É possível que o leitor brasileiro se depare com os nomes de Erich Auerbach e Leo Spitzer na seção de crítica literária das livrarias. Para o público especializado, como estudantes e pesquisadores, este encontro se dá nas salas de aula das universidades. Estes mestres são componentes nucleares da “estilística”, no cenário nacional, e da “romanística”, no cenário alemão.
Todo mestre teve seus professores. A excelência e a erudição de um professor podem ser medidas pelos feitos de seus alunos. Como uma passagem de tochas entre corredores, um professor é continuado na vida e nas aspirações de seus discípulos. Essa linha sucessória, porém, está sujeita a interrupções de variada sorte. No caso destes romanistas, a sucessão de Karl Vossler para Auerbach e Spitzer foi interrompida pelos doze anos de nacional-socialismo na Alemanha, que impôs o exílio aos dois últimos, ambos judeus, e a profunda solidão e isolamento para Vossler, que permaneceu na Alemanha.
Karl Vossler nasceu em 1872 e morreu em 1949. Como docente na Universidade de Munique, sua influência ultrapassou a sala de aula, participando da esfera pública por meio de palestras e artigos de jornal durante a República de Weimar (1919–1933). Nestes anos, Vossler exibia ao público o fruto de seus anos de dedicação ao estudo da linguagem humana, dos seus aspectos mais aparentemente simples — como a variação fonética — aos mais complexos — como a poesia e a religião.

Após a Primeira Guerra, os alicerces da cultura europeia estavam severamente abalados, e isso inclui as bases da formação intelectual e cultural de Vossler. A Europa dividia-se entre nacionalismos. Sua postura, contudo, não foi de disrupção, mas de uma tenaz tentativa de reconciliar os espíritos nacionais do velho continente que, segundo seus estudos sobre Dante, compartilhavam a mesma missão: uma união que conservasse as singularidades culturais e, sobretudo, linguísticas dos povos.
Para o romanista, a origem do espírito europeu estava na lenta e gradual dissolução da língua latina em diversas línguas vulgares, que pouco a pouco se cristalizavam em espíritos nacionais. É a tradução dos textos eclesiásticos para as línguas românicas — italiano, francês, espanhol e português — que constituiu a Europa. Nisso reside a importância da Comédia de Dante, já que a obra dá corpo ao conteúdo sublime das Escrituras com o italiano vulgar. É com este raciocínio que Vossler muda os paradigmas da linguística. Depois de sua influência, a disciplina deixou de ser um compilado de mudanças estruturais da linguagem para se tornar uma argamassa que une a dimensão estrutural da língua e as exigências históricas e espirituais do gênero humano.
E os alemães? Sua língua advém de outro tronco, mas estão assentados geograficamente no meio deste processo, em contato com o Reno e o Mar do Norte. Desse modo, para Vossler, os povos germânicos teriam um papel fundamental e indispensável para a unidade do continente. Uma vez que a origem latina lhes é estranha, seria necessário um empenho de gerações para se construir uma relação de mútua tradução, de fecundação recíproca entre as diferenças. Os alemães seriam, desse modo, o elemento diferencial que asseguraria uma forma de união que conserva as diferenças, sem as anular. Um bom alemão, nesse ponto de vista, seria como o poeta Johann Wolfgang von Goethe, que emerge das profundezas de uma alma ensimesmada e agônica — a de Os sofrimentos do jovem Werther — para um espírito cosmopolita, que aprofunda sua identidade através da viagem a outros países. Um bom alemão, em suma, é um alemão voltado para fora de si e de seu país, que aquilata seu germanismo através dos estrangeiros.
Nos anos 1920, esta cosmovisão ainda podia ser defendida com algum respaldo público. Como metonímia do complexo e pouco conhecido pensamento de Karl Vossler, o leitor brasileiro tem agora em mãos uma palestra proferida em 1925, em Bremen. Ela é a última de uma sequência de três, que juntas receberam o nome de As culturas românicas e o espírito alemão. O leitor do século 21 é convidado a ler esta tradução inédita num cenário tão terrível quanto privilegiado: diante tanto da “derrota objetiva”1 desta unidade europeia, que ruiu plenamente na Segunda Guerra, quanto do esboroamento moral e político dos Estados Unidos, que Vossler evoca, ao fim de sua fala, para finalizar esta missão que os europeus foram incapazes de consumar.
