Por sua orientação pluralista, democrática e aderente ao ensaio como forma, Crítica para náufragos e outros ensaios (Cepe Editora, 2026), de Eduardo Cesar Maia, professor da UFPE, é daqueles raros livros que traz uma leitura arguta da prática crítica sem se arvorar em manual de crítica prática. A obra tem por horizonte, em seus quinze ensaios, uma crença convicta no valor do dissenso, da urbanidade e da especificidade literária não enquanto panaceia, mas antes como paideia necessária frente ao pernicioso fascínio da ideocracia, tal como formulada pelo espanhol Miguel de Unamuno, aqui livremente entendida como o abandono da autonomia individual em prol de qualquer certeza esquemática sobre a realidade.
Contando com um prefácio de Lourival Holanda e apresentação de José Roberto Luna Filho, organizador do volume, a obra, por toda sua abrangência e qualidade, oferece uma importante contribuição à “conversão cultural interminável” de que fala o filósofo norte-americano Richard Rorty, objeto de um dos ensaios, para a qual a ausência de certezas é importante força motriz. Como ensejo à continuidade desse colóquio, vemos aqui, entre outras meditações — em forte sentido orteguiano de crítica como “ato de ‘potenciar’ um texto” (p. 152) —, Mario Vargas Llosa lendo o Quixote; as afinidades entre Gilberto Freyre e o ensaísmo hispânico; a importância do trabalho do italiano Ernesto Grassi para a recuperação da tradição humanista; Ortega y Gasset e sua leitura bastante particular do mesmo Quixote e suas reflexões sobre os usos da metáfora; e até um excurso pela teoria da arte a partir de uma visão reticente a certas ideias do artista conceitual norte-americano Joseph Kosuth.

O ensaio de abertura, “Crítica para náufragos: literatura para além das trincheiras”, que habilmente dá o tom do conjunto, recusa com serena veemência qualquer anseio de reflexo da realidade por parte da literatura. Impura por excelência — afinal, em toda pureza há sempre algo de inumano —, a criação literária mostra-se inerentemente subversiva em seu duplo movimento: recusa a dita realidade como unívoca e irreparável, enquanto instaura outra, marcada pela consciência de seus limites ficcionais. Ou, como diz Maia, sem se esquecer de seu dileto Ortega: “Ao afirmar uma ‘irrealidade’, a ficção da arte ‘desrealiza’ o real convencionado, e mostra que o sentido habitual das palavras, dos valores e das formas de olhar o mundo são pendentes justamente das crenças que habitam as narrativas que carregamos conosco.”
A literatura e sua crítica, seja no âmbito da produção ou da recepção, seriam práticas propícias à expansão da nossa “imaginação moral”, sem que isso necessariamente implique seu aprimoramento. Ademais, a melhor fruição dessas atividades não se pode dar de forma dogmática ou sacerdotal, sendo esse desapego em relação a qualquer verdade insofismável (sua e dos outros) a condição fundamental da frequentação literária. Ato contínuo, um dos cernes do livro é a conceituação de uma noção ampla de humanismo, corrente de baixa hierarquia filosófica, ofuscada pelo racionalismo idealista platônico-cartesiano, mas cuja renitência se faz mais imperiosa por sua capacidade de aceitar a ambiguidade e a contingência enquanto inerentes à linguagem e ao pensamento humanos. Espraiadas pelo livro, as constantes redefinições dessa importante tradição, como lemos sobretudo em “Uma tradição plural e antidogmática: os caminhos do Humanismo”, atuam como baixo-contínuo e tendem, em seus ricos matizes, a gravitar em torno da conceituação do humanismo crítico de José Guilherme Merquior, outro interlocutor incontornável das pesquisas de Maia. O pensamento do crítico carioca é revisitado em dois ensaios que elucidam a busca por integrar o plano moral com o intelectual, assim como o pensamento abstrato-conceitual e as múltiplas formas de experiência de mundo, por meio de uma abordagem sub specie instantis que almeja ultrapassar os limites dos muitos estruturalismos — sem necessariamente desprezá-los, como se vê na fecunda interpretação que faz Merquior da obra de seu professor Claude Lévi-Strauss.

