No ano mil, numa comparação entre China e Europa, não seria difícil identificar a vantagem do país asiático. Com uma população de aproximadamente cem milhões de pessoas, quatro vezes a da Europa Ocidental, a China operava sob uma complexidade econômica e social sustentada por avanço do conhecimento, aumento da produtividade agrícola e da produção mineral, infraestrutura de transporte, centros comerciais integrados e uma organização burocrática que garantia ao poder imperial um maior controle sobre impostos, uso da força militar e manutenção da ordem. Embora a caricatura de que a Europa Medieval vivia a ‘idade das trevas’ seja exagerada, os ganhos de produtividade, a produção e transmissão do conhecimento e as redes de trocas eram mais tímidas do que os vistos no Império chinês.
Contudo, em alguns séculos a relação se inverteu. No século 15, a Europa ocidental navegava pelos oceanos, estabelecia portos de controle militar e comercial pelos continentes, espalhava sua cultura cristã até o Japão e se preparava para a Revolução Industrial. A expansão comercial, cultural e colonialista, a Revolução Industrial dos séculos 18 e 19, a organização política do Estado Moderno e de Direito, assim como a consolidação das corporações (companhias, universidades e empresas), ajudaram a Europa a abrir larga vantagem sobre os orientais em geral, e em especial sobre os chineses. Mas o que ocorreu para tamanha inversão?

A Grande Divergência
A historiografia dá o nome de “A Grande Divergência” a esse fenômeno de inversão das posições relativas ao desenvolvimento entre o Oriente e o Ocidente ocorrida no último milênio. Há mais de década, o historiador britânico Niall Ferguson escreveu, em seu livro Civilização: Ocidente X Oriente (Editora Planeta, 2012), que o Ocidente ‘inverteu’ a posição no ranking de desenvolvimento porque desenvolveu seis ‘aplicativos matadores’: a competição entre estados-nacionais fragmentados; a revolução científica do século 17; o Estado de Direito e o governo representativo; a medicina moderna do século 19; a Revolução Industrial e a sociedade de consumo; e a ética do trabalho e acumulação.
Os seis aplicativos teriam sido suficientes para que o Ocidente decolasse e a vanguarda econômica, política e social se transferisse de um Oriente preso em suas tradições milenares e sob governos autocráticos a um Ocidente capitalista, científico, democrático e institucionalmente voltado à garantia dos direitos individuais de propriedade e liberdade. A exceção que comprova a regra seria o Japão, que ‘decolou’ após se ocidentalizar durante a Revolução Meiji de 1868. Essa longa história de formação institucional do Ocidente teria testemunhado o aumento da distância entre a Europa — e posteriormente os EUA — e o Oriente, subdesenvolvido, arcaico e economicamente atrasado. O avesso da fotografia do ano 1000.
A ideia de certa forma era acolhida pela época em que foi escrita. O triunfalismo do liberalismo em fins do século 20 e sua expansão global em forma de economia de mercado autorizavam Ferguson a afirmar que conhecimento era poder e que o conhecimento ocidental era superior ao dos orientais. No entanto, a História mudou. A crise do ambiente liberal liderado pelos EUA e a recente ascensão da China potencializaram um mal-estar: esse modelo histórico e institucional do Ocidente, que por tanto tempo ancorou a hipótese de que o desenvolvimento econômico se sustentava, no longo prazo, pela relação entre economia de mercado e Estado democrático e de Direito, chegou ao seu limite histórico? A China e seu desenvolvimento recente consolidariam uma outra relação entre a institucionalidade e a economia de mercado? E o desenvolvimento chinês recente já teria tempo suficiente para configurar uma outra combinação histórica-institucional e econômica que não aquela que caracteriza o Ocidente?
Duas trajetórias para a prosperidade
Acaba de ser publicado, ainda sem edição brasileira, Two Paths to Prosperity: Culture and Institutions in Europe and China, 1000-2000 (Princeton University Press; em tradução livre: “Duas Trajetórias para a Prosperidade: Cultura e Instituições na Europa e na China, 1000–2000”). Escrito por Avner Greif, Joel Mokyr (atual detentor do prêmio Nobel de Economia) e Guido Tabellini, o livro aproxima a obra de três dos melhores pesquisadores em História Econômica da atualidade para, em mais uma rodada de hipóteses sobre a Grande Divergência, identificar novos elementos sobre uma longa história que ilumina os problemas mais candentes de nossa conjuntura. Ou seja, exatamente o que a História como área de produção do conhecimento deve fazer.
O trio refaz uma trajetória de mil anos não para apontar qual seria a melhor combinação institucional ao desenvolvimento econômico, mas para mostrar como o modo de pensar de uma determinada sociedade — a que chamam de cultura — influencia a construção e funcionamento das regras formais e informais — a que chamam de instituições — dessa mesma sociedade. E, com sinal trocado, como as instituições reforçam aspectos culturais, reproduzindo certos padrões de comportamento por longos períodos. Não há, certamente, uma oposição a uma História que se concentra nas mudanças, mas sim uma defesa de outra que se equilibra entre mudanças e permanências e que ilumina quais mudanças foram relevantes, o quanto elas de fato são estruturais e como percebemos a permanência de certos elementos mesmo que embebidos pelas aparentes mudanças. O exemplo chinês ganha estatura quando os autores identificam que, não obstante a tentativa deliberada do governo socialista de Mao Tsé Tung, em meados do século passado, de destruir os laços milenares que envolviam os clãs e grupos familiares e o modo como controlavam politicamente as decisões locais na China, esse desenho social continuou ativo e fundamental para a atual institucionalidade e resultados econômicos do país. É nesse ponto, relativo a uma cultura milenar de cooperação e decisão amparada numa tradição clânica, que a obra revela sua grande contribuição.

