Cinco livros para pensar o futuro

por Filipe Campello

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Há pelo menos duas maneiras de se imaginar o que ainda não existe. Uma primeira é se agarrando ao presente, com as mesmas imagens e vocabulário que temos à disposição hoje. São como aquelas ilustrações do século XIX que imaginava que o futuro seria com trens a vapor voadores. Uma segunda maneira é através de novas ideias, que pressionam e alargam nosso vocabulário no sentido de vislumbrar o que ainda não há razão para ser visto. É como tatear uma sala no escuro à procura do interruptor para acender a luz, até descobrirmos que na sala não há nem luz nem interruptor.

Alguns livros carregam essa força imagética de oferecer um novo vocabulário que nos ajudam a imaginar outros mundos possíveis. E isso não vale apenas para literatura e seu recorte ficcional. Algumas obras trazem um alargamento semântico que chega a questionar as fronteiras entre ficção e realidade, literatura e filosofia. É quando elas passam a se perguntar não apenas que outros mundos podem ser possíveis, mas em que mundo queremos viver. Mais do que exercícios descritivos, eles também oferecem aquilo que na filosofia se chama de conteúdo “normativo”, ou seja, não apenas como o mundo é ou pode ser, mas como ele deve ser.

Elenquei cinco livros que nos ajudam nesse alargamento de vocabulário. Como qualquer lista, ela é excludente por natureza, mas meus critérios foram no sentido de oferecer uma diversidade de perspectivas. Digamos que uma boa mistura entre eles seria um mundo onde eu gostaria de viver, e aqui estão algumas ideias que nos ajudam a imaginá-lo, umas mais urgentes que outras — para continuar nos perguntando como queremos viver, antes precisa continuar existindo mundo.

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A queda do céu: Palavras de um Xamã Yanomami

Companhia das Letras, 2015

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O diálogo entre o Xamã Yanomami Davi Kopenawa e o antropólogo francês Bruce Albert resultou nessa obra monumental, que pode ser vista como um esforço de tradução em que a disposição teórica sai de um falar por para um deixar ouvir. Sem negar o risco de um confronto reducionista de perspectivas inerente à própria linguagem, Albert passou quatro décadas convivendo com Kopenawa, numa postura de mediador que tece um laço de confiança mútua. Kopenawa se propõe a fazer o que chama de “pacto etnográfico”: “Gosto de explicar essas coisas para os brancos, para eles poderem saber”. Somente a partir desse compromisso se tornou possível ir ao encontro de novas ferramentas conceituais e de tradução de visões de mundo que partem de ontologias radicalmente distintas, ecoando de algum modo o potencial de tradução assumido pela própria entidade xamânica. Um livro que vale a pena ler como exercício de escuta.

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(Reprodução)
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Yuk Hui, Tecnodiversidade

Ubu Editora, 2020

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Talvez o futuro dependa sobretudo da maneira que vamos continuar lidando com a técnica. Fugindo de maniqueísmos, Yuk Hui propõe não uma leitura cética diante da técnica em geral, mas questiona os pressupostos ontológicos que orientam a noção de racionalidade como dominação da natureza. O livro reúne ensaios do autor em torno de uma noção de “cosmotécnicas” que oferece uma leitura mais aberta e plural de questões ligadas à tecnologia e inteligência artificial. Formado em engenharia da computação e filosofia, em Hong Kong e em Londres, Hui se movimenta bem entre referências europeias (como Hegel e Heidegger) e conceitos como “pluriversalismo” de Viveiros de Castro e outras leituras ligadas a assim chamada virada ontológica na antropologia. Se for para por em diálogo este livro com a indicação anterior, vemos respostas distintas diante de esgotamento de um vocabulário que diante da crise ecológica precisa urgentemente se reinventar.

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(Reprodução)
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Donna Haraway, O Manifesto das Espécies Companheiras — Cachorros, pessoas e alteridade significante

Bazar do Tempo, 2021

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Eu já tinha ficado bastante impressionado quando tive contato pela primeira vez com as ideias de Donna Haraway em livros como Manifesto Ciborgue, mas quando assisti ao documentário Story Telling for Earthly Survival, tive vontade de em algum momento do futuro ser como ela! Mas fiquemos nas ideias: Haraway oferece uma das contribuições mais originais e instigantes que atravessa questões ligadas ao feminismo, pós-humanismo e especismo num recorte de crítica ao que chama — em diálogo com o conceito de antropoceno — de capitaloceno. Em Manifesto das espécies companheiras, primeiro livro da autora a ser publicado no Brasil, Haraway analisa de maneira original a estreita relação entre pessoas e cachorros, ligados pelo que chama alteridade significativa. O livro junta-se à intensa produção da autora, onde a própria filosofia assume o sentido de criar novos conceitos a partir de um amplo diálogo que vai desde a biologia até a ficção científica.

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(Reprodução)
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Franco Berardi, Depois do futuro

Ubu Editora, 2019

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Incluo esse livro do filósofo italiano Franco Berardi não tanto pelas respostas, mas pelas questões que propõe. Publicado originalmente em 2009, 100 anos após o manifesto futurista, a intenção do ensaio era comparar a ideia de futuro propagada pelo manifesto — otimista, que via com entusiasmo a ideia veloz e belicista — com uma imagem mais melancólica. Com uma análise que vai das vanguardas do século XX ao contexto de uma geração que já cresce digitalmente situada, é um livro que se agarra mais ao pessimismo do que a respostas prontas, mas que pode ajudar a abandonar uma noção esgotada de progresso.

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(Reprodução)
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Lélia Gonzalez, Por um feminismo afro-latino-americano

Zahar, 2020

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Por fim, não vejo como a ampliação de imagens e vocabulários disponíveis possa prescindir hoje de ouvir epistemologias que foram historicamente invisibilizadas. A lista certamente iria longe, mas menciono aqui essa coletânea de ensaios e artigos de Lélia Gonzalez, que traz um bom exemplo de como pensar o futuro das democracias depende de reconhecermos o déficit democrático de arranjos que historicamente serviram como autolegitimação de um projeto social e geograficamente situado. Significa perguntar porquê devemos insistir em um mesmo modelo de razão que permaneceu cego ou mesmo deu espaço a projetos racistas e coloniais. É quando pensar o futuro requer também revisitar distorções do passado que deram lugar ao horizonte restrito de imagens do presente. Se outras vozes antes tomadas como irracionais já tivessem sido ouvidas, talvez hoje seríamos um pouco mais pouco mais esperançoso diante do que ainda está por vir.

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(Reprodução)

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Filipe Campello

Filipe Campello é professor de filosofia da Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador do CNPq. É Doutor em Filosofia pela Universidade de Frankfurt (Alemanha) e realizou pós-doutorado na New School for Social Research (Nova York).