Tempo de horizontes largos

por Sónia Ribeiro

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Inexistente até há poucos meses, tornou-se uma expressão comum, já quase um jargão. Nas mais diversas situações, nos distintos ambientes públicos e privados, já nos habituámos a falar dela como uma realidade em si mesma, escondendo com isso a nossa total insegurança a seu respeito. Rapidamente nos habituámos a referir-nos, assim, à “nova normalidade” com frequência e convicção, tentando encobrir a verdadeira realidade da nossa ignorância sobre o que será a realidade da economia, da sociedade, da política no futuro, com um véu de suposto conhecimento que mantenha a ilusão de que já controlamos de novo (se é que alguma vez o fizemos!) a situação. Como se rotular o momento que vivemos equivalesse à rotulagem de um qualquer novo produto com uma nova etiqueta, e com isso obtivéssemos certezas… sobre a natureza, a composição, o funcionamento… não equivale. Não sabemos.

Chamamos-lhe “nova normalidade” exatamente porque não temos nome para ela — não a conhecemos — é um tempo novo, e como tal, tempo de novas oportunidades, de novas possibilidades. Tempo de horizontes largos. De olhar de novo, com novo olhar, e redescobrir, sonhar, propor — uma nova economia, uma nova sociedade, uma nova política.

Ao invés de nos escondermos sob qualquer véu de certezas inexistentes, este é o tempo para aceitar como certeza: a inevitabilidade da surpresa, da volatilidade, da incerteza, da complexidade e da mudança. Anunciada já há vários anos — pelo menos uma década —, esta certeza tem em 2020 um marco histórico, pela evidência que já não se pode ignorar desta realidade para a qual a prospectiva tem chamado a atenção, ensinando a enquadrar em metodologias de gestão com criação de modelos flexíveis de análise e definição de estratégias de adaptabilidade permanente.

O debate sobre o modelo económico vigente e os seus limites não é recente. Tem ocupado investigadores e economistas um pouco por todo o mundo universitário e dos negócios nas ultimas décadas, verificadas que estão as insuficiências do modelo capitalista liberal — e a partir da crie de 2008 com maior evidência, nomeadamente no que respeita a temas como a justa e atualizada medição do PIB das nações, ou as crescentes desigualdades entre o mundo urbano e o rural; os benefícios usufruídos pelas pequenas elites qualificadas vs as maiorias sem acesso a educação; o aumento do desemprego e do desemprego de longa duração, os países desenvolvidos vs os países em desenvolvimento…

Como sublinha Paul Collier já em 2018, à medida que essas divisões se aprofundam, foi sendo perdido o sentido de obrigação ética para com os outros. Este sentido foi crucial para o surgimento da social-democracia no pós-guerra, que permitiu reconstruir economias e tecidos sociais pela definição de políticas dirigidas à maximização da possibilidade de ascensão social e acesso aos benefícios económicos por todos, de forma tendencialmente harmonizada.

Assim, nos últimos anos, a resposta a estes desafios — e às ansiedades que geram nas sociedades — foi respondida com o regresso das ideologias e o aproveitamento do momento por populistas que apresentam soluções que não conseguem implementar, e que, a tornarem-se efetivas, não só não resolvem os problemas como tendencialmente os agravam.

A economia global já estava em uma situação precária antes da pandemia, com muitas regiões desenvolvidas e em desenvolvimento com crescimento lento ou nulo, e algumas já em contração, e sofrendo outras pressões estruturais como a ameaça tecnológica aos empregos; enfraquecimento da demografia — em termos de tamanho da população e idade, bem como o nível de qualificação dos trabalhadores; aumento da desigualdade de rendimento; escassez de recursos e preocupações ambientais/climáticas; produtividade em declínio…

Hoje, dois traços essenciais do momento imediato pós-pandemia podem ser observados e vêm somar-se àquela lista: (1) uma economia com forte presença do Estado, a quem caberá conduzir a economia em direção à recuperação, já que a contribuição do setor privado para o PIB diminuirá. Será reforçada também a pressão regulatória sobre as principais indústrias no setor de tecnologia, cuja relevância para o modelo económico durante e no período pós-pandemia aumentou dramaticamente; e (2) a aceleração de uma tendência de “desglobalização” ou pelo menos de alguma contenção e revisão, pelo menos pontual, do processo de globalização competitiva, com imposição de limites no comércio global, nos fluxos de capital, mas também na imigração e na difusão de ideias, enquanto as instituições multilaterais que foram centrais no modelo de governança da economia global nos últimos 75 anos enfrentarão um processo acelerado de marginalização no sistema económico mundial num movimento inverso ao da afirmação do poder dos Estados.

Nenhuma das ameaças pré-pandemia à economia global desapareceu, e pelo contrário, com a crise gerada pela COVID-19 e as resposta que estão a ser encontradas, estão a agravar-se e a agravar todas elas. Ampliaram-se os grandes riscos que já existiam e introduziram-se mais barreiras ao crescimento na próxima década.

Ainda antes da pandemia, na ausência de outra resposta para a solução desses verdadeiros abismos de desigualdades na economia mundial, ressurgiram as ideologias revivalistas do populismo e do socialismo, levando a convulsões políticas que arrastam as economias e sociedades respetivas, nos EUA — com a eleição de Trump; na Europa, com o Brexit e, em diversos países, com o reaparecimento de partidos conservadores e mesmo da extrema direita. Face a estes desenvolvimentos, permanece a retórica da sua não solução para os problemas detectados, sem se conseguir definir novos rumos que permitam confrontar essas falsas respostas com uma proposta viável de solução, assentes no pragmatismo e não na ideologia.

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‘Para que Bruxelas não se torne Babilônia, europeus escolhem a AfD’, diz banner do AfD em Berlim (Foto: Omer Messinger / AFP / Estadão Acervo)

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O momento com o qual nos confrontamos agora — a tal “nova normalidade” — é o tempo de voltar a debater as questões estruturantes da economia, procurando formas de concretizar o modelo de sociedade que responda às necessidades e expectativas dos cidadãos, definindo estratégias ágeis e flexíveis que permitam a adaptabilidade às condições do que for o nosso futuro, sem perder de vista esse horizonte largo que nos permite projetar um futuro que nos inspire.

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Sónia Ribeiro

Sónia Ribeiro é Doutorada e Mestre em Estudos Europeus pelo Instituto de Estudos Europeus da Universidade Católica Portuguesa e Licenciada em Relações Internacionais (1997) pela Universidade Lusíada do Porto É Professora Convidada do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e Coordenadora da Linha de Investigação em Assuntos Marítimos, desde 2011. Desde 2014 coordena também o Programa Avançado em Estudos do Mar deste Instituto.