Poucas figuras da crítica literária brasileira despertam reações tão díspares quanto Otto Maria Carpeaux (1900-1978). De gênio inconteste a falsário ilustrado, detentor de um fabuloso fichário do qual supostamente extraía seus pródigos textos, Carpeaux parece ser um nome em eterna disputa, tornada cada vez mais ideológica ao longo das últimas décadas, sobretudo a partir da importante recuperação editorial de suas obras motivada pelo suposto esquecimento de seu legado, em especial na universidade brasileira. Para alguém como eu, que descobriu Carpeaux na universidade e teve a alegria de ter aulas sobre ele com seu melhor leitor, o saudoso Professor Alfredo Bosi, e, anos mais tarde, a nova alegria de ser um dos editores do primeiro dossiê acadêmico dedicado ao crítico (o nº 20 da revistaTeresa), essa oposição ideológica é certamente mais deletéria do que benéfica. Afinal, Carpeaux é figura complexíssima, a começar pelo nome. Se enquanto Otto Karpfen esteve ligado à alta cúpula da política austríaca dos anos 1930, de orientação conservadora, em sua nova vida no Brasil chegou a praticamente dar por encerrada a atividade de crítico literário (o que não é exatamente verdade) para se dedicar aguerridamente à luta contra a ditadura militar. Enquanto o emparelhamento desses fatos não deixa de causar alguma perplexidade, a compreensão crítica de sua obra faz-se cada vez mais premente.
Para além do Professor Bosi, o leitor e pesquisador mais dedicado de Carpeaux é certamente Mauro Souza Ventura, professor da Unesp (Bauru) e autor dos dois únicos livros que temos sobre o crítico: De Karpfen a Carpeaux: formação política e interpretação literária na obra do crítico austríaco-brasileiro (Topbooks, 2002) e o recente O Danúbio não é azul: vida e obra de Otto Maria Carpeaux na Áustria (1900-1938), publicado pela Editora Unesp. O primeiro livro, derivado do doutorado de Ventura defendido na USP em 2000, propõe pensar a crítica literária de Carpeaux a partir de sua formação cultural austríaca, que articula uma visão barroca do mundo, um sentido de missão histórica a ser desempenhado pela Áustria católica dos Habsburgo e um senso do trágico que enforma uma obra crítica em que as tensões não parecem encontrar repouso. Nas últimas décadas, Ventura tem se dedicado cada vez mais ao período europeu de Carpeaux, estudando e disponibilizando parte de seus escritos sobre política, música e cinema. A descoberta e a listagem dos muitos textos europeus do crítico são consequência de quatro viagens de pesquisa a Viena, feitas em 2011, 2015, 2022 e 2023, esta última dedicada a (re)apresentar Karpfen/Carpeaux aos alunos de sua alma mater, a Universidade de Viena. O Danúbio não é azul, portanto, é a concretização de quase duas décadas de uma pesquisa que oferece ao leitor brasileiro a visão mais complexa e completa até hoje sobre a primeira metade da vida de Carpeaux.
Nascido em 1900 em uma Viena prodigamente multicultural e que parecia feita para durar, Otto Karpfen foi o único filho de Max Karpfen (falecido em 1931) e Gisela Schmelz, ambos de ascendência judaica. Karpfen tentou cursar Direito, mas acabou por estudar Química na Universidade de Viena, onde se doutorou — anos mais tarde, acabaria privado de seu título pelos nazistas. Após um possível período em Berlim escrevendo roteiros para cinema mudo, o vienense retorna à sua cidade e, em 9 de fevereiro de 1930, casa-se com Helena Silberherz, sua eterna companheira.
