A ação de estender a mão ao próximo é uma das maiores conquistas civilizatórias. Ela pode manifestar-se de diferentes formas: tanto como uma ação efetiva diante do perigo, da doença, da fragilidade ou da necessidade, quanto como um conselho ou gesto de amparo em situações menos evidentes. Alguém passa por um apuro do qual não consegue dar conta sozinho, e eis que ajuda alheia aparece como uma salvação. Subjaz a essa dinâmica a compreensão de que o outro precisa de algo que podemos suprir.
Sem essa disposição, a sobrevivência da espécie humana talvez tivesse sido inviável. Incontáveis situações, até mesmo de vida ou morte, só foram solucionadas graças à presença de alguém disposto a ajudar, amparar ou socorrer. É precisamente dessa inclinação que nasce toda ação cuidadora — algo determinante para uma espécie que nasce “prematura” e vulnerável.
Há situações, no entanto, em que a generosidade deve ser rechaçada, seja por quem é alvo dela, seja por terceiros que possam intervir. À primeira vista, isso parece contraditório. Por mais individualistas que sejamos, em ato ou concepção, parece absurdo abandonar alguém em perigo, assim como recusar uma ação benevolente que nos é ofertada. Surge, então, um conjunto incontornável de questões: haveria limites para o ato de estender a mão ao próximo? Se existem, por que razão deveriam ser estabelecidos? Devemos recusar algum bem que nos é oferecido? A serviço do quê deveríamos limitar a generosidade dos homens?

Na Ética a Nicômaco, há uma contribuição precisa de Aristóteles sobre a ação moral que pode nos ajudar nesta reflexão. O filósofo estava preocupado não apenas em explicar o mundo, mas também em compreender como realizamos nossas ações. Em sua observação, ele percebeu que os objetos do conhecimento podem ser divididos em dois tipos.
Existem aqueles que são invariáveis, que não mudam com o tempo, como os princípios investigados pela metafísica ou as operações matemáticas. Por outro lado, há os objetos variáveis, que podem ser de um modo ou de outro, e que a tradição posterior chamou de contingentes. O conhecimento dos primeiros difere profundamente daquele exigido pelos segundos, que demandam um modo próprio de investigação e de resolução de problemas práticos: como construir uma casa? Como pintar um quadro? Como agir diante do perigo?
Para compreender as qualidades distintas desses objetos, segundo Aristóteles, nos valemos de duas “partes” de nossa alma racional: a razão pode se voltar para os objetos invariáveis, e conhecê-los cientificamente, por meio de demonstrações; mas nossa razão também realiza outra operação, que Aristóteles chama de calculadora, que é nossa capacidade para a deliberação, que se aplica aos objetos variáveis. Em outras palavras, a solução de um problema matemático não varia, ao passo que os modos de construir uma casa são os mais diversos possíveis.
Mas os objetos do mundo não se dividem somente em variáveis e invariáveis; eles também se distinguem por suas naturezas (artísticos, científicos ou morais). Saber como agir em determinada situação social é um problema diferente de categorizar as plantas; compreender o problema do tempo é algo bem distinto de construir um anfiteatro. Dessa forma, Aristóteles apresentou as virtudes intelectuais que caracterizam os modos de conhecimento (como a arte, a ciência e a prudência), distinguindo-as das virtudes morais ou éticas, como a coragem e a generosidade.
Os objetos ligados à moral e à arte são contingentes e variáveis: como agir numa determinada situação e como pintar um quadro permitem as mais distintas resoluções, todas sujeitas à deliberação. Para manipular esses objetos, a mente encontra diferentes possibilidades: ela pode agir sobre o objeto (modalidade prática) ou criar sobre ele (modalidade poética). As modalidades poéticas criam algo além do próprio ato — como a arte —, enquanto as modalidades práticas dizem respeito à ação em si, como a moral. Esta distinção é bastante importante para compreender como Aristóteles pensava a moral. Por quê?

