O que é a arrogância? Por si só, a palavra pouco esclarece. Partíssemos dela, concluiríamos erroneamente do que trata. Primeiro, porque logo notaríamos que se arrogar algo não parece um ato condenável. De todo modo, sabemos que a arrogância não é algo positivo. É improvável que alguém aceite de bom grado ser tomado por arrogante. Estaria a arrogância ligada a uma espécie de moderação daquilo que se arroga e que, só a partir de um ponto, torna-se condenável? Mas em que circunstâncias ela se revela inaceitável? Parece um tanto inviável estabelecer um limite para algo tão intangível. Por acaso, existe algum consenso sobre o ponto a partir do qual alguém se torna arrogante ou passa a agir como tal?
A arrogância tem parentes: petulância, soberba, prepotência, desplante, desfaçatez, ousadia, desaforo, descaro, insolência, audácia, afronta, empáfia. São comportamentos que evocam imposturas de tom insultuoso, quase sempre ligadas ao conhecimento, praticadas por quem busca diminuir o próximo para se sobressair. Mas qual é exatamente a singularidade que a distingue nesse conjunto?
Com outros conceitos, também é comum buscarmos uma definição precisa e acabarmos nos embaraçando. A arrogância, porém, guarda uma peculiaridade: a despeito de eventuais discordâncias sobre sua acepção, ela é facilmente identificável — há uma ojeriza que o arrogante provoca que é logo compartilhada e percebida pelos outros; um repúdio que aqueles que ouvem ou observam o arrogante sentem de imediato, atingidos por sua impostura.
Contudo, é preciso cautela ao investigar um fenômeno quando apenas percebemos seus efeitos, e não o próprio objeto ou sua origem. Em outras palavras, devemos investigar o que se passa no sujeito arrogante, não apenas naquele que sente ojeriza. Difícil seria, afinal, definir a arrogância pelo grau de rejeição que ela desperta. Além disso, tal ojeriza, em certas ocasiões, pode estar marcada por equívocos, preconceitos ou fantasias individuais. Seria sensato relegar à imprecisão uma postura capaz de gerar antipatias muitas vezes incuráveis? Diante dessas dificuldades, devemos avançar com parcimônia na tentativa de compreender o que é a arrogância e a verdadeira fonte do rechaço que ela provoca.

Comecemos pela ideia mais básica que trouxemos: a arrogância ocorre quando alguém se arroga algo genericamente. Ora, arrogar-se o direito a alguma coisa não é, em princípio, um erro moral, tampouco algo que provoque rechaço. Primeiro, todas as pessoas podem — e devem — arrogar-se uma série de direitos que lhes são fundamentais. Segundo, existem também os direitos de ordem moral e pessoal: a oportunidade de escolher os valores que orientam nossa vida privada, bem como o direito de realizar com alguma presteza as ações das quais somos capazes — tudo aquilo em que somos competentes. Note-se como, no primeiro caso, proibir que alguém se arrogue direitos fundamentais pode constituir uma espécie de crime político, social e até jurídico; já no segundo caso, nós mesmos exigimos das pessoas que se arroguem o direito de oferecer sua presteza em tarefas nas quais não nos julgamos capazes.
Seria despotismo impedir que uma pessoa escolhesse os valores morais pelos quais deseja orientar sua vida privada; e seria também um forte sinal de insensatez proibir, por exemplo, que um médico se arrogasse o direito de exercer a medicina ou que um juiz se arrogasse o direito de dominar a jurisprudência. Assim, parece claro que o ato de se arrogar um direito não constitui, por si só, algo moralmente condenável, nem pode ser automaticamente classificado como arrogância. Menos ainda se pode presumir que qualquer conteúdo, técnico ou moral, que alguém se arroga seja inválido de antemão e permita a condenação do ato ou da pessoa como arrogante. Por essas razões, podemos afastar tanto a ideia mais básica de arrogância quanto a possibilidade de condenar qualquer manifestação genérica dela.