Os anos 1930 compõem o período de interesse explorado pelo livro de Ventura; afinal, são esses os anos em que o químico se converte em jornalista político de grande contundência, escrevendo textos (muitas vezes laudatórios) em prol do Estado corporativo cristão e do catolicismo político, elementos basilares para os governos dos chanceleres Engelbert Dollfuss (1932-34) e Kurt Schuschnigg (1934-38), que apregoavam a independência da Áustria em oposição frontal ao nacional-socialismo e sua visão pangermânica. Karpfen colaborou com importantes periódicos que constituíam um verdadeiro aparelhamento cultural do governo, com forte controle midiático, ainda que mais brando que o alemão, tais como Der Christiliche Ständstaat, Neue Freie Presse, Die Erflüng, Berichte zur Kultur und Zeitgeschichte e a revista de cinema Der Gute Film, nomes propositadamente omitidos na biografia anexa ao processo de naturalização que tentava obter junto ao governo de Getúlio Vargas no início dos anos 1940.
Antes de se concentrar mais assiduamente nos escritos políticos, Karpfen começou com ensaios sobre música erudita para o periódico berlinense Signale für die Musikalische Welt entre 1931 e 1934. É também no começo dos anos 1930 que se desliga formalmente da religião judaica e se converte ao catolicismo, ainda que sem certidão de batismo. A decisão é confirmada pela incorporação de “Maria” à sua assinatura no livro Caminhos para Roma [Wege nach Rom], de 1934, e, na estreia em Der Christiliche Ständestaat, pela adoção de outra firma autoral, Otto Maria Fidelis. Embora não se saiba muito mais a respeito dessa conversão — se foi um gesto exclusivamente religioso ou se teve alguma intencionalidade política ou protetiva, não constituindo qualquer excepcionalidade à época, a ponto de haver órgãos específicos, como o periódico mencionado por último, que davam guarida a judeus convertidos —, tratava-se de um assunto sensível acerca do qual, assim como no que se refere a boa parte de seu passado europeu, Carpeaux optou pelo silêncio.

Em uma apreciação assertiva de seus escritos políticos dos anos 1930, diz Ventura que, distante de qualquer objetividade jornalística, eram “textos de opinião escritos por um publicista engajado, que não temia expor suas convicções”, incluindo críticas contundentes ao “nacional-socialismo, ao Terceiro Reich, à situação da Igreja Católica na Alemanha e até aos campos de concentração”. Os artigos e ensaios de Karpfen evidenciam a valorização de uma política supranacional e constitutivamente religiosa, daí seu entendimento do termo Reich, pensado como um Sacrum Imperium historicamente vinculado à Igreja de Roma e intimamente associado à compreensão do conceito cristão de pecado. A isso se acoplava a ideia de uma “missão histórica a ser desempenhada na Europa” pela Áustria, uma visão “habsburguesa” de mundo da qual Karpfen se considerava herdeiro intelectual. Na síntese de Ventura: “Se os anos de formação de Carpeaux (década de 1920) correspondem à experiência social-democrata em Viena, suas influências teóricas, religiosas e sua cosmovisão são conservadoras, católicas, enfim, de inclinação à direita. Contra o nazismo sempre, mas a partir de uma visão conservadora.”
Enquanto judeu convertido (Taufjude) que escrevia sobre música, literatura, cinema e sobretudo de política, Karpfen, mostra Ventura, manifestou-se contundentemente sobre a questão judaica — defendendo, inclusive, a necessidade de um Estado judeu como modo de resolvê-la, já que propiciaria a existência de uma pátria cultural que, embora não pudesse resolver o sofrimento dos judeus, aplacaria um pouco “o sofrimento do judaísmo”. A despeito do seu traslado religioso, o estigma racial jamais lhe permitiu ser um católico pleno, forçando-o a permanecer em uma condição liminar, desde a qual escrevia, empenhado em “estabelecer pontes entre a cultura judaica e a cultura cristã”. Ele só não poderia prever que, poucos anos mais tarde, com a anexação da Áustria pela Alemanha em março de 1938, em sua fuga desesperada (ou kafkiana, nas palavras de Albert von Brunn) nos idos de março daquele ano, fixando-se inicialmente na Bélgica e por fim no Brasil, teria de deixar para trás casa, biblioteca, língua materna e até a própria mãe já idosa, que viria a ser mais uma vítima da sanha nacional-socialista.
