O contexto científico da peça Copenhagen (Parte 01)

por Carlos Alberto dos Santos

Em 1941, a Alemanha já tinha ocupado: Polônia, Dinamarca, Noruega, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e França. No dia 15 de setembro daquele ano, Werner Heisenberg (1901-1976), o coordenador do projeto nuclear alemão, visita, em Copenhague, seu colega e antigo mentor Niels Bohr (1885-1962). Tiveram uma breve reunião, de cujo conteúdo ninguém sabe ao certo. A divergência entre as versões dos dois fomentou o surgimento de especulações na literatura historiográfica e na imaginação ficcional de Michael Frayn, que escreveu Copenhagen, uma maravilhosa e complexa peça teatral. No livro com os diálogos, Frayn apresenta um extenso pós-escrito para esclarecer o que é ficção e o que é história na sua peça. Trata-se de uma bela síntese da literatura historiográfica a respeito do assunto, que ele extraiu de boas fontes bibliográficas [1–4]. Todavia, a peça basicamente traz a versão de Heisenberg, razão pela qual resolvi escrever este ensaio.

Capa do livro com o texto completo da peça Copenhagen [5].

A premiada e elogiadíssima peça teve sua apresentação inaugural no dia 28 de maio de 1998, no Teatro Nacional de Londres. Depois de uma temporada londrina que se estendeu por mais de um ano, ela teve sua apresentação inaugural na Broadway no dia 11 de abril de 2000. Em 2002 ela chegou a São Paulo. Por coincidência foi ano em que a controvérsia a respeito do encontro emergiu na literatura historiográfica e na mídia. Naquele ano, a família de Niels Bohr resolveu tornar pública a versão do físico dinamarquês a respeito do encontro com Heisenberg. Uma versão simplificada dessa história foi apresentada em artigo que publiquei no jornal de divulgação científica Voz do Paraná, em março de 2002.

No último 10 de maio, a BBC News Brasil publicou um ensaio de Dalia Ventura sobre essa história, provavelmente para relembrar o dia 7 de maio de 1945, quando houve a rendição alemã na Segunda Guerra Mundial. Ela finaliza seu bem articulado texto, com a frase que Frayn deixou no ar, e que ninguém sabe responder: Será que os nazistas não conseguiram fabricar uma bomba atômica porque Heisenberg deliberadamente frustrou o projeto ou simplesmente porque, apesar de seus esforços, não sabia como fabricá-la?

Para compreender o contexto que gerou a peça de Michael Frayn, e para entender por que não há uma resposta precisa à questão levantada por Frayn, temos três tipos de fontes históricas: (1) os artigos científicos publicados pelas personalidades envolvidas direta e indiretamente, bem como a literatura historiográfica; (2) depoimentos e autobiografias das personalidades; (3) a transcrição das conversas obtidas secretamente entre os cientistas alemães aprisionados em 1945 e confinados durante seis meses em Farm Hall, uma casa de campo nas proximidades de Cambridge, Inglaterra.

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A Copenhagen de Michael Frayn

Não retomarei aqui os detalhes do texto que desde 1998 já foram bem noticiados. Para quem não conhece a peça, sugiro a leitura dos artigos mencionados acima, minha crônica no jornal Voz do Paraná, e o recente artigo de Dalia Ventura na BBC. Sugiro também as resenhas no ThoughtCo e na Philosophy Now. O cenário e o elenco da peça são espartanamente simples e reduzidos, sem indicação de localização. Três personagens e três cadeiras, em dois atos durante duas horas e meia. Bohr, Margrethe (1890-1984), sua esposa, e Heisenberg são os personagens. Na verdade, os espíritos dos personagens, como lembra Heisenberg em sua primeira fala [5]:

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Agora estamos todos mortos e desaparecidos, sim, e há apenas duas coisas que o mundo se lembra de mim. Uma é o princípio da incerteza e a outra é minha misteriosa visita a Niels Bohr em Copenhague, em 1941.

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Embora as resenhas que sugeri sejam muito boas, o que eu tenho notado é que elas, assim como outras publicadas, não chamam a atenção para um aspecto que considero importante na estrutura cênica da peça. Trata-se de uma encenação não linear, onde o tempo pode fluir livremente para frente e para trás. Há momentos em que os personagens no palco podem estar simultaneamente em momentos diferentes. Às vezes um está meditando em voz alta a respeito do passado, enquanto os outros conversam como se estivessem em 1941. Às vezes os três conversam como se estivessem naquela reunião. Na leitura do texto [5] essa estrutura fica clara. Não assisti à peça, de modo que não sei qual é o efeito durante a encenação. Suponho que esse tipo de estrutura exija muita atenção da audiência.

