Desde os primeiros livros de Paulo Henriques Britto, como Macau (2003), Tarde (2007), As formas do nada (2012), eu o tenho admirado pelo rigor com que escreve seus versos — rigor que implica ritmo, assonâncias, consonâncias internas ou finais, que considero fundamentais para a poesia — e também por uma característica específica que me chamou a atenção. Ele consegue dar unidade ao conjunto dos poemas de cada sua coletânea graças a procedimentos que se encontram em cada poema e vão se transformando em tema, se avolumando no final em uma espécie de tese que unifica o livro inteiro. E essa característica se encontra potenciada em seu recente trabalho, Embora, publicado há pouco pela Companhia das Letras. Qual é o procedimento que caracteriza do primeiro ao último poema do livro? É um procedimento muito curioso: o paradoxo. Um paradoxo que vai se enriquecendo à medida que se evolui na leitura do livro e que chega a conclusões surpreendentes. Vejamos, primeiro, quais poderiam ser as características do paradoxo dadas por uma série de estudiosos, linguistas, filósofos.

Partindo do paradoxo mais famoso — o do “mentiroso”, que diz “Esta frase é falsa” —, Ludwig Wittgenstein, no Tractatus Logico-Philosophicus, não o resolve, mas o dissolve, ao afirmar que o paradoxo não é um problema do mundo, mas um curto-circuito no nosso modo de falar. O paradoxo surge quando tentamos dizer algo que não pode ser dito logicamente ou ultrapassamos os limites da linguagem; daí, surgem contradições ou paradoxos que podem ser aparentes ou reais. Mais tarde, Wittgenstein abandona a ideia de uma linguagem lógica ideal e passa a ver a linguagem como um uso: não existe fato interno — ou seja, não existe fato mental que fixe um significado. Qualquer aplicação pode ser reinterpretada. Seguir uma regra não é um ato privado, é uma prática pública. E a regra é aquilo que a comunidade aceita para seguir corretamente: no exemplo 2, 4, 6…, ela aponta para o acréscimo de + 2 que preenche cada intervalo da série. No entanto, como as práticas humanas não são estáveis, pode haver, a qualquer momento, um curto-circuito: o paradoxo pode quebrar essa regra. A filosofia funciona como uma terapia da linguagem: sua tarefa é expor o erro, desfazer os nós, não construir uma teoria. O paradoxo, portanto, não precisa ser resolvido, mas dissolvido — e dissolver significa restaurar o contexto, reconduzir a linguagem ao uso comum, deslocando a questão do plano lógico para o plano do sujeito. Trata-se, assim, de compreender o paradoxo também como sintoma da constituição psíquica daquele que o produz.
Para Freud o sintoma é um compromisso que se estabelece entre o desejo inconsciente do sujeito e seu superego (a lei), sendo que o paradoxo, para ele, funciona de maneira análoga: afirma e nega simultaneamente, sustentando duas posições incompatíveis. No paradoxo há algo que escapa à linguagem, ou seja, nele o indizível insiste em se dizer. Vejamos, do livro Embora, um exemplo do que escapa à linguagem:
Intransitivas
IIAs palavras precisam de nós
ou terão existência diversa?
Formarão frases suas, a sós,
sobre aquilo que lhes interessa?
Ou então — espere aí — somos nós
pras palavras um mero instrumento,
um veículo — ou porta-voz —
via fala, escrita e pensamento?Bem, nesse caso somos, ao fim
e ao cabo, mentes teleguiadas
por inteligências de outra espécie.Dessa explicação, uma vez dada,
a gente dificilmente esquece.
(Bem que eu sempre suspeitei de mim.)
Para Lacan, enquanto seguidor da Linguística estrutural (O discurso de Roma – 1953), paradoxo é a estrutura do significante, uma vez que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, com significantes (fala-parole) e significados (langage). Só que essa linguagem não é transparente, ela é ambígua, deslocada e… paradoxal. E o significante escapa ao controle do sujeito que também é instável, pois depende do “Outro”. Ao mesmo tempo que o “outro – objeto” modifica o sujeito, o sujeito modifica o objeto, mesmo este sendo incognoscível, como vimos no poema de Britto.
O exemplo que Lacan dá é o seguinte: o emissor (o sujeito) emite uma fala (parole) que o implica ao investir o destinatário (o outro, o objeto) de uma nova realidade que se reflete sobre ele. Ou seja: sua fala modifica o objeto e modifica o sujeito. (“Serás minha mulher” diz um homem a uma mulher que, atônita, depois dessa frase inesperada, já não é mais a mesma mulher de antes, em relação ao locutor. Este, por sua vez, se vê, nos olhos dela, diferente do que ele era.)
Em Embora, cada poema funciona como uma máquina paradoxal que encena a impossibilidade de estabilização do sentido. Seja por meio da autorrefutação, da coexistência de proposições incompatíveis ou da reflexão metalinguística, a poesia de Paulo Henriques Britto dramatiza o colapso das garantias semânticas. O rigor formal, longe de conter esse colapso, o intensifica, produzindo uma tensão constitutiva entre ordem e indeterminação. No conjunto da obra, esses procedimentos convergem para uma experiência de leitura em que o paradoxo deixa de ser figura e se torna condição estrutural da linguagem. Mas não apenas da linguagem; ele coincide com uma consequência básica da ciência contemporânea: se o sujeito interage com o objeto (mesmo inanimado), chegamos ao pulo do gato: “Uma das consequências mais chocantes da física quântica é que o ato de medir afeta o que está sendo medido, dando-lhe realidade física”, diz Marcelo Gleiser, em seu livro A ilha do conhecimento (Record, 2024).
Aurora Fornoni Bernardini é escritora, tradutora e professora titular da USP no Departamento de Línguas Orientais e na pós-graduação no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada. Graduou-se em inglês (1959-1963) e em russo (1962-1966) pela USP, onde ainda concluiu seu mestrado (1970, sob orientação de Boris Schnaiderman) e doutorado (1973, sob orientação de Alfredo Bosi) sobre o futurismo russo e italiano, e sua livre-docência (1978) sobre Marina Tsvetáieva. Dedica-se também à pintura, tendo realizado exposições individuais e coletivas.




