Escrever, prescrever: nove séculos de medicina e literatura em Portugal

Antologia reúne séculos de literatura portuguesa pelo prisma da medicina e da doença, revelando a dimensão humana do sofrimento e da cura.

O juramento hipocrático, que consagra a vida do médico ao serviço da humanidade, bem poderia ser aplicado ao ofício de escrever. Encarar o trabalho com consciência e dignidade é valor que orienta a prática médica, mas também se aplica à literatura, ainda que nesta última haja mais espaço para a transgressão e o experimento. 

Desde 2025, está disponível aos leitores brasileiros, em cuidada edição da Pontes Editores, com apoio da Cátedra Fidelino de Figueiredo (IC/UNEB) e da DGLAB (Portugal), o título A Caneta que Escreve e a que Prescreve: doença e medicina na Literatura Portuguesa, organizado por Clara Crabbé Rocha, professora catedrática da Universidade NOVA de Lisboa com vasto trabalho de pesquisa sobre o gênero autobiográfico em Portugal, e com colaboração de Teresa Jorge Ferreira, pesquisadora na área de poesia portuguesa contemporânea, no Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa. O prefácio fica a cargo de Emílio Rui Vilar, jurista, gestor e presidente do conselho de administração da Fundação Calouste Gulbenkian entre 2002 e 2012. 

O título deriva de uma entrada do diário do médico e escritor Miguel Torga, um dos autores do século 20 que figuram na antologia e cuja obra diarística é o principal testemunho dessa dupla vocação. A escolha das palavras é precisa: entre escrever e prescrever, há uma raiz latina comum, o verbo scribere, e uma diferença evidenciada no prefixo prae: “antes”, “à frente”. Prescrever é escrever antecipadamente, ordenar o que virá, determinar o curso da ação. Nesse sentido, médico e escritor compartilham um mesmo ato: ambos inscrevem no papel palavras que visam a intervir no real, a transformá-lo. Ambos os gestos pressupõem diagnóstico, escuta e interpretação. Ambos mobilizam a palavra como instrumento de intervenção no mundo. 

Com 371 páginas, o volume abrange nove séculos de literatura portuguesa, reunindo excertos sobre medicina e doença extraídos de obras de mais de 120 autores. O arco temporal é extenso: inicia-se no século 13, com escritos do médico Pedro Hispano, Papa João XXI, retirados de seu Livro sobre a Conservação da Saúde, a começar pelas “coisas que fazem bem aos olhos”, e chega ao século 21, fechando com José Luís Peixoto e sua metáfora da peste como símbolo do abandono e da solidão. Entre um ponto e outro, aparecem nomes fundamentais: Gil Vicente, Camões, Padre António Vieira, Bocage, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Eça de Queirós, Cesário Verde, António Nobre, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa e seus heterônimos, Florbela Espanca, José Régio, Vergílio Ferreira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires, António Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares, entre tantos outros. 

Além disso, a edição brasileira preserva a grafia e a ortografia do texto original português e mantém o padrão, a ordem e a seleção da primeira edição portuguesa, lançada em 2012, com exceção dos escritos de Jaime Cortesão e Herberto Helder.

O “médico-escritor” Miguel Torga. Crédito: Pascal Moreaux.

A doença como matéria literária

O panorama construído pela sequência de textos apresenta diferentes perspectivas sobre a medicina e a doença. Há médicos-escritores, como Fernando Namora, Miguel Torga e João de Araújo Correia, cujas narrativas carregam o peso da experiência clínica vivida. António Lobo Antunes, por exemplo, pertencente a uma linhagem familiar de médicos: trazia a medicina “no sangue” e a exerceu nos campos da guerra colonial, relatando, em prosa densa e sincopada, a experiência clínica. Há escritores que fabularam médicos e habitaram com a imaginação o universo da prática médica, como Eça de Queirós e seu Carlos da Maia (Os Maias) e Gonçalo M. Tavares, com o peculiar e excêntrico paciente Sr. Henri, personagem que transita entre o absurdo e o trágico. Mas, se há médicos que escrevem, há escritores que nutrem o sonho não realizado de exercer a medicina. É o caso de José Rodrigues Miguéis que confessa sua fascinação permanente por esse campo de conhecimento. E há aqueles que escreveram sobre a própria doença de maneira íntima e dilacerada, como Al Berto no poema “Sida” ou Florbela Espanca sobre a neurastenia — termo recorrente no século 19 — que a atormentava. 

Além disso, a antologia contempla diferentes gêneros: embora privilegie a prosa, abarca nomes de força da poesia, como Cesário Verde, António Nobre e Sophia de Mello Breyner; do teatro, com excertos de peças de Gil Vicente e Bernardo Santareno; do diário, com Torga e Marcello Duarte Mathias; e até da epistolografia, com a carta de D. Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna, a seu pai. A organização cronológica, segundo a data de nascimento dos autores, permite ao leitor escolher seu próprio percurso: ler em sequência e acompanhar as transformações da língua e da sensibilidade, ou saltar entre séculos conforme o interesse. 

O que mais impressiona é a amplitude temática, derivada do recorte central da antologia. Encontramos reflexões profundas sobre o fazer médico, como as do também médico João de Araújo Correia, que distingue com fineza entre “doentes fáceis e difíceis”, dando voz aos pacientes em seus diferentes temperamentos e sofrimentos. Em contraste, há descrições técnicas — um dos principais exemplos encontra-se em Garcia de Orta, com a descrição científica do tamarindo e suas propriedades medicinais — e minuciosas de doenças e sintomas: bronquite seguida de pneumonia dupla, tuberculose e crise hemoptóica, cólica renal, crises noturnas de insuficiência do ventrículo esquerdo, câncer, hipertensão, astigmatismo. O repertório de doenças é quase tão vasto quanto um tratado de medicina, mas sempre mediado pela dimensão estética e humana da escrita. 

Mas a doença nesta antologia não fica restrita às mazelas do corpo, abrangendo também os males da alma. O amor como patologia já era tema frequente na poesia medieval, nos sonetos de Camões, que figuram na seleção, ou nas rimas de Sóror Maria do Céu, que exploram a doença como metáfora e a semelhança entre as propriedades do amor e da enfermidade. Já Alexandre Herculano, no século 19, trata da “doença” amorosa do presbítero Eurico pela inacessível Hermengarda. Temas sensíveis como o luto e a tristeza atravessam as páginas, mas há também espaço para o humor, como na visão espirituosa e bem-humorada de Augusto Abelaira sobre a morte, ou na pena sarcástica de Camilo Castelo Branco. 

Se a doença surge frequentemente como experiência individual na literatura, a tísica, ao contrário, era mal comum entre muitos poetas românticos, como Cesário Verde e António Nobre, conferindo aos doentes uma aura de fragilidade sublime. Antero de Quental, por sua vez, deixou registrada a luta agonizante contra sua doença nervosa. Semelhante angústia se passa a José Régio, que, em Confissão dum homem religioso, aborda suas crises de nervos e o lado supostamente positivo que a doença teria para um escritor. Já Álvaro de Campos traduz com perfeição prosaica o incômodo universal de uma constipação: “Tenho uma grande constipação, / E toda a gente sabe como as grandes constipações / Alteram todo o sistema do universo, / Zangam-nos contra a vida, / E fazem espirrar até à metafísica”. 

Há cenas de nascimentos difíceis, como as narradas por Fernando Namora; descrições impiedosas de uma senhora com câncer, na pena de Luísa Dacosta; a vertigem graficamente simulada na página de poesia concreta de E. M. de Melo e Castro; a mosca como símbolo da morte no poema cru e desencantado de A. M. Pires Cabral. Há também o tom confessional de Manuel Laranjeira, em carta a Miguel de Unamuno, referindo a doença coletiva num determinado momento histórico; a despersonalização radical de José Cardoso Pires diante do “outro de si mesmo”, quando tenta reconstituir literariamente a experiência de um acidente vascular cerebral; a perspectiva do poeta que assiste à morte alheia, como a de Eugénio de Andrade ao evocar a melancolia de Teixeira de Pascoaes. 

Menos frequentes, mas igualmente curiosos, são os conselhos sobre o cuidado com a saúde. O médico Francisco Sanches, já no século 16, recomenda: “levante-se, sempre, às seis horas, almoce às dez, ceie às seis, e deite-se às dez”. Apesar do intervalo temporal que nos separa, as orientações permanecem surpreendentemente familiares: alimentação leve e regular, sono, repouso. A medicina muda, a tecnologia evolui, mas as necessidades do corpo pouco se transformam. A prescrição médica é, afinal, uma prescrição do tempo: ritmo, descanso, moderação.

O frontispício de Opera medica, coletânea de tratados médicos e filosóficos de Francisco Sanches.

A palavra e a cura

A antologia permite acompanhar a evolução da própria prática médica ao largo das transformações da língua e da literatura, e, por outro lado, observar como as nomenclaturas médicas também se transformam, sendo “neurastenia” e “alienista” — termo tão familiar aos leitores de Machado de Assis — apenas alguns exemplos dessa mudança. Mas há algo que permanece: a tentativa de nomear o sofrimento, de dar forma ao informe, de traduzir em linguagem aquilo que escapa à razão. 