Repetindo o que afirmei, não entrarei aqui em detalhes sobre o texto da peça, mas alguns trechos devem ser salientados para uma boa apreciação dos contextos político, científico e tecnológico de que tratarei mais adiante.

O primeiro ato é usado por Frayn para explorar a razão pela qual Heisenberg foi visitar Bohr. Várias possibilidades são aventadas: teria sido para avisar Bohr que ele estava sendo ameaçado pelos nazistas e, portanto, deveria tomar alguma providência para salvá-lo? Teria sido para convidar Bohr para participar do projeto da bomba atômica alemã? Teria sido para dizer a Bohr que os alemães não tinham um projeto de bomba atômica, e que ele faria de tudo para atrasar qualquer iniciativa neste sentido? Ou a visita seria para saber de Bohr o que britânicos e americanos estavam fazendo nesse sentido? Ninguém sabe, e tampouco Frayn se aventura em dar uma resposta precisa. Apenas levanta possibilidades.

Quando o primeiro ato encaminha-se para o final, Bohr desconfia que Heisenberg queria mesmo era saber se ele conhecia o projeto nuclear dos aliados. Depois de muitas tergiversações de Heisenberg, o espírito de Bohr insiste: “Então, Heisenberg, por que você veio a Copenhague em 1941?” Mais uma vez, Heisenberg divaga e não responde. A personagem não responde porque Frayn não tinha, ninguém tem, elementos concretos para responder à pergunta de Bohr. O primeiro ato termina com os espíritos dos três rememorando tempos em que a amizade lhes trazia felicidade. E é com este clima de felicidade que tem início o segundo ato.

Heisenberg lembra que sua primeira visita a Copenhague foi em 1924, e daí segue-se uma conversa amena, com recordações agradáveis, mencionando vários físicos do início do desenvolvimento da mecânica quântica e alguns dos trabalhos com os quais eles estiveram envolvidos: Kramers, Max Born, Pascual Jordan, Schrödinger, Fermi, Chadwick, Dirac, Joliot, de Broglie, Gamow, Landau, Goudsmit, Uhlenbeck, Stern, Einstein, Ehrenfest.

Em certo momento da prazerosa conversa, Margrethe faz uma provocação desagradável:

E se você quiser saber porque você veio a Copenhague em 1941, eu te direi. Você está certo – não há um grande mistério sobre isso. Você veio se exibir. [e dirigindo-se para Bohr, ela continua]. Quando ele chegou pela primeira vez em 1924, ele era um humilde assistente de ensino de uma nação humilhada, grato por ter um emprego. Agora, aqui está você, de volta em triunfo – o principal cientista de uma nação que conquistou a Europa. Você veio para nos mostrar o quanto foi bem sucedido na vida.

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O diálogo que se segue meio que retoma o que vimos no primeiro ato, mas agora com uma pitada filosófica jogada na história por Frayn. Na verdade, uma tentativa de transferir os ensinamentos da física quântica para o nosso conhecimento da ação humana, algo que não me agrada considerar. Prefiro abordar os aspectos mais acadêmicos que emergem em profusão do texto de Frayn. Por exemplo, quando Margrethe diz que Heisenberg não conhecia a física que levaria à bomba, Heisenberg responde, dizendo que isso era intriga de Goudsmit, que tinha raiva dele porque seus pais morreram em Auschwitz.

Na sequência, eles continuam discutindo se Heisenberg sabia ou não como construir a bomba. Heisenberg diz que sabia, mas não teria dito aos seus colegas alemães, porque ele não queria construir a bomba. Heisenberg diz que no dia da explosão da bomba em Hiroshima, quando eles estavam presos em Farm Hall, e depois que todos foram dormir, ele disse a Otto Hahn como a bomba poderia ter sido construída. Segue-se então uma conversa mais técnica, entre Bohr e Heisenberg, falando de nêutrons rápidos, separação do urânio-235, a opção da bomba de plutônio, a questão da massa crítica, ou seja, a quantidade de material necessária para se obter a reação em cadeia.

Heisenberg tenta mudar o rumo da conversa, levantando a questão moral a respeito do envolvimento de físicos na exploração prática da energia atômica. Mas não tem sucesso no seu intento. Bohr volta a levantar questões técnicas a respeito da fabricação da bomba e da hipótese que Heisenberg não sabia como fazê-lo. A conversa continua assim, indo e vindo, entre questões técnicas e morais. No final da peça, um longo discurso de Heisenberg, a respeito de sua situação no final da guerra, antes de ser aprisionado pelos ingleses, expõe o pensamento filosófico e moral de Frayn. Heisenberg começa sua longa fala dizendo que seria necessária uma estranha nova ética quântica. Depois de breves comentários das três personagens, a última fala é de Heisenberg, impregnada por essa abordagem filosófica de Frayn:

Nossos filhos e os filhos de nossos filhos. Preservados, possivelmente, por aquele breve momento em Copenhague. Por algum evento que nunca será completamente localizado ou definido. Por esse núcleo final de incerteza no coração das coisas.