Se concluímos que se arrogar qualquer conteúdo, de forma genérica, não caracteriza necessariamente arrogância, poderíamos então supor que a arrogância consiste em reivindicar algo que não é genuinamente disponível para quem se arroga — seja um direito, seja uma competência. Em outras palavras, um ato seria arrogante, no primeiro caso, quando alguém se arroga um direito que não lhe pertence; e, no segundo caso, quando alguém se julga tecnicamente qualificado em algo no qual, na realidade, é incompetente.
No primeiro caso, quando alguém se arroga um direito que não lhe é devido, somente reconhecemos a invalidade desse direito e restamos indiferentes à sua reivindicação, sem qualquer tipo de ojeriza ou inquietude. Isso se manifesta de formas diversas: nas crianças, por exemplo, que exigem coisas que não lhes são devidas (privilégios reservados aos adultos), às quais respondemos com o tempo futuro (“um dia você terá/poderá”); ou ainda naqueles que planejam ações ou reivindicam direitos impossíveis, que tendemos a considerar lunáticos ou, em menor medida, idealistas, e, a depender do quanto falam de nossas fantasias, tolos (como alguém que se arrogasse o direito de ser consultado pelo papa antes de seu pronunciamento).
No segundo caso, quando alguém se arroga conhecimentos ou competências para os quais não tem capacidade, especialmente técnica, nossa reação não é de ojeriza, mas de um certo desprezo diante do ridículo e do equívoco. Essa falta de competência pode decorrer tanto do desconhecimento técnico — como quando alguém se julga capaz de construir uma máquina sem qualquer preparo — quanto da inviabilidade real — como quando alguém se acredita capaz de criar uma máquina do tempo. Donde conclui-se que se arrogar um direito ou uma habilidade que não se possui nos remete mais ao engano e ao escárnio do que à arrogância.

Se reconhecemos a existência efetiva da arrogância, mas não soubemos desvendar especificamente de que fonte ela se origina, devemos, portanto, buscar sua definição na forma de uma determinada ação. Assim, a primeira forma da arrogância, poderíamos supor, é aquela postura adotada por quem sempre quer explicitar sua opinião, independentemente do assunto. Ou seja, basta lançarmos um tema qualquer, e o sujeito põe-se a falar sobre o que é o caso em questão. Mas imediatamente essa forma aparente da arrogância perde sua força, ao percebermos que centenas de pessoas podem assumir esta postura, a todo momento, sem parecerem arrogantes. Os sábios, desde a antiguidade, não são, nem foram, chamados de arrogantes. O que faz uma pessoa que dá sua opinião constantemente ser tomada por arrogante e outra que faz o mesmo não? Nada é claro.
A segunda forma de arrogância poderia ser, então, o comportamento de uma pessoa que fala sempre com convicção. Esta é a mais fraca das definições, embora talvez seja a mais corrente. É extremamente comum que a carga de convicção com que uma pessoa fala seja tomada como sinal de arrogância. O que é curioso, e poucos o percebem, é que é praticamente impossível falar alguma coisa que realmente pensemos e acreditemos sem uma dose suficiente de convicção, a não ser em alguma espécie de jogo cínico ou mesmo de politicagem. Adicionar “me parece que” ou “eu acho” não muda em nada o enunciado, apenas o disfarça em uma hipotética presunção de não saber suficientemente desprezível. A única forma factível de se dizer o que não se sabe (pois isso é o que define a convicção) é dizer o não sei — algo que é evidente, desde Platão, ser impossível de ser feito (só Bertrand Russell conseguiu, razão pela qual virou sir). Por certo, essa postura contém um dos possíveis indícios de arrogância, mas termina se confundindo com uma outra forma, a saber, a da pessoa que em todas as situações crê que sua opinião é a única correta. Tal situação traz as mesmas dificuldades da ideia de falar com convicção, dado que é irracional enunciar opiniões que supomos estarem erradas. Essas duas formas certamente apontam para a arrogância, mas parecem insuficientes — principalmente porque parecem indicar somente presunção e não necessariamente arrogância.