A mais valiosa distinção que Aristóteles faz desses modos de conhecimento reside na fonte (início) e no objetivo (fim) de cada um deles. O filósofo percebeu que a arte busca sua fonte e seu objetivo em lugares externos ao sujeito, enquanto a moral não.
Tomemos a construção de uma casa. Trata-se de uma operação mental poética (porque cria) e deliberativa (pois envolve escolha). A fonte dessa arte é um desenho ou projeto; seu objetivo final é uma casa real construída; e o meio para isso é a construção. Assim, início, meio e fim na arte são atividades e objetos distintos e externos ao artífice.
Agora, olhemos para a moral. A ação moral é prática (porque consiste em agir) e deliberativa (porque envolve escolha diante de uma situação variável). Imaginemos um homem que vê duas pessoas em perigo diante de um animal feroz. Sabemos que não intervir consistiria num erro moral, mas o modo exato como ele deve intervir — seja enfrentando o animal, seja abraçando os desprotegidos — é contingente. O que é necessário para que ele aja moralmente é que ele intervenha.
Nesse cenário, o princípio (a fonte) da ação moral é o próprio agente, e não o ato em si. A peculiaridade da ação moral é que ela se esgota nela mesma; seu fim (o objetivo visado) é a própria ação virtuosa realizada de forma excelente, e não algo externo a ela. Enquanto na arte o homem busca objetos alheios a si (o projeto ou a casa construída), na moral a ação vale por si mesma. Numa ação genuinamente moral, não há interesse externo; ela encerra o objetivo de sua prática em si mesma, caracterizando o que se pode chamar de uma ação desinteressada.
Quando um homem age de forma aparentemente moral, mas com um objetivo externo, ele desvirtua a deliberação, utilizando-a de forma puramente técnica. Ele se torna um “técnico moral”. Sua ação não é virtuosa, mas interessada e desviada. O exemplo mais simples é o do homem que ajuda o outro apenas porque espera ser retribuído, utilizando a circunstância moral de forma calculada para alcançar uma vantagem futura. Toda ação que possui um fim externo a si mesma utiliza a deliberação de forma viciada, pois não está centrada na excelência da ação, mas nos interesses ocultos que o agente espera atingir.

Tomemos o exemplo da generosidade. Por óbvio, quando alguém é alvo da generosidade alheia, sente-se grato. É razoável supor que o beneficiado não agirá com indiferença ou hostilidade. Numa relação saudável, a generosidade amplia a gratidão mútua. Porém, essa mesma ação generosa pode facilmente degenerar em vício em três níveis. O primeiro nível consiste em usar a generosidade apenas para evitar a hostilidade alheia — o que, embora compreensível, já desvia o objetivo puro da ação; o segundo nível ocorre quando a gratidão do outro passa a ser o alvo principal, ou seja, age-se esperando o reconhecimento e a retribuição; e o terceiro nível, mais profundo, se dá quando a ação generosa busca endividar o outro simbolicamente, pavimentando o caminho para uma cobrança posterior.
Essa generosidade interessada é, no fundo, uma forma tortuosa de lidar com o próprio desamparo e com o medo do abandono: é uma tentativa de garantir, de forma forçada, que alguém lhe acudirá no futuro. O generoso desviante recorre a estratagemas sutis para reafirmar a dívida do outro: ora enfatiza como a ajuda foi imprescindível, ora ressalta o quanto ela lhe custou em esforço, renúncia ou sacrifício.
No fim das contas, esse indivíduo não auxilia verdadeiramente o próximo; transforma-o em alguém permanentemente endividado. Trata-se de um servilismo velado do qual a pessoa ajudada padece sem notar. Ao menor sinal de independência do beneficiado, a aparente generosidade transmuta-se imediatamente em mágoa e cobrança.
O generoso interessado incorre, assim, no equívoco de supor que lhe cabe tutorar a vida do outro. Para que uma pessoa desenvolva sua autonomia, é necessário que ela mesma perceba o que lhe falta e busque os meios para suprir suas carências. Uma ação efetivamente generosa orienta-se pelo cuidado autêntico e, justamente por isso, favorece a independência do próximo. Sob a ótica de Aristóteles, uma ação motivada por interesses externos ou pelo desejo de controle jamais poderia ser considerada verdadeiramente generosa; restaria apenas como um vício disfarçado de virtude.

Acompanhe a série de ensaios do psicanalista Felipe Pimentel
Do ressentimento à inveja, passando pelo ciúme e pela covardia, esta série aborda as diferentes faces do Mal não por conceituações psicológicas, mas por meio de manifestações da arte e do pensamento, sempre tão precisas na sua capacidade de ilustrar os dramas humanos.