As culturas românicas e o espírito alemão
(Tradução de Leonardo Thomaz a partir da edição da Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1948.)
Em primeiro lugar, todas as nações juntas são, de uma forma ou de outra, o momento negativo em que se excluem mutuamente e se posicionam como estrangeiras: o francês como o alemão não-alemão, como o espanhol não-espanhol e assim por diante. Toda nação se determina por meio dessa negação de todas as demais nacionalidades e define-se com algo próprio, que é, antes, uma identidade completamente vazia de conteúdo: a = a = não-b = não-c e assim sucessivamente. O comportamento que persiste nesse ponto de vista, em que o sentimento de nacionalidade consiste apenas no ódio de raças, chamo-o por excelência de nacionalismo embrutecido, vazio, emocionalmente árido e abstrato, pois são abstratos todos os -ismos e têm o seu sentido determinado pelo fato de sempre saberem estar em oposição a outro. Nos anos posteriores a 1870, até aproximadamente o processo Dreyfus, havia na França momentos e fenômenos que faziam temer que a nação tivesse se perdido a tal ponto que a sua coesão estaria baseada sobretudo no ódio ao alemão — e talvez um pouco ainda na língua francesa; mas, na época, também se poderia ler que a língua francesa se encontrava, sem salvação, numa crise.
Ocorre na Alemanha, desde 1918, algo muito diferente? O que une hoje à germanidade [Deutschheit] as fragmentárias e desesperadas opiniões, interesses, partidos, classes e estados além de uma língua mal-tratada, com a qual se briga, e a face do ódio voltada ao oeste? De fato, devemos nos sentir muito felizes de conseguir preservar ao menos isso. Afinal, existem loucos seráficos entre nós, que respondem com delicadezas às desonras francesas e ao desprezo do nome alemão, envergonhando o sermão da montanha, se referindo apenas à brincadeiras individuais, não à profanação de bens e sentimentos espirituais; como isso foi feito com o germanismo, a outra face também é necessária. Nós precisaríamos persistir contra a simpatia dos franceses, assim como contra seu assédio, enquanto nós tivermos certeza de nosso ente próprio, de nosso próprio espírito e suas tarefas. Autodefesa é obrigação também em questões culturais — na verdade, principalmente nelas, quando um sentimento de nacionalidade criativo, íntimo e cômodo não está mais vivo; assim o frio nacionalismo voltado para fora torna-se uma triste necessidade. Aliás, ele domina também na França de hoje, sem mencionar os povos marginalizados e culturalmente menos desenvolvidos do oriente, sobre eles o nacionalismo frio se enfurece, também na Itália ele mostra os dentes, como atestam as opressões angustiadas e fracas das escolas e instituições alemãs no Tirol do Sul e muitos outros direcionamentos.
Pois o mais estranho na atual situação é que os assim chamados de vencedores da Guerra ficaram tanto quanto nós, ainda mais do que nós, aferrados ao nacionalismo, isto é, presos à emergência da defesa cultural externa. Aparentemente, nós todos — eslavos, germânicos, romanos e anglo-saxões — esquecemos ou desistimos do conteúdo positivo de nossa consciência nacional, e toda nação apenas nega a outra porque não é mais capaz de se afirmar sem condenações internas. Durante a Guerra Mundial, o comportamento absurdo — que hoje está à vista — foi, pelo menos, encoberto pelo fato de que nossos inimigos se sentiam lisonjeados em estarem lutando como os salvadores da cultura humana, incluindo a nossa, a “intelectualidade de Weimar” alemã. Ingênuos, acreditavam piamente que o nosso maior, o nosso melhor Eu, nosso “bom” germanismo teria de passar sobre o “bárbaro e o falso”. Esta ideologia, cuja honestidade subjetiva nós não hesitamos em admitir para nossos oponentes, baseia-se numa ilusão dos sentidos parecida com aquela de nosso Doutor Martinho Lutero quando jogava o tinteiro na parede a fim de lá encontrar o diabo que ruminava na sua cabeça. O reformador fez tão pouco para eliminar o diabo do mundo quanto a Grande Guerra o fez para eliminar, com seus canhões, o nacionalismo.
