A seguir, leia mais um conteúdo da parceria entre o Estado da Arte e a Electra, revista internacional de pensamento e cultura contemporânea editada em Lisboa.
Assina este ensaio Kaya Genç, romancista, ensaísta e jornalista turco, doutor em Literatura Inglesa e finalista do European Press Prize. Natural de Istambul, cidade onde Erich Auerbach viveu parte de seu exílio e escreveu Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental, Genç recupera a trajetória do grande romanista e filólogo alemão, reconstruindo o contexto em que nasceu sua obra mais célebre e refletindo sobre a permanência de seu legado intelectual.
O texto — que preserva o português de Portugal — foi traduzido por Paulo Faria e publicado originalmente no número 31 da Electra. Com periodicidade trimestral, a revista está disponível em bancas brasileiras e nas unidades da Livraria da Travessa em São Paulo (Pinheiros e Iguatemi) e no Rio de Janeiro (Botafogo), podendo também ser encomendada pelo site da livraria.

Um dia, espero ser capaz de escrever como Erich Auerbach. O pai fundador da minha disciplina, a literatura comparada, sabia como desenvolver a argumentação num ensaio, ilustrando e expondo cuidadosamente os seus pontos de vista por meio de uma leitura próxima e distante das fontes. Nos meus tempos de estudante, na Istambul da década de 90, quando passar o tempo a ler livros era encarado como uma anomalia, aprendi a admirar tanto este filólogo alemão, a sua lucidez, o seu vasto conhecimento e a sua erudição, que decidi tornar-me académico.
Um típico ensaio da autoria de Auerbach começa com um conceito — «Figura», digamos — e explora o respectivo significado ao longo do tempo. Uma palavra, uma imagem, uma ideia desenrola-se diante dos nossos olhos com extrema perícia. Observar a trajectória de um conceito desde a Antiguidade Clássica até Dante permite-nos reflectir profunda e demoradamente a respeito da história, da política e das formas de representação. Inspira em nós uma postura análoga de empenhamento crítico na abordagem das obras de arte, dos textos e do mundo.
Sete décadas decorridas desde a sua morte, a leitura profunda e atenta constitui uma arte à beira da extinção neste tempo precário de distracção constante e atenção mitigada. Hoje em dia, uma sucessão infindável de clips oriundos das redes sociais, concebidos para acicatar a raiva e a conflitualidade, usurpou o papel que a leitura desempenhara durante séculos e séculos nas nossas vidas quotidianas. A civilidade alcançada por meio da reflexão aturada vai desaparecendo aos poucos, em prol de uma sabedoria performativa transmitida em directo nas plataformas das redes sociais. Nunca como hoje nos fez tanta falta o empenho apaixonado com que Auerbach estudava quer os textos quer a história.
Qual seria o conteúdo de um ensaio de Auerbach sobre a morte da leitura profunda numa época em que se assiste à ascensão dos nacionalismos? O ChatGPT seria bem capaz de nos fornecer a resposta, caso o alimentássemos com os dados adequados (prefiro resistir à tentação), mas a verdade é que nunca o saberemos. Auerbach morreu há muito e, além do mais, o seu método de reflexão vagarosa e ponderada está a desaparecer.
Ainda assim, na minha qualidade de comparatista com quarenta e cinco anos de idade, vivendo em Istambul, faço os possíveis por pensar como Auerbach. Dou longos passeios a pé junto ao estreito do Bósforo, que me ajudam a concentrar e a fantasiar a respeito de uma metempsicose entre as nossas duas almas. Tenho motivos racionais e históricos para alimentar essa fantasia da migração das almas. O grande comparatista judaico viveu na minha cidade natal, na década de 30. Escreveu Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental (1946) perto do meu apartamento. Quando trabalho em artigos extensos, que me exigem meses de pesquisa e de leitura atenta, pergunto a mim próprio: «Como é que Auerbach abordaria este tema?» Isto estabelece uma fasquia inconcebivelmente alta para a redacção do artigo em causa, o que tem o condão de elevar o âmbito e a profundidade da minha escrita.