Para além da esmerada descrição do complexo contexto de atuação do crítico na efervescente e tumultuada Áustria dos anos 1930 — sintetizada na tétrade assimilação, conversão, engajamento e fuga —, o grande destaque do livro de Ventura me parece ser a comprovação de que a função de mediador intercultural, imanente aos intelectuais exilados e expatriados de todos os séculos, já era parte constitutiva não apenas do locus como também do ethos de Otto Karpfen. Sua Viena natal parecia favorecer essa predisposição por meio de uma constituição fortemente musical e plurinacional indissociável de sua “vocação universalista”. Já em terras brasileiras, coube a ele a tarefa de nos apresentar diversos autores e mesmo literaturas estrangeiras inteiras dentro dos seus limites, seja por meio dos múltiplos textos sobre Franz Kafka e autores vienenses, belgas, holandeses, ou ainda pelo esforço mais ostensivo na organização da Antologia do conto russo, com vastos paratextos, publicada pela editora Lux nos anos 1960, sem esquecer, é claro, do desmedido e louvável empenho que se materializou nos muitos volumes da História da literatura ocidental (1959-66). Ademais, como repetidamente se lê neste último livro e sobretudo em Origens e fins (1943) e Livros na mesa (1960), Carpeaux sempre procurou colocar a literatura brasileira em contato íntimo com a literatura do Ocidente, encarando-a como um leitor cosmopolita que gradualmente se especializa nos autores de sua nova pátria. Dessa forma, ao ler seus ensaios, para ficar só com alguns exemplos, entrevemos um Machado de Assis vitoriano, um Drummond em forte diálogo com o melhor da poesia social inglesa (W.H. Auden sobretudo), uma aproximação inesperada entre a obra de Graciliano Ramos e uma lenda budista, e ainda um ensaio emblemático, escrito a pedido de Celso Furtado para um dossiê sobre o Brasil por ele organizado para a revista Les Temps Modernes, em que Carpeaux apresenta nossa literatura aos franceses a partir do entremeio entre bovarismo e engajamento que caracterizaria a “Dialética da literatura brasileira”. Por fim, o crítico também empreendeu outros importantes esforços editoriais, como a organização da Obra poética (1949) de Jorge de Lima e a compilação da necessária e pioneira Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira (1952), derivada do esforço de se embrenhar no cipoal literário de seu novo país.
Para Ventura, a “marca da precariedade foi uma constante em Carpeaux, principalmente numa cultura, como a vienense, sempre cercada de títulos, de nomes, de origem, de linhagem, de ascendência”, uma situação eivada pelo trágico que ele só conseguiu superar com coragem e obstinação, criando para si uma nova vida no Brasil. A despeito de sua fama e influência, contudo, Carpeaux não logrou se incorporar de forma plena ao establishment editorial brasileiro e jamais obteve boa estabilidade financeira, piorada em seus últimos anos como inimigo da ditadura. Seja como for, encontramos repetidamente em seus textos, em especial dos anos 1960 em diante, variações de uma frase tirada do Rig Veda indiano, colhida inicialmente em Nietzsche e reencontrada indiretamente no Drummond de “A morte do leiteiro”: a certeza de que “Há muitas auroras que ainda não se levantaram”. Como referenda este excelente e já imprescindível livro de Ventura, e bem o lembra Drummond (“Antes do amanhecer”) ao homenagear o amigo falecido em 1978, “paradoxalmente, o pessimista confesso acreditava na elaboração humana dos acontecimentos”.
“Carpeaux sempre foi visto como um estrangeiro, e pagou um preço alto por isso”
Entrevista com Mauro SouzaVentura
Antes das suas pesquisas, sabíamos muito pouco a respeito da primeira metade da vida de Otto Maria Carpeaux. Ao longo dessas três décadas de estudo, quais foram as maiores dificuldades envolvidas nesse processo e qual descoberta você considera a mais importante até agora?
Ao longo dessas quase três décadas de estudo e pesquisa sobre a obra de Carpeaux, as dificuldades que enfrentei foram as inerentes a toda pesquisa de longa duração. Desde o início, sempre tive como objetivo realizar uma interpretação sistemática da obra europeia de Carpeaux. Se no doutorado, iniciado em 1995, eu me ocupei da crítica literária que ele produziu e publicou em livros no Brasil, o passo seguinte demandava conhecer e estudar essa etapa europeia da vida dele, que era muito pouco conhecida. Ora, tratava-se de uma pesquisa de longa duração e era preciso vinculá-la ao âmbito de uma pós-graduação, no caso, a Pós-Graduação em Comunicação da Unesp, onde passei a atuar a partir de 2006. Só assim eu conseguiria alavancar minha produção e realizar as viagens de pesquisa que foram fundamentais para encontrar os materiais e documentos do Otto Karpfen na Europa.
No atual sistema acadêmico, somos impelidos a publicar periodicamente sob forma de artigos os resultados de pesquisa. Isso torna impraticável esperar os resultados para publicar no formato livro. Assim, tive que ir mostrando alguns resultados parciais no decorrer dessas quase três décadas. Essa talvez seja a grande dificuldade, a de ter de publicar artigos periodicamente. Se não quiser morrer academicamente, você não pode esperar que o livro fique pronto para mostrar o resultado. Até porque um livro vale a mesma pontuação de um artigo qualis A, o que é um absurdo. Por isso, só 23 anos depois da publicação do meu primeiro estudo sobre Carpeaux, é que eu pude publicar O Danúbio não é azul, que considero uma continuação ao inverso. Os dois livros (De Karpfen a Carpeaux e O Danúbio não é azul) sintetizam todo o meu envolvimento de pesquisa com a obra de Carpeaux. E já anuncio que um terceiro livro está a caminho, fruto de uma nova pesquisa com apoio da Fapesp e que deve ser concluído no primeiro semestre de 2027. Com isso, teremos uma trilogia sobre Otto Maria Carpeaux que seria a conclusão dessa longa pesquisa sobre o ensaísta.
Você me pergunta também sobre qual foi a descoberta mais importante desta pesquisa. Vejo dois aspectos aí: primeiro, a constatação de que a obra europeia de Carpeaux é muito significativa e muito volumosa, haja vista os artigos que fui encontrando ao longo desses anos e que estão referenciados ao final do livro. Neste momento, estou me preparando para uma nova viagem de pesquisa em Viena para descortinar outros aspectos ligados à política cultural do Ständestaat e a participação de Carpeaux nessa política cultural. Em suma, a primeira descoberta relevante é sobre o volume dessa obra. Ele era um jornalista e ensaísta muito produtivo. E há também as descobertas relacionadas ao envolvimento de Carpeaux com o Ständestaat, ao governo de Dollfuss, talvez a questão mais polêmica. É relevante também o seu engajamento na luta contra o antissemitismo em Viena, seus artigos sobre a questão judaica. Esses são os pontos mais luminosos da trajetória de Carpeaux: a amplitude de uma obra escrita naquele contexto tão difícil e a coragem de se posicionar contra o nazismo e contra o antissemitismo. Lembrando que isso quase lhe custou a vida e resultou em sua fuga de Viena em 1938.
O tema da vida europeia de Otto Karpfen parece ter sempre estado no seu horizonte de pesquisa, mesmo no doutorado, para o qual a compreensão da cultura austríaca formativa do crítico embasou sua leitura pioneira dos ensaios de Carpeaux no Brasil. O quanto há de Karpfen em Carpeaux?