Mesmo a esperança de superar este nacionalismo do ódio por meio do internacionalismo me parece traiçoeira. Pois este é o avesso do outro, isto é, algo igualmente negativo e abstrato. Ele nega não apenas esta ou aquela nacionalidade a fim de colocar a própria num pedestal, ele vai além fazendo tábula rasa e colocando todas no nada, seja aceitando-as apenas Estado e sociedade sob o signo do socialismo-comunismo, ou apenas o indivíduo com uma direção anárquica. Pode-se observar em inúmeros exemplos de nosso presente o quanto o nacionalismo e o internacionalismo são fenômenos complementares e que se retro-alimentam. Não é apenas através dos negócios do imperialismo, da grande indústria e do comércio exterior que as pessoas são trabalhadas, ao mesmo tempo, no sentido nacionalista e internacionalista, como o ferro entre o martelo e a bigorna, mas também nas artes, nas poesias e nas pinturas se encontram as glorificações mais selvagens do ódio às nações com estilos metropolitanos, futuristas, expressionistas, que não são nem alemães, nem franceses, nem ingleses, que, sobretudo, não foram concebidos histórica nem nacionalmente, mas possivelmente elaborados com o intelecto e que permitem deslocar uma raiva fria numa linguagem de sinais matemática. Os derramamentos de guerra da escola internacional de Filippo Tommaso Marineti em Milão são, neste contexto, bastante instrutivos e chamam a atenção. Pode-se também observar em outras assim chamadas obras de arte de tendência nacionalista — em certos monumentos da guerra, estátuas da vitória, memoriais e similares — como a ausência de conteúdo e ânimo insistem em ser formas de expressão pálidas, retóricas, alegóricas, convencionais e, sobretudo, rasteiras. Esta não é uma afirmação ousada, trata-se, antes, de uma obviedade, que toda arte nacionalista é ruim e falsa, e toda arte verdadeira é nacional.
De fato, a essência vívida, real e interna de uma nação pode ser melhor compreendida diretamente a partir do lado artístico. É disso que toda pessoa instruída, seja ela nativa ou estrangeira, tira todo o seu proveito. Quando nós alemães tínhamos educação e possuíamos um espírito nacional próprio, viajávamos para a Itália não para contemplarmos da poltrona de um Grand Hotel o inexprimível céu azul, nem para tomarmos sol, tampouco para aproveitarmos a ebriez da superada distância. Nós queríamos aprender a linguagem dos italianos, seus hábitos e costumes, suas festas, sua música, poesia, pintura e arquitetura, suas lembranças, sua história, sua vestimenta tradicional e sua culinária, enfim, queríamos aprender tudo o que pertencia ao seu próprio estilo de vida, tudo o que conferia a configuração das coisas naturais e humanas uma espiritualidade nacional. Foi com tais intenções que Goethe viajou pelo Brennero e, além disso, satisfez sua curiosidade e desejo supranacionais, não internacionais, através da profunda observação da natureza, das rochas, da forma das montanhas, das plantas e dos homens de países estrangeiros, e todos esses fenômenos históricos e naturais deveriam, assim ele o esperava, enriquecer, ampliar e elevar seu próprio espírito alemão, acalmando seu ímpeto tempestuoso. Quem não viaja ao exterior com os mesmos pressupostos e a mesma seriedade, mesmo que em menor escala, faria melhor se ficasse em casa. Os turistas de lazer e de distração, que recentemente tem entupido as estradas, estão criando mais problemas dentro e fora de casa do que ganhos culturais. Quem vem sem formação de casa, também silencia o espírito fora dela.

No entanto, bem acima deste nível maçante, ao qual a viagem permanece inútil, existe um ainda mais elevado, no qual a viagem não tem sequer mais significado, porque no espírito já se tornou um cidadão do mundo e ultrapassou os espaçosos limites nacionais. É o nível de Kant, que nunca precisou sair de sua Königsberg, porque ele era um Odisseu do conceito e, com os olhos do pensamento, “viu a forma de ser de muitos homens e aprendeu seus costumes.”
