por Pedro Gonzaga
Em todas as produções humanas — na literatura não haveria de ser diferente —, fundam-se certas mitologias, certos lugares de retorno, certos conceitos que, se solucionam problemas, são ao mesmo tempo comutadores mentais: ao usá-los umas quantas chaves se apagam, tomando por verdadeiro o que não passa de duvidoso. Entre esses lugares, no universo literário, está a velha tese de que os autores estão entre os menos indicados para falar de suas próprias obras. Para firmar tal ponto, não é difícil sacar alguns nomes de críticos definitivos: Harold Bloom, Antonio Cândido, Otto Maria Carpeaux, Edmund Wilson, George Steiner, Damaso Alonso (os últimos três, diga-se, também escritores), mas isso seria atropelar as excelentes reflexões, que em nada devem às feitas pelos citados de Manuel Bandeira, Nabokov, Phillip Roth, Szymborska, Octávio Paz, Kenneth Rexroth, entre tantos outros. Me parece que por traz do célebre truísmo se esconde um aspecto bastante simples: um autor não é a figura mais indicada para comentar seu trabalho se não for também um crítico. Voltemos a Octavio Paz. É maior poeta ou crítico? E os textos de teóricos de Cortazar? Ou de Vargas Llosa? Estou entre aqueles, e sei que me faço acompanhar de muitos dos leitores do Estado da Arte, que veem na crítica literária um dos gêneros da literatura, às vezes sob o rótulo de ensaio. Por vezes tal percepção de pertencimento se oblitera dada a má qualidade da crítica em nosso tempo, acadêmica demais, sectária demais, longe do texto, seja do original, seja da concepção mesma do que é uma obra legível e ocupada em fazer comunicar ao outro. No entanto, não creio justo cobrar só de uns quando também não se espera que os prosadores e poetas sejam sempre titãs. Por que esperar isso da crítica? E como negar o inegável prazer da leitura de um Mathew Arnold, de um Fernando Pessoa sobre sua poética, ou do talentosíssimo e contemporâneo James Wood? Como funciona a ficção e A coisa mais próxima da vida estão entre os melhores livros que li nos últimos dez, quinze anos.
Esta conversa tem como ponto de chegada uma indicação que gostaria de dividir com vocês, infelizmente sem tradução no Brasil, a obra crítica e teórica da grande poeta americana Louise Glück, Proofs & Theories, misto de autobiografia literária e reflexões sobre o fazer poético. A economia e a clareza de suas avaliações, seja na análise de suas memórias, seja sobre os desafios da lírica, em muito lembram essas mesmas qualidades admiráveis em seus poemas. Numa era de politização total dos temas e de guetificação da experiência humana, numa arte que mais parece propaganda de meia dúzia de lemas gastos, suas palavras são água cristalina e fresca no mais desolador dos verões.
“Estou confusa, não de um modo emocional mas lógico, com a determinação das mulheres de escrever como mulheres. Confusa porque isto parece uma ambição limitada pela concepção existente daquilo que, com exatidão, diferencia os sexos. Se tais diferenças existem, parece-me razoável supor que a literatura as revela, e que o fará de maneira tão mais interessante, tão mais sutil, na ausência de intenção. De um modo similar, toda arte é histórica: tanto em seus confrontamentos quanto em suas evasões, a arte fala de seu período. O sonho da arte não é estabelecer o que já é conhecido, mas iluminar o que estivera oculto, e o caminho para o mundo oculto não foi inscrito por meio da vontade.”
De quebra deixo vocês com duas traduções exclusivas para o Estado da Arte:
O dilema de Telêmaco
Nunca consigo decidir
o que escrever
nas lápides de meus pais. Sei
o que ele quer: ele quer
amado, o que por certo
vai direto ao ponto, particularmente
se contarmos todas
as mulheres. Mas
isso deixa minha mãe
a descoberto. Ela me diz
que isto não lhe importa
para nada; ela prefere
ser representada por
suas próprias conquistas. Parece
pura falta de tato lembrar aos dois
que alguém não
honra aos mortos perpetuando
suas vaidades, suas
projeções sobre si mesmos.
Meu próprio gosto dita
precisão sem
tagarelice; eles são
meus pais, consequentemente
eu os vejo juntos,
às vezes inclinado a
marido e mulher, outras a
forças opostas.
Parábola da fera
O gato anda em círculos na cozinha
com o passarinho morto,
sua nova possessão.
Alguém deveria discutir
ética com o gato enquanto ele
perscruta o débil passarinho:
nesta casa
nós não exercemos
a força deste jeito.
Diga isso ao animal,
seus dentes já
fundos na carne de outro animal.