É inegável que a trajetória europeia de Carpeaux exerceu um impacto muito grande sobre a minha pesquisa. Ainda no doutorado, decidi incorporar os dois livros europeus à minha tese e foi ficando muito evidente a influência que aquele mundo, aquela matriz barroco-católica exercia sobre o próprio método crítico de Carpeaux. À medida em que eu lia aqueles dois livros, tornava-se evidente que Carpeaux sempre se manteve fiel àquela filosofia da Casa da Áustria. Sua visão conservadora da política derivava desta concepção de mundo. Carpeaux foi um filho da Casa da Áustria e essa visão conservadora sofreu uma transformação no Brasil. Ele presenciou o colapso do seu mundo geográfico, filosófico, religioso e ideológico. Quando, na década de 1960, ele se engajou na luta contra o regime militar que se instaurava, ele o fez porque aprendeu com o passado na Áustria. Ele aprendeu com a experiência do autoritarismo dos anos de 1930. Quanto ao que há de Karpfen em Carpeaux, de fato existe muita coisa, a formação, o conhecimento dos idiomas, das literaturas, da arte, mas há também a dura lição do passado deixada pelo colapso da experiência austríaca. No seu último livro europeu, Dos Habsburgos a Hitler, ele faz essa reflexão. E essa lição da experiência austríaca está na origem do seu engajamento, da sua virada política a partir dos anos 1960 no Brasil. Quando viu a ameaça do autoritarismo no Brasil, ele participou com convicção, pois não queria viver novamente num regime autoritário. Podemos até pensar que ele, enquanto Karpfen, se equivocou na década de 1930, e assim iria fazer um acerto de contas consigo mesmo nos anos 1960 ao se colocar de modo frontalmente contrário ao autoritarismo brasileiro.
Em 2023 você foi convidado a falar de Carpeaux na própria Universidade de Viena, onde ele se formou. Quem era o público lá presente? É possível dizer que Viena sabe da existência de Carpeaux ou que ao menos se lembra de Karpfen?
Como disse, o tema da vida europeia de Carpeaux sempre esteve no centro das minhas preocupações. A partir do momento em que eu descobri que ele havia publicado dois livros na Europa, lancei-me o desafio de ler e entender esses dois livros. Foi quando tomei a decisão de começar a estudar o idioma alemão: primeiro na USP e depois no Goethe Institut. E não parei mais de estudar, pois isso representou um desafio intelectual pra mim. E acabou mudando a minha trajetória de pesquisa. Ao me debruçar sobre esses textos, primeiro de modo muito rudimentar, comecei a identificar ligações entre a fase europeia e a brasileira.
Mas sua pergunta me remete ao início de minhas pesquisas, em 2011, quando fui pela primeira vez à Viena em busca de artigos de Carpeaux. Tinha então poucas referências, foi uma pesquisa meio às cegas. Tanto que meu primeiro critério de busca foi o mais óbvio: procurar referências ou menções a Carpeaux no contexto da pesquisa do exílio, que é uma vertente muito forte na Áustria. Há muitos pesquisadores preocupados com esse tema. Ora, se Carpeaux saiu da Áustria para escapar do nazismo em 1938, então ele era obviamente um exilado. E durante uma semana inteira pesquisando na Biblioteca Nacional Austríaca eu não encontrei nada, absolutamente nada. Ora, por que Carpeaux não faz parte da pesquisa do exílio se ele foi um exilado? Foi então que cheguei a uma intuição: será que ele não existe nas pesquisas do exílio porque ele não é considerado um exilado? Aí passei a olhar para uma outra bibliografia, para um outro conjunto de dados ligados ao Ständestaat, ao austrofascismo, ao chanceler Engelbert Dollfuss etc. Era um outro universo de pesquisa e essa foi uma grande virada de chave que ocorreu nessa minha primeira viagem de pesquisa. Ao mesmo tempo, ocorreu uma coisa muito maravilhosa, pois quando comecei a procurar a partir dessa outra chave, comecei a encontrar os artigos do Carpeaux. E a cada dia que eu pesquisava voltava para o hotel com um ou dois artigos. E no dia seguinte de novo. Artigos sobre música, política, a questão judaica. Um novo mundo foi se abrindo e comecei a inserir o Carpeaux no contexto em que de fato ele devia ser inserido, que era o contexto da década de 1930, com o Ständestaat, Dollfuss etc. Essa viagem de pesquisa foi extraordinária porque me deu material para a vida toda. É claro que as outras viagens também foram muito importantes e acabei encontrando outros textos, mas aquele momento em 2011 foi um marco. A conclusão é que Viena pouco sabe da existência de Carpeaux, exatamente porque ele não é considerado um exilado, já que esteve ligado ao governo Dollfuss, e os pesquisadores do exílio consideram que o governo Dollfuss acabou contribuindo para a escalada nazista. A Áustria pouco sabe da existência de Karpfen e muito menos da existência de Carpeaux.
A palestra que fui convidado a fazer no Instituto de Línguas Românicas da Universidade de Viena foi para alunos de graduação e pós-graduação com estudos ligados às línguas românicas, até mesmo sobre cultura e literatura brasileiras. Mas é muito triste pensarmos que Carpeaux praticamente inexiste nesse contexto austríaco. Temos inclusive o projeto, juntamente com professores da Universidade de Viena, de montar uma exposição para mostrar aos vienenses a obra de Carpeaux. Uma exposição provisoriamente chamada de “Carpeaux em Viena”, para divulgar a obra brasileira de Carpeaux. É um sonho que ainda espero realizar: mostrar a existência de Carpeaux aos austríacos.
Como o termo austrofascismo, tanto em suas diferenças quanto possíveis contiguidades com o nacional-socialismo, ajuda a qualificar a visão e atuação política de Karpfen na Áustria dos anos 1930?
O movimento que se chama geralmente de austrofascismo possuía duas vertentes. Uma primeira vertente estava orientada para a Alemanha, que corresponde àquilo que os historiadores chamam de Grossdeutschland, Grande Alemanha, orientada para Hitler. E uma segunda vertente orientada para a Áustria em si mesma, que seria a Pequena Alemanha, Kleindeutschland. Esta era a vertente à qual Carpeaux se filiava, porque era uma vertente vinculada ao catolicismo político e ao Partido Social Cristão, aos quais ele estava ideologicamente ligado. É preciso definir isso. Não se pode dizer simplesmente que o austrofascismo era uma vertente austríaca do nazismo. Já a outra vertente, que defendia a anexação da Áustria pela Alemanha, o Anschluss, de fato foi uma vertente que progressivamente se uniu ao nazismo, a Hitler, tanto é que o Partido Nazista Austríaco cresceu extraordinariamente. O austrofascismo, ao qual se filiam os chanceleres austríacos Dollfuss e Schuschnigg, era uma vertente católica, conservadora, herdeira dos Habsburgos, defensora da independência da Áustria frente a Alemanha, e essa vertente vai lutar sistematicamente contra os social-democratas e destruir suas conquistas, as políticas sociais da Viena Vermelha. E este foi o grande erro do governo Dollfuss e Schuschnigg. Ao mesmo tempo, os nazistas austríacos foram crescendo subterraneamente, até um ponto em que não havia mais volta. Esse contexto é muito importante para pensar o envolvimento político de Otto Karpfen em Viena.
Assim, o não alinhamento a Hitler e a independência da Áustria são as diferenças entre o austrofascismo ao qual Karpfen estava ligado e o nazismo. Dollfuss, assim como Karpfen, defendeu essa independência até o fim. Essa tensão foi aumentando até que Dollfuss foi assassinado por nazistas austríacos. Foi o começo do fim. Nem por isso Karpfen deixou de continuar escrevendo e se posicionando contra Hitler, contra o nazismo e contra o antissemitismo. Esta posição de Karpfen contra o nazismo está muito bem marcada em seus artigos europeus. Portanto, não se pode, em hipótese alguma, associar a atuação política de Otto Karpfen naquele momento ao nazismo. Contudo, se essa atuação política de Karpfen está ligada ao fenômeno do austrofascismo, na sua vertente de independência da Áustria, essa ligação se dá por afinidades políticas, ideológicas e religiosas.