O esforço humano consiste hoje, mais do que nunca, em como as vantagens dessa liberdade espacial podem ser percebidas a partir da pura contemplação e do conceito e podendo ser convertida em realidade prática. Nisso reside, sem dúvidas, uma das grandes tarefas contemporâneas e vindouras da cultura; os alemães, os franceses, assim como os demais povos são convocados para trabalharem conjuntamente. Pois, o que geralmente se chama de progresso cultural, isto é, o que é efetivamente progressista nele, sempre acontece quando se transfere ao reino do corpo, que se comprimem e se esbarram no espaço, a mobilidade, a liberdade, rapidez, leveza, a penetração e transcendência do pensamento, assim se afrouxam, amenizam e suavizam os grilhões, que a existência natural nos impingiu. Antes de mais nada, atualmente estamos nos concentrando na parte técnica do progresso. Mas como aviões e aeronaves servem tão bem à guerra quanto à paz, então elas nos libertam de nossas fronteiras e limites nacionais de um modo muito ambíguo e pouco confiável.
Outros, como Henri Barbusse e o seu grupo “Clarté”, que teve também na Alemanha seus participantes, esperavam progredir por meio da remoção das barreiras alfandegárias e das participações políticas do Estado, de modo que as unidades nacionais restassem somente como regiões linguísticas. E como os idiomas, assim que lhe são concedidos e assegurados de sua igualdade em todas as questões de comunicação, seriam determinados apenas pelo hábito e pelo gosto, então as oposições nacionais, que afligem a Europa, voltariam assim à intimidade inofensiva de uma familiar questão de estilo. Um belo sonho, e feliz daquele que consegue segui-lo. A Europa seria uma grande Suíça, na qual Alemanha e França gozam a vida como cantões irmãos, mantendo suas lembranças do lar e suas necessidades, conservando a peculiaridade e a beleza de seus estilos de vida nacionais, podendo evitar aquela obscena mistura cultural, que se espraiou no Cairo e na Constantinopla. Por si só, as comunidades linguísticas, sobretudo as nacionais, se arraigam muito mais profundamente no tempo do que no espaço. Cada um de nós é filho de seu tempo num sentido mais elevado e poderoso do que poderia sonhar a sabedoria escolar destes pensadores esclarecidos.
É possível escapar das influências e das algemas da paisagem por meio da emigração; escapar, se possível, às da raça, é muito mais difícil. Ora, uma vez que a raça não é temporalmente uma formação natural — ou seja, há nela também uma dimensão territorial —, então o homem pode, no percurso das gerações, afastar-se dela lenta e irregularmente por cruzamentos, como a exótica tendência de Eros produz milhares de vezes. Certamente nenhum entendedor acredita que entre os franceses e alemães atuais se antagonizem raças antropológica ou biologicamente fechadas e inteligíveis. Se apenas a questão racial os separasse, então se poderia esperar que a mistura e o casamento misto entre personalidades comandantes resolvesse a disputa, algo como nas cidades-estado medievais, onde as mais sangrentas rivalidades familiares eram adormecidas na cama nupcial dos filhos. Mas quão longe no passado estão de nós esses meios naturais de sagração! As nações de hoje são unidades temporal, espiritual e historicamente nascidas, isto é, elas foram moldadas na corrente do tempo, pelo destino, embora tenham sido lançadas e postas à deriva pelo espaço do continente, mas impulsionadas adiante e nadando num rio eterno, há séculos a perder de vista; e dependentes, de uma vez por todas, pela sua estrutura, deste elemento histórico. Ninguém que está no tempo pode sair dele, a não ser pela morte; e nenhuma força no mundo pode parar o pulso de um só segundo, tampouco retrocedê-lo. E isso constitui as características decisivas, as diferenças e as oposições entre as nações, pois cada uma delas, em ponto diferente, caiu de um trampolim especial na correnteza mágica do tempo histórico, e como esse primeiro salto lhe é interno, se propagando dentro dela um eco rítmico e, ao invés de cessar, incha e cresce e busca compartilhar com tudo que está com ela e ao seu redor. O relógio nacional do francês pulsa diferente do do alemão, do italiano ou do espanhol.
Até mesmo nas línguas destas nações se imprimem compassos diferentes. O francês segue um ritmo diferente do alemão. Ele prefere, por exemplo, dispor as palavras de uma maneira tal, e adicionar frases de tal modo, que o ouvinte ou o leitor precisa seguir imediatamente, passo a passo; enquanto que a sequência de palavras e a construção sintática dos alemães querem que se aguarde até o final para que então, por meio de sua conclusão, se tornem compreensíveis. O discurso alemão, por assim dizer, carrega a luz da compreensão nas costas, e o francês no peito. Nós também tratamos — força da entonação de nosso tronco germânico — as palavras, sobretudo, como significativos pontos silenciosos do pensar, em oposição às línguas românicas, nas quais as palavras servem, principalmente, como pontos de partida ou motores do pensamento. A palavra alemã atrai o leitor ou ouvinte para si, para seu significado, para seu ente[Sache]2, como se fosse um imã do espírito, as românicas penetram-no como uma seta; por isso as línguas românicas movem o ânimo de modo mais sensual e luminoso que as germânicas, que, através de uma inspiração recôndita, parecem se aprisionar. Esse pensamento de linguagem fechado dos alemães procura na poesia e nas artes por formas abertas e libertas como meio de salvação de sua particular clausura, os românicos, por outro lado, favorecem o ideal de estilo clássico, pois, sem limites pré-determinados, o impulso oratório das suas línguas se perderia na retórica barroca e no jogo de palavras.

Quando tive de escrever sobre a psicologia destes povos, quis falar, no tocante aos alemães, menos sobre seus cabelos loiros, olhos azuis, corpos grandes e ainda menos sobre as florestas, pântanos e as neblinas da Germânia, que ainda hoje, como afirmam os românicos, inspiram, incubam e borbulham na sua alma; enfaticamente, contudo, eu acrescentaria que os germânicos, como vimos, entraram imaturos e tardiamente na história mundial [Weltgeschichte]; e que os bens culturais estrangeiros só se tornaram grandes neles através da sua lenta apropriação e superação; e que eles, desde muito tempo, tiram antes de dar, destroem antes de construir, pensam e atribuem sentido antes de falarem e agirem; e que eles compreendem esse modo de ser como virtude, por isso que o porvir para eles é tido como mais valioso do que o ser, a peregrinação melhor que ficar parado, e quaisquer outras generalidades que possam existir, as quais, é claro, como qualquer generalidade historicamente condicionada, devem ser suavizadas e temperadas com um pouco de sal. Eu tentaria explicar os franceses a partir do fato de que, como gauleses, eles abandonam rápida e facilmente a língua e os modos de vida celtas, se latinizaram sem ressalvas consideráveis e, por conta disso, participaram como estudantes instruídos no modo de ser do mundo romano, de maneira que, desde então, tem sido fácil para eles se afastarem do individual e do particular, assim como de suas peculiaridades, por isso que eles surgem da fragmentação, como foi feito com as invasões dos alemães, com as guerras medievais na Inglaterra, com o movimento dos huguenotes e com o romantismo alemão, eles rapidamente se reencontram, de modo que sua melhor força reside no universalmente válido e no habitual; eles consideram este o seu domínio, isto é, não toleram posicionamentos especiais, sentem-se responsáveis pela razão e pelo direito natural e superiores aos outros povos, impulsivos nas ações, no pensamento são rígidos e doutrinários, por isso compreendem dar sem possuir, agarrar e conquistar nada próprio, também sem esperar, pois, geralmente, a mão, a língua e a vontade são mais ágeis neles que o pensamento. Este, como um motor, precisa ser primeiro aceso por fricção.
Assim, do lado alemão, entram em cena, no grande palco do teatro do mundo, os pensadores, precipitada e ousadamente, os estadistas, atrasados e destrutivos, do lado francês vêm os conquistadores e os clarividentes e rigorosos professores — e logo após a encenação ambos colhem os aplausos da humanidade. A peça prossegue. Como deveriam trocar os papéis com os quais começaram?
