Junho fora do lugar (Parte 01)

por Bruno Cava

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Resenha de Vertigens de junho: os levantes de 2013 e a insistência de uma nova percepção, de Alexandre Fabiano Mendes. Rio de Janeiro, editora Autografia: 2018.

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(Reprodução)

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A lógica do acontecimento

A escolha para o título do livro não poderia ter sido mais feliz: Vertigens de junho. O que aconteceu em junho de 2013 não foram jornadas, termo que remete à Paris insurrecional e proletária de junho de 1848. Tampouco caberia falar em movimento de Junho, como se houvesse uma organização subjacente aos protestos, ainda que difusa ou de novo tipo. Junho foi um acontecimento, que, diversamente de uma estrutura formal ou substrato material, se repete — e só poderia se repetir — de maneira diferente a cada vez, sob a pena da desativação de sua capacidade de continuar gerando efeitos. Um acontecimento não prolonga ao longo do tempo um eixo de causas eficientes cujo traçado poderia ser percorrido ao passo de suas consequências práticas: isto levou àquilo, o que conduziu aqueloutro, o que, por sua vez, repercutiu naquilo, e aquilo nisto e assim por diante. Não é essa a configuração lógica do acontecimento.

Mesmo que as estruturas formais e os substratos materiais nos quais um acontecimento é inicialmente subsistente venham a desaparecer, mesmo que elas sejam destruídas ou desvirtuadas, mesmo que esse acontecimento venha a deixar de existir, ele pode insistir em novos e insperados suportes de fatos — por outros meios, noutros termos. Sem uma linha dura de causalidade direta entre uma origem e suas ramificações e consequências, o acontecimento é repetido no modo intensivo, que Alexandre chama de terreno flutuante ou nuvem de virtualidades. Ao se reiterar diferentemente, Junho desenha uma geometria temporal fragmentária que só é inteligível na forma de constelações. No lugar de um traçado único, que vai do A ao ponto B no tempo e no espaço, estão em questão traços múltiplos e centrífugos. Insistir, na acepção em jogo no livro, tem um sentido filosófico preciso e nos leva a recolocar a questão do acontecer. Quais são os meandros do acontecimento e de suas reaparições, que se dão noutros termos e por outros meios?

O acontecimento implica uma atualidade mutante que não cessa de remeter ao virtual mínimo em que se cristaliza. A tarefa de análise deve ser dupla. De um lado, o labirinto dialético das causalidades e consequências de formas e matérias; as vontades e os caminhos abortados; os sujeitos desviados, fraturados, dissolvidos; os movimentos de organização, antes constituídos, agora esfacelados ou desconstituídos. De outro lado, coalescente ao primeiro, o “espaço não figurado do oceano” (isto é, o virtual), que convida à outra cartografia, com outro tipo de mapa, envolvendo o intensivo das singularidades e quase-causalidades. A combinação ziguezagueante e complicada entre os dois hemisférios se faz necessária para qualquer explicação que se pretenda completa do longo Junho em que ainda estamos.

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Uma reviravolta estética

Desenvolvendo o conceito, o léxico rancièriano é introduzido logo de partida, quando Alexandre esclarece que em 2013 ocorreu uma reviravolta estética, isto é, que racha com a ordem do sensível. Categoria de chegada, o sensível de que fala o filósofo Jacques Rancière (“A partilha do sensível”, “O inconsciente estético”) opera como síntese das determinações da realidade social estruturada por meio da ordem dos sentidos, enquanto disposições afetivas, ativas ou perceptivas. O sensível é um constructo histórico-social que organiza não só as condições formais do ver, ouvir e dizer, como também engloba um esquema material de mediações. Estas regulam os regimes de dizibilidade e visibilidade das identidades dos sujeitos participantes de certa estrutura social ordenada, atribui-lhes um lugar entre as representações vigentes, e em cada lugar outorga-lhes tarefas determinadas. Ao ser partilhado, o sensível desenha os limites do que constitui as partes e como elas podem ser identificadas e medidas umas em relação às outras, e na sequência as distribui como num condomínio privado: quais serão as áreas comuns e quais exclusivas, para quem e para quê.