Nessa misteriosa sentença, Frayn evoca o princípio da incerteza de Heisenberg, quando faz sua personagem mencionar algum evento que nunca será completamente localizado ou definido. Esse princípio será apresentado mais adiante.

Enfim, a peça termina em um ambiente conciliador, o que não corresponde ao que se viu depois que os esboços da carta de Bohr vieram a público. E o que mais nos deixou a peça de Frayn? Deixou um bem estruturado roteiro para uma parte da história da física moderna justamente no período de transição para a física contemporânea. É o que veremos mais adiante.

A versão de Werner Heisenberg

A versão de Heisenberg sobre o encontro veio a público por meio de uma carta que ele escreveu a Robert Jungk, que a anexou ao seu livro, Brighter than a Thousand Suns. A personal history of the atomic scientists [6], publicado em 1957.

Tudo que Heisenberg relata na carta, foi usado por Frayn em seu contexto ficcional. Como registro histórico vale a pena aqui destacar os pontos importantes até onde permitia a memória de Heisenberg, que confessou ser incapaz de reproduzir exatamente o que eles disseram no encontro. A dúvida começa pela data do encontro, Heisenberg acredita ter sido no final de outubro. Todavia, em carta enviada a Bohr por Carl von Weizsäcker (1912-2007), em 14 de agosto de 1941, este informa que ele e Heisenberg vão a Copenhague participar de um seminário sobre astrofísica, no recém-criado Instituto Cultural Alemão, e programado para os dias 18-24 de setembro. Heisenberg falaria sobre física de alta energia e Weizsäcker falaria sobre fusão nuclear nas estrelas.

Antes de apresentar trechos da carta de Heisenberg, talvez seja interessante fazer um parêntese para dizer que Weizsäcker convidou Bohr e os colegas do Instituto de Física Teórica de Copenhague (IFTC) para comparecerem ao evento e adiantou que eles gostariam de fazer uma visita privada ao estimado mestre. Nenhum membro do IFTC compareceu ao seminário, mas Heisenberg compareceu várias vezes ao IFTC, durante sua estada em Copenhague, sem encontrar Bohr em seu local de trabalho. Daí ele encontrou-se com Bohr nas proximidades do museu Ny-Calsberg.

Eis trechos da sua carta a Jungk, assinada em 18 de janeiro de 1957 [6]:

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Tanto quanto me lembro, embora eu possa estar errado depois de tanto tempo, a conversa aconteceu da seguinte maneira. Minha visita a Copenhague ocorreu no outono de 1941, na verdade acho que foi no final de outubro. Nesse momento, no Clube do Urânio, como resultado de nossos experimentos com urânio e água pesada, chegamos à seguinte conclusão: Seria definitivamente possível construir um reator a partir de urânio e água pesada que forneceria energia. (…) Sabíamos que era possível produzir bombas atômicas, mas superestimamos os recursos técnicos necessários. (…) Essa situação dava aos físicos naquele momento influência decisiva sobre os desenvolvimentos futuros, uma vez que eles poderiam argumentar com o governo que as bombas atômicas provavelmente não estariam disponíveis durante o curso da guerra. (…)

Nessas circunstâncias, pensamos que uma conversa com Bohr seria valiosa. (…) Essa conversa provavelmente começou com a minha pergunta sobre se era certo ou não que os físicos se dedicassem em tempo de guerra ao problema do urânio – pois havia a possibilidade de que o progresso nessa esfera pudesse levar a graves consequências na técnica da guerra. (…) Ele respondeu, tanto quanto me lembro, com outra pergunta: Você realmente acha que a fissão de urânio pode ser utilizada para a construção de armas? Posso ter respondido: Sei que isso é, em princípio, possível, mas exigiria um tremendo esforço técnico, que, espero, não pode ser realizado nesta guerra. Bohr ficou chocado com a minha resposta, obviamente assumindo que eu pretendia transmitir a ele que a Alemanha havia feito um grande progresso na direção da fabricação de armas atômicas. Embora eu tenha tentado posteriormente corrigir essa falsa impressão, provavelmente não consegui ganhar a confiança completa de Bohr, principalmente porque eu apenas ousava falar com cautela (o que foi definitivamente um erro da minha parte) (…). Fiquei muito infeliz com o resultado dessa conversa.

