A seguir, leia mais um conteúdo de nossa parceria com a Electra, revista internacional de pensamento e cultura contemporânea editada em Lisboa. Publicado em sua edição 23, o texto aqui reproduzido mantém a grafia do português de Portugal, incluindo a forma “Kavafis”, sem acento, corrente nas edições portuguesas do poeta.

Contemporâneo de Fernando Pessoa, Kavafis é um dos maiores, mais traduzidos e mais citados poetas do século XX. Na sua obra, cheia de uma solenidade melancólica, o desejo e a fugacidade, o prazer e a memória, a gravidade e a leveza, a beleza e a pobreza, a biografia e a história, o passado e o presente encontram-se e iluminam-se em poemas que aliam o despojamento e o rigor a «esse fervor ardente de uma tarde de Verão grego», como disse a sua tradutora para francês Marguerite Yourcenar. Da mina obscura de uma vida rotineira e anónima, Kavafis arrancou um ouro mais puro do que o ar sobre o mar de Alexandria. O grego Nikos Pratsinis, que, com o poeta Joaquim Manuel Magalhães, traduziu a obra de Kavafis para português, faz um retrato do poeta e da sua poesia através de oito perguntas capitais.
1. Até que ponto Kavafis é um poeta grego?
Konstandinos Petrou (filho de Petros) Kavafis nasceu em 1863 em Alexandria, cidade comercial e cosmopolita na altura em que o Egito fazia parte, como quedivato (protectorado), do Império Otomano, já bastante debilitado. Os seus pais pertenciam à classe alta dos gregos de Constantinopla, capital do império: eram «fanariotas», descedentes de famílias da nobreza bizantina, cultíssimos, poliglotas e cosmopolitas que serviam por vezes como diplomatas junto à Sublime Porta (o Governo do Sultão).
O pai de Kavafis, um abastado comerciante de cereais e algodão, membro da próspera colónia grega de Alexandria, tinha uma grande casa no bairro Ramleh, com muitos criados. Morreu em 1870 deixando seis filhos. Kavafis era o mais novo. A mãe partiu então com os filhos para Inglaterra, onde o pai mantivera interesses comerciais, bem como a nacionalidade britânica adquirida durante uma longa estada durante a juventude. Em 1874, a falência do Egipto, causada pelos enormes empréstimos para a construção do Canal de Suez, leva à dissolução da casa comercial Cavafy & Co, gerida por um dos irmãos do poeta. Ignoramos se o poeta frequentou alguma escola em Inglaterra ou se estudava em casa com um professor particular. Mas sabemos que a etapa inglesa facilitou o seu contacto com dois nomes da literatura inglesa que nunca deixou de amar: Shakespeare e Edward Gibbon, o grande historiador da decadência de Roma. Em 1877, a família, já na pobreza, regressa ao Egipto.
Entre 1877 e 1882, o jovem Kavafis frequenta uma escola comercial e devora os livros nas bibliotecas da cidade, não tendo prosseguido estudos superiores. Em 1881, os credores europeus assumem a tutela do fisco e das finanças egípcias. A situação humilhante agrava o incipiente descontentamento popular. O desejo dos egípcios de se livrarem da dominação estrangeira culminou com a Revolução Urabista, liderada pelo coronel nacionalista Ahmed Urabi, contra o governo colaboracionista, contra os estrangeiros que o manipulam e contra os colonos estrangeiros no país — havia muitos gregos entre eles — que poderiam já ser alvo de agressões por grupos enfurecidos do povo egipcio. A família vai para Constantinopla, para a casa familiar da mãe, Haríclia Fotiadi.A revolta de Urabi é esmagada em 1882 pelas forças britânicas, que intervêm a pedido do Governo. A casa da família em Alexandria arde durante o bombardeamento da cidade pela armada britânica. O Egipto passa a ser colónia do Império Britânico. Kavafis escreve já poemas em inglês e em grego. Escreve também prosa (contos, breves ensaios) e textos jornalísticos, uma prática que nunca vai deixar.
Em 1885 Kavafis regressa ao Egipto. Em 1886 , abdica deliberadamente da nacionalidade inglesa «herdada» do pai, mantendo apenas a grega. Em 1886 distribui por amigos conhecidos cinquenta exemplares do seu poema «Pedreiros» — um dos poemas «renegados» posteriormente pelo poeta — em folhas guardadas dentro de uma capa («plaquetes»). Trabalha primeiro como jornalista (1886), e na Bolsa de Algodão mais tarde (1888). Em 1892, passa a ser funcionário da Repartição das Irrigações do Ministério de Obras Públicas, onde trabalhará durante trinta anos.
No seu trabalho, usava o inglês, que dominava perfeitamente, e o francês. Sabia bastante bem o italiano, traduziu mesmo parte da Divina Comédia, como traduziu poemas do inglês (Keats, Tennyson e outros) e do francês (Baudelaire). Sabia algumas frases do árabe coloquial do Egipto (amiya) para comunicar com o seu criado. Há poemas de Kavafis que demonstram amor e respeito do poeta pelo povo egípcio. Há até um poema inédito durante a vida do poeta, que tratava de quatro pobres camponeses egípcios executados pelos ingleses, por terem reagido violentamente às atrocidades do regime colonial. É o poema «27 de Junho 1906, 14h»1. Kavafis embora, em princípio, poderia conseguir uma projecção internacional usando o inglês ou o francês, línguas que dominava perfeitamente — pois nunca deixou de ler com interesse obras das vanguardas literárias do seu tempo em ambas — optou, após escassos «experimentos» em inglês, pelo uso exclusivo do grego na sua poesia. Nas letras gregas apostou para «construir», seguindo uma via «alternativa», a sua imagem e a sua fama.
Sendo um grande exemplo de erudição apesar de ser quase autodidacta, viveu a maior parte da vida na periferia colonizada de dois impérios, embora tenha chegado a conhecer as capitais, Londres e Constantinopla. Foi um poeta da diáspora grega. O caso dele é hoje tema dos estudos pós-coloniais em muitas universidades anglo-saxónicas. Passou a maior parte da vida numa cidade onde esta diáspora tinha uma história de mais de dois mil anos, da época dos Ptolomeus. O ambiente cosmopolita da diáspora grega — e de outras — em Alexandria, caldeirão e encruzilhada de culturas, ofereceu-lhe um olhar universal para as coisas e as pessoas, elemento que favoreceu a recepção da sua poesia a nível mundial. Resumindo: Kavafis viveu sempre fora do Estado grego. «Foram as circunstâncias» da História, como poderia dizer ele próprio com a sua ironia filosófica. A História que tanto amou e aproveitou como poeta e pensador, especialmente o seu «cenário» cosmopolita do período helenístico que escolheu com sabedoria e argúcia para situar muitos poemas. Aliás, o Estado grego era pequeno, com pouco brilho, criado em 1830, após uma revolução contra o Império Otomano e com a ajuda de Inglaterra, França e Rússia.
O poeta poderia ter dito justamente «a minha pátria é a língua grega», antecipando Fernando Pessoa, poeta que nasceu também fora do centro de dois impérios e viveu fora do centro da língua inglesa Se calhar esta é a única semelhança entre os dois grandes poetas modernistas, para além da fé e o apego aos modos de ser poeta e de terem poéticas muito sui generis, embora muito diferentes entre si. Kavafis conseguiu tornar-se o poeta grego mais conhecido mundialmente e um dos grandes modernistas do mundo ocidental do século XX, apesar de se ter exprimido numa língua minoritária. Há traduções em dezenas de línguas europeias, em chinês (Kavafis e bastante lido e estudado na China!), urdú e turco. Só em inglês (e em castelhano) há mais de dez.
Kavafis é uma «amostra» do teor universalista da cultura grega, nas versões helenística e bizantina. Eis uma razão do seu brilhante «trajecto poético» fora do mundo grego de hoje. Valiosas e de inesgotável «combustível» para este trajecto foram as numerosas referências ao mundo da antiguidade grega, sempre estimada pela correntes mainstream do humanismo europeu. Kavafis soube motivar e dirigir bem a sua recepção, aproveitando a sua condição pessoal em geral. Porque seria muito difícil separá-lo da cidade de Alexandria; foi o Poeta (da Cidade) por excelência, como se refere a ele Lawrence Durrell no Quarteto de Alexandria.

2. Em que consistia a famosa prática «editorial» de Kavafis?
Kavafis distribuía por amigos e conhecidos os seus poemas impressos em feuilles volantes. Guardava exemplares destas feuilles por ordem cronológica. Enviava, a quem os pedisse, em cadernos, os poemas anteriores em forma de pequenas colecções. Nunca elaborou alguma edição em livro. Muitos destes poemas, distribuídos primeiro em plaquetes, apareceriam depois em revistas de Alexandria ou de Atenas. Nos últimos anos de vida — morreu em 1933 de cancro na laringe, num hospital de Atenas, no dia do seu aniversário, 29 de Abril —, costumava distribuir duas colecções, uma de poemas de 1905–1915 e outra de 1916–1918. A primeira edição de todos os poemas das plaquetes — os não renegados pelo poeta — por ordem cronológica foi feita pelo casal Alekos e Rita Sengópulos, grandes amigos do poeta, em Alexandria, no ano de 1935. Os 154 poemas desta edição são os chamados «reconhecidos» (pelo poeta), ou canónicos. Os poemas mais conhecidos, aos quais se deve a fama do poeta.
Esta prática de distribuição, juntamente com a sua poética e a sua temática, foi um dos pilares das suas inovações modernistas. Distribuindo ele próprio os poemas, é um poeta que cria sem se preocupar com os circuitos, os interesses e os hábitos de editores, leitores e… críticos. Dá de novo um valor especial ao fenómeno poético. O poema passa a ser um objecto valioso em escassez, o leitor tem de procurá-lo. Eis mais um exemplo da sabedoria e da argúcia do poeta. Por outro lado, este modo de distribuição da sua poesia funciona como filtro, «controlo de qualidade»: o poeta pode resgatar só os poemas que tiveram boa recepção do público. Eis uma prova mais de que Kavafis é um heleno, um descendente espiritual do astuto Ulisses. Kavafis chegou até a impedir a edição de um livro de poesia com parte da sua obra traduzida para o inglês, proposta por E. M. Forster. Fez o mesmo com outras línguas. O poeta sabia alimentar a sua fama e o mistério acerca da sua pessoa.
De Kavafis, para além dos poemas «reconhecidos», temos também quase trinta poemas «renegados», na sua maioria de juventude, com um ar romântico ou ultra-simbolista devido à linguagem ou ao estilo, publicados quase todos em revistas de Atenas, Alexandria e Leipzig. São importantes para perceber a evolução da poética kavafiana. Temos também quase cem poemas inéditos ou «escondidos», como costumavam chamá-los. Εstes últimos provêm do arquivo kavafiano, formam parte do «espolio» dele, junto com artigos, poemas noutras línguas, prosas narrativas, poemas em prosa, traduções e notas literária e cartas a amigos e intelectuais gregos e estrangeiros. E alguns dos poemas «renegados» (pelo poeta), há uma nota emblemática, muito kavafiana — carregada aliás de ambiguidade céptica —, embora reflicta um sentimento comum a muitos poetas de todos os tempos: «Não para ser publicado. Mas pode ficar aqui.»
3. Qual é a temática da poesia kavafiana?
«Eis, de um modo simples, o esquema que resulta até agora da minha obra. Tem três áreas — a filosófica (ou do pensamento), a histórica e a hedónica (ou estética). A área histórica, às vezes, aproxima-se tanto da hedónica ou da estética que se torna difícil classificar alguns dos poemas», escreveu Kavafis na revista Alexandriní Tehni (Αrte alexandrina) em 1927.
Muitos dos poemas históricos — com temática helenística na maioria dos casos, mas também clássica, romana ou bizantina algumas vezes —, numa segunda leitura, parecem, quase sempre, filosóficos. Para além disso, um leitor mergulhado nalgumas sequências de poemas dos chamados canónicos, sejam estes filosóficos, ou mesmo discreta ou marcadamente hedónicos — isto é, evocações de uma memória ora cerebral ora quase «corpórea», sempre sensíveis e nunca sentimentalões —, «misturados» com outros poemas, históricos, pode sentir-se inundado de sentimentos que só a História produz. Eis aqui um bem pensado e elaborado elemento de pura modernidade no universo poético criado por Kavafis: a história pessoal do poeta, e de todos nós muitas vezes, nas nossas sociedades, cada vez mais individualistas, vai adquirindo por algum tempo, graças a um poema, a relevância de História. O poeta gosta de ressaltar este facto, conseguindo ativar a projecção (ou o reflexo) de várias e diversas emoções do leitor nos seus poemas.
Os numerosos poemas históricos são de três tipos: I) poemas pseudo-históricos, como o famoso «À espera dos bárbaros». Nestes não existe acontecimento histórico, são metáforas, alegorias com um simples background histórico indefinido; II) poemas aparentemente históricos, situados num ambiente rigorosamente histórico, que serve como «cenário» para o poeta projectar um acontecimento imaginário: eis o célebre elemento dramático ou teatral, tão modernista na poesia kavafiana; III) poemas de reflexão filosófica ou de projecção sentimental sobre um facto histórico bem documentado. Nalguns casos, este facto não passa de um pormenor de um acontecimento histórico bastante conhecido, que o poeta ilumina de modo inesperado.
Os poemas filosóficos (ou didácticos), quando não «emergem» da História, têm como eixo temático uma reflexão, um elemento mitológico, qualquer coisa do dia-a-dia. Os três tipos de poemas kavafianos formam um continuum: o ciclo kavafiano que quer unir a sensação ao pensamento.
Eis três breves poemas canónicos de K. P. Kavafis, um histórico, um filosófico e um hedónico.2
——O Rei Demétrio (1906)
——Não como rei, mas como actor,
——disfarça-se de túnica parda em vez da trágica,
——e de escondidas retrocedeu.
——Plutarco, Vida de DemétrioQuando o deixaram os mecedónios
e demonstraram que preferiam Pirro
o rei Demétrio (grande
tinha a alma) em nada — assim disseram —
se portou como rei. Foi
tirar as suas vestes de ouro,
e atirou para o lixo o calçado
de cor púrpura. Com roupa simples rápido se vestiu e escapou
Fazendo tal qual um actor
que ao acabar a sessão,
muda de traje e se vai embora.
——Prece (1898)
Nos seus fundos tomou um marinheiro o mar. —
Sua mãe vai e acende por ignorar,Diante da Virgem uma alta vela
que volte depressa e que faça bom tempo apela —e não pára de escutar se o vento esmorece.
Porém enquanto ela reza e faz uma preceaquele ícone ouve, sério e triste,
que seu filho ao qual espera já não existe.
——Perguntava pela qualidade (1930)
Do escritόrio onde como empregado o aceitaram
para tarefa insignificante e mal remunerada
(até oito libras a sua mensalidade, extras incluídos)
saiu quando a seca do trabalho ficou concluída
em que esteve a tarde inteira debruçado:
saía às sete horas, e caminhava indeciso
e olhava para se distrair pela rua. — Belo;
e interessante: por assim mostrar ter chegado
a seu pleno rendimento sensual.
Vinte e nove, no mês passado tinha-os feito.Olhava para se distrair pela rua, e nas pobres
travessas que conduziam à sua morada.Ao passar diante de uma pequena loja
onde se vendiam umas coisas
falsas e baratas para operários,
viu lá dentro um rosto, viu uma figura
que o apelaram e entrou, e pedia
supostamente para ver lenços de cor.Perguntava pela qualidade dos lenços
e quanto custam; em voz sufocada,
quase apagada pelo desejo.
E semelhantes vieram as respostas.
Absortas, em voz abaixada
como implícito consentimento.Não deixaram de dizer qualquer coisa da mercadoria — mas
o objectivo único: tocarem-se as mãos
por cima dos lenços, aproximarem
os rostos, os lábios como por acaso,
os membros num instante contactarem.
Rapidamente e às escondidas, para não sentir
o dono da loja que no fundo sentado estava.
4. Como receberam as letras gregas o «caso Kavafis», que foi de facto uma revolução no contexto da literatura grega da época?
Nos seus primeiros poemas, era um romântico ou um ultra-simbolista. Usava uma língua arcaizante e purista, até caricata na poesia, a katharevusa, bastante diferente da língua falada dos gregos dentro e fora do Estado grego, que não deixou de usar como língua oficial até perto de 1980. Nessa língua escreviam os poetas «fanariotas», vindos de Constantinopla a Atenas, assim como outros poetas, nascidos dentro das fronteiras do Estado grego. Mas havia já muitos escritores que iam passando a usar a dimotikí, a língua falada, apesar de esta não ser normalizada ainda. É lógico pensar que Kavafis optou também por dimotikí, para ser mais lido e sentido, seguindo a corrente, mesmo que na língua dos seus poemas canónicos haja elementos de katharevusa, até palavras do grego antigo. Trata-se de efeitos estilísticos, quase intraduzíveis, na maior parte dos casos. Aliás, a Igreja Ortodoxa Grega nunca traduziu para a língua do povo os Evangelhos e outros textos litúrgicos, escritos há mais de mil quinhentos anos. Por isso, muitas palavras arcaizantes do poeta não são assim tão alheias aos leitores gregos, pois permanecem «vivas».
É difícil explicar a passagem, quanto à temática e à poética, do romantismo e do simbolismo tardio (ou do parnassismo) à versão do modernismo de Kavafis. Uma explicação, embora parcial, seria a influência da Αntologia Palatina, uma colecção de curtos poemas gregos, antigos ou bizantinos, datados do século VIII a.C. até ao século VI, mais ou menos. Muitos desses poemas poderiam chamar-se, na gíria dos críticos de hoje, «poesia vivencial», isto é poesia muito realista que surge de momentos pessoais ou mesmo íntimos do poeta, sem cargas de lirismo. Alguns focam-se em amores homossexuais. Kavafis, graças à sua erudição na cultura helénica, conhecia perfeitamente a Antologia Palatina. Escutou o passado longínquo e encontrou os materiais e as ferramentas para criar algo realmente «novo», uma poesia das gerações futuras. Acontece muitas vezes isso na poesia modernista, mas costumamos esquecê-lo ou desvalorizá-lo.
Agindo como crítico da sua poesia, disse a um jornalista de uma revista francesa em 1930 na livraria de Nikos Zelitas, em Alexandria: «Kavafis, na minha opinião, e um poeta ultra-moderno: um poeta para as gerações futuras. Complementando o seu valor histórico, psicológico e filosófico, a sobriedade do seu estilo impecável, que se aproxima algumas vezes ao laconismo, o seu entusiasmo ponderado que conduz à emoção cerebral, a sua frase correcta, resultado de uma natureza aristocrática, a sua leve ironia, são elementos de que gostarão ainda mais as gerações do porvir, impelidas pelo progresso das descobertas e pela subtileza do seu mecanismo cerebral». Εste auto-elogio — segundo alguns —, dito em francês, foi registado por Eftihía, mulher de Zelitas, presente na entrevista.
Kavafis viajou duas vezes para Atenas. A primeira foi em 1901, quatro anos depois da sua visita a Paris com o seu irmão John, o primeiro tradutor dos seus poemas para inglês. Já começava a ser conhecido e estimado em Alexandria, a desfrutar de uma estabilidade profissional e económica — em 1898 teve o seu primeiro gato — e a escrever com avidez. Em Atenas conheceu muitos escritores; entre eles era Grigόρios Xenόpulos. Este, dois anos mais tarde, a propósito da segunda visita de Kavafis a Atenas, escreveria um excelente artigo de apresentação do poeta na revista Panathínea intitulado «Um poeta». Χenópulos, um escritor tradicionalista e medíocre, era um influencer literário avant la lettre e o artigo «funcionou», embora um pouco lentamente. Em 1904, a revista Panathinea publicou o poema de Kavafis «Vozes». Depois houve muitas mais publicações, em revistas de Atenas e de outras cidades da Grécia e do Chipre.

Em 1911, começa já a ser considerado um relevante e singular escritor europeu. Alguns poetas gregos percebem a inovação que significa Kavafis para as letras gregas e tornam-se entusiastas da poesia kavafiana, outros não. O patriarca da dimotikí Yiannis Psiharis critica duramente a língua mista de Kavafis. O poeta parnassiano Kostís Palamás, a figura mais eminente e respeitada das letras gregas da época, disse: «Ε ele é poeta… Sei lá, talvez me engane… Parecem reportagens os seus escritos, como se ele quisesse dar-nos reportagens dos séculos!… As obras de Kavafis, verso, língua, expressão, forma e conteúdo, parecem-me notas que não podem ou não se contentam com se fazerem poemas.» Ε Kavafis tinha dito de Palamás: «Palamás é um versificador de primeira classe. Não tenho nada a criticar na sua obra. E com muito interesse leria a sua Poética para ver como justifica algumas coisas.» Uma lenda urbana narra que Kavafis tinha no seu apartamento em Alexandria um whiskey barato para as visitas não desejadas. Chamava-o «Whiskey Palamás». Em 1926, Kavafis recebeu a Medalha da Ordem de Phoenix do Estado grego. A controvérsia sobre o valor da sua poesia não parou até aos anos 60.
Εm Alexandria o reconhecimento e a consagração do «poeta da cidade» foi muito mais fácil. Soube criar um ciclo de amizades pessoais, amigos do mundo das letras e das artes, ou simplesmente curiosos. Kavafis tinha uma intensa vida social, com muitos amigos e conhecidos. A poesia kavafiana é às vezes epicurista, às vezes estóica, às vezes simplesmente sarcástica, mas nunca pessimista. Sempre exprime o que sente quem desfruta de rememorar. Segundo os amigos alexandrinos, Kavafis amava a vida e era um epicúrio, embora muito reflexivo e céptico. Gostava do jogo, o casino, as apostas, e mandava fazer os seus fatos no melhor alfaiate de Alexandria. Não falava contra os ingleses nem de política. Em Alexandria, o poeta conseguiu mesmo ter, sem buscá-lo, um grupo de jovens fãs, a tertúlia boémia e anarquizante chamada «os apuani»; alguns escreveram poemas medíocres à maneira de Kavafis.
5. Como se exprime a homossexualidade na poesia de Kavafis?
Exprime-se de uma maneira clara, simples, natural, sem desejos de provocar. A língua grega permite o uso do verbo sem pronome. Assim, nem sempre é explícito o sexo das pessoas que se amam em alguns poemas de Kavafis. Ficam abertos quanto ao género das personagens. Tal é impossível em inglês; talvez por isso a poesia de Kavafis se tenha tornado emblemática na comunidade gay dos países de língua inglesa primeiro; e depois noutros. Há, porém, muitos poemas, como o «Perguntava pela qualidade», onde o amor homossexual é explícito. Todos sabiam, e sabem, que Kavafis era homossexual. Terá vivido plenamente a sua sexualidade, como se pode deduzir pela sua poesia, e de maneira discreta segundo testemunhas; ao contrário do mais «escandaloso» irmão John, também homossexual. Decidiu expor-se, através da poesia, vivendo numa sociedade muito menos tolerante do que as nossas. Existe um poema inédito de 1908 com o título «Coisas escondidas», que diz: «Do que fiz e do que disse / não busquem saber quem fui. / Havia um obstáculo e transformava / as minhas acções e o meu modo de viver. / Havia um obstáculo e me parava / muitas vezes no que ia dizer.» Ε acaba: «Depois — na sociedade mais perfeita — / alguém outro feito como eu / de certeza vai aparecer e vai fazer livremente.»
6. Qual foi a influência de Kavafis sobre outros escritores?
O poema «À espera dos bárbaros» inspirou muitos escritores. Um exemplo é o romance de Dino Buzzati Ο Deserto dos Tártaros, e obras de Julien Gracq e J. M. Coetzee. Escritores ou pensadores como Joseph Brodsky, Jorge Luis Borges, W. H. Auden, Lawrence Durrell, o filósofo da histόria Arnold J. Toynbee, alguns grandes poetas espanhóis da segunda metade do século XX, como Jaime Gil de Biedma, José María Álvarez, Luis Alberto de Cuenca, Antόnio de Villena e Luis Panero, reconheceram a forte influência de Kavafis, como poeta ou pensador, sobre a sua obra.
7. Quais são as características mais relevantes na obra deste clássico do modernismo que é Kavafis?
Kavafis é um clássico moderno. Usa rimas esporádicas e uma métrica pouco rigorosa, uma adaptação do metro iâmbico, tradicionalmente grego. O discurso não tem adereços e carece em absoluto de lirismo. Os adjectivos são escassos e guardam sempre um significado muito especial e rigorosamente delimitado. A linguagem, com cultismos e coloquialismos misturados, é «neutra», não costuma exprimir ou revelar sentimentos; os sentimentos são «resultado» de factos e conceitos. A pontuação, sem seguir sempre as regras, funciona como guia para uma leitura em voz alta. Assim, o poema ganha um tom dramático. A insinuação, a ironia e o sarcasmo e muιtos efeitos teatrais são elementos fundamentais da sua poesia. Os poemas, sempre breves, muitas vezes transmitem uma mensagem simbólica e ambígua, embora nunca «obscura» ou hermética.
8. Kavafis, apesar de ser considerado poeta «cerebral», torna-se cada vez mais popular. Porque é que, na nossa época pόs-moderna, os poemas do modernista Kavafis não deixaram nunca de ser lidos com interesse e prazer, por tantas pessoas?
Em 1929, Kavafis teve um encontro com o escritor italiano Filippo Tommaso Marinetti, outro filho célebre de Alexandria, que a abanndonou para ir a Itália. Marinetti, que queria recrutar Kavafis para o seu Movimento Futurista, escreveu: «Kavafis aprova o Futurismo, mas acha mais certa e “saudável” a sua “interpretação das épocas histόricas de maneira que se possam aplicar na humilde vida quotidiana”.»
Notas:
- Konstandinos Kavafis, Os Poemas, Tradução, prefácio e notas de Joaquim Manuel Magalhães e N. Pratsinis, Lisboa: Relόgio d’Água Editores, 2023, p. 452. ↩︎
- A tradução dos três poemas é do livro Os Poemas, Tradução, prefácio e notas de Joaquim Manuel Magalhães e N. Pratsinis, Lisboa: Relόgio d’Água Editores, 2023. ↩︎
–
LEIA TAMBÉM:
Kaváfis em português: leituras, traduções e a permanência de um poeta moderno