Portanto, a partilha do sensível é uma construção permanente cujo regime de distribuição de corpos, tarefas e lugares traveja um consenso. No complexo filosófico rancièriano, somente uma intrusão imanente do não-representado é capaz de perturbar o consenso, ao ativar no mesmo ato dissonante um processo antagonista voltado à repartilha. O desafio estético envolve a intervenção de uma parte excessiva que não tem lugar nas representações, que não poderia ter lugar, pois significaria o rompimento do conjunto das regras, lugares e tarefas convencionadas e normalizadas. Isto é o que Rancière chama de Política (doravante, quando nesta acepção, em maiúscula): jamais uma força que vem de fora, mas de dentro, que alarga e expõe uma fratura interna à partilha estabelecida, revelando assim as violências fundantes da ordem social e pondo o tecido sensível em estado de instabilidade. O rol de categorias, representações e grades de compreensão da vida prática passa a flutuar, com sucessivos desentendimentos entre os sujeitos sociais sobre o que significam, designam ou comunicam.

Num momento em que o bordão formulaico “tudo é político” virou um pão velho, várias análises de “Vertigens de Junho” convidam a reativar o conceito de política de Rancière. Pouca coisa, quase nada em verdade, é realmente político, a política é rara e excepcional. A maior parte do tempo, as regras da conduta prática, a percepção e a ação não são políticas. O olhar e o fazer que predominam estão inseridos na ordenação estabelecida do consenso, ou seja, eles são policiais. Muito ocasionalmente, a política se infiltra no interior do tecido sensível de outra forma regida pela Polícia. O filósofo francês atina a uma acepção ampla da palavra polícia, que engloba governar os corpos e as condutas, vigiar os usos das representações, reger as identidades, delimitar e conservar as fronteiras entre umas e outras. Outra palavra possível para o referente, quiçá com uma conotação mais neutra, seja Gestão.

Como o consenso é travejado por disposições ativas e perceptivas atreladas ao regime de representação de corpos e lugares, a consequência lógica é que sem dimensão estética, simplesmente não há política. O possível se inviabiliza por asfixia das representações. Estaríamos condenados à repetição do mesmo, no purgatório pós-política de uma gestão eterna, reproduzindo e perpetuando todas as desigualdades que lhe são estruturais. O ponto de apoio para a emergência da Política depende de um sujeito específico que Rancière chama de parte dos sem-parte, isto é, um resto não-metabolizado nem metabolizável pela ordem vigente. Fosse ele metabolizável, integraria a partilha do sensível, com um lugar e uma representação adequada. A intrusão do resto força a desorganização do conjunto global do sensível, pois desordena a distribuição existente e põe a nu a desigualdade originária.

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Fim da Política, Ascensão da Polícia

O livro é uma investida argumentativa e demonstrativa sobre como, apesar de todas as tentativas de matá-lo, Junho impactou irreversivelmente o sensível, tumultuou as representações, quebrou os consensos. Logo na introdução, Alexandre descreve uma cena intrincada e complexa, ocorrida exatamente um ano antes, em 2012. A cena merece a análise cuidadosa que o autor lhe dedica. Naquele momento, realizava-se a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), com dois pontos focais na cidade do Rio de Janeiro. O fórum dos chefes de Estado, em que seriam determinadas as resoluções oficiais dos países participantes, foi organizado no pavilhão do Rio Centro, no bairro da Barra da Tijuca (Zona Oeste). Em paralelo, as organizações do terceiro setor, movimentos sociais organizados, ONGs e entidades ativistas foram alocadas em um acampamento representativo dos povos, ao longo do Aterro do Flamengo, na Zona Sul da cidade. A distribuição no espaço, definida pelo governo brasileiro, foi estratégica por muitas razões. O Aterro ocupa a franja de uma área densamente povoada, repleta de ruas, linhas de ônibus e estações de metrô, de fácil acesso, ao passo que a área reservada para o poder deliberativo e decisório se caracteriza por largas avenidas, vastidões desocupadas e diversos pontos de estrangulamento dos acessos, além de ser mal servida de transporte coletivo. A distância entre a chamada sociedade civil organizada e a cúpula dos Estados era nada menos do que 35 km.