Nesse sentido, “Os limites da teoria diante da arte literária: uma perspectiva humanista” é um dos destaques do livro por sua abrangência de recensão, mas também pelo viés propositivo de um enfoque heterodoxo e tendente à apreciação da retórica e do aspecto sempre (re)criador da linguagem — no caso, sobretudo da parole, da palavra viva da literatura e da crítica, e não da langue ossificada de certos linguistas, filósofos e teóricos da literatura. Nesse escrutínio de alguns dos principais volteios da teoria e crítica literárias do século 20, destaca-se a famigerada discussão acerca da morte do autor e ascensão do leitor, celeuma protagonizada em grande parte pelos franceses Roland Barthes e Michel Foucault, e, um pouco mais adiante, já no âmbito da Estética da Recepção, pelos alemães Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser. Cabe, contudo, indagar se não haveria espaço nessa discussão para o nem sempre lembrado C.S. Lewis e seu instigante Um experimento em crítica literária (1961), cujo foco recai sobre a experiência do leitor e que não deixa de ser o desdobramento de uma feraz polêmica de fins de 1930 entre Lewis e E. M. W. Tillyard — compilada no volume The Personal Heresy (1939) — acerca do que Lewis chamou de “heresia pessoal” na exegese literária, isto é, a valorização do autor em detrimento da obra em si.
Embora a noção, geral ou diluída, em torno da morte do autor pareça ter ganhado proeminência no discurso acadêmico, reforçada por outras modalidades teóricas pós-estruturalistas, cabe talvez ponderar se, em um escopo mais amplo que abarca o leitorado em geral e modalidades menos formais de crítica (particularmente no espaço digital das redes sociais) de uma época em que os autores encontram-se, quiçá por necessidade de autopromoção, a um ou dois cliques de distância, o que hoje experimentamos não estaria mais próximo da morte do texto — uma forma alternativa de conceituar “heresia pessoal” — conjuntura em que o personalismo, a lealdade de grupo e mesmo certo viés de cultura do cancelamento (penso aqui no repúdio em massa a J.K. Rowling, mas também na polêmica nacional entre Itamar Vieira Junior e Lígia Diniz) tendem a ofuscar a liberdade do leitor.
Abordado em três dos ensaios, o pernambucano Álvaro Lins, o “imperador da crítica brasileira” dos anos 1940, nas palavras de Drummond, parece personificar um certo ideal de crítica que, no entanto, também possui seus limites. Nome de proa do período quiçá mais vigoroso da crítica de rodapé brasileira, os textos de Lins podiam ser encontrados quase semanalmente pelos leitores de jornal ao lado dos de Otto Maria Carpeaux (a quem retornarei), Sérgio Buarque de Holanda e até de um jovem Antonio Candido, que tão emblematicamente representaria a fértil, mas também restritiva, transição do rodapé para a academia. Pode-se dizer que Lins conjugava traços definidores desse âmbito de atuação: vasta cultura letrada, obtida por meio de dedicado estudo autodidata; ampla presença na vida literária, corporificada na ideia de crítico como “regente” da literatura; e clara noção do equilíbrio entre rigor metodológico e certo impressionismo constitutivo, capaz de resguardar certo ideal de autonomia — noção central da abordagem de Maia e passo inerente para a efetivação de uma “crítica criadora”, que deve ser, nas palavras de Lins, “livre nos seus movimentos de espírito, conquanto apoiada e impulsionada pela ciência literária” (p. 184). Em suma: a crítica, sem se limitar a apenas isto, é, também, uma forma de arte.
A análise feita por Maia dos sete tomos nunca republicados do Jornal de Crítica (1941-1963) de Lins revela a busca e concreção de uma autonomia que, nos primeiros volumes, opõe-se aguerridamente aos valores ostensivos de uma época coletivista, que parece atacar o indivíduo de todas as frentes, tendo por mira inclusive a dissolução da vida privada, como escreveria Hanna Arendt acerca dos aspectos distintivos do totalitarismo do século 20. Nesse sentido, Crítica para náufragos, em seu escopo e finalidade, parece ancorar-se na crença relativamente simples, mas não só apenas fora de moda como quase acintosa em nossa época de reações e “opiniões” instantâneas, que aparece bem no início do primeiro volume do Jornal de Crítica (1941), escrito há mais de oitenta anos: “O ato de tudo aceitar, como o ato de tudo negar, não é um ato de crítica. É um ato de positiva ou negativa apologia, e só. O ato da crítica é aquele que completa, que retifica, que amplia. O que abre perspectivas, o que desdobra situações”. Assim, a contraposição no pensamento de Lins entre a busca por autonomia e estilo pessoais e a adesão a uma visão católica de mundo delineia a figura de “um católico com a nostalgia do ceticismo”, na definição de Gilberto Freyre sobre o amigo, mas que, nos termos da cadeia semântica mobilizada por Maia ao longo do livro, pode igualmente ser vista como um náufrago com nostalgia da terra firme.

