Bello ciao, bello ciao, bello ciao, ciao, ciao

por Tiago Pavinatto

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Em 1983, em seu álbum …Pois É, Ney Matogrosso cantou, a contragosto e sob ameaça da sua gravadora, Calúnias. “Telma, eu não sou gay”, aportuguesamento da música Tell me once again gravada, em 1972, pela banda (brasileira!) Light Reflections, é considerada, por alguns, como uma canção de mau gosto, mas, por muitos outros, como uma grande ironia e até mesmo um hino dos gays enrustidos, coisa muitíssimo comum até o início deste novo milênio.

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“…Pois É”, 1983

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Pensei em nomear o presente artigo como “Telma, infelizmente sou gay” a fim de ilustrar, com alguma leveza, um assunto bastante triste e doloroso, qual seja, a infelicidade dos gays jovens e adultos nos frenéticos anos oitenta que sobreviveram à AIDS e, agora, isolam-se, dentro, idosos que são, da categoria grupo de risco, em razão da COVID-19.

Todavia, pela modernidade incomparável da centenária canção italiana, decidi intitular este texto, este relato na verdade, com o refrão de Bella Ciao. Fi-lo, contudo, trocando o sujeito feminino pelo masculino, pois o drama relatado assim demanda.

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Um querido amigo, também gay, no alto dos seus sessenta e poucos anos e profundamente deprimido, telefonou dia desses. Fez um desabafo sobre uma crudelíssima ironia do destino que merece ser conhecida por todos nós. Se me recordo bem, foram essas as suas palavras:

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“Eu que nasci, aliás, todos nós gays que nascemos até o início dos anos 70, nascemos muito mal. Viver o auge da nossa sexualidade entre os anos 80 e meados dos 90 foi um pesadelo.

Além do preconceito por sermos gays, evitávamos, às vezes entre nós mesmos pela ignorância sobre a AIDS, o contato com nossos colegas doentes. Quando o amor e a compaixão falavam mais alto, passávamos nós também, não infectados, a viver um isolamento social de fato: ao lado de um amigo ou namorado doente, restava ficar em casa curando feridas ou num hospital onde médicos e enfermeiros, na maioria das vezes, tinham receio em tocar no paciente, ou, ainda, nas ruas encarando o distanciamento (e julgamento) das pessoas… [e eis que meu querido amigo começou chorar] sem contar os incontáveis velórios… Pavinatto, você tem ideia do é enterrar um amigo? Enterrar alguém da sua idade, um verdadeiro irmão, seu companheiro de aventuras, eco das suas risadas e ombro pras suas tristezas? Inumar o amigo mais velho que foi seu suporte para aceitar e encarar a vida gay? Sepultar, ainda, aquele amigo mais novo, às vezes bem mais novo, que tínhamos como sobrinho ou filho, nosso protégée? Ainda corta meu coração. Ainda sinto a dor. Ainda choro quando vejo alguma fotografia.

E o trabalho? Era extremamente difícil um emprego formal de carteira assinada. As portas do Mercado estavam fechadas pra nós assumidos; pelos menos as ditas profissões tradicionais. Tínhamos que esconder a sexualidade (até os anos 90, ser gay era doença) e, se ficávamos realmente doentes então, era o fim em todos os sentidos.

Meu amigo, por ser homossexual assumido, vivi esse inferno por quinze anos. Vivi certo isolamento social por quinze anos. Vivi a morte por quinze anos. Vivi o risco do desemprego por quinze anos.

A História é macabra comigo… com todos os gays da minha idade.

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(Sage Sohier)

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Mas, um dia, o sol nasceu pra todos e o orgulho e a alegria de ser gay e viver a homossexualidade eram possíveis. Ironia macabra do destino, para nós sexagenários, septuagenários (se é que existam muitos), esse sol, essa alegria não durou vinte e cinco anos.

Nessa pandemia do coronavírus, somos grupo de risco. Mais uma vez, estamos isolados e, como a maioria de nós nunca se casou ou teve filhos, sozinhos. Voltamos a encarar o distanciamento de segurança, voltamos ao luto (sem possibilidade de velório), voltamos ao risco de não encontrar cuidados médicos e morrer indignamente, voltamos ao medo da miséria, pois a maioria de nossa geração é autônoma. Enfim, voltamos ao medo absoluto… inclusive ao medo do sexo com a desconfiança (e prudência) de que um pode infectar o outro.

Esse desabafo, meu amigo, é porque, hoje, perdi um amigo. Ele sobreviveu ao HIV, mas sucumbiu à COVID-19.

Nós gays de sessenta anos ou mais somos os Jós da modernidade.

Meus poemas prediletos eram do Bandeira, do Drummond e do Quintana. Poemas coloridos, poemas reconfortantes, cheios de afeto. Infelizmente, são somente os poemas preferidos. O poema de nossas vidas, que o destino tornou icônico, é de Castro Alves:

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‘Quem são estes desgraçados

Que não encontram em vós

Mais que o rir calmo da turba

Que excita a fúria do algoz?

Quem são?’”

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E, pela primeira vez depois de um longo tempo, chorei.

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David e Eric, Boston, Massachusetts, 1986 (Sage Sohier)

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Tiago Pavinatto

Tiago Pavinatto é advogado. Graduado, Mestre e Doutor pela Faculdade de Direito da USP do Largo São Francisco. Coordenador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo (PUC-SP). Autor de “A Condição do Fanático Religioso”.