O espanto e o assombro dos escritores em relação ao próprio corpo é outra temática recorrente na literatura portuguesa. Marcello Duarte Mathias escreve em seu diário: “Estar doente é descobrir a existência autónoma do corpo, essa nossa outra identidade esquecida que anda connosco. […] Estar doente é passar a coexistir com um intruso”. E acrescenta que o ato de se barbear é indicativo de que se está vivo, pois “os mortos não se barbeiam”. Já o narrador de Vergílio Ferreira, ao relatar a doença de sua Sandra, faz uma reflexão existencial sobre a própria condição: “Quanta coisa impensada nos sustém de pé, eu não sabia. Há um equilíbrio de nós próprios em mil finíssimos invisíveis sustentáculos, nós não sabemos”.

A medicina e a literatura se apresentam, portanto, como dois modos complementares de aproximação do real. Afinal, médico e escritor lidam com a matéria humana em sua vulnerabilidade essencial. É o que revela a escrita multifacetada de Torga, que aparece em distintas dimensões nos textos selecionados: o médico-autor vê o pai doente, atende pacientes no consultório, relata a própria doença vivida e medita sobre a incompreensão diante da morte.

Entre a ética e a estética: formas de intervenção no real

Para além de seu tema específico, A Caneta que Escreve e a que Prescreve oferece um rico panorama da literatura portuguesa em sua multiplicidade de estilos, escolas e sensibilidades. É possível travar contato com a língua em suas diferentes modulações históricas e acompanhar as transformações pelas quais passou ao longo de séculos. O moderno e o clássico coexistem, revelando continuidades e rupturas: Jorge de Sena escreve uma homenagem a Francisco Sanches, médico do século 16, estabelecendo um diálogo entre épocas; já a crueza descritiva de alguns poetas contemporâneos contrasta com a dicção elevada dos românticos; e o humor ácido de Cesariny — que menciona, de passagem, escritores que escreviam mesmo com gripe — convive com a gravidade solene de Antero. 

A configuração da antologia não está longe, portanto, da dinâmica de uma sala de espera: reúne vozes singulares e sensibilidades únicas que se encontram, de forma fortuita, lado a lado num mesmo ambiente, cada uma trazendo consigo sua história, sua angústia e seu vocabulário próprio do sofrimento; unidos pela condição comum de quem busca, na linguagem, alguma forma de expressão, entendimento, aconselhamento ou cura. 

A edição traz autores pouco conhecidos do público brasileiro, como Vergílio Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Ruben A. e David Mourão-Ferreira, permitindo descobertas valiosas, e reapresenta clássicos já há muito lidos por aqui, como Almeida Garrett em Viagens na minha terra, Eça de Queirós com o consultório de Carlos da Maia e José Saramago, com excertos de Ensaio sobre a cegueira. Mesmo em obras nas quais o tema da medicina não é central, ele emerge com força, revelando que a doença e a morte estão sempre à espreita, tecendo a trama invisível da existência. 

Mas a força destrutiva da doença é frequentemente confrontada com a obsessão teimosa dos poetas. O poema de Saúl Dias sobre o “poeta doente” que “escreve versos na enfermaria” é emblemático: a literatura nasce muitas vezes da cama hospitalar, do confronto com a finitude e da tentativa de transformar a dor em linguagem partilhável. Mas, mais do que isso, o poeta é um ser de obsessões, incapaz de interromper o gesto de escrever. 

A Caneta que Escreve e a que Prescreve é leitura fundamental para quem se interessa pela intersecção entre medicina e literatura e também para todos aqueles que desejam compreender a literatura portuguesa em sua riqueza e complexidade. Uma antologia que nos devolve, página após página, a dimensão ética e estética do cuidado: com as palavras, com os corpos e a vida que acontece entre a primeira e a última respiração.


Talita Lilla tem doutorado em Literatura Portuguesa pelo Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (2025), com bolsa CAPES e período sanduíche no Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT – NOVA FSCH de Lisboa). Sua tese, de título Torga e Pessoa: crítica, correspondência e poesia, trata das relações intertextuais entre a poesia de Fernando Pessoa e a poesia de Miguel Torga. Parte de sua pesquisa foi publicada em formato de artigo nas revistas Estranhar Pessoa e Pessoa Plural. Faz parte do grupo de pesquisa Estudos Pessoanos (USP). Possui dupla habilitação em Letras (Inglês/Português) pela Universidade de São Paulo (2018).

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