A comparação com um papel dramático me parece ser especialmente adequada à essência mais interna e elevada das nações, pois ela traz a tona não o caráter inato, como também o imposto, a tarefa atribuída, o dever através do qual todo povo historicamente enquadrado se agrupa e é impulsionado adiante. Esse dever ético-político é glorioso e, por isso, também mais importante do que uma existência e essência simplesmente naturais.
A essência nacional tem entre os alemães — assim como nos franceses, italianos e espanhóis — dois lados, duas marchas, pode-se falar também de duas almas. E todas hoje padecem, em maior ou menor grau, de conflitos e divisões internas entre a metade sensível, rígida e nacionalista e a metade espiritual, histórica e flexível de seu sentimento nacional.
“Querem trilhar tudo em opostas sendas” — [Fausto: uma tragédia, trad. Jenny Klabin Segall, v. 1113]
Ou seja, uma se prende “com órgãos de ferro” à paisagem, à raça e ao poder físico e político num grosseiro desejo sensual e racial.
“A outra, soltando à força o térreo freio
De nobres manes busca a plaga eterna” [idem, vv. 1116-7]
Ou seja, a outra aspira, animada pelo pensamento de sua missão histórica, a novas tarefas e grandeza futura.
Se estas duas metades não se tornam uma, se uma não abre mão de sua grosseira, e a outra de sua arrogância, ou, o que é a mesma coisa, de sua opacidade, então não se pode mais obter, entre Alemanha e França, uma relação próspera. A dificuldade, contudo, consiste no fato de que a recuperação da França depende da Alemanha e vice-versa, afinal todo espasmo chauvinista de um lado dispara um análogo do outro, pois estes dois povos estão, por conta da proximidade geográfica, acorrentados há séculos às mesmas tarefas culturais. Por isso, enquanto eles preferem permanecer nesse isolamento ressentido, a história mundial não fica parada. Seria possível que eles, que não possuem mais vontade nem força de cooperar, delegassem sua grande responsabilidade a outros povos. Quem sabe se talvez a Inglaterra e a América seriam chamadas para finalizar o que França e Alemanha começaram e deixaram inacabado. A oposição entre os germânicos e os românicos se endureceu a uma espécie de ponto morto nas margens do Reno, e talvez apenas a mais íntima mistura entre românicos e germânicos dos anglo-saxãos ainda seja capaz de dar novo impulso à roda da história.
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Nenhum olho humano pode contemplar a história mundial sobre os ombros. Apenas através do passado podemos criar noções e desejos. A história mundial nos ensina, porém, que, se não todas as vezes, certamente na maioria delas, que a interação das nações nas questões gerais da cultura é realizada na forma de oposições, lutas, inveja e até mesmo a guerra, e que o pleno acordo entre elas representa somente o domingo de suas existências. As conquistas decisivas são alcançadas nos dias úteis. O esclarecimento francês precisou assegurar sua validade real através da Revolução e de Napoleão, e o idealismo alemão assegurou-se pelas Guerras de Libertação. Então talvez a Guerra Mundial de 1914 teria o sentido de martelar na mente dos homens o pensamento de obrigação social e ergue-lo muito acima dos egoísmos nacionalistas, das ambições e das rivalidades. Talvez — pois quem se atreveria a compreender, com a lâmpada de seu quarto de estudos, um acontecimento tão grandioso e explicá-lo inequivocamente? Me parece certo apenas o fato de que a Guerra Mundial não foi sobre a contraposição entre alemães e franceses, tampouco sobre ideais e interesses alemães e românicos. Qual seria então esta ideia especificamente alemã, e qual seria a aquela especificamente românica? Germânicos e românicos não teriam, na verdade, nos dois milênios que se assentam atrás de nós, lutado em conjunto em torno de uma mesma ideia, a que Dante chama de Humana Civilitas? E quais das nações europeias desenvolveu efetivamente, por meio desta Guerra, seus interesses econômicos, seu bem-estar? Parece-me que quem mais lucrará com ela será aquele capaz de edificar as camadas mais amplas e baixas das massas a uma participação consciente, sacrificial e disposta a trabalhar nos bens e tarefas espirituais, livrá-las do sentimento opressivo do proletariado e transformá-las em homens não por meio de reivindicações impotentes, mas através da certeza da plenitude conquistada ao se elevarem a cidadãos de suas comunidades.
