A Arte da Conversação

Jean François de Troy. “Leitura em um Salão”, 1728.

por Laura Ferrazza

Há quem pense que iniciar um diálogo, puxar uma conversa com um estranho no elevador ou colocar o papo em dia com os amigos num café sejam atitudes naturais – embora, em tempos de realidade virtual, às vezes tenha-se a impressão de que o ato da conversa presencial esteja se perdendo. É encantador pensar que na França dos séculos XVII e XVIII tratados filosóficos foram escritos sobre a “Arte da Conversação”. Para aquela sociedade de corte, conversar não era algo que se faz de forma leviana, mas uma arte que aprender e cultivar.

No final do século XVII, começaram a acontecer as chamadas fêtes galantes. Eram reuniões entre pessoas da elite, mas que contavam também com a presença de atores de teatro, músicos e intelectuais. Esses encontros aconteciam, geralmente, em casas de campo nos arredores de Paris.  O termo fête galante foi usado também na história da arte para definir o tema das pinturas que retratavam o clima dessas festas. O ponto alto das reuniões galantes era o ato de conversar coletivamente ou em pares.

Nessa época, mulheres e homens da nobreza estavam envolvidos em atividades novas e importantes, que mudaram a sociedade. Eram chamados, respectivamente, Preciosas e Libertinos. Ambos lutaram pela liberdade de pensamento, principalmente contra a Igreja, e contribuíram de maneiras diferentes, mas complementares, para preparar os Salões do século XVIII. A Preciosa destacou-se pela arte da conversação e pela invenção da psicologia amorosa, sendo uma antecessora da coquete. O Libertino, por sua vez, por conta de um ideário centrado no desejo – e no desejo sexual em particular –, investia contra a religião de Estado, que considerava conter uma moral sufocante.

As Preciosas demonstravam grande virtuosismo no manuseio da linguagem e na escolha correta das palavras, sendo expertas nas chamadas “palavras de espírito”.  A tensão sexual entre os dois grupos era sempre velada, exprimindo-se na conversa espirituosa, que jamais deveria cair na vulgaridade. Havia determinadas regras, que todos supostamente deveriam conhecer, para o desenvolvimento de uma conversa. Entre elas, o refinamento na escolha das palavras e a reflexão sobre seu prolongamento dentro do diálogo.

O século XVIII levará ainda mais longe a importância da “arte da conversação”. Nessa época, funda-se um novo espaço, o Salão, no qual a conversa ocupa também o centro das relações sociais. Os Salões eram reuniões que ocorriam nas residências nobres da cidade de Paris, organizadas pela dona da casa. Alguns historiadores chegaram a designar o século XVIII como “o século das mulheres” – e foi sem dúvida nos Salões que o reinado delas se desenrolou. Foi nesses espaços que as grandes damas receberam, durante décadas, os filósofos e os escritores das Luzes – ou seja, os portadores das novas ideias.

Pela importância dada à arte da conversação, essas mulheres foram estimuladas à leitura, que lhes permitia uma mais ampla troca de ideias durante os encontros sociais. A sedução através das palavras das damas incitava ao desejo tanto dos corpos quanto do espírito; e a forma de agir de uma anfitriã de salão era regida por regras específicas. Ela deveria dar o tom da conversa, destacar o mérito sem ênfase e sem enfado, responder a um elogio sem desdenhá-lo nem aceitá-lo. A anfitriã valorizava os convivas sem parecer protegê-los. Entrava e fazia entrarem os seus convidados com mil sutilezas de palavras e de ações. Não deixava jamais uma discussão virar uma disputa e levava tudo com muita leveza. As damas dos salões dominaram a sociedade francesa de seu tempo e demonstraram um espírito crítico e desafiador: protegeram as primeiras expressões de uma liberdade de pensamento que, em certa medida, elas próprias suscitaram. A existência dos Salões foi inicialmente inspirada pelo avanço na vida intelectual das mulheres e também contribuiu para que essa mesma vida se ampliasse.

