Tarsila: “Agora, justamente, aqui, a minha prima que está cuidando dessas coisas todas, ela vai fazer também assim, naturalmente, um (como é que você vai fazer, Aracy?)”
Aracy: “O que eu vou fazer?”
Tarsila: “É”
Aracy: “Um livro sobre a sua vida, a sua obra e toda a catalogação da sua obra de pintura”
Ao final da entrevista concedida ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS), na sua residência, no dia 13 de maio de 1971, Tarsila do Amaral (1886-1973) responde a Francisco Luiz de Almeida Salles sobre o seu conhecimento acerca do destino das suas obras, dialogando com Aracy Amaral sobre a catalogação que a pesquisadora estava empreendendo naquele momento, algo que era caro à artista, pois ela sentia não saber o paradeiro das suas obras: “E a gente sente, sabe, porque a gente quer bem um quadro, depois que a gente faz uma coisa e perde, a gente sente” (Amaral, 1971).
A pesquisa de Aracy Abreu Amaral (1930) — crítica de arte, formada em jornalismo, professora da Universidade de São Paulo (USP) e parente distante de Tarsila do Amaral — iniciou-se em meados de 1966, com o incentivo de Pietro Maria Bardi, e teve como procedimento o levantamento biográfico e bibliográfico sobre Tarsila do Amaral por meio de entrevistas e consultas, tanto com a artista, em visitas semanais a ela durante três anos, quanto com colecionadores de suas obras, outros artistas e intelectuais do período.
Além disso, a pesquisadora acessou documentos em instituições como a Biblioteca Municipal Mário de Andrade, em São Paulo, o Instituto de Estudos Brasileiros da USP, a Casa Mário de Andrade, a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, a Biblioteca do Museu de Arte de São Paulo (MASP), o Arquivo do Museu de Arte Contemporânea da USP, o Acervo de O Estado de S. Paulo, entre outros.
Influência de Cendrars
Enquanto realizava essa pesquisa, Aracy Amaral encontrou materiais inéditos no acervo pessoal da artista que a levaram a postergar a publicação do livro e a escrever outro, antes, sobre Blaise Cendrars. A autora considerou que o poeta franco-suíço era figura central para a compreensão do modernismo brasileiro, tendo em vista que ele esteve no Brasil diversas vezes na década de 1920 e que estabeleceu relação de amizade com Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Foi, então, após os trabalhos Artes Plásticas na Semana de 22 e Blaise Cendrars no Brasil e os modernistas, ambos de 1970, que Aracy Amaral publicou Tarsila: sua obra e seu tempo.
“Aí no caso do modernismo, tendo feito Artes Plásticas na Semana de 22, Blaise Cendrars e os modernistas, e Tarsila (e Tarsila eu publiquei tardiamente, a edição saiu só em 75 e ela faleceu em 73). Em primeiro lugar também não era simples você encontrar uma editora para um livro tão vasto, porque eu queria colocar uma espécie de “catalogue raisonné”, um catálogo geral, não totalizado, totalizante, e ela falece em 73 (Amaral, 2017)”.
O resultado do estudo foi a tese de doutorado de Aracy Amaral, orientada por Walter Zanini (1925-2013) e defendida em 28 de dezembro de 1971, assim como a sua publicação em livro nas suas quatro edições. A primeira, de 1975, pela editora Perspectiva, apresenta a versão originalmente pretendida pela pesquisadora, a publicação de dois volumes, sendo o segundo a catalogação da obra da artista conhecida e possível de ser levantada naquele momento, não apenas de pinturas, mas de desenhos, gravuras e esculturas. Percebe-se que esse levantamento detalhado, com notas de pesquisa e informações suprimidas para a publicação, mas constantes no seu trabalho de tese, foi base para o Catálogo Raisonné Tarsila do Amaral, publicado em 2008. A esse respeito, Aracy Amaral afirma:
“Quando procedi à catalogação da obra de Tarsila em fins dos anos 60 e inícios dos anos 70, com posterior publicação no volume 2 da primeira edição de Tarsila: sua obra e seu tempo (Editora Perspectiva, 1975), tentei realizar a mais completa catalogação possível naquele momento e levar a termo, conscientemente, uma catalogação seletiva de seus desenhos. […] Após o falecimento da artista, em janeiro de 1973, contudo, ocorreu uma dispersão generalizada de anotações, decalques, estudos de ilustrações, além de uma variedade de esboços despretensiosos guardados zelosamente por Tarsila, que foram comercializados e revendidos. E é exatamente essa dispersão de desenhos e anotações o principal obstáculo à tentativa de catalogação agora empreendida, pela dificuldade de localização de sua obra gráfica (Amaral, 2008)”.