Se Lins faz-se candente do humanismo crítico que Maia historiciza e pratica em seu livro, outro exemplo pode ser encontrado na emblemática figura do vienense Otto Karpfen, apresentado por Lins aos brasileiros na página do Correio da Manhã em abril de 1941 como Otto Maria Carpeaux, nome que logo viria a ter lugar destacado nos meios intelectuais e que seria alvo de mais de uma campanha de difamação por parte da intelligentsia nacional. No penúltimo ensaio do livro, Maia analisa a relação nem sempre amigável entre Lins e Carpeaux, com destaque para a partilha de uma visão crítica que ultrapassa a rigidez do método ou o mero apanágio da erudição.
Obrigado a se exilar pela sanha nazista que anexou sua terra natal em 1938, o impedimento do retorno, inicialmente político e posteriormente pessoal no caso de Karpfen, conduz a uma situação limítrofe em que mesmo a adoção consciente e interessada de uma nova vida e nacionalidade no Brasil não ofusca de todo a vida pregressa, que continua a fluir em novo solo. Daí o interesse, para pensar a vida brasileira de Carpeaux como um tudo, de um termo como “transterrado”, proposto por Maia a partir da obra do filósofo espanhol José Gaos, referindo-se àquele que “tendo que sair de sua terra natal, redescobre-se e se reinventa em outra, com a qual encontra tão grande sintonia e afinidade que passa a se sentir ‘empatriado’”. A visão de Gaos não deixa de trazer certo viés positivo da sua própria experiência como um todo (no seu caso, o exílio mexicano) que não necessariamente se faz denominador comum para os exilados, mas o destaque para o aspecto transitivo do transplante de corpos e ideias (também presente no conceito de “transculturação” do sociólogo cubano Fernando Ortiz, apropriado de forma inventiva pelo crítico uruguaio Ángel Rama para pensar a literatura latino-americana) reforça o gesto contínuo de “dupla desprovincialização” descrito por Peter Burke em Perdas e ganhos (2017), por meio do qual os exilados adquirem progressivamente uma nova cultura enquanto ofertam novos jeitos de pensar como paga a seus anfitriões, constituindo, a meu ver, uma outra modalidade importante de humanismo crítico.
No texto de abertura, lemos que “O crítico é um náufrago; o ideólogo — ou o teórico metafísico — é alguém que já se encontra seguro, em sua terra firme imaginária, seja conceitual ou ideológica”. Se toda crítica, portanto, parece sempre lidar com os restolhos de um naufrágio, ainda mais sério é o caso dos ensaístas, para quem a busca pela própria forma pressupõe certo atravessamento e deslocamento constitutivos. A razão de ser do ensaio, diz Max Bense, não consiste no desvelamento do objeto, mas na contínua criação de novos contextos e configurações de inserção. Em um mundo que parece cada vez mais à deriva, resta ao ensaísta falar desde o próprio enseio, do seu recôncavo particular, consciente, contudo, de que nenhum homem é uma ilha. É sempre preciso, portanto, como lembra Carlo Ginzburg em Nenhuma ilha é uma ilha (trad. Samuel Titan Jr., Cia. das Letras, 2004) e bem exemplifica Eduardo Cesar Maia em seu livro, “Ler a realidade às avessas, partindo de sua opacidade, para não permanecer prisioneiro dos esquemas da inteligência”.
Guilherme Mazzafera é doutor em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP (2024), onde também realizou seu mestrado (2017) e graduação em Letras (2013). Atua como professor, crítico literário, revisor e tradutor, tendo vertido para o português, entre outros, O Hobbit Anotado (J.R.R. Tolkien; Douglas Anderson, HarperCollins Brasil, 2021) e Prefácio ao Paraíso Perdido (C.S. Lewis, Thomas Nelson Brasil, 2024).




