Luís de Camões, um clássico de todos os tempos

por Rita Marnoto

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A forma como Luís de Camões recebe a tradição literária do seu tempo, para com ela e através dela dizer o novo, faz dele um dos maiores poetas de sempre. Este facto é tanto mais extraordinário, tratando-se de um escritor inserido no grande sistema do Classicismo. Na verdade, a prática literária do Classicismo encontra-se vinculada a uma série de normas, consagradas por tratados de poética específicos, que elegem como modelo um conjunto de textos e autores seleccionados, aos quais é atribuído um valor supremo. Devem ser seguidos e imitados, no objectivo de atingir um perfeito equilíbrio formal e semântico. Ora, é a partir dessa tradição, na qual se insere, que Camões constrói o novo.

A sua obra espelha um conhecimento assombroso dos grandes autores da literatura antiga, dos teólogos medievais, da literatura portuguesa e de outras literaturas ibéricas, bem como dos humanistas e dos grandes autores do Renascimento italiano. À profundidade com que domina este vastíssimo território do saber, Camões associa uma agilidade e uma subtileza que lhe permitem penetrar nos seus mais recônditos enclaves. Distingue-o, sobrelevando-o em relação à literatura do seu tempo, a forma como interroga essa mesma tradição do Classicismo, identificando e indagando com precisão e fineza os seus pontos de sutura, para criar um universo poético desassossegado e desviante, assente na busca de um outro equilíbrio: sempre em vias de ser alcançado, mas sempre diferido. A intensidade de uma procura tão determinada quanto inquieta faz dele um dos grandes poetas da modernidade, que por isso continua a viver entre nós, como acontece com os clássicos.

A esse propósito, Helder Macedo escreve:

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Luís de Camões viveu num mundo em transição. A peregrinação existencial gravada na sua poesia é uma procura de algo como que de indefinível, e tão revolucionariamente moderno como o é a perseguição da felicidade na terra. (Luís de Camões. A global poet for today, ed. by Helder Macedo & Thomas Earle, Lisboa, Lisbon Poets & Co., 2019, p. 11.)

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Camões habitou um século de descobertas extraordinárias e de mudanças essenciais para o curso da história da humanidade. A exploração dos meandros do homem moderno, das suas fraquezas e do seu heroísmo, que o poeta leva a cabo a partir das declinações do Classicismo, não pode ser verdadeiramente compreendida à margem das grandes explorações que desvendaram novas regiões do globo e populações cuja existência até então se ignorava. Se as profundas transformações em acto, sejam elas de ordem antropológica, religiosa ou geográfica, conduziram à renovação da cosmovisão de toda uma época, foram as viagens oceânicas a mostrar, de forma pioneira, a sua dimensão global.

Uma experiência de excepção para o tempo em que viveu levou o poeta pelas rotas marítimas do Império. Percorreu a costa de África, viveu longos anos na Ásia e no regresso estanciou em Moçambique. Mas a geografia dos seus itinerários foi também linguístico-literária. Os caminhos que trilhou coincidem com os descritos, de então até hoje, pela língua que cultivou de modo exímio, a língua portuguesa.

A sua obra mereceu um apreço imediato, mas um dos primeiros autores estrangeiros a tributar a sua admiração a Vasco da Gama e ao poema épico Os Lusíadas foi Torquato Tasso, no soneto Vasco, le cui felici, ardite antenne. Escassos anos volvidos, Marino colhia bem a originalidade da lírica camoniana, ao imitar os louvores da Bárbora escrava, uma escrava oriental de pele e cabelo negros, cuja beleza supera a de Laura.

Tudo isto faz de Camões um clássico moderno e universal, ou seja, um clássico de todos os tempos e, como tal, também do nosso tempo.

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‘Camões e as Tágides’, Columbano, 1894

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Rita Marnoto

Rita Marnoto é Professora da Faculdade de Letras e do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra.