A nova hora da estrela: o que define, hoje, um sucesso literário?

Na vida literária atual, perde-se o quadro de referências e qualquer lançamento seduz — na cultura do espetáculo, afinal, a visibilidade é o que importa.

No dia 4 de fevereiro, na Casa da Literatura de Zurique (Literaturhaus Zürich), a escritora argentina Samanta Schweblin (1978-), radicada em Berlim, lançou seu livro O Bom Mau, vertido para o alemão por Marianne Gareis sob o título Das gute Übel e publicado pela Suhrkamp Verlag. No Brasil, o livro saiu pela Fósforo, em tradução de Livia Deorsola.

Antes da sessão de autógrafos, a escritora, que chegava de outro lançamento, desta vez na Suécia, conversou, em espanhol, com Gabriela Stöckli, diretora executiva da Casa de Tradução Looren (Translation House Looren), para um auditório lotado, composto sobretudo de latino-americanos. O bate-papo foi traduzido para o alemão por Dorian Occhiuzzi e o ponto alto foi a leitura de dois de seus contos pelo ator suíço Joel Basman, que atuou como protagonista na minissérie Kafka (2024). 

Chamou-me a atenção a informação de que seus livros já haviam sido traduzidos para mais de 40 idiomas e que agora esse novo chegava em alemão por uma grande editora. Enquanto Schweblin falava, eu pensava em autoras do passado, para ficar no campo feminino, que também escreveram, tal como a argentina, contos estranhos, ou até mais estranhos do que os que constam do livro em questão. Entre elas, sua conterrânea Silvina Ocampo (1903-1993) e a inglesa, radicada no México, Leonora Carrington (1917-2011), duas expoentes do fantástico latino-americano.

A escritora argentina Silvina Ocampo. Foto: Pepe Fernandez.

Tanto Ocampo quanto Carrington já foram traduzidas para o português. Uma coletânea de contos da escritora inglesa deu origem ao livro Um conto de fadas mexicano e outras histórias, que traduzi para a editora Iluminuras em 2021. O livro recebeu uma excelente resenha crítica assinada por Ubiratan Brasil, mas a repercussão parou por aí. “Conto não conta”, segundo me informaram na época; ou, quem sabe, não contavam especialmente essas narrativas curtas e surpreendentes de uma artista “do passado”. Ocampo, porém, teve, se posso assim dizer, mais sucesso quando foi publicada, quase na mesma época, no Brasil. Nada se compara, contudo, ao destaque dado a Schweblin na imprensa local toda vez que ela lança um novo livro em português.

O que explicaria esse tipo de fenômeno literário, que transforma em celebridade mesmo quem não tem uma vasta produção nem se sobressai pela excelência estética? Foi a pergunta que me fiz (aliás, essa é uma pergunta recorrente nas minhas manifestações críticas) enquanto ouvia a escritora argentina falar de sua própria obra e de seus projetos literários. O fato é que nem a obra de Ocampo nem a de Leonora Carrington foram traduzidas para tantos idiomas como a dessa escritora contemporânea. 

Lembrei-me também, para ficar no universo do conto escrito por mulheres, de pelo menos duas escritoras brasileiras, Hilda Hilst (1930-2004) e Clarice Lispector (1920-1977). Ambas escreveram obras-primas na área da narrativa breve, como é do conhecimento de todos, ou deveria ser, sobretudo de não brasileiros. Citarei o magistral “Teologia Natural”, de Hilst, e o desconcertante “A menor mulher do mundo”, de Lispector.

Lispector já foi muito traduzida para outras línguas e está se tornando uma referência literária global, mas talvez ainda não tenha sido vertida para 40 línguas, cifra impressionante que poucos autores importantes atingem. Hilst, considerando esse quesito, tem uma divulgação internacional modesta, diria mesmo, modestíssima.

Parece-me que estamos perdendo a capacidade de ver o valor histórico das obras, sem falar que não conseguimos mais inseri-las num amplo quadro de referências que possa orientar o juízo dos leitores sobre a relevância delas. Sem esse embasamento, todo lançamento retumbante acaba sendo considerado como “a última grande obra” da literatura contemporânea. 

No evento em Zurique, a propósito, o nome de Ocampo foi citado superficialmente apenas para destacar a epígrafe do livro lançado, e isso só foi feito após uma menção “obrigatória” a Borges. É interessante destacar que Carrington e Ocampo têm contos publicados pela mesma editora alemã de Schweblin. Nada se falou, por exemplo, dos filmes de Lucrécia Martel, contemporânea e conterrânea de Schweblin e cuja obra cinematográfica é de uma estranheza impactante, como a crítica sempre destacou.

A escritora Clarice Lispector. Foto: Acervo da família.

Será que nossas “bolsas de ficção” — termo que tomo emprestado do título do ensaio “A teoria da bolsa de ficção”, de Ursula K. Le Guin (1929-2018) — estão furadas e vazias? A escritora norte-americana faz uso dessa metáfora para enfatizar a importância de conhecermos a história da ficção, a fim de encontrarmos um “novo” caminho, sabendo, é claro, de onde partimos. Le Guin afirmava humoradamente que desferia golpes com a sua “bolsa, combatendo arruaceiros”, pois era “apenas uma dessas malditas coisas que precisam ser feitas para continuarmos colhendo aveias-selvagens e contando histórias”. 

Na vida literária atual, e não só no Brasil, não é eficaz dispor de uma “bolsa de ficção”, para combater “arruaceiros” que não valorizam a boa ficção. Com isso não quero dizer que a ficção de Schweblin seja ruim, apenas não é surpreendente, se comparada à de suas antecessoras, por exemplo. 

Hoje, o que conta é que o escritor esteja fisicamente presente nos lugares que dão visibilidade — algo que, de fato, faz muita diferença, já que eventos culturais impulsionam o interesse por um livro, seja ele bom ou não. Na cultura do espetáculo conta quem aparece mais e melhor, e, na medida do possível, sempre ao lado de outras celebridades.

Não basta mais oferecer ao leitor a obra em si. A nossa época é a da hora da estrela! As Macabéas de outros tempos, para me valer do nome da protagonista do romance de Clarice Lispector, foram atropeladas pelo furor das celebridades da moda, sempre vistas nas mídias. 

No século passado, Make it new significava repensar a arte a partir do que já havia sido feito, a fim de fazê-la trilhar novos caminhos criativos. Hoje talvez o slogan seja outro: Make it news, ou seja, transforme isso em notícia, independentemente de seu valor estético. O Brasil, como todos as outras nações capitalistas, já faz isso há bastante tempo, mas agora certamente com uma eficácia e uma intensidade jamais vistas, se considerarmos a constelação de estrelas que surgem e se apagam enquanto o mercado editorial ininterruptamente lança obras que consolidam ou seguem a última tendência.


Dirce Waltrick do Amarante é professora da Universidade Federal de Santa Catarina, tradutora e crítica literária. Autora de Interferências: censura, apagamento e outros temas contemporâneos. Atualmente, encontra-se no programa de tradução na Casa de Tradução Looren, na Suíça.


LEIA TAMBÉM: Os críticos literários e os anunciantes de livros


COMPARTILHE: