Foi nas páginas do Estadão, no antigo Suplemento Literário, que foi possível ler, pela primeira vez, versos de Konstantinos Kaváfis (1863–1933) na língua portuguesa. O escritor Jorge de Sena foi o responsável pela tradução de “A espera dos bárbaros”, emblemático poema daquele que foi talvez o nome mais importante da poesia grega moderna.
O que esperamos nós em multidão no fórum?
——-Os Bárbaros, que chegam hoje.
Dentro do Senado por que tanta inação,
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?
——-É que os Bárbaros chegam hoje.
——-[…]
Em “Quatro esperas”, magistral ensaio no qual aborda este poema de Kaváfis — ao lado de obras de Dino Buzzati, Julien Gracq e Franz Kafka —, o crítico brasileiro Antonio Candido nota que a sua “chave feroz, carregada de subentendidos, serve bem de introdução ao mundo das esperas angustiadas, dos atos sem sentido lógico, da surda aspiração à morte individual e social, que formam alguns dos fios mais trágicos do mundo contemporâneo”. Ao longo dos versos, observa o crítico, a espera resulta inútil; ao mesmo tempo, revela-se o lamento daqueles que esperam. A ironia corrosiva de Kaváfis, diz Candido, está na decepção paradoxal causada pela notícia de que a cidade está salva, uma decepção relacionada ao cansaço e à descrença, que geram a perda da razão de ser daquela sociedade.
Neste poema em particular, não há referências a um caso histórico concreto, algo comum a outros poemas de Kaváfis, como “O Deus Abandona Antônio” e “O Prazo de Nero”. De todo modo, é possível reconhecer ecos do mundo helenístico que sempre alimentou o imaginário do poeta de Alexandria. Como lembra José Paulo Paes, um dos mais notórios tradutores de sua poesia no Brasil, embora ele tenha realizado viagens à Grécia, nela sempre se sentiu um visitante, pouco lhe interessando a atualidade política: “A verdadeira pátria de Kaváfis era mesmo a cidade fundada por Alexandre Magno no delta do Nilo como ponta-de-lança e símbolo, a um só tempo, da vocação transnacional do helenismo, a que, mais do que a qualquer patriotismo geograficamente circunscrito, o poeta se confessava ligado”.

É nesse sentido que Paes, em sua “tentativa de descrição crítica da poesia de Kaváfis” — que introduz a tradução publicada em 1982 pela Nova Fronteira —, aproxima o poeta de Fernando Pessoa, o qual se voltava mais ao passado mítico do que ao presente político português. Como também aponta o tradutor, ambos lançam mão da personificação: enquanto Pessoa recorre à heteronímia, Kaváfis satisfaz-se com o “riquíssimo sortimento de máscaras posto à sua disposição pela História”, tratada sempre por ele não com a “reverência de historiógrafo”, mas com “à-vontade de poeta”. Segundo Paes, ele “escolhia a seu talante episódios e personagens, combinava-os por vezes arbitrariamente e a todos impunha o viés de sua sensibilidade e de sua visão do mundo”.
Além desses paralelos, vale notar como Kaváfis, assim como Pessoa, viveu em um contexto periférico em relação ao centro cultural europeu, mas alcançou projeção internacional, superando a marginalidade de sua língua nacional. Um dos responsáveis por tornar o nome de Kaváfis mais amplamente conhecido, o romancista britânico E. M. Forster, com quem manteve correspondência, viria a descrevê-lo como “um cavalheiro grego, de chapéu de palha, estacionado num ligeiro ângulo de afastamento em relação ao universo”. Entre tantos outros nomes de destaque que admiravam a produção do poeta, Marguerite Yourcenar, por exemplo, verteu seus versos para o francês, dedicando-lhe um importante estudo crítico; W. H. Auden chegou a declarar que, se não houvesse conhecido a obra de Kaváfis, teria escrito de modo bastante diferente — ou talvez nem tivesse escrito — muitos de seus poemas; Lawrence Durrell, por sua vez, reverenciou o poeta em seu Quarteto de Alexandria.
Ao publicar sua tradução no Suplemento Literário em 1962, Jorge de Sena bem destacava como a “poesia tremenda” do autor se constituiu como expressão autônoma por volta de 1911, em plena eclosão da revolução modernista na Euro-América, desenvolvendo-se paralelamente à produção de nomes determinantes do período, como W.B. Yeats. “Se ele não é também um dos modernos, com a sua capacidade de despersonalização dramática, com a sua ironia e o seu ceticismo transcendentes, com o seu anti-romantismo feroz (o que o afasta, como aos outros, das últimas vagas dos simbolistas, ainda que todos inicialmente o tenham sido), não sabemos mais que seja modernismo”, escreveu Sena, que não deixava de ressaltar outra faceta da produção do poeta: para o escritor e tradutor português, publicar Kaváfis sem incluir seus poemas homoeróticos “seria dar dele uma imagem falsa”.
Essa faceta, aliás, origina uma das questões que mais intrigam os autores de uma biografia recém-publicada nos Estados Unidos. Gregory Jusdanis e Peter Jeffreys apontam que os arquivos revelam pouco ou nada sobre a sexualidade de alguém que escreveu tão abertamente sobre o desejo homoerótico. Recontando a vida de Kaváfis em Alexandria, as mudanças com a família, as amizades da juventude e a sua formação intelectual, os autores constatam, porém, que a pergunta mais intrigante é uma sobre a qual dizem só poder especular: “Como um homem que, até a meia-idade, demonstrava pouca promessa ou capacidade de grandeza, vivendo em uma cidade provinciana e escrevendo em uma língua menor, conseguiu criar uma poesia que conquistou o mundo?”
Seja qual for a resposta, fato é que sua obra continua a impactar diferentes gerações e contextos linguísticos. No Brasil, a Ateliê Editorial acaba de publicar uma nova edição da antologia traduzida e organizada por Trajano Vieira. O volume se soma a outros traduzidos por nomes como Haroldo de Campos (Cosac Naify) e Ísis B. da Fonseca (Odysseus). Em Portugal, a Relógio d’Água publicou, em 2023, uma edição revista dos poemas na versão de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis. Em conjunto, essas publicações revelam um interesse permanentemente renovado pela poesia de Kaváfis.
Buscando ampliar ainda mais esse interesse, o Estado da Arte reproduz, em parceria com a revista Electra, um questionário elaborado por Pratsinis. Nascido em Atenas e formado em Língua e Literatura Portuguesa pela Universidade de Lisboa, o tradutor oferece um retrato de Kaváfis e de sua poesia a partir de oito perguntas capitais. Acesse aqui a matéria.
Júlia Corrêa da Rocha é jornalista, doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na USP e editora do Estado da Arte.