Os Salões, assim como as fêtes galantes, ofereciam uma oportunidade de associação entre os dois sexos; o objetivo desses encontros era que cada um se distinguisse pela perfeição das maneiras, pela delicadeza da amabilidade, pelos bons modos, pela arte dos olhares e das complacências, pelo saber viver, por todas as buscas e os refinamentos do espírito da sociedade. Em qualquer um destes espaços, encontravam-se novas ideias. As mulheres da alta nobreza vão receber, em suas casas, pessoas que, pela primeira vez, serão admitidas não por seus títulos ou por suas qualidades nobiliárias, mas por seu valor pessoal, intelectual ou artístico.

Várias das cenas galantes pintadas por diferentes artistas desse período, como Antoine Watteau, François Boucher, Jean François de Troy, retratam esses encontros sociais. Nelas, percebemos que os personagens, normalmente divididos em casais ou grupos, estabelecem a ação única de conversar. Sabemos agora a importância de possuir tal atitude durante o século XVIII. Graças a essa “arte da conversação”, por meio da qual um sexo tenta agradar o outro, se abrem as premissas de uma nova maneira de conviver, logo percebida pelos estrangeiros como a marca de uma especificidade francesa.

O Salão era como um pequeno cosmos dominado pela mulher que o dirigia. Era com muito cuidado que ela escolhia a decoração. Para as suas donas, o Salão representava um meio inteligente de afrontar os tempos em que viviam. Elas conheciam com perfeição a “arte da conversação” e as maneiras refinadas e faziam da vida parisiense um auge de civilidade, atraindo a atenção de toda a Europa. É nesses espaços que surgiam tanto as frivolidades da moda quanto a profundidade das ideias.

Esses encontros tinham data e hora certos para acontecer, normalmente um dia fixo da semana, para que, nos outros, houvesse a oportunidade de se realizar evento semelhante em outras casas. Os grupos eram normalmente compostos pelas mesmas pessoas, mas devia sempre haver alguma variação entre os convidados para não se cair na mesmice. Elementos contraditórios compunham o prazer desses encontros: a familiaridade criada pelo hábito, o conhecimento de uns e de outros, a necessidade da surpresa com visitantes novos. A novidade podia ser um diplomata estrangeiro ou um viajante célebre; de toda forma, quem fosse introduzido em um Salão deveria provar as suas qualidades de homem do mundo: saber falar, ter espírito (ser espirituoso) e demonstrar maneiras galantes.

Entre as regras da “arte da conversação”, estava a noção de que a conversa deveria ser espirituosa e nunca enfadonha e, para tanto, era necessário não tomar a palavra por muito tempo. O diálogo necessitava ser breve e fluido, permitindo ao outro colocar suas ideias e reflexões acerca do que acabou de ser dito. Esse jogo de palavras compunha uma ironia fina e não dispensava um certo escárnio refinado. Homens e mulheres haviam descoberto novas formas de prazer social ou de divertimento intelectual através dessas trocas intensas, nas quais se conversa com espírito e também com paixão; o diálogo deveria conter qualquer coisa de infinitamente estimulante para o interesse e para a curiosidade, criando aquilo que a filósofa Chantal Thomas chama alegremente de “o espírito da conversação”. Ela afirma que atualmente somos estranhos a esses ritos “porque eles implicam uma audiência que possui um tempo suficientemente livre para que se possa dispensar tanta energia na única atividade de troca verbal. Há qualquer coisa de fantástico, de surreal na representação, noite após noite e horas a fio, em muitos palacetes parisienses, de um espetáculo centrado sobre a arte da conversação.

O contraste com a atualidade é evidente. Em tempos em que cada um, na reclusão de sua casa, escreve imensos monólogos para logo despejá-los nas redes sociais, parece estranha a ideia de uma conversa grupal realmente inteligente e complexa. Mesmo quando as pessoas se encontram, em geral, a conversa gira em torno de amenidades e é interrompida pelas novidades virtuais que pulsam no celular. Se um frequentador dos Salões do século XVIII fosse transportado para esse contexto certamente estaria convencido de que a “arte da conversação” chegou a um trágico fim.

Leia mais artigos de Laura Ferrazza

Laura Ferrazza

Laura Ferrazza é Doutora em História da Arte e História da Moda (PUCRS/Sorbonne). Professora/pesquisadora autônoma, ministra cursos livres.