Cultura da Cooperação: China x Europa
A queda do Império Romano do Ocidente no século 5 desestruturou a ordem que definia e mantinha a institucionalidade de boa parte da Europa. A consequente ruralização e o fortalecimento de laços feudais — fossem ligados à terra, fossem militares — reorganizaram a relação social dominante em um modelo bem próximo da estrutura familiar e descentralizada, característica do medievo europeu. Contudo, ante ao particularismo medieval, a unidade forjada a partir da cristianização dos variados povos europeus promoveu um tênue mas duradouro equilíbrio entre a pulverização político-econômica e a unidade cultural e religiosa.
Por um lado, a pulverização medieval atrasou o surgimento de uma economia comercial mais ampla, limitando o surgimento de laços de cooperação em torno do mercado. Por outro, o universalismo cristão estimulou certa concepção de unidade europeia. O andar em marcha lenta dessa história revela que tanto a fragmentação política característica do mundo feudal perdeu força exatamente pela sua incapacidade de institucionalizar um ambiente mais favorável aos laços comerciais mais amplos como o universalismo cristão ziguezagueou entre momentos mais inclusivos e outros de maior rigidez. O resultado foi a construção de uma institucionalidade política — o Estado Nacional Moderno —, que concomitantemente criou uma unidade maior do que a fragmentação feudal permitia, mas ao fim e ao cabo, limitou o poder do mesmo Estado em três dimensões: não haveria um único estado, de modo que parcialmente a fragmentação permaneceria; o Rei deveria negociar com os membros da nobreza a dimensão de seu poder; e, ao longo do tempo, novos grupos e demandas seriam incorporados por essa mesma institucionalidade do Estado Moderno a partir do alargamento do direitos — inclusive e principalmente os direitos de liberdade e igualdade.
Dessa forma, ao monopolizar a criação de moedas nacionais e a cobrança de impostos, o Estado Moderno racionalizou algumas ferramentas fundamentais para a ampliação do mercado, ao mesmo tempo que se mantinha em competição, inclusive econômica, com outros Estados Nacionais. Essa competição possibilitava, por exemplo, que comerciantes, cientistas e mesmo empresas que porventura fossem prejudicadas em seu país de origem pudessem buscar, em nome dos direitos universalistas, oportunidades e segurança em outros países. Em suma, trânsito de pessoas e ideias, troca de mercadorias, competição entre Estados Nacionais — cujas estruturas internas equilibram negociação entre grupos, limitação ao poder do Rei e inclusão — e cooperação em torno de valores universais.
Já a história chinesa teria sido construída em torno de outro tipo de cooperação. De um lado, a estrutura local era ancorada na relação baseada em parentesco. Dessa forma, oportunidades econômicas, tratamento justo, sentimento de pertencimento e prestígio social estariam vinculados, no nível local, ao grau de parentesco e não a um valor universal. Assim, as relações são preferíveis quando feitas entre iguais em sentido mais estrito, dispensando uma mediação necessária em sociedades cuja cooperação é feita entre diferentes em torno de valores e regras semelhantes. Essa característica clânica dos laços de cooperação entre chineses teria se revelado por meio de dois itens: um relacionado à manutenção desses laços em uma espiral que garantisse a validade dessas relações, ou seja, uma proteção contra ameaças vindas exatamente do avanço de valores universais, e outro que, para efetivar tamanha proteção, legitimasse um poder político e militar centralizado e hierarquizado a partir da ideia de que os chineses são todos descendentes da mesma origem. A mesma origem do ‘pater’ imperial.
Assim, o Império e, sobretudo, o Imperador da China seriam a âncora que garante a proteção das relações familiares no nível local. E legitimam tais relações de cooperação porque representam, numa escala hierárquica maior, a origem familiar única dos chineses. Diferentemente do equilíbrio europeu entre competição e cooperação em torno de valores universais, a China se equilibraria entre um governo autocrático e centralizado que garante as relações locais baseadas em laços familiares. Uma combinação revelada pela aparentemente contraditória expressão ‘descentralização autoritária’, várias vezes usada por Grief, Mokyr e Tabellini.
Os custos de um e outro são conhecidos. Nas instituições europeias, guerras religiosas dos séculos 16 e 17, guerras mundiais do século 20, crises, revoluções e tolerância perigosa com propostas totalitárias em nome da convivência democrática. Na China, governos autocráticos sem nenhum apreço pela liberdade e pelos direitos universais — e que se asseguram por meio de intensa cooptação. No passado tal cooptação foi feita pela hierarquia confucionista. No presente, pelo controle da informação que garante a unidade ideológica. Ambas alimentadas por um sistema de ascensão meritocrática cujo critério maior é o alinhamento sem concessões.
Os ganhos também são conhecidos. Na Europa, uma institucionalidade democrática que estimula a competição, o comércio e a inovação. Na China, a tomada de decisões rápidas e, portanto, com custos de transação reduzidos. Cabe avaliar se os ganhos de um superam os custos do outro. E, por fim, se nesse momento da História, os elementos humanos, tecnológicos, econômicos e políticos à nossa disposição não parecem ser mais harmoniosos com os ganhos do modelo chinês. Ao menos no curto prazo. Nesse caso, duas questões se impõem: por quanto tempo a China manterá seus ganhos maiores que seus custos? E, mais importante: Será por tempo suficiente para que se confirme que vivemos uma nova “Grande Divergência”? Eis as grandes questões inspiradas na magistral obra de Greif, Mokyr e Tabellini.
Vinícius Müller é doutor em História Econômica, professor da Faculdade Belavista e do IBMEC.