Entretanto, não é possível deixar de se referir a uma proximidade, a uma contiguidade entre o austrofascismo e o nazismo. E essa semelhança está no autoritarismo, na escalada autoritária que o governo Dollfuss promoveu na Áustria a partir de 1934. Toda a política de Dollfuss em torno do Ständestaat vai convergir para uma sociedade cada vez menos democrática. Aí está a semelhança, mas só nesse sentido. Embora o antissemitismo austríaco fosse muito forte naquele momento, Karpfen, assim como Dollfuss, jamais endossou isso. O cenário político austríaco era muito complexo, e isso explica porque Carpeaux manteve silêncio sobre o seu envolvimento político na Áustria. Ele jamais seria compreendido no Brasil dos anos 1940. Eu mesmo demorei muito tempo para entender e, mesmo enquanto um pesquisador apaixonado pelo seu objeto, senti em vários momentos que estava entrando num território nebuloso e que poderia me levar a conclusões desagradáveis sobre essa atuação política. Foi difícil admitir que Carpeaux esteve ligado a um governo autoritário, o que de fato aconteceu. E isso Carpeaux vai levar para o resto da vida: a lição do colapso das forças políticas às quais estava ligado e a tragédia promovida pelo autoritarismo, pelo nazismo. Por isso, nos anos 1960, ele vai mudar completamente seu posicionamento. Ele aprendeu com o passado.
No livro, você explora bastante a condição de Karpfen como judeu convertido (Taufjude). A conversão, em um contexto em que o cerco aos judeus já começava a se acirrar, mostrou-se um recurso relativamente comum à época, em especial para judeus que não se opunham a certo grau de assimilação. No caso de Karpfen, a mudança religiosa encontrou expressão em suas novas firmas autorais — Otto Maria Karpfen e Otto Maria Fidelis por exemplo — e em sua adesão ao catolicismo político e à Ação Católica vigente à época. Em sua fase brasileira, a despeito da permanência do Maria em seu novo nome, Carpeaux parece ter silenciado a respeito de seu passado europeu como um todo e, sobretudo, quanto aos aspectos religiosos e políticos. Como você entende esse silenciamento, em especial após a obtenção da cidadania brasileira e da derrota do nacional-socialismo na Segunda Guerra Mundial?
O silêncio de Carpeaux em relação à sua trajetória europeia e, em especial, à sua participação política naquele cenário austríaco dos anos de 1930, foi uma decisão tomada por ele em função das circunstâncias brasileiras da época. O cenário político austríaco era extremamente complexo e não tenho dúvida nenhuma de que o Brasil não entenderia, não tinha elementos para entender aquele cenário. Havia uma fusão de interesses e influências ideológicas e religiosas a tal ponto que não se pode dizer simplesmente que Carpeaux era conservador e que apoiou o governo Dollfuss ou dizer que apoiava um governo autoritário. Procurei sempre fugir desse simplismo e, para isso, estudei detalhadamente a história política, social e cultural da Áustria. A complexidade política é tamanha que a religião era muito mais uma ideologia política do que uma questão de fé. É claro que tinha esse elemento e Carpeaux se converteu ao catolicismo depois de deixar formalmente a religião judaica. Não apenas por que isso facilitava a vida dos judeus na Áustria. Com o crescimento do antissemitismo, restrições foram impostas à presença de judeus em determinadas profissões, com o estabelecimento de um percentual máximo de judeus entre os advogados, os médicos etc.
O silêncio de Carpeaux, reitero, foi algo que ele planejou. No processo de naturalização, ele cita órgãos de imprensa austríacos em que teria trabalhado e que não são reais. Essa foi minha primeira pista em Viena e se revelou falsa. E os semanários Der Christliche Ständestaat, Berichte zur Kultur und Zeitgeschichte e Die Erfüllung simplesmente ele não cita. E foi aí, depois de muito procurar, que encontrei seus artigos. No Brasil, Carpeaux enfrentou muita resistência dos intelectuais brasileiros, por ser um estrangeiro erudito, que chegou ao país e começou a surpreender com seu talento. Compreendo perfeitamente o silêncio de Carpeaux sobre sua vida europeia. Quando lhe perguntavam sobre esse período, ele costumava responder: “O que escrevi está ultrapassado”. Ora, se eu tivesse acreditado nisso não teria ido atrás desse material e não teria descoberto a riqueza extraordinária contida naqueles textos.