No arsenal filosófico de Rancière, a partilha do sensível envolve um consenso operativo que precisa ser preservado e resposto a todo momento. Essa ideia ressoa com as formulações da esquerda antiglobalização do final do século XX, quando elegeu o Consenso de Washington como o inimigo dos inimigos, e permite-nos estilizar as forças em ação naquele ano de 2012. A armadura ideológica oficial pós-Guerra Fria encontra eco na tese do fim da história de autoria de Francis Fukuyama (1992). Com o colapso do bloco do socialismo real, acelerado pelas revoluções de veludo ao longo de 1989, Fukuyama anunciava o triunfo do neoliberalismo e o início de uma era pós-histórica. A revolução deixava de ser o horizonte dos povos não apenas de fato, como de direito, ou seja, como possibilidade histórica. Por conseguinte, depois do fim da história, do outro lado do futuro, estaríamos destinados a coabitar no regime alisado e globalizado das economias abertas de mercado reguladas pelo liberalismo democrático, tendo os Estados Unidos como farol inconteste. Eis o que a esquerda globalização acusa de imposição de pensamento único e convoca os povos não implicados no novo sensível para a elaboração de alternativas.

Curiosamente, talvez por astúcia da razão, a icônica “tese do fim da história” acabou sendo abraçada pela esquerda antiglobalização, ainda que pela via negativa da premissa real a ser combatida. Com o fim da União Soviética e a introdução de reformas liberalizantes de mercado na China, deixava de existir uma potência convincentemente contra-hegemônica ou um sistema econômico que pudesse concorrer com o capitalismo. Caberia então à esquerda processar a experiência da derrota e reconhecer o rebaixamento do horizonte de expectativas. A contrapartida pragmática consiste em passar para uma oposição direta e autônoma, para além da esfera estatal-nacional, ao neoliberalismo sintetizado pela partilha de Washington. Os movimentos de ação direta, a tática black bloc e revoltas antipolíticas ganham projeção como tônica para um novo ciclo de lutas daí por diante desenganchadas da pretensão de substituir a hegemonia global. O caso agora é tensioná-la de dentro nos pontos de fricção. Ante litteram, o conceito rancièriano de Política enquanto dissenso já funcionava a plenos pulmões enquanto operador do discurso antiglobalização, no começo dos anos 1990. Uma vez que os horizontes de transformação foram encolhidos pela inexistência de fato de uma perspectiva de alternativa englobante, o diagnóstico não poderia ser outro: em toda linha do capitalismo, a política havia se diluído na gestão até ficar irreconhecível. A Política tinha virado Polícia.

Tal releitura bastante em voga nos anos noventa se prolongou, à esquerda, nas análises da realidade brasileira. Na época dos governos Cardoso, parte da crítica anticapitalista vaticinou o eclipse da política, o que nos arrastou para um novo tempo do mundo. O relógio do capital chega a um limite de exploração e atinge o ponto de estagnação, onde passa à tarefa de dilatar o colapso inevitável. O diagnóstico segue assim: a fim de adiar o colapso indefinidamente, as forças capitalistas se veem obrigadas a apelar para uma gestão de coisas e pessoas inteiramente plasmada por uma compulsão ao presente. Por isso, a Política se inviabiliza, não encontra mais modernização possível, reduzida à noite cinzenta da indiferenciação. Os diversos partidos políticos se candidatam à posição de melhor ou pior gestor, mais ou menos acelerado… da mesma catástrofe. Uns acelerariam na direção de um neoliberalismo tout court, sempre entendido em chave destrutiva — estes seriam os dublês de empresário —, enquanto os outros — os sindicalistas rastaqueras — protagonizariam uma pacificação menos atritiva, já que incorporam a classe trabalhadora nas engrenagens da máquina produtiva de mastigar gente.

Essa linha de interpretação à esquerda, ancorada nos anos do movimento antiglobalização e seu referente específico de novos movimentos, congloba tanto o temperamento de ressaca do fim da Guerra Fria, como da decepção rampante da maneira como o PT e Lula chegaram à testa do poder executivo federal, em 2003. A conjugação dos dois humores conformou um pessimismo consequente, rigorosamente conceitual, que diagnostica o achatamento generalizado dos sujeitos sociais, potenciais de emancipação e linhas de retomada da iniciativa por parte da luta de classe. Mesmo as revoltas antipolíticas e os levantes nacionais ocasionais, registrados não sem uma boa dose de tédio, terminam assim por ser inscritos numa paisagem militante desolada que pode pouco ou nada contra o consenso verdadeiramente acachapante e impermeável do neoliberalismo.