Não é apenas enquanto crítico e académico que a obra de Auerbach me ilumina. Sou também romancista. Ao escrever o meu segundo livro, Şehir [A cidade], uma autoficção baseada no tempo que passei em Amesterdão como estudante de pós-graduação (em 2004−2005), revisitei uma e outra vez as ideias e conceitos de Auerbach. Como representar a realidade?, eis a questão fulcral do seu pensamento. Como posso incorporar no texto os aspectos mundanos? Como posso converter a minha experiência numa parcela da história?
Para ele, o realismo era a porta de entrada na história, na filosofia e na beleza. Caso um texto assentasse na realidade empírica, ao invés de partir de conceitos metafísicos e teológicos, alcançava, segundo ele, um cariz secular, realista. Ao abraçarem este género de realismo secular quando os respectivos temas diziam respeito a acontecimentos e personagens do foro religioso, vários textos da tradição literária judaico-cristã tiveram o condão de transformar o conceito de mimesis.
Nas obras-chave que Auerbach passou em revista nos seus ensaios e livros, clarões de realidade interrompem e rompem as normas consensuais no campo da retórica e da narrativa, o que não deixou de chocar e perturbar os leitores seus contemporâneos. Era assim que a realidade se imiscuía nos poemas épicos, na lírica e nos romances. Enquanto romancista, certifiquei-me de que a minha prosa absorvia tanta realidade terrena quanto possível. Melhor do que qualquer oficina ou mestrado de escrita criativa, Auerbach revelou-me a história e as técnicas ao serviço desta empreitada.
Como representar a realidade?, eis a questão fulcral do seu pensamento.
Nascido no seio de uma família judaica abastada de Berlim, em 1892, Auerbach conheceria uma época violenta. Depois de estudar Direito e de se doutorar pela Universidade de Heidelberga em 1913, foi ferido ao combater nas fileiras do Exército austro-húngaro, na Primeira Guerra Mundial. De regresso a casa, foi condecorado com a Cruz de Ferro. Testemunhar a destruição do mundo levou-o a desviar os seus interesses académicos para a filologia românica. Leo Spitzer (1887−1960) tornou-se seu orientador em Marburgo, no momento em que este havia encetado a investigação para a sua tese de pós-doutoramento sobre Dante.
À época, na Alemanha, não era nada fácil aceder a um cargo de professor universitário. Auerbach era judeu e, não obstante o apoio de Spitzer, deu por si isolado. Na década de 1920, exerceu funções de bibliotecário na Biblioteca do Estado da Prússia, em Berlim, realizando trabalho de campo para esta instituição. Ao percorrer a sua obra desse período, impressionou-me até que ponto se mostrou prolífico. «A descoberta de Dante pelo romantismo» (1929) explora o modo como a Divina Comédia assinala um ponto de ruptura na tradição ocidental, na medida em que o juízo de Deus passa a manifestar-se numa dimensão «terrena» e «mundana». No seu esforço para retratar a vida objectiva, ou a realidade, Dante confere à existência um cariz eterno, fixando-a em imagens perenes: as personagens que ele próprio encontra no Paraíso, no Purgatório e no Inferno foram ali parar por escolha própria. Ainda que diga respeito ao «outro mundo», a representação que Dante fez destas esferas foi objectiva e realista.
Em 1930, Auerbach era já professor de Filologia Românica na Universidade de Marburgo. Publicou a sua tese, com o título «A técnica narrativa da novela dos alvores do Renascimento em Itália e em França», antes de dar à estampa vários outros ensaios e livros que abordam a ética e a responsabilidade, a estética da tradição judaico-cristã, e ainda os conceitos de tempo em Vico e em Hegel, entre outros temas.
Em «Figura» (escrito em 1936−37 e ainda hoje um dos textos mais apreciados pelos seus leitores), Auerbach explora o sentido de um único termo desde os textos latinos até Dante. Noutros ensaios, debate o realismo trágico, a autonomia, a ética, a descristianização, a secularização e o perspectivismo histórico. Analisa obras de Homero, Santo Agostinho, Montaigne, Pascal, Rousseau, Balzac, Stendhal, Virginia Woolf e Proust. Para entender a mentalidade de cada época, defende Auerbach, temos de mergulhar nos autores que compuseram a respectiva crónica. No seu conjunto, estas obras-primas traçariam a história espiritual do pensamento europeu. «Racine e as paixões» (1927), «Marcel Proust: O romance do tempo perdido» (1927), «A descoberta de Dante pelo romantismo» (1929), «Dante e Virgílio» (1931) e «Montaigne, o escritor» (1932) foram produtos desta época. Auerbach também proferiu uma conferência, «Vico e Herder», em Colónia, em 1931, sublinhando o papel da historicidade na literatura. A sua metodologia talvez tenha incomodado Spitzer e outros filólogos, que se mostravam mais empenhados na leitura atenta dos textos do que no método histórico por ele seguido.
Mas esta era a menor das suas preocupações. Em meados da década de 30, tornou-se cada vez mais impraticável para os eruditos judeus exercerem a sua actividade na Alemanha. As Leis de Nuremberga, em vigor desde 15 de Setembro de 1935, vedaram-lhes o exercício de todos os cargos na função pública. Tornou-se claro que Auerbach não poderia continuar a leccionar em Marburgo. No dia 16 de Outubro de 1935, foi oficialmente demitido do seu cargo. A existência de exilado iria definir a fase seguinte da sua vida, centrando-se numa cidade que nunca visitara até então: Istambul.
Para entender a mentalidade de cada época, defende Auerbach, temos de mergulhar nos autores que compuseram a respectiva crónica. No seu conjunto, estas obras-primas traçariam a história espiritual do pensamento europeu.
Nos meus passeios a pé junto ao estreito do Bósforo, não raro visito Arslanlı Konak («A Mansão dos Leões»), no bairro de Bebek, o lar de Auerbach durante onze anos. Eis a minha maneira de prestar homenagem ao meu estudioso da literatura preferido.
Quando, em 1933, foi expulso da Alemanha devido à sua origem judaica, viu também o seu orientador, Leo Spitzer, mudar-se para Istambul. Passou três anos nesta cidade antes de rumar à Universidade Johns Hopkins, em 1936.
À semelhança do seu mentor, levou uma vida confortável em Arslanlı Konak. À época, a jovem República Turca tratava generosamente os académicos estrangeiros, e Auerbach era uma figura venerada entre os literatos do país. Alguns destes talvez invejassem as condições de vida dos exilados: o governo turco pagava menos de 200 liras por mês aos professores universitários, ao passo que os eruditos estrangeiros recebiam um valor quase quatro vezes superior.
O nome Arslanlı Konak surge numa carta que Auerbach escreveu ao seu amigo Walter Benjamin, datada de 3 de Janeiro de 1937. «Para já, estou a sair-me bem por aqui», comentou ele. «O apartamento junto ao Bósforo é magnífico.» Por outro lado, o trabalho académico na Universidade de Istambul era «bastante primitivo, do ponto de vista científico, mas, em termos humanos, políticos e organizativos, extremamente interessante».
O que é que Auerbach achou de Istambul? Descreveu-a como «uma cidade que, apesar da localização maravilhosa, se revela pouco convidativa e da qual é difícil de gostar, composta por duas partes distintas: a velha Istambul, de origem grega e turca, que ainda conserva grande parte da pátina da sua paisagem histórica, e a “nova” Pera, caricatura e aperfeiçoamento de uma urbe europeia oitocentista, agora na mais completa decadência».

Com o seu olhar arguto, diagnosticou em seguida uma tendência nacional para destruir os traços característicos da cidade em nome da modernização. O retrato que faz de Istambul no meio de um projecto de modernização brutal não deixa de ser impressionante aos olhos de hoje: «Judeus, gregos, arménios, todas as línguas, uma vida social grotesca, e os palácios das antigas embaixadas europeias, agora consulados. Desde o século XIX, surgiram também palácios de sultões e paxás à beira do Bósforo, uns delapidados, outros a cair aos pedaços, outros ainda conservados como museus, num estilo a meio caminho entre o oriental e o rococó.»