Ainda pensando nessa situação liminar de Karpfen, o aspecto que mais me chamou a atenção no livro foi a evidência de que uma característica comumente associada a exilados a expatriados, a de mediação — sobretudo cultural e linguística — já era constitutiva da escrita dele no período europeu pré-exílio, em especial na sua tentativa de encontrar pontos de contato entre o judaísmo e o catolicismo, em um contexto em que, mesmo sendo uma voz destacada da imprensa católica vinculada ao Estado Corporativo dos governos Dollfuss e Schuschnigg, e a despeito de sua conversão, aos olhos dos alemães e de parte dos austríacos, Karpfen permanecia sendo visto como judeu e, dessa forma, alvo do antissemitismo que lhe privou do título acadêmico e que ele buscou aguerridamente combater. Ao mesmo tempo, como você explora em seu livro anterior, De Karpfen a Carpeaux (Topbooks, 2002), há sempre algo de agônico, de um vincado sentimento dos contrários, na escrita do crítico. Seria possível falar em uma vocação mediadora no caso dele? Teriam o estigma associado à condição de Taufjude e o aspecto pluricultural inerente à sua Viena natal contribuído para isso?
Sua pergunta é muito importante, pois aborda uma questão que é crucial para se pensar a trajetória e a obra de Carpeaux. Afinal, quem foi Carpeaux? Ele foi um jornalista, um mediador, simplesmente? Ou ele pode ser considerado o autor de uma obra teórica consistente? Enquanto exilado, ele ocupou, em primeiro lugar, esse espaço de mediação entre culturas, ou como se diz em alemão, Zwischenräume. No Brasil ele desempenhou um importante papel de mediador, de divulgador de obras e autores que até então eram desconhecidos entre nós. Ele provavelmente foi o primeiro a escrever sobre Kafka no Brasil. Mas a obra dele está toda fragmentada em artigos. Mesmo a História da literatura ocidental ou a Nova história da música, obras de fôlego, de extremo talento, não deixam de ser obras de divulgação, sem demérito algum aqui ao termo. Ele escreveu inúmeros prefácios, introduções, organizou coletâneas, como a raríssima Antologia do Conto Russo. E até o fim da vida ele continuou escrevendo para o grande público. Nesse sentido, a principal atuação de Carpeaux no Brasil foi a de mediador. Ao mesmo tempo, ele tem uma voz autoral muito marcante, um estilo impressionante. E eu diria que no meio de toda essa produção é possível encontrar uma teoria da crítica, um método de interpretação da obra literária bem configurado, como o sentimento dos contrários, seu conceito de narração, suas leituras dialéticas.
Agora, na sua fase europeia, ele não tinha esse papel de mediador. Otto Karpfen foi um grande ensaísta, um ideólogo, a caminho de se tornar um grande teórico. O primeiro livro dele, Caminhos para Roma, é um ensaio extremamente erudito. Acredito que ele estava construindo um caminho para se tornar um grande ensaísta, um grande historiador, na boa tradição alemã. Mas isso não se realizou. Carpeaux foi um twice born. Ele nasceu de novo no Brasil. Mas em 1938 esse Otto Karpfen morre. E vai renascer outro no Brasil, com outra vocação, pois no Brasil ele precisou trabalhar como jornalista para sobreviver. No Brasil, ele oscilou da instância da produção para a instância da mediação, da divulgação. Foi um ganho extremamente grande para o Brasil, mas para ele deve ter sido muito difícil, pois se preparava para ser outra coisa, e essa outra coisa só era possível naquele cenário europeu.
Até onde se sabe, Karpfen/Carpeaux experimentou dois momentos de engajamento político mais ostensivo: na Áustria, nos anos 1930, e no Brasil, a partir do golpe militar de 1964. No primeiro, ainda que em oposição direta ao nacional-socialismo, Karpfen defendia uma visão bastante conservadora e até mesmo antidemocrática em certos aspectos, vinculada ao catolicismo político e que tinha no periódico vienense Der Christiliche Ständestaat uma base ideológica forte de divulgação. No segