Criação, artistas, inteligência artificial: a obra não é o problema

Se a obra é esta que diz tudo e basta-se por si só, por que o ultraje ante uma arte produzida por algoritmos? A resposta, no fundo, é uma homenagem ao espírito humano.

O gracejo que se costuma exclamar, faltando-se mais ou menos com a verdade, diante de algumas das manifestações artísticas mais recentes — isto, com uma mão só eu o pintaria!, ou: uma criança, qualquer criança, escreveria algo assim… —, ampliou-se hoje a horizontes mais tecnológicos. Já não suspeitamos de crianças ou incapacitados produzindo arte, mas de que venha de algoritmos, de prompts ou de outras palavras que, se soam misteriosas, não o fazem em razão daquele mistério que confere algo de poesia ao que elas comunicam.

Os artistas se desconcertam: é de sua natureza. Antes, quando comparados a produtores de rabiscos infantis, de balbucios ou sons simplórios, poderiam se sentir incompreendidos, despeitados ou, se com alguma vaidade, superiores. Mas, agora, diante do que as inteligências artificiais podem fazer, como se defenderão? Porventura se pavonearão dizendo: Para que se reproduza o que faço, apenas uma máquina? Não é o que demonstramos nós, os artistas, diante dos desafios que se nos foram impostos ao longo da história: antes, sentimos nossa autenticidade ferida, experimentamos que qualquer coisa saiu de ordem, que fomos roubados.

As coisas, porém, são o que são. O fazer artístico, esse poiein que sempre foi para nós o desafio da arte, seu gargalo, continua a ser o desafio, o prazer e a dor de nosso ofício, mas já não será o grande diferencial: qualquer técnica, sabemos, é facilmente replicável, e em segundos; a ideia criadora, a visão primeira que sempre deu norte à produção, já bastaria para que um artesão-artista canhestro, falto, chegasse aonde só um artesão-artista de excelência poderia ancorar alguns anos atrás. Há os que insistem em que a técnica da obra de arte de excelência é quiçá inatingível, mas hoje já se pode vislumbrar que esse inatingível só o será por pouco tempo. Quem apostaria algo de valor, hoje e com alguma sinceridade, para defender que jamais será possível chegar ao nível de um Camões, um Pergolesi, um Rembrandt, um Robert Bresson, a partir de algumas instruções digitadas numa tela? Qualquer um que venha experimentando com essas ferramentas atualmente onipresentes saberá respondê-lo de forma inequívoca. Falta pouquíssimo. Ou talvez nem falte nada mais.

Chegarei já a um nosso momento mais luminoso, mas antes gostaria de recordar o momento luminoso de Ungaretti, os dois versos refulgentes que são os primeiros que vêm à cabeça de quem pensa no poeta italiano: 

Mattina

M’illumino

d’immenso.

Ou, ainda, estes dois outros seus, de mesma lapidação e concisão:

Eterno

Tra un fiore colto e l’altro donato

l’inesprimibile nulla

Não é mais possível dizer que os tais prompts ou algoritmos seriam incapazes de lograr um laconismo assim repleto de significado, ou mesmo de ritmo; não é possível dizer que um homem ou uma mulher dotado de certos critérios (a luz, o silêncio, o emprego da delicadeza natural, a linguagem entre a mística e a religiosa…) precisaria da destreza necessária a Ungaretti para chegar ao seu resultado: bastaria digitar seus critérios uma, duas, três vezes, solicitando isto ou aquilo para que os primeiros resultados se adequassem ainda mais à ideia-mestra, e a máquina em algum momento nos revelaria algo de todo satisfatório.  

A Scholar by Candlelight, c. 1628–1629. Atribuída a Rembrandt van Rijn. Coleção Bader, Agnes Etherington Art Centre, Queen’s University.

Naturalmente, os dois poemas que tomo por exemplo poderiam muito bem ser uma Gymnopedie ou uma Gnosienne de Satie; os três ou quatro acordes de um Dylan ou de um Robert Johnson, com sua linguagem de profetas exilados; as melancolias de um Hopper ou um Pissarro; um enquadramento de Cartier-Bresson ou André Kertesz… E sabemos muito bem disso também diante das notícias que já não cessam de se renovar: os rankings de músicas mais tocadas, tão repletas de artistas-fantasmas, de músicas cuja produção não passou de certas ideias traduzidas para o formulário de uma plataforma… E, como agravante, elas materialmente são o que seriam caso os artistas não fossem fantasmas, caso as respectivas produções viessem de certas ideias traduzidas pelo manejo de um instrumento.

E então chegamos aqui, a um desconcerto diante da obra e do artista. Vejamos: porque, embora a materialidade seja a mesma, embora sejam os mesmos os sons, as cores, os enquadramentos e as palavras, revolta-nos descobrir que a produção tenha nascido do artista-fantasma e nos seja vendida como obra artística. Esvai-se a aura — a tão célebre aura de Benjamin. Sentimo-nos de alguma forma enganados, ultrajados. Mas… aparentemente sem razão: temos a obra! De onde isso, pois?

Aos artistas e acadêmicos da minha geração que talvez tenham frequentado os departamentos de teoria literária deste país, isso causará algum estranhamento, pois o lugar-comum a circular pelos corredores universitários sempre foi aquele que defendia a separação radical entre autor e obra. O autor estaria sempre morto e nos restaria a obra e só: ela, autossuficiente, completa, a única a quem caberia qualquer palavra definitiva, qualquer resposta. E isso, deve-se reconhecer, todo leitor ou espectador sensato sabe mesmo hoje. Apenas as ideologias mais desordenadas permitiriam que se jogassem as obras de um Céline ou Nabokov no lixo à luz de sua biografia, ou que se rasgassem as telas de um Caravaggio ou Gauguin, ou que fosse relegado ao silêncio um Gesualdo. 

No entanto, a pergunta perdura e se agrava: se a obra é esta que diz tudo e basta-se por si só — e é preciso defender esta ideia diante dos ideólogos que andam por aí a anular quem lhes cruze o caminho —, por que o ultraje ante uma arte produzida por algoritmos? Que diferença?

Cá no meu coração, sei que a resposta é uma homenagem ao espírito humano. Explico-me, voltando ao conterrâneo de minha mãe: que os dois poemas concisos, com seus dois versos lapidares que poderiam ser de máquina, tenham vindo de um Ungaretti, um homem, e homem que rabiscava pedaços de papel quando na trincheira de uma guerra… É isto. Havia ali um homem; e o fato de um homem ter produzido seus versos me diz muito sobre minha humanidade e sua capacidade criadora. Tomássemos os outros que citei e diríamos o mesmo: um Satie, ou um Pissarro, ou um Hopper, ou um Dylan, um Kértesz ou Bresson… A obra de arte é um caminho à transcendência, sim, mas que passa por essa união de carne, osso, sangue e alma e, por isso, revela a vocação desta união à grandeza: revela o pó a que se insuflou o vento da semelhança divina. A obra de arte é um tributo ao ser humano — ainda que aponte para além dele, ainda que revele a luminosidade da beleza e do céu. E isso, sim, lança uma sombra à materialidade do poema, da tela, da peça: é a sombra da presença do artista, de um espírito criador. E, se uma mesma obra, materialmente idêntica, carecesse dessa sombra, tanto menos a apreciaríamos. E, por isso, a revolta. Nesta obra sem sombra não há gênio.

A definição mais bela da criação literária é aquela do esquecido Charles du Bos: “[…] e a literatura, para além de outros elementos seus, não é outra coisa senão essa vida tomando consciência de si própria, quando na alma de um homem de gênio decorre a par com uma plenitude de expressão.” É preciso, portanto, uma alma. É da alma que gostamos. De descobri-la palpável, como é palpável num mínimo átomo da criação o esforço de um criador.


Doutor em Teoria Literária, Hugo Langone é poeta, editor e ensaísta. Leia aqui alguns de seus poemas mais recentes.

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