Levando às últimas consequências essa mesma mise en intrigue acima esboçada, o período da redemocratização brasileira como um todo não passaria de um elaborado jogo de cena em que o dado estrutural é o avanço do neoliberalismo sem encontrar adversários políticos, forças organizadas ou resistências minimamente à altura. A aceleração do moinho satânico do mercado neoliberal, movimento pela intensificação da desagregação social, da fragmentação do tecido urbano e da precarização do trabalho, tudo vai tragando para os parâmetros e condicionantes neutralizados da gestão do purgatório biopolítico. Os partidos políticos modernos de cunho social se convertem numa confecção especializada nas representações do oprimido, do povo, das minorias; um trabalho de valorização apropriado aos tempos multiculturais, e a seguir colocam esses ready-mades da luta para circular no mercado das representações. Tudo vira Polícia.

No interior desse quadro tétrico para as grandes transformações do capitalismo tardio, os governos do PT conseguiram encontrar o seu lugar e a sua sofisticação ao se candidatarem à posição de gestores eficazes da inclusão produtiva no neoliberalismo. Noutras palavras, se o governo neoliberal é de invenção do social, os petistas encontrariam a oportunidade de alçarem-se à condição de Polícia desse mesmo social, aumentando a eficiência da dominação e, portanto, a segurança da manutenção dos lucros ameaçados. Todo o campo de gravitação do petismo, oriundo do decennio mirabile de 1977-88, termina assim sendo incorporado ou subsumido à gestão neoliberal do social. Essa é a história das capturas sobre como os velhos-novos movimentos sociais e seus cadastros, os diversos tipos de instâncias e organismos da sociedade civil e o terceiro setor em geral tornaram-se peças engrenadas na reprodução do consenso neoliberal-biopolítico. O condomínio faz um puxadinho aqui e outro ali, conseguindo desse modo integrar os sujeitos sociais mais profundamente, com melhor ajuste, no mesmo horizonte sem-horizonte, na mesma política sem-política ou na mesma história sem-história.

Com isso, ficaria sustada a condição de Política no Brasil. O que resta? De um lado, o saudosismo pela perda das oportunidades históricas e um aborrecido louvor dedicado aos anos do populismo desenvolvimentista dos anos 1950 e começo dos 1960, ou aos anos de remobilização democrática dos anos 1980, pois teríamos deixado tudo isso para trás afundando na atual era da indeterminação (Francisco de Oliveira). Do outro lado, as hiper-sóbrias dialéticas negativas que enxergam o renitente colapso da modernização e o resultante estado de exceção permanente (Paulo Arantes) em toda parte, uma programação normal e normalizada mui ocasionalmente interrompida por espasmos de revoltas sem futuro ou rebeldias que já nascem capturadas. Em um e outro caso, há um eixo implacável e rigorosamente ininterrupto de gradual afirmação do neoliberalismo no Brasil, que vai de Collor até Dilma sem sobressaltos dignos de nota, até chegar na aceleração final dos últimos quatro anos.

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A política do acontecimento

Numa primeira leitura, assim de impressão imediata, a configuração imediata da cena descrita na introdução parece repetir o esquema da era da indeterminação e do eclipse da política. As organizações do terceiro setor não passariam de um apêndice pacificado, composto por grupos de militância mercantilizada, adestrados segundo os cadastros, circuitos de financiamento e escadarias arrivistas operadas profissionalmente pelo partido dos trabalhadores, então na crista do poder público federal. Enquanto as lideranças dos estados deliberavam as decisões de gente grande na cúpula fortificada, os intelectuais militantes deveriam ocupar o playground próximo da orla da praia, ambiente mais apropriado para a natureza turística dos novíssimos movimentos. A Política estava bloqueada de saída.

Mas Alexandre revela uma primeira anomalia: a despeito do programa de remoções de pobres para bairros distantes, uma pequena favela persistia no mesmo bairro do Rio Centro, em franco processo de valorização imobiliária e pontilhado de grandes canteiros de obras. Os espaços ocupados pelos pobres estavam sendo demolidos e arrasados para dar lugar a equipamentos urbanos para servir à sucessão dos megaeventos que viriam nos anos seguintes. Em meio aos grandes eventos do Brasil Maior, a pequena Vila Autódromo marcava o evento menor da Política. O autor nos conta que, nos anos anteriores, vinha trabalhando na condição de defensor público estadual, como coordenador do núcleo de defesa das comunidades atingidas pelas remoções. Seu trabalho na advocacia popular foi tolerado institucionalmente até o ponto em que o núcleo teria extrapolado a esfera jurisdicional, sendo então denunciado por fazer política em vez de operar o direito. Era exatamente o que ele fazia, no que terminou por desnudar as condições reais de exercício de um contrapoder por dentro daquela instituição. Na visão dos gestores, o grupo passou dos limites no seu trabalho de contenção da violência fundiária, dando ensejo a variados tipos de acosso profissional. Um dado curioso que vale agregar à narrativa de Alexandre é o fato de que, na ocasião, a secretaria municipal de habitação, ponta de lança para as operações de remoção no Rio, era operada diretamente, sem quaisquer pudores ideológicos, por um socialista do partido do governo. Alexandre se demitiu da defensoria.