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A ascensão de proletário a cidadão, isto é, a civis, e não a um burguês, é longa e dura. E novamente os alemães lidaram com a questão com grandes rodeios, já os franceses o fizeram com impetuosidade e entusiasmo. Com sensibilidade generosa, com fundamentos didáticos, com radicalismo, Rousseau e os filantropos do Esclarecimento conduziram o direito humano para todos, Victor Hugo, George Sand e Zola comandaram o quarto estado como heróis e os utópicos ansiavam, como Fourier, Saint-Simon e Proudhon, efetivar a reforma social através da organização econômica e técnica. Os alemães, por outro lado, eram mais especulativos e sóbrios, ao mesmo tempo mais profundos e mais incômodos, minuciosos e implacáveis neste ofício. Fichte, Hegel, Lassalle e Marx capturaram a face sobrenatural, isto é, a face ética das questões sociais e, com isso, toda a dureza da resistência, que precisa enfrentar todo o poder político. Primeiro com a ajuda do Estado e depois contra ele, primeiro com o idealismo e então procuraram isso por vias materialistas. Os socialistas alemães ainda hoje não sabem — e com isso se reconhece seu germanismo — se eles querem a revolução ou a evolução. Mas eles sabem muito bem o que de fato importa, o que o socialismo francês prefere sempre ignorar e passar por cima: o fato de que as estruturas de ferro do Estado-nação moderno devem ser socialmente penetradas e transformadas ou devem ser destruídas; sabem também que não se deve, de maneira alguma, contornar esta questão: se o nacional deve dominar o humano ou se este deve dominar aquele.
Há quase mil anos, os franceses são abençoados com uma crença que sempre lhes auxiliou, mas que um dia pode vir a ser uma maldição, a saber, que o francês é, concomitante e inexoravelmente, o ser humano mais correto e mais elevado. Para o autêntico francês, isso não se espraia para além dos domínios do espírito francês. Il n’y a que nous au monde — je le répéte froidement — qui sachons encore penser [Somos os únicos no mundo — repito friamente — que ainda sabem pensar] — escreve um dos mais talentosos críticos franceses, Jaques Riviére na Nouvelle Revue française em 1919, no ano da vitória. C’est nous les seuls qui ayons su conserver une tradition intellectuelle [Somos os únicos que souberam preservar uma tradição intelectual]. Aqui se pode apenas rir e congratular. Na Idade Média os franceses se vangloriavam em ser o gens cristianissima, e essa consciência galiciana os impediu de participar renovação da crença. O que o seu protestantismo matou foi o seu galicismo, não o papado. No século das luzes e da revolução, eles se sentiam e se comportavam como a gens rationalissima e logo ficaram para trás no aprofundamento e na ampliação alemã do conceito de razão. Se hoje eles se portam como a gens justissima, então a justiça é ainda menos tolerante do que a fé e a razão.

Esse aviso vale também para nós. Embora o ser-alemão não seja necessariamente idêntico ao ser cristão, razoável e justo, é precisamente porque não temos a vaidade abençoada de equiparar os valores nacionais com o eternos. Existe um teutonismo selvagem de um lado e existe, do outro, um sentimentalismo humano não-alemão e apátrida em nossas trincheiras.
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Tanto o odioso quanto o vaidoso, o nacionalismo alemão e o francês precisam ser superados. Ambos são valiosos um para o outro, pois se olham com um deboche análogo e sua atmosfera e ponto de partida são intercambiáveis como dois irmãos siameses. Quando se procura “os fundamentos espirituais do nacionalismo francês”, como por exemplo em Maurice Barrés, o que E. R. Curtius realizou com grande precisão, se obtém aproximadamente três quartos do alemão, e quando se segue os rastro do pensamento de nossa germanidade, então se aproxima criticamente dos girondinos e dos jacobinos.