À parte isto, notou Auerbach, o país era «governado de modo sistemático e rigoroso» por Atatürk e pelos seus «turcos da Anatólia», «uma gente ingénua, desconfiada, honesta, um pouco desajeitada e rústica, homens fáceis de contentar e cheios de vitalidade, habituados à escravidão e ao trabalho árduo, mas vagaroso».
A visão um tudo-nada desconfiada de Auerbach a respeito do jovem Estado turco, que lhe ofereceu refúgio, tinha raízes na natureza nacionalista do regime. Reşit Galip, o ministro da Educação à época, enquadrara o acolhimento de académicos judeus na Turquia de modo condescendente, como um acto de benevolência. Os turcos, notou Galip, tinham cometido um erro crasso ao não «impedirem» a fuga dos sábios bizantinos de Istambul para Itália, quinhentos anos antes, quando Maomé II conquistara a cidade. O resultado desta ignorância fora o atraso do país: os sábios bizantinos haviam desencadeado o Renascimento em Itália, no século XIV, enquanto os turcos ficariam a marcar passo em relação ao Ocidente desde então.
Auerbach queria que os intelectuais na Alemanha, em Itália e na Rússia compreendessem os problemas gerados pela europeização da Turquia. «A reforma linguística, a um tempo criando uma língua turca fantasticamente original (livrando-a de influências árabes e persas) e introduzindo na sociedade elementos modernos e tecnológicos, teve como resultado o facto de ninguém com menos de vinte e cinco anos ser capaz de entender qualquer texto religioso, literário ou filosófico com mais de dez anos, e ainda a rápida erosão do carácter distintivo da língua, sob os constrangimentos da escrita com caracteres latinos, introduzida à força há uns anos», escreveu. Esta análise não podia ser mais certeira: quando os políticos lidam com a cultura, fazem-no às três pancadas, destruindo e explorando patrimónios culturais em seu proveito. Do mesmo modo, na Turquia dos nossos dias, o governo autocrático de Recep Erdogan tenta formatar a cultura em sintonia com as suas convicções, vendo no património cultural heterodoxo de Istambul um obstáculo ao seu programa ideológico.
A visão um tudo-nada desconfiada de Auerbach a respeito do jovem Estado turco, que lhe ofereceu refúgio, tinha raízes na natureza nacionalista do regime.
Auerbach concebeu e escreveu Mimesis na atmosfera agreste dos anos da guerra. O livro colhe o título do termo μίμησις, do grego antigo, que deriva de μιμεῖσθαι (imitar), que, por sua vez, provém de μῖμος (actor). Imitar a verdade e a beleza eram gestos vitais para os gregos. Auerbach ilustrou a história da mimesis comparando as representações da realidade na Bíblia e na Odisseia, de Homero. Em parte concebida como reacção à desintegração da Europa, esta obra erudita e monumental baseia-se na leitura atenta dos clássicos da literatura do Ocidente até Rumo ao Farol, de Virginia Woolf.
Começou a trabalhar em Mimesis longe da sua biblioteca e dos seus colegas. A biblioteca de um mosteiro dominicano, em Pera, albergando centenas de textos gregos e latinos, veio em seu auxílio. O cardeal Angelo Roncalli, o núncio apostólico em Istambul durante os anos da guerra, que mais tarde veio a tornar-se o Papa João XXIII, enviara uma carta autorizando-o a usar o acervo.
Quando leio «A Cicatriz de Ulisses», o famoso capítulo de abertura de Mimesis, imagino Auerbach sentado naquela biblioteca de Pera, rodeado de livros. Ele recorda aos leitores «a cena comovente e bem preparada» da Odisseia, quando Ulisses finalmente regressa a casa, e Euricleia, a velha governanta que foi a ama dele na infância, o reconhece graças a uma cicatriz na coxa.