Na cena narrada de 2012 no livro, o ex-defensor relata que grupos ligados a entidades de luta pela moradia resolveram aproveitar o fato de que favela em risco de remoção estava a apenas 1 km do local da cúpula da Rio +20. Resolveram juntar a oportunidade à necessidade e assim se organizou um protesto para acontecer ali durante o encerramento do fórum. É evidente que, pela primeira vez, uma ação ativista dissensual chamou a atenção dos organizadores do governo. Tendo participado da organização do ato, Alexandre relata como foi incumbido de transmitir o protesto em streaming, em trajetória livre, para o que improvisou a aparelhagem de gravação numa bicicleta. Ele chegou cedo à área da favela e, desde o princípio, se deixou integrar no rumo dos acontecimentos. O teatro que se segue é valioso para a compreensão das nuances.

Não bastava o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), historicamente ligado ao partido e ao governo, participar do comando do ato, como também se faziam presentes na condução do protesto assessores do ministro de confiança da presidente. Como era de se esperar, o já complicado transporte para a favela foi sabotado pela multiplicação dos bloqueios de vias e pelo sumiço providencial dos ônibus colocados à disposição dos movimentos credenciados. Além disso, ao chegar na Vila Autódromo, o pequeno número de ativistas que efetivamente conseguiu driblar as barreiras se deparou com uma cena absurda. Os caminhões de som com os militantes autorizados se limitavam a caminhar bobamente em círculos dentro da favela, sob os olhares de moradores entre o aborrecimento e a irritação. Questionada diante da situação, a liderança do MST afirmou que as instruções deliberadas pelo coletivo determinavam que permanecessem pacíficos, sem provocações e dentro dos limites da comunidade. Tudo em nome da segurança dos habitantes, claro.

Foi então que algo aconteceu. Um grupo autoformado de moradores despontou do lado oposto ao carro de som dos movimentos, rumando na direção da barricada policial. A tropa estava plantada na via de acesso ao rio Centro, a apenas 200 metros da entrada da favela. Manifestantes esparsos de várias origens desgrudaram de seus respectivos grupos de afinidade e bandeiras, entusiasmados com a possibilidade de elevar a temperatura do protesto e “causar”, e se juntaram aos moradores. O contingente de manifestantes índios, de diversas tribos, desvencilhou-se do espaço designado pelo governismo de luta, e avançou resolutamente na direção da barricada. A ação inopinada das centenas de índios foi o estopim para a desagregação final da ordem unida até aquele momento encenada com sucesso sob o comando dos dirigentes nos carros de som. Na desorientação que se seguiu, outros grupúsculos autonomizados adotaram a sua própria microagenda, seguindo os índios para além do perímetro “combinado pelo coletivo”, enquanto os gestores dos movimentos organizados gritavam no megafone contra o desrespeito e a irresponsabilidade.

Alexandre segue contando-nos como de chofre a situação saiu do controle e parecia precipitar um enfrentamento, de resultado incerto para os manifestantes dada a gritante supremacia das forças policiais à frente do centro de convenções. No último minuto, quando os índios praticamente encostavam na primeira linha da barricada, surgiu o secretário da Presidência da República em pessoa, o ministro Gilberto Carvalho, para negociar com eles. Eram os índios a encabeçar a numerosa vertente indisciplinável da manifestação, que atraía os demais ao redor. Sozinho, o ministro se meteu destemidamente entre índios armados com arcos e lanças, foi logo cercado por eles, e conversou diretamente com o cacique Raoni e outros presentes. Naquele instante, as linhas de loucura congelaram, e a cena começou a voltar a um nível mínimo de controle por parte do governo. Tudo conforme o relato do livro.

O desproporcional aparato policial, cavalaria, blindados, helicópteros, franco-atiradores, tropas de reserva do Exército, e uma malta de informantes, nada disso no fundo foi necessário. A Polícia funcionou bem antes de qualquer entrechoque. Depois de sabotar a concentração e desarticular o transporte, os gestores do partido negociaram exitosamente com o único grupo que esboçou dissenso. Foram providenciadas credenciais para os caciques presentes, que receberam a promessa de uma audiência com a presidente Dilma. Isso foi suficiente para desmobilizar a investida fora do roteiro. Os demais manifestantes, que haviam se descolado da procissão, ainda meio confusos e sem desdobramentos à vista, dispersaram logo na sequência.

O desfecho do imbróglio como um todo poderia ser interpretado como mais uma nota de rodapé da longa história de pacificação vitoriosa, por parte do governo, de qualquer sinal de dissenso, assegurando a partilha do sensível. Porque o único vestígio de antagonismo havia sido apaziguado, sem maiores repercussões, pelos profissionais da cooptação. Não tendo sido capaz de evitar o ato indesejado, o truque é bem conhecido: põem-se em campo as vacas sagradas, movimentos sociais cuja legitimidade histórica lhes confere uma aura de intocabilidade, e empilham-se siglas e celebridades de luta em moções líricas que nem mesmo os próprios subscreventes leem até o fim. Caso as grifes ideológicas não funcionem pela coação moral da mística e a coisa fique séria, é sempre possível oferecer um cargo, um edital, um dinheirinho para uns e outros. Não é essa, porém, a interpretação no livro quanto ao que aconteceu. Correta apenas em certo sentido, seria ter perdido de vista o essencial.

Alexandre, presente no episódio, repórter de ideias em estado nascente, diverge da leitura determinista. Por vezes, a leitura da pacificação inevitável não deixa de ser outro modo de pacificar as análises pela outra ponta, a do catastrofismo fatalista. É verdade que, no caso concreto, a situação se resolveu de uma determinada maneira, mas poderia ter sido diferente. Por um intervalo, a cena complexa, com seus vários atores-processos, esteve prestes a extrapolar as coordenadas do previsível. O esforço multinível de contenção coordenado e dirigente pelos agentes do governo, inclusive por dentro dos movimentos organizados, por pouco falhou em colmatar o desencadeamento de perigosas potências. Esse momento bastante específico, que o autor relata na figura de uma vertigem da percepção, marca a entrada de outra coisa no teatro de forças. Ainda tateante, à espreita das conjunturas, em seu estado de emergência.

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Estética e acontecimento

É verdade que o último ato do protesto de junho de 2012 na favela da Vila Autódromo terminou sem maiores consequências práticas — com exceção, talvez, no caso dos grupos indígenas, o que caberia perquirir os desenvolvimentos. Contudo, o futuro concretizado da dispersão não elide o fato de que ali, em meio ao teatro maior das representações pacificadas da Rio+20, um traço não-representativo de uma percepção nascente se insinuou.

Se insistirmos com exemplos já citados das revoluções de 1989, contra as ditaduras socialistas, encontraremos várias narrativas que combinam a descrição causal dos fatos e sociológica dos sujeitos, com abundantes narrações de sensações de irrealidade, entusiasmo e reabertura de possíveis. Situações que, em outro contexto, seriam prosaicas ou inócuas galgam um brilho acontecimental que, embora frágil, efêmero, faz toda a diferença para quem os experimenta, direta ou indiretamente. Penso, por exemplo, no inusitado piquenique a que multidões dos países do outro lado da cortina de ferro compareceram, em 19 de agosto daquele ano, reabrindo momentaneamente a fronteira entre Hungria e Áustria. Emocionadas, as pessoas cruzavam a fronteira num momento difícil de esquecer. Ou então, na mesma época, nos rituais católicos performados na Polônia sob o jugo soviético, que ganhavam uma conotação brilhante de reinvenção da vida e esperança de liberdade. Finamente, quando da queda do muro de Berlim, na noite de 9 de novembro de 1989, mesmo nós que apenas assistíamos na TV às manifestações de júbilo dos alemães-ocidentais e orientais pudemos pressentir que algo acontecia. Algo de mais molecular, e bem mais decisivo do que a binária disputa geopolítica entre estados da Guerra Fria. Algo estava suspenso no ar e eletrizava os corpos.

Seria o acontecimento algo que se dá como Estética antes da Política?

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(Foto: Valter Campanato/ABr)

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Bruno Cava

Bruno Cava é ensaísta e professor de cursos livres de Filosofia. Autor de vários livros, entre eles “A multidão foi ao deserto” (AnnaBlume, 2013) e “Enigma do disforme” (Mauad, 2018).