O leão apaixonado
À Mademoiselle de Sévigné
Boa amiga, por cujo encanto
Até o das graças se modela,
Você que, assim nascida bela,
Com isso nem se importa tanto,
Poderia ser complacente
Com um tom de fábula inocente
E ver aí sem se assustar
Um leão que amor soube domar?
Amor é um mestre que amedronta.
Feliz quem o conhece e afronta
Seus golpes, ai, somente em lenda!
Pra que a verdade não lhe ofenda,
Ao falar disso a algum momento,
Bem pode a fábula servir.
Esta aqui traz, por certo, o intento
De a seus pés colocar-se vir
Por zelo e reconhecimento.
No tempo em que os bichos falavam,
Os leões entre outros desejavam
Entrar em relações com a gente
Por que não, se era equivalente
À nossa então sua bravura,
Tal como a raça, a inteligência
E até a beleza da figura?
Eis como se deu a aventura.
Um leão de bom nascimento,
Ao passar por um certo prado,
Viu a Pastora e, interessado,
Logo a pediu em casamento.
O Pai teria desejado
Genro um pouco menos terrível.
Dar-lhe a filha era uma agonia,
Mas negá-la um risco seria:
Bastava um não para ser possível,
Qualquer manhã, ver-se o destino
De um casamento clandestino.
A Bela, de toda maneira, melhor partido merecia.
E moça airosa se escondia
Do amor de longa cabeleira.
O Pai então, sem que no instante
Ousasse despachar o Amante,
Diz: “minha filha é delicada;
Quando a quiser acariciar,
Suas garras poderão machucar.
Permita pois uma aparada
Em cada pata; quanto aos dentes,
Vamos limá-los entrementes.
Seus beijos, sendo menos rudes,
Lhe serão mais deliciosos;
Ela os dará também gostosos,
Estando livre de inquietudes”.
Logo o Leão tudo consente,
De alma pela paixão cegada!
Ei-lo pois, sem garras, sem dentes,
Como fortaleza arrasada.
Soltaram cães nessa refrega,
Foi-se do herói a resistência.
Do amor, do amor quando nos pega
Dizer se pode: Adeus, prudência.
(Tradução de Leonardo Fróes)

Entre os sentimentos morais, a covardia é talvez o que mais se aproxima do corpo, do que há de físico. Mesmo Aristóteles, ao situá-la no extremo oposto do destemor e definir a coragem como a justa medida entre ambos, recorre a cenas de perigo corporal iminente — como a necessidade de defender-se de um animal feroz, quem sabe um leão.
Mas seria covardia não enfrentar um leão? Ou, invertendo os termos, haveria coragem no fato de um leão enfrentar uma pessoa? Aquele que, por sua compleição física, é capaz de enfrentar um maior número de situações de perigo seria, por isso, mais corajoso do que os demais? Não estaríamos, assim, negando aos menos providos a possibilidade da coragem? O leão estaria, então, imune à covardia? Não faria mais sentido pensar a coragem como algo ao alcance de todos? Como sabê-lo? Poderíamos investigar a covardia por esse seu revés?
A coragem é antes um atributo da mente do que do corpo. Ela pode refletir-se numa capacidade física, mas esta é somente uma de suas manifestações. Ela também age sobre aquilo em que cremos.
As crenças de uma pessoa são o intermediário de sua relação com o mundo. Conscientes ou inconscientes, dialogam conosco a todo momento: são elas que nos defendem de decepções, que nos convidam a sonhar e a apostar, que nos confirmam em quem podemos acreditar e nos advertem de quem desconfiar. Quando algo falha ou alguém nos decepciona, imediatamente uma crença vem nos acorrer, oferecendo algum tipo de justificação. Quando queremos que algo se realize, uma crença, supostamente fundamentada no que já vimos e pensamos do mundo, vem nos apoiar. Mesmo quando queremos desistir de algo, ou mesmo de tudo, é uma crença descrente que vem nos legitimar.