Importância de Milliet
Já a edição de 1986, com tiragem de 1.500 exemplares, foi uma edição especial com ênfase nas imagens de grande tamanho e sem a parte IV do original (correspondência e apêndice), a qual foi retomada nas edições de 2003 e 2010, revistas e ampliadas, lançadas pela Editora 34 e Edusp. Essas edições, que circulam na atualidade, apresentam a inserção de novas imagens e documentos, porém carecem da importante catalogação inicial, que é, também, um registro da coleção da artista naquele momento, especialmente no que se refere aos desenhos. Para Aracy Amaral (1975), o foco de Tarsila: sua obra e seu tempo nos anos de 1920 é a relação com o modernismo brasileiro, sendo o momento de formação da artista e a sua produção posterior a 1933 abordados, respectivamente, como introdução e epílogo. O trabalho também procurou destacar Tarsila enquanto mulher, apresentando aspectos da sua vida pessoal, como as relações de amizade e amores. No desenvolvimento da pesquisa, em 1969, a autora realizou a curadoria da exposição Tarsila: 50 anos de pintura, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) e, depois, no Museu de Arte Contemporânea da USP, com mais de 600 obras expostas. Antes dela, a retrospectiva Tarsila, 1918-1950, no Museu de Arte Moderna em São Paulo (MAM SP), apresentada por Sérgio Milliet (1898-1966), foi responsável pela retomada da artista no cenário contemporâneo.
No livro Tarsila: sua obra e seu tempo, Aracy Amaral rende lugar a Sérgio Milliet como maior estudioso da obra da artista até aquele momento. De Milliet (1950 apud Amaral, 1975) vemos que reverbera no seu trabalho a interpretação da obra de Tarsila do Amaral em três fases distintas: “pau-brasil”, “antropofagia” e “social”. Ambos os críticos de arte conviveram com Tarsila do Amaral e disseram sobre a sua obra, por meio do contato com ela, algo inalcançável para os pesquisadores na atualidade. Não apenas por isso, mas também pela qualidade e densidade do trabalho desenvolvido por Aracy, que cobre grande parte da produção de Tarsila e descortina em cada edição novas referências e documentos, Tarsila: sua obra e seu tempo é o ponto de partida e retorno para aqueles que queiram se debruçar sobre a vida e obra de Tarsila do Amaral.
“Dizer Tarsila até agora é visualizar um tipo de pintura bem intimista, bem construída, numa estilização bem casada com o colorido muito brasileiro do casario, da paisagem, dos temas da vida rural ou da cidade grande dos anos 20 em São Paulo. É relembrar a deglutição das lições do Cubismo filtradas através de uma personalidade maravilhosamente feminina, que compõe, em arranjos mágicos, atmosferas de sonho, em composições estruturadas com precisão, aliando o sonho à racionalidade, em visões sem sombra, recortadas do mundo mas fora dele, ancestrais em seu relacionamento com a terra mas profundamente atuais no registro de seu tempo (Amaral, 1975)”.
Registro ímpar
Tarsila: sua obra e seu tempo, enquanto publicação posterior ao falecimento da artista, é registro ímpar da vida e da obra de Tarsila do Amaral, assim como do tempo que a artista vivenciou, narrou e/ou confirmou para a pesquisadora. O livro está aberto a revisões críticas, frutos do tempo atual, do curso da história e crítica da arte, mas carrega em si muito de Tarsila, das informações colhidas em primeira pessoa, das obras e dos registros que pertenciam ao seu próprio acervo e da confiança da artista no trabalho da autora como forma de fazer chegar ao tempo presente, futuro de outrora, o conjunto da sua obra, hoje dispersa.
O esforço de Aracy para acessar de forma profunda Tarsila do Amaral se estende a
outros textos e exposições e permanece vivo desde a primeira edição de Tarsila: sua obra e seu tempo, neste marco dos seus 50 anos de publicação, como fortuna crítica irrevogável da artista.
Michele Petry é historiadora com pós-doutorado em História na UFSC e na Divisão de Pesquisa em Arte, Teoria e Crítica no Museu de Arte Contemporânea da USP. Doutora e mestre em Educação pela UFSC, mestre em História e graduada em Letras Francês pela mesma instituição e em História pela UDESC. Realizou período de Doutorado “Sanduíche” na École Normale Supérieure e Université Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines. Escreve e publica sobre história, arte, artistas e exposições, em especial, sobre Tarsila do Amaral.
O texto acima foi publicado originalmente na revista Humanitas (n. 188, 2025, Editora Escala).
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Referências
AMARAL, Aracy. Registros: uma experiência de recatalogação de obra. In: Catálogo Raisonné Tarsila Do Amaral. São Paulo: Base 7 Projetos Culturais: Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2008. DVD
AMARAL, Aracy A. Entrevista concedida à Ocupação Aracy Amaral, Itaú Cultural. São Paulo, mai./jun. 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/@itaucultural. Acesso em: 21 jul. 2025.
AMARAL, Aracy A. Tarsila: sua obra e seu tempo. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. v. 1. (Estudos)
AMARAL, Aracy A. Tarsila: sua obra e seu tempo. São Paulo: Perspectiva, Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. v. 2. (Estudos)
AMARAL, Aracy A. Tarsila: sua obra e seu tempo. 2. ed. São Paulo: Tenenge, 1986.
AMARAL, Aracy A. Tarsila: sua obra e seu tempo. 3. ed. São Paulo: Ed. 34; Edusp, 2003.
AMARAL, Aracy A. Tarsila: sua obra e seu tempo. 4. ed. São Paulo: Ed. 34; Edusp, 2010.
AMARAL, Tarsila. Entrevista concedida ao Museu da Imagem e do Som. São Paulo, 13 mai. 1971. Disponível em: https://acervo.mis-sp.org.br/. Acesso em: 21 jul. 2025.
MILLIET, Sérgio. Uma exposição retrospectiva. In: AMARAL, Aracy A. Tarsila: sua obra e seu tempo. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. v. 1. p. 481-484. (Estudos)