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Logo depois da desastrada visita de Heinsenberg, o jovem físico Hans Jensen (1907-1973) foi enviado a Copenhague para tentar esclarecer o posicionamento de seu colega alemão. A reação de Bohr foi ainda mais violenta, considerando-o um agente provocador.

A versão de Niels Bohr

Tão logo tomou conhecimento desse relato de Heisenberg, Bohr esboçou uma carta que jamais foi enviada. Na verdade, entre 1957 e 1962, ele escreveu vários esboços dessa carta e deixou instruções a sua família para que os tornassem públicos 50 anos após sua morte. Todavia com o lançamento da peça Copenhague, em 1989, baseada em grande parte na versão de Heisenberg, a família decidiu liberar os documentos em 2002, dez anos antes da data prevista. No arquivo Niels Bohr, há uma coleção denominada 1941 Bohr-Heisenberg meeting, contendo 11 documentos, nove dos quais referem-se ao encontro, um é o esboço de uma carta de Bohr a propósito do aniversário de Heisenberg, e outro é a resposta de Heisenberg agradecendo. De fato, os nove textos de Bohr podem ser vistos como uma espécie diário a respeito do encontro de 1941.

Facsimile de parte do primeiro parágrafo do primeiro esboço de Bohr, transcrito por seu assistente Aage Petersen. O documento não está datado, mas deve ter sido escrito após o lançamento da versão dina-marquesa do livro de Jungk, publicado em 1957. (Cortesia do Arquivo Niels Bohr).

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No primeiro esboço, achado alguns anos depois da morte de Bohr, entre as páginas do seu exemplar do livro de Jungk, ele escreve, entre outras coisas:

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Vi um livro, “Staerkere end tusind sole” [“Mais brilhante que mil sóis”], de Robert Jungk, publicado recentemente em dinamarquês, e acho que devo lhe dizer que estou muito impressionado ao ver como grande parte da sua memória enganou você em sua carta ao autor do livro, trechos dos quais estão impressos na edição dinamarquesa.

(…)

Lembro-me de todas as palavras de nossas conversas, que ocorreram em um cenário de extrema tristeza e tensão para nós aqui na Dinamarca. Também me lembro claramente de nossa conversa no meu gabinete no Instituto, onde você falou vagamente de uma maneira que me deu a firme impressão de que, sob sua liderança, tudo estava sendo feito na Alemanha para desenvolver armas atômicas e que você disse que não havia necessidade de falar sobre detalhes, pois você os conhecia completamente e que passou os últimos dois anos trabalhando mais ou menos exclusivamente em tais preparações (…) Três anos antes daquele encontro, quando percebi que os nêutrons lentos só podiam causar fissão no urânio 235 e não no 238, era óbvio para mim que uma bomba com certo efeito poderia ser produzida pela separação dos [isótopos de] urânio. Em junho de 1939, eu havia dado uma palestra pública em Birmingham sobre a fissão de urânio, onde conversei sobre os efeitos de uma bomba desse tipo, mas, é claro, acrescentei que os preparativos técnicos seriam tão grandes que não se sabia em quanto tempo eles poderiam ser superados. Se alguma coisa no meu comportamento pode ser interpretada como choque, não deriva de tais relatórios, mas das notícias de que a Alemanha estava participando vigorosamente de uma corrida para ser a primeira com armas atômicas. Além disso, na época eu não sabia nada sobre o quão longe alguém já havia chegado na Inglaterra e na América. Só tive conhecimento no ano seguinte, quando fugi para a Inglaterra depois de ser informado de que a força de ocupação alemã na Dinamarca havia preparado minha prisão.

(…) Outra coisa é que, naquela época e desde então, sempre tive a forte impressão de que você e Weizsäcker haviam organizado o simpósio no Instituto Alemão, no qual não participei por uma questão de princípio, para visitar-me para assegurar-se de que eu não estava sendo ameaçado e para socorrer-me naquela situação perigosa.

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Veja que a versão de Bohr é diferente daquela de Heisenberg em dois pontos importantes. Primeiro quanto ao local do encontro. Até então sabia-se que eles tinham conversado em uma caminhada ao ar livre, como relata Heisenberg em sua carta a Jungk. Bohr afirma que foi em seu gabinete no IFTC. Depois, Bohr nega que tenha perguntado a Heisenberg “Você realmente acha que a fissão de urânio pode ser utilizada para a construção de armas?” A possibilidade da confecção de uma bomba atômica já tinha se tornado pública na palestra de Bohr em Birmingham.

