”. Danto expande a questão: “É em parte a sensação de não pertencermos a uma grande narrativa, registrada em nossa consciência como algo entre a inquietação e a euforia, que marca a sensibilidade histórica do tempo presente”.

Lembremos que o que chamamos de Arte é um fenômeno relativamente recente na História da Humanidade. Os primeiros exemplos de uma “expressão artística” são as pinturas rupestres, que datam de 45 a 50 mil atrás; porém, o conceito de artista, ou da arte como uma expressão individual e autoral, só foi surgir cerca de 600 anos atrás, no Renascimento. O artista é um produto da sociedade moderna; antes dela não havia a Arte, mas objetos “artísticos” religiosos, devocionais ou utilitários. E essa história possivelmente chegou ao fim. Não que a arte e os artistas tenham deixado de existir, mas os diagnósticos de Danto e Belting foram precisos.

A arte é um sistema, e todo sistema possui um número limitado de elementos constitutivos e de variáveis. Atingido esse limite, vem a exaustão. Tomemos a pintura, por exemplo. Depois de livrar-se das amarras e da rigidez da pintura do século 19, os artistas experimentaram de todas as formas, chegando à liberdade de criação absoluta. Porém, se a história da arte chegou à exaustão, a arte feita no século 20 hesitou em abandonar aquilo mesmo que a havia impulsionado nos últimos 500 anos: a busca pelo novo. Após todos os ismos e todas as experimentações das primeiras décadas, a pergunta que se impôs foi: o que mais há a se fazer na superfície de uma tela? Rasgá-la? (Lucio Fontana o fez) Pintá-la totalmente de branco? (Robert Rauschenberg o fez) Dar um tiro nela? (Warhol o fez; ele não foi o autor do disparo, mas as telas foram expostas assim) Urinar nela? (Warhol, de novo) Defecar? (o pintor britânico Chris Ofili, em 1996, apresentou a tela A Virgem Maria Sagrada, obra de técnica mista em que ele utilizou excremento de elefante). A arte contemporânea abarca todos os estilos e movimentos, mas não aponta para nada novo. A pintura continua a existir, porém sem a ilusão do nirvana da originalidade. Tudo é referência, pastiche, comentário — essa é a verdadeira posthistoire

A arte contemporânea também encerra um paradoxo: se por um lado ela abarca tudo e todos, tal abertura poderia sugerir um estado de coisas democrático e acessível. Nada mais distante da realidade, pois ela se tornou também mais hermética e distante do senso comum — afinal, como filosofia contemporânea, ela exige um conhecimento cumulativo específico. Para se entender a arte contemporânea é preciso conhecer a História da Arte e as teorias sobre a linguagem artística a partir do século 20, caso contrário o espectador se vê diante de enigmas indecifráveis. Um camponês italiano do século 17 poderia olhar para um quadro de Caravaggio e apreciá-lo da mesma forma que um nobre. Um homem simples do nosso tempo provavelmente não entenderia O Grande Vidro, de Duchamp, e muito menos a Virgem Maria pintada com esterco de Ofili. Uma obra de arte contemporânea descontextualizada é uma obra mal compreendida. 

O fim da literatura

A literatura tampouco passou incólume pelo ímpeto da experimentação do século 20; porém, diferentemente das artes plásticas, ela não necessariamente se pauta pelo que é novo e original: certamente há uma progressão cronológica na literatura, mas de um grande escritor não se espera necessariamente que ele aponte caminhos novos para a ficção. Porém, esse escritor existiu no início do século 20, e ele sintetizou perfeitamente o Zeitgeist. Ulysses, de James Joyce, publicado em 1922, distendeu as possibilidades da narrativa romanesca quase ao ponto de ruptura, deixando os escritores que vieram depois num impasse: o que fazer a partir dele? Incorporar e levar adiante as experimentações formais do escritor irlandês, ou voltar a um realismo mais sereno, mais “normal” — ou, de forma inversa, reduzir a literatura a um minimalismo quase estéril, como fez Beckett, conscientemente? (Nós poderíamos fazer um paralelo com a música atonal de Schoenberg e todas as vanguardas musicais do início do Século 20). Os grandes escritores do final do século 20 e começo do século 21 abandonaram quase que por completo o experimentalismo formal. A literatura contemporânea, assim como as artes plásticas, destruiu o conceito de progressão cronológica: hoje tudo existe ao mesmo tempo, é possível escrever de qualquer forma, porém a queda de todas as barreiras, assim como na pintura, parece ter produzido uma espécie de enfado. Hoje é impossível imaginar o surgimento de autores como Flaubert, Joyce ou Guimarães Rosa, pois o sistema da literatura chegou à exaustão, no sentido que citei acima: as variáveis foram esgotadas; resta apenas a repetição — ou meras invencionices, como o romance “O sumiço” (1969), que Georges Perec escreveu sem usar a letra “e”, ou “The Unfortunates” (1969), do autor inglês B. S. Johnson, cujas páginas vinham soltas dentro de uma caixa e podiam ser rearranjadas pelo leitor a seu prazer. 

Mas outro elemento surgiu na literatura, no final do século 20, e desde então ele tem suscitado debates cada vez mais acalorados: a constatação de que o “cânone” aceito até então era exclusivamente masculino, branco e europeu. Departamentos de estudos literários das principais universidades do mundo passaram, então, a incluir em seus programas obras escritas por mulheres, negros, asiáticos e latino-americanos (e mais tarde pela comunidade LGBTQIA+). O mercado literário e o público geral abraçaram a causa. Tal fato fez com que, em 1991, o crítico norte-americano Harold Bloom batizasse esse movimento de “escola do ressentimento”, em oposição ao que ele considerava a verdadeira literatura. Bloom era, de fato, um crítico elitista, mas colocar questões ideológicas acima da qualidade estética e formal de uma obra literária é temerário — como afirmou recentemente em uma polêmica entrevista a escritora e tradutora Aurora Bernardini. O que a História nos ensina, contudo, é que o pêndulo do tempo causa grandes estragos antes de encontrar o seu ponto de equilíbrio — o que pode demorar décadas ou mesmo séculos para acontecer. O embate perdura, por ora. 

As teorias teleológicas surgidas nos anos 80 e 90 foram fruto, obviamente, da necessidade de um balanço e da ansiedade provocada por todo fin de siècle. Mas o fato é que se analisarmos o último século e as teses de fim de tudo de quatro décadas atrás, torna-se evidente que algo no mundo mudou — e essa mudança foi resultado, em grande parte, do enorme progresso tecnológico dos últimos anos. Porém, se a tecnologia encurtou distâncias, barateou custos e nos deu ferramentas de comunicação antes inimagináveis, ela também parece estar soterrando o espírito humano. Ou será que o espírito humano sempre acaba vencendo, tal qual uma flor que nasce no asfalto?


Marcelo Nunes é escritor e editor-chefe da Editora Nauta.

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