A história da imprensa brasileira é também a história da conquista de sua independência e de sua profissionalização. Em História dos jornais no Brasil: 1840-1930 (Ed. Contexto, 2025), o jornalista e historiador Matías M. Molina prossegue o monumental trabalho iniciado com seu volume anterior, dedicado ao período de 1500 a 1840, reconstruindo o percurso da imprensa diária no Rio de Janeiro, então capital do Império e da República nascente. O resultado é bem mais audacioso do que o mero registro do processo de ascensão e queda dos jornais da época: é um convite à reflexão sobre as condições históricas, políticas e econômicas que moldaram o jornalismo nacional — muitas das quais permanecem reconhecíveis até hoje.
Molina, falecido em 21 de abril de 2025, aos 87 anos, foi um dos raros escritores capazes de unir rigor acadêmico e experiência no jornalismo impresso, combinação que se materializa em um texto acessível a todos os públicos. Nascido em Madrid em 1937, formado em História pela USP e naturalizado brasileiro em 1970, aqui ele construiu uma carreira notável no jornalismo econômico, em particular na Gazeta Mercantil, onde ao longo de quase 30 anos formou uma legião de repórteres. Em seus livros — “Os melhores jornais do mundo” (Ed. Globo, 2008) e os dois volumes de “História dos jornais no Brasil” (o primeiro publicado em 2015, pela Companhia das Letras) —, Molina combina o olhar do pesquisador com o senso prático que só tem quem experimentou o ritmo frenético de uma grande redação.

Na obra recém-lançada, Molina mergulha em um período de profundas transformações: do Segundo Reinado, quando o Brasil se modernizava a passos lentos sob D. Pedro II, à Primeira República, marcada por turbulência política, tensões regionais e instabilidade institucional. É nesse terreno movediço que o autor situa o surgimento — e o desaparecimento — dos principais jornais brasileiros da época.
Entre eles, desfilam títulos que fazem parte da história do nosso jornalismo impresso: O Brasil, de Justiniano José da Rocha; o Correio Mercantil, de Muniz Barreto; a Gazeta de Notícias, de Ferreira de Araújo; O Paiz, de João José dos Reis Júnior; o Jornal do Brasil, de Rodolpho Dantas; o Correio da Manhã, de Edmundo Bittencourt; e A Noite, de Irineu Marinho, embrião de O Globo, que daria origem ao maior conglomerado de comunicação do País, entre outros. Cada um desses veículos é examinado com impressionante riqueza de detalhes: seus fundadores, linhas editoriais, tiragens, interesses.
Molina mostra que, durante décadas, o jornalismo brasileiro era menos uma atividade noticiosa e mais uma coleção de panfletos a serviço de disputas políticas. A imprensa nascente, observa o autor, não se dirigia a um público amplo — simplesmente porque não existia. A alfabetização era privilégio de uma elite; as instituições políticas, frágeis; a economia, incipiente. Nesse contexto, jornais eram instrumentos de propaganda, criados e sustentados por partidos. O próprio Justiniano José da Rocha, exaltado pelo Barão do Rio Branco como o “melhor jornalista do século 19”, chefiava um jornal — O Brasil — que não escondia sua função: ser o panfleto oficial saquarema, servindo de plataforma para o ideário do Partido Conservador.
Não surpreende, portanto, que publicações tenham sido criadas e encerradas ao sabor dos ventos políticos de ocasião. “Na história da imprensa brasileira, O Paiz tem a duvidosa distinção de ser considerado o mais corrupto dos grandes jornais”, escreve Molina, sem condescendência. O autor revela como os donos de jornais negociavam apoio político em troca de subsídios, cargos ou concessões, prática que corroeu a credibilidade da imprensa e retardou o surgimento de um jornalismo de fato profissional no Brasil.
A inflexão viria em 1875 com Ferreira de Araújo, no Rio de Janeiro, e a fundação da Gazeta de Notícias, e com Nestor Rangel Pestana, Américo de Campos e, pouco depois, Júlio Mesquita, em São Paulo, acrescento eu, com A Província de São Paulo, que deu origem ao Estadão. Segundo Molina, foi quando prosperou “a ideia de um jornalismo moderno e responsável, guiado pela notícia e não pela intriga”. Nesse sentido, a fundação de ambos os jornais marca uma virada decisiva: a profissionalização do ofício e o início de uma imprensa preocupada com a informação de interesse público, ainda que, aqui e ali, eventuais amarras partidárias persistissem.

Molina dedica especial atenção a esse momento de transição. Mostra como o avanço técnico — o telégrafo, as rotativas, o papel barato — e o crescimento urbano começaram a criar um mercado leitor, estimulando a emergência de jornais menos dependentes de patrocínio político. O autor, porém, não romantiza o processo: lembra que, durante décadas, a sobrevivência financeira dos periódicos dependia da boa vontade dos poderosos de turno e da publicidade oficial. Essa dependência estrutural da imprensa em relação ao poder é, talvez, o fio invisível que liga o passado aos dilemas do jornalismo contemporâneo, submetido à lógica dos algoritmos e ao desafio de buscar novos meios de financiamento em razão do redirecionamento de recursos do mercado anunciante para as Big Techs.
Ler a História dos jornais no Brasil: 1840-1930 em 2025 é um exercício de autocrítica coletiva, sejamos jornalistas ou não. Em tempos de novas mediações do debate público e pressões econômicas sobre as redações, a obra de Molina soa como advertência. O autor não escreve sobre algoritmos, redes sociais nem outras modernidades, mas o pano de fundo de seu livro — a conquista da independência editorial — ecoa nos desafios atuais. Como financiar o jornalismo sem submeter-se a interesses políticos ou comerciais? Como preservar a credibilidade em meio à polarização política que oblitera consensos mínimos sobre a verdade factual?

A lição é inequívoca: a independência da imprensa nunca foi um ponto de partida, mas uma conquista sempre ameaçada. Assim como no século 19, quando jornais eram sustentados por políticos e partidos, hoje os veículos lutam contra novas formas de dependência — das plataformas tecnológicas e da atenção volátil da audiência. A diferença, como sugere a leitura, é que agora o risco não é apenas o de ser instrumento de um grupo político, mas de os jornais se perderem em meio à desordem informacional.
Ao concluir o volume, o leitor percebe que Molina não pretende apenas contar a história dos jornais, mas restaurar uma certa consciência histórica do próprio jornalismo como ofício. O livro, nesse aspecto, é uma ode ao jornalismo profissional como serviço público. O autor escreve como quem valoriza a integridade como a virtude essencial do repórter e do editor — cargos que o próprio Molina exerceu com destaque.
Em última análise, a obra é um tratado incômodo sobre a promiscuidade entre a pena e o poder que marcou o florescimento da moderna imprensa. Mas é também uma profissão de fé no jornalismo, húmus de uma democracia liberal digna do nome.
Itamar Montalvão é jornalista e mestre em Comunicação.