Contudo, nossos espíritos fanáticos anti-alemães, que imaginam servir a humanidade para além de qualquer associação nacional, se esquecem de que não existe humanidade neste “para além” generalizante. Toda criatura tem sua origem, que, inicialmente, pode ser um acaso da natureza, e por isso se deve aceitá-la e se olhar uns pelos outros para algo que não se pode ter responsabilidade. Pode-se, até mesmo, ir ao ponto de considerar a origem ou a nacionalidade de alguém como uma limitação ou uma fraqueza, algo como o cristão piedoso considera o pecado original, mas não se pode parar aqui. Quando apenas se lamenta a lei natural do pecado original e, por não poder revogá-la, a aceita, torna-se cativo dela e sujeito à sua maldição. Em vez disso é preciso afirmá-lo, olhá-lo nos olhos e fazer dela algo espiritual de que se possa orgulhar. Minha origem continua um acaso enquanto eu não tiver um objetivo, o pecado capital uma maldição enquanto eu não obter nenhuma vontade moral, e nosso germanismo uma limitação enquanto nós não conhecermos e abraçarmos alegremente a tarefa, a missão cultural, que lhe cabe.
Se a missão de meu povo fosse essencialmente diferente da dos demais, então eu não saberia para que vivemos na Europa em terras vizinhas. Em todos os séculos, como nossa consideração histórica procurou mostrar, as tarefas culturais dos povos eram essencialmente as mesmas. O objetivo é apenas um, os caminhos para ele, independentemente da origem, são direcionados em milhares de sentidos. Como a ancestralidade e o passado das nações se diferenciam e se separam e como o sujeito se individualizou, conduzam então suas tarefas para o mesmo efeito. O encontro após marchas separadas, como deseja a determinação dos povos, pode certamente conduzir a bloqueios e atritos muito violentos, e acontece que eles estão mais próximos em espírito precisamente onde e quando eles se chocam com maior ferocidade no campo das forças físicas e políticas. Talvez as tarefas espirituais e as condições mentais na Alemanha e na França nunca foram tão parecidas, nunca foram tão idênticas do que no ano de 1914, e do mesmo modo as contrariedades políticas nunca foram tão rudes.
É a perdição das nações elas precisarem batalhar e lutar entre si para que se unirem em substância, em efeito e em espírito; é um consolo, que certamente apenas os pensadores solitários revitalizam, o fato de elas estarem unidas na mesma essência quando se encontram no campo de batalha. Será que a consciência da unidade no conflito e a fraternidade na guerra cairá, de alguma maneira, das alturas do pensamento histórico, filosófico e religioso no coração dos povos? Será possível mitigar, quando não a seriedade inapelável, ao menos o horror desumano das lutas? Não se pode saber. Pode-se ter esperança.
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Notas
- A expressão é de Guilherme de Almeida Gesso, amigo e companheiro do grupo de pesquisa Literatura, Estilística e Hermenêutica (LEH). ↩︎
- Sache: uma tradução mais automática do termo simplesmente o verteria para “coisa”. É preciso, porém, determinar quais “coisas” seriam essas. A língua alemã tem a palavra Ding, que igualmente pode significar coisa, mas carrega um sentido mais abstrato, de modo que Sache é preenchido com uma substância mais material, concreta. Desse modo, quando Vossler afirma que a palavra alemã atrai o leitor/ouvinte para sua “coisa”, ele diz que a atração é para a concretude que cada palavra da língua carrega consigo. Dito de outro modo, em alemão cada palavra monta uma coisa concreta para si, pode ser uma simples mesa ou a ideia de mesa. ↩︎
Leonardo Thomaz é doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo. Sua pesquisa dedica-se à velhice de Thomas Mann, seu estilo tardio e às inflexões teóricas da existência de um “estilo de velhice” em grandes escritores. Integra o grupo Literatura, Estilística e Hermenêutica, dedicado ao estudo e à tradução da obra de Karl Vossler, Erich Auerbach, Leo Spitzer, Jean Starobinski e outros importantes representantes da tradição estilística europeia.