Porém, estes são os conteúdos das crenças; a forma que alguém crê também nos diz muito sobre sua relação com o mundo. Existem pessoas que creem em tudo convictamente; existem aquelas que creem nalgumas coisas e noutras não; também há os que apostam suas crenças somente numa coisa e há, por fim, os famosos céticos, cuja única crença é crer em nada. Essas formas de crer são inclinações, cristalizadas na mente, que, ainda que a pessoa mude nas aparências, seguem operando com a mesma intensidade. Exemplo disso são as pessoas que não creem em nada senão no amor, e por isso passam de uma grande paixão a outra, repetindo relações idênticas, ainda que com parceiros diferentes. Há ainda aquelas pessoas que se transformam radicalmente ao longo da vida, mas não vivem sem uma crença radical, passando sempre de um extremo ao outro.
É analisando a função da crença na mente de alguém que percebemos a sua inesperada relação primeiro com o desejo e, depois, com o modo de ser de uma pessoa. Nós desejamos aquilo que cremos ser valoroso e, quando colocamos nosso desejo em prática, seu êxito confirma ou rejeita nossa crença sobre o mundo e nós mesmos. Aos poucos, formam-se na nossa mente as crenças que dizem para onde o desejo deve apontar, onde ele pode se realizar, onde ele se satisfaz, ou até mesmo as razões pelas quais falhou.
Assim, o conteúdo das crenças é o diálogo interior com nossos anseios e frustrações, estes dois polos que são fonte e efeito dos desejos que colocamos no mundo e que operam na repercussão que eles tiveram dentro e fora de nós — algo que as religiões descobriram perfeitamente. Por isso, nossas crenças dizem mais de nós do que muitas vezes supomos (especialmente num mundo que rejeita crenças). Contudo, a passagem do tempo também constitui uma determinada forma de crer e desejar, que, por sua vez, marca diferentes modos de ser — modos que nos conduzirão à coragem ou à covardia.
O cético tem a vantagem de escutar melhor, tanto por não estar nublado por certezas quanto por seu anseio oculto de alguém lhe trazer alguma certeza. O cético, por isso, fala a muitos e aplaca sua aparente solidão. Por nada saber, o mundo parece se ampliar. O desejo do cético está difuso mas guardado, podendo apontar para qualquer direção. De um certo modo, o cético está prevenido, seguro, dado que, além de conhecer muitas verdades, em nada crê — o que não deixa de carregar uma certa dose de cinismo e uma licença antecipada diante de qualquer fracasso ou perda.
A face oposta do ceticismo é a crença. É uma palavra carregada de religiosidade — e é realmente o caso. Não no sentido institucional, mas místico. Aquele que crê em algo com intensidade vê o mundo encolher à sua volta, pois muitas verdades não lhe interessam, assim como as pessoas que as professam. E, ainda que as deseje, muitas outras verdades lhe permanecem inacessíveis. Além disso, o crente sabe ouvir menos do que o cético, circula menos do que ele e mostra-se muito menos tolerante, pois suas crenças delimitam um espaço para além do qual as coisas tornam-se menos valorosas e até menos compreensíveis. Mas, então, por que crer?
A lógica daquele que crê inverte essa pergunta. Pois crer é saber de algo precioso sem o qual até se poderia viver, mas de um modo menor. O crente não vê seu mundo encolher, como o cético pode supor sobre ele. Ele pode ver o mundo encolher, mas o seu mundo expande-se exatamente quando se encolhe — quando o seu desejo aponta para o objeto amado, num processo que a religião e a mística tão bem entenderam e que define a condição daquilo que se ama: um ato de conhecimento. O crente conhece o objeto amado, ele sabe que aquilo que ama tem um valor que ele as outras coisas não têm, e exatamente por isso não abdica de sua verdade. Ele não abdica da crença de que aquele é o seu objeto amado e que ali habita seu desejo; sua obstinação é possuir esse objeto indomável que é o objeto do desejo, e é nesse amálgama de crença e desejo que reside a coragem do obstinado.
No sentido preciso que aqui sugiro, o oposto da covardia não é o destemor, mas a obstinação, uma forma radical e mesclada de teimosia, insistência e certeza. Assim como, no nosso imaginário, as noções de segurança e coragem se confundem em situações de risco físico — levando-nos a supor que alguém fisicamente apto, isto é, seguro para enfrentar determinada situação, seja necessariamente mais corajoso do que outro inapto ou inseguro —, no plano psicológico o mesmo binômio se repete. Também aí falta coragem ao sujeito que não se arrisca a perder aquilo que não domina. Habitar o mundo de forma mentalmente segura é não colocar em jogo o próprio desejo.
O obstinado é, antes de tudo, um abnegado; ele abdicou não só do desejo de muitas coisas, mas da possibilidade de desejar outras coisas que não aquela que deseja. A sua coragem consiste na forma como se apropria de seu desejo; é um assim eu quero irredutível, ainda que desacompanhado de argumentos (o desejo não se democratiza), sempre com um sobre isso não estou disposto a ceder.
O obstinado, como certa vez me reportou um estimado professor, está lost focus intensity (perdido na intensidade de seu foco), ele está dominado por um desejo que aponta com clareza para seu objeto. Não importam as fontes desse desejo, se eles se originam em pontos obscuros de sua psiqué ou se a consciência se supõe senhora desse desejo; o que interessa é que este desejo seja o motor de sua ação. Todos os outros objetos do mundo, tão digna e solidamente desejados por outros, estão para ele vedados, esvaziados, ocos. Ao olhar para eles, o obstinado nada percebe, não reconhece qualquer valor que tragam ocultos. Num certo sentido (e nisso a mística também acertou), o obstinado está louco, tomado por uma alucinação, tornando-se, parcialmente, um objeto interposto entre sua fantasia e o objeto amado, fazendo um se fundir no outro, reduzindo-se a mero desejante. E a fantasia é essa força que age silenciosamente, intensificando-se dia a dia, em lembranças intercaladas com expectativas — frustradas ou não; essa força tantas vezes baseada em nada, exceto míseros sinais que parecem alimentá-la, cristalizá-la e lhe abrir novos caminhos para percorrer; essa força que não reconhece tempo nem realidade que a desdiga; seja a fantasia simples e bela que move o fascínio distante de um homem por uma mulher, seja a fantasia intangível e complexa de ser um dia feliz — e a fantasia é certamente a nossa forma mais corriqueira (e necessária) de loucura.
Tomado por essa fantasia, o crente arrisca muito, pois, ao perder o objeto amado, arrisca também uma cota da própria existência. Esconde-se aí a relação do desejo e do amor com a crença, pois, para aquele que não ama, nada existe de sagrado; e quando, entre a multiplicidade de entes disponíveis do mundo, um homem não encontra algo sacralizado, o valor de todo o mundo circundante está acachapado, e os entes são igualmente valiosos — ou melhor, sem valor. Esvaziar o mundo de todo matiz de valor é um modo disfarçado de nada perder, de manter assegurada alguma possibilidade futura de existência, de manter intacta uma quantidade infinita de realizações e consumações de desejo, sem perceber a obviedade de que desejar todos os entes é exatamente desejar nenhum deles.
Por isso, o ato de crer é uma forma de pinçar na totalidade dos entes disponíveis a sacralidade de algo pelo qual vale o risco de desejar plenamente; e o desejo, o desejo íntegro, obra do acaso ou da deliberação, consciente ou não, está repleto de outras sensações e sentimentos que o colorem. Antes de mais nada, ele é um ato de coragem: aquele que deseja concentra todas as suas forças para efetivamente atingir seu objeto; perdê-lo também é perder-se por completo. La Fontaine foi muito sagaz na escolha do leão para sua fábula. Não se trata de uma narrativa sobre a prudência, mas sobre a coragem. E nela o mais destemido dos animais, por paixão, está disposto a perder exatamente aquilo que o constitui.

Acompanhe a série de ensaios do psicanalista Felipe Pimentel
Do ressentimento à inveja, passando pelo ciúme e pela covardia, esta série aborda as diferentes faces do Mal não por conceituações psicológicas, mas por meio de manifestações da arte e do pensamento, sempre tão precisas na sua capacidade de ilustrar os dramas humanos.