Tanto mais elas apontam quanto mais se somam a uma terceira forma de arrogância possível, que é a do sujeito cuja opinião, além de apresentada com convicção e tomada como a única certa, também acaba por desmerecer e invalidar qualquer opinião contrária. Esse amálgama na postura do arrogante parece nos conduzir para uma definição possível, levando-nos antes a uma quarta forma de arrogância, que, ao invés de excluir as anteriores, se soma a elas: a ideia de que a arrogância é um tipo de atitude em que o sujeito deseja diminuir os outros. Por si só, ela também é insuficiente, pois, em circunstâncias especiais (competições em geral), o desejo de superar o próximo é necessário. Mas então deveríamos situar o erro desse interesse em diminuir os outros quando não há necessidade de fazê-lo, isto é, em circunstância na qual não há competição e em que único ganho é a satisfação imoral de sentir-se melhor do que os demais. E essa forma de arrogância ainda se refina quando o arrogante não necessariamente precisa diminuir o próximo, mas somente desmerecê-lo. Com isso, parecemos nos aproximar daquilo que contém o ato arrogante em si, chegando, finalmente, a uma definição da arrogância: postura constante de um sujeito que enuncia de forma convicta e indubitável suas opiniões sobre todos os assuntos, de forma tal que as opiniões dos outros são desmerecidas, desvalorizadas ou até mesmo diminuídas.
Nesse sentido, Immanuel Kant pode vir nos auxiliar. Em Metafísica dos Costumes, livro que sucede sua famosa Fundamentação da Metafísica dos Costumes, o filósofo destacou a arrogância como um dos principais vícios morais, sintetizando-a de forma genialmente clara: o arrogante é um sujeito que exige que tenhamos por ele uma consideração que nega ter por nós.

Kant define essa postura como uma ação contraposta ao respeito, na qual o sujeito superestima sua opinião ao mesmo tempo que subestima a do próximo. Assim, a arrogância é um tipo de ambição na qual alguém demanda que os outros pensem pouco de si mesmos e muito em relação a ele. Ela difere do orgulho próprio, que é o amor pela honra, pois a arrogância exige dos outros um respeito que lhes nega em contrapartida. O orgulho próprio está aberto a todos, enquanto a arrogância é egoísta: somente ela merece louvores. A arrogância é, sim, uma busca pela honra, mas uma busca solitária e exclusiva, pois vedada aos outros. Não suficiente, o arrogante comete o equívoco de buscar a honra exatamente daqueles a quem nega um possível orgulho, o que explica a necessidade constante de repetir seus atos, pois seu suposto orgulho próprio alimenta-se do reconhecimento de sujeitos por quem alimenta desprezo e desmerecimento.
Há, no entanto, uma sutileza no ato do arrogante que escapa à enunciação de Kant, pois escapa ao ato de fala do arrogante. Porque a forma mais refinada de arrogância não é um modo de falar, mas um modo de ouvir. Não é um modo de conhecer e se apresentar, mas de receber. Não existe uma forma, única e singela, arrogante de dizer algo, mas um modo arrogante de ouvir alguém, de conhecer alguém. Razoável seria receber o outro como se não soubéssemos de tudo, de um modo em que não estivéssemos prontos, em que supuséssemos que o outro tem algo a nos oferecer, que podemos aprender com ele. Há uma abertura do homem ao conhecimento (seja a outras formas de pensamento, seja a outras formas de vida) que é a mais refinada e elevada virtude moral, especialmente porque possui uma capacidade transformadora tanto sobre o homem quanto sobre o mundo circundante. É a capacidade de permitir que a mente aja sobre a natureza que o esmaga, pois, quando o homem aprende algo, ocorre-lhe um movimento duplo: ele sente a vivacidade da descoberta ao mesmo tempo que parece poder captar pelo menos uma ínfima porção da realidade que o cerca, de forma a retirá-lo das sombras da superficialidade às quais suas próprias limitadas fantasias sempre o condenaram.

Acompanhe a série de ensaios do psicanalista Felipe Pimentel
Do ressentimento à inveja, passando pelo ciúme e pela covardia, esta série aborda as diferentes faces do Mal não por conceituações psicológicas, mas por meio de manifestações da arte e do pensamento, sempre tão precisas na sua capacidade de ilustrar os dramas humanos.