Interessante observar que esses esboços foram escritos de 1957 em diante, mais de 15 anos depois do encontro, que Bohr sistematicamente pensa ter sido em 1942. Por exemplo, no documento 5a, cópia datilografada de uma carta escrita em 27 de dezembro de 1961, jamais enviada, ele demonstra essa dúvida ao escrever 1942 (?):

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No momento, estou tentando atender solicitações sobre o papel da física nuclear nos tempos sombrios que todos tivemos que viver durante a última guerra e, assim, como em qualquer outra investigação histórica, senti a dificuldade em formar uma impressão precisa dos eventos em que muitos participaram. Espero que tenhamos a oportunidade de conversar mais detalhadamente sobre essas questões e esclarecer vários mal-entendidos, especialmente em relação à visita de você e Weizsäcker a Copenhague em 1942 (?), cujo contexto e propósito ainda continuo a ser questionado por muita gente.

Facsimile do segundo parágrafo de uma carta escrita por Bohr em 27.12.1961 e jamais enviada a Heisenberg. (Cortesia do Arquivo Niels Bohry).

O documento 6 é muito interessante. O original, sem data, é um manuscrito com a letra de Margrethe Bohr. Trata-se de um depoimento, algo como um documento para a história. Vale a pena reproduzi-lo integralmente. Observe que Bohr pensa mesmo que o encontro foi em 1942:

As conversas com físicos alemães no outono de 1942.

Através das autoridades alemãs, Heisenberg e Weizsäcker organizaram uma conferência de física no Instituto Alemão em Copenhague, que havia sido estabelecido pela potência ocupante. Apenas alguns dinamarqueses participaram [desta conferência] e, entre eles, nenhum dos físicos do Instituto de Física Teórica da Universidade. Durante esses dias, no entanto, Heisenberg e Weizsäcker visitaram este Instituto e conversaram com Chr.[Christian] Møller, bem como com Bohr.

Durante a conversa com Bohr, Heisenberg afirmou que estava trabalhando na liberação de energia atômica e expressou sua convicção de que a guerra, se não terminasse com uma vitória alemã, seria decidida por esses meios. Heisenberg disse explicitamente que não queria entrar em detalhes técnicos, mas que Bohr deveria entender que sabia do que estava falando, pois passou dois anos trabalhando exclusivamente nessa questão.

Bohr conteve-se e não fez qualquer comentário, mas entendeu que essa era uma informação importante a respeito da qual ele deveria chamar a atenção dos ingleses.

Durante conversas com Møller, Heisenberg e Weizsäcker procuraram explicar que a atitude do povo dinamarquês em relação à Alemanha e a dos físicos dinamarqueses em particular era irracional e indefensável, uma vez que uma vitória alemã já estava garantida e que qualquer resistência contra a cooperação só poderia trazer desastre para a Dinamarca. Nessa conversa, Weizsäcker declarou ainda o quanto o trabalho de Heisenberg significaria para a guerra, pois após a grande vitória esperada, os nazistas adotariam uma atitude mais compreensiva em relação aos esforços científicos alemães.

É uma pena para a historiografia que Bohr não tenha enviado algumas dessas cartas para Heisenberg. Instigado pelos comentários de Bohr, talvez Heisenberg tivesse contribuído para o esclarecimento do contexto em que se deu o encontro. A questão é: por que Bohr não enviou aquelas cartas? Será que Bohr não enviou porque depois da guerra os dois se reconciliaram, e parece que a amizade voltou a ser como antes? Quem sabe Bohr não tenha desejado reabrir aquelas dolorosas feridas?

O último encontro entre eles talvez tenha sido em junho de 1962, em Lindau, uma cidadezinha medieval na Baviera, onde anualmente há uma reunião de laureados com o Prêmio Nobel e jovens cientistas. Em 1962 o evento foi dedicado à física, e contou com a presença de 483 jovens cientistas. Em dezembro daquele ano Bohr teve um ataque cardíaco e não sobreviveu.

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A partir da esquerda: Bohr, Heisenberg e Dirac, durante o Encontro de Laureados com o Prêmio Nobel, em Lindau.

No próximo ensaio apresentarei o contexto político, científico e tecnológico por trás da peça de Michael Frayn.

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Carlos Alberto dos Santos

Carlos Alberto dos Santos é professor aposentado pelo Instituto de Física da UFRGS. Foi Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UNILA e pesquisador visitante sênior do Instituto Mercosul de Estudos Avançados. Premiado com o Jabuti em 2016 (3º. Lugar na categoria Ciências da Natureza, Matemática e Meio Ambiente), atualmente é professor visitante no Instituto de Física da UFAL.