Há várias histórias que em 2025, no octogésimo aniversário do fim da Segunda Grande Guerra, ainda guardam relevância para além da efeméride que agora comemoramos. A escolha de quais são mais importantes depende do que apontamos como o evento que pôs fim à Guerra: se a invasão soviética em Berlim, entre abril e maio de 1945, ou se a rendição japonesa no início de setembro do mesmo ano, semanas após as bombas norte-americanas destruírem Hiroshima e Nagasaki. A escolha indica como relacionamos aquele momento e o nosso, não porque a história se repete, e sim porque ajuda a treinar nossa memória e hierarquizar o que é mais relevante para ser mantido e mais urgente para ser alterado.

Partes dessas escolhas foram feitas meses atrás. Na ocasião, alguns chefes de Estado, inclusive o brasileiro, participaram, na Rússia e sob a liderança de Vladimir Putin, dos eventos comemorativos à chegada do exército soviético em Berlim. Tal participação aponta para uma preferência por um modo de posicionar o país em um conflito atual que, se ainda não está amplamente declarado, ninguém duvida que poderá sê-lo brevemente, já que a invasão russa na Ucrânia e os últimos conflitos no Oriente Médio tornam crível a previsão de uma guerra mais ampla.
Para muitos, e com razão, a posição brasileira de tomar para si a versão de que o término da Segunda Guerra foi igualmente resultado da vitória soviética e norte-americana confirma certa coerência da sua diplomacia, conhecida pela neutralidade e não alinhamento ideológico. Vale lembrar que, sob esse argumento, tem lugar a perspectiva de que, dadas as relações econômicas separadas das escolhas ideológicas, não só é prudente mantermos o não alinhamento como isso também amplia, no contexto atual, as oportunidades de negócios. Esse argumento fará sentido se o atual governo brasileiro tiver a mesma deferência às comemorações da vitória dos EUA em 1945 que revelou ter quando visitou Moscou no último mês de maio. Nesse caso, a história nos dá outra lição. Até certo ponto, a equidistância pode ser uma oportunidade. Mas há uma ruptura que a guerra impõe e, nesse ponto, pressiona pela definição de um alinhamento. Foi assim na Segunda Guerra Mundial, quando a opção da ditadura varguista em manter o Brasil distante do conflito foi vista até certo momento como uma estratégia. Contudo, com os rumos da guerra, a neutralidade passou a ser uma ameaça. No final, embora seja pertinente à Vargas certa simpatia ao nazifascismo, seu governo assumiu a defesa dos Aliados ante o Eixo liderado pelos alemães. Essa neutralidade, transformada em dubiedade ideológica, cobrou um preço alto não só de Vargas, mas de toda a sociedade brasileira nas décadas seguintes. Assim, o que parece uma estratégia coerente do atual governo brasileiro em tratar como semelhantes as vitórias soviética e norte-americana em 1945 poderá se mostrar uma fonte de conflitos nos próximos momentos e se revelar uma posição complacente à escalada bélica patrocinada por líderes como o presidente da Rússia faz em nossos dias.

Nesse sentido, o antídoto ao risco da narrativa usada pelo governo brasileiro é destacar outros jeitos, também verdadeiros, de contarmos a mesma história. Assim, confirmar que nossa memória sobre o fim da Segunda Guerra Mundial deve destacar a rendição japonesa é não só revelar a multiplicidade dos caminhos da história, porém, sobretudo, iluminar outros desafios aos dias atuais. E entre tantas memórias acumuladas desde setembro de 1945, três delas ganham destaque na tarefa que o passado tem em ajustar nosso entendimento sobre o presente.
A primeira nos lembra que o avanço tecnológico, que em tempos de guerra se acelera, não é necessariamente acompanhado pelo compromisso político e ético que antecipa sua aplicação. Ao contrário, muitas vezes é o uso não previsto da tecnologia já desenvolvida que acelera o debate ético sobre como e em que condições a tecnologia deveria ser usada. O Projeto Manhattan, que em tempo recorde viabilizou a construção da bomba atômica pelos norte-americanos — e inaugurou a era nuclear —, atendia a um imperativo político e ético em nome do combate ao nazismo. Mas o uso de seu resultado pode ser medido pelas mais de cem mil pessoas que perderam suas vidas, além de outras tantas que acumularam problemas físicos e psicológicos durante décadas após os dias 06 e 09 de agosto de 1945. Nesses dias, como se sabe, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki foram, respectivamente, atacadas por bombas atômicas lançadas pelos EUA em nome do encerramento da Segunda Guerra Mundial. O motivo pelo qual as bombas foram desenvolvidas não foi o mesmo pelo qual elas foram usadas. A dúvida sobre a necessidade de sua construção não era a mesma depois de alguns meses quando destruíram as cidades japonesas. A tecnologia era a mesma, a ética que envolvia a decisão de seu uso, não.
Do mesmo modo, o lançamento das bombas atômicas contra a população japonesa também foi entendido como a parte de uma nova era política e internacional, polarizada entre os dois grandes vencedores do conflito. A Guerra Fria entre EUA e a URSS durante as cinco décadas posteriores foi parametrizada pela capacidade tecnológica das armas nucleares, porém ainda por negociações políticas, diplomáticas e de definições sobre quais as âncoras éticas norteariam seu uso. A segunda lição, portanto, se revela na necessidade que temos de fazer com que a aceleração do processo de definição de parâmetros éticos, diplomáticos e políticos se mantenha um passo adiante da capacidade de avanço tecnológico.

É importante lembrar que a diluição da ordem que caracterizava a Guerra Fria deu vazão a uma euforia de que a história teria chegado ao fim. A incerteza da história frente à ingênua segurança advinda da técnica e da tecnologia foi a desculpa para nossos holofotes se virarem para o avanço tecnológico como o fundamento do que seria uma nova ordem global e liberal após a queda do Muro de Berlim em 1989. O que ontem foi a internet ao longo do tempo já se transformou em smartphone e agora se revela em TikTok e Inteligência Artificial. Ao mesmo tempo, o que parecia ser um mundo plano, previsível e “planilhável” em uma tabela de Excel (que agora é feita por um simples comando — ou prompt — no ChatGPT) se transformou, na melhor das hipóteses, numa nova antessala da guerra. Na pior, a guerra já começou, seja na Ucrânia ou no Irã. Eis a terceira lição: o fim da Guerra, em maio ou em setembro de 1945, pode ter resultado da superioridade tecnológica bélica de um dos lados. Mas, não produz o fim de uma relação conflituosa entre o avanço da técnica e da tecnologia, de um lado, e do aprimoramento ético de outro. Eles podem se complementar ou podem se anular.
A história não se repete. Ela nos ajuda a perceber quais os elementos se encerram em determinado momento e quais se reproduzem ao longo do tempo. E porque alguns andam mais rápido do que outros. Se o avanço tecnológico foi mais rápido do que o ético, se um potencializou ou atrapalhou o outro, foi porque escolhemos contar a história a partir de certo ponto. Essa é uma escolha atual. Como contaremos essa história da Segunda Guerra nesses oitenta anos de seu fim definirá se nossa maior preocupação será a busca de certo equilíbrio entre o avanço tecnológico e a ética. Caso contrário, nossa atenção será desviada para a polaridade entre EUA e URSS, que, atualizada, será entre EUA e Rússia ou entre EUA e China. A escolha que fazemos sobre qual história contamos indica como nos comportamos no presente. Mais do que isso, nesse aniversário de oitenta anos, pode estimular ou evitar a próxima guerra. Essa sim é a verdadeira escolha ética do presente.
Vinícius Müller é professor de História Econômica da Faculdade Belavista.