Este pormenor, escreve, foi «escrupulosamente verbalizado e narrado com todos os vagares». O trecho em torno da cicatriz interrompe a narrativa a respeito de Ulisses e contém em si as sementes do realismo ocidental. «Aquilo que primeiro ocorre a um leitor moderno — que se trata de um artifício para aumentar a expectativa — revela-se, se não totalmente errado, pelo menos incapaz de abarcar a explicação essencial deste recurso homérico», nota Auerbach. «Aquilo que ele narra é, naquele momento, o único presente, e preenche por completo tanto o palco como o espírito do leitor.» (Goethe e Schiller mostraram-se impressionados por este «elemento retardador» na Odisseia, e debateram-no na sua correspondência, em 1797.)
Noutro trecho de Mimesis, Auerbach analisa a prosa da idade de ouro romana, em que «há uma tendência predominante para comunicar as questões comezinhas de modo sucinto, se possível limitando-se a sugeri-las em termos muito genéricos, fazendo-lhes meras alusões, mantendo uma distância em relação a elas». Estabelece o contraste entre os textos tradicionais da prosa romana e uma cena de Gregório de Tours, que «nenhum historiador da Antiguidade teria considerado digna de referência». Gregório de Tours escreve assim porque «a própria natureza explícita» da cena o incita a representá-la. Aquilo que caracteriza o seu estilo é um «redespertar do directamente sensível».
Começou a trabalhar em Mimesis longe da sua biblioteca e dos seus colegas. A biblioteca de um mosteiro dominicano, em Pera, albergando centenas de textos gregos e latinos, veio em seu auxílio.
Um tal redespertar ia ao arrepio da rigidez em matéria de estilo e de abordagem dos conteúdos da Antiguidade tardia. Para Auerbach, estes pontos de fricção prolongaram-se durante toda a história da literatura. Por um lado, havia obras «pesadas, artificiais, desprovidas de fluidez» pelo uso excessivo de artifícios retóricos. Havia outras cujo texto diluía essa rigidez.
Enquanto trabalhava no meu romance de autoficção, as palavras de Auerbach acompanharam-me. Como é que eu podia levar a cabo um redespertar análogo da realidade sensorial com as minhas próprias palavras? Como é que podia criar uma textura «descontraída, hábil, dotada de uma rima elástica» que «se adapta sem esforço a qualquer tema e a qualquer nível de emoção ou pensamento»? Sim, escrever deste modo iria contra o «estilo elevado» da nossa época literária, mas o fito era precisamente esse. Nas palavras de Auerbach, esta nova perspectiva exigia «a coragem de uma criança».
Nos últimos anos da sua permanência na Turquia, Auerbach passou um mau bocado por causa da vigilância dos alemães. Em finais da década de 30, certas franjas do governo turco advogavam uma aliança com a Alemanha nazi, incitando Ancara a adoptar as políticas do Terceiro Reich. Na Universidade de Istambul, viu-se rodeado por elementos nazis, incluindo Henning Brinkmann, um nacional-socialista declarado, que fora introduzido na academia turca com o objectivo de inclinar o debate. À medida que os alemães tentavam extirpar os «simpatizantes comunistas» das faculdades, os eruditos judeus viam-se cada vez mais encurralados. Estes esforços fascizantes tiveram êxito na Universidade de Ancara, mas os esquerdistas revelaram-se mais fortes na Universidade de Istambul, a minha alma mater.
Seis décadas depois de Auerbach ter abandonado Istambul, completei o meu doutoramento no departamento de Literatura Inglesa da Universidade de Istambul (o primeiro do género na Turquia), por ele fundado durante a sua estada nesta cidade. Continua a ser para mim um modelo e um mestre. De vez em quando, deambulo a pé junto ao Bósforo e imagino-me a captar de modo explícito a natureza mundana do que me rodeia, sem recurso a um estilo elevado. Sonho escrever com a tal coragem de uma criança que Auerbach referiu no seu livro, que transporta para sempre o espírito da minha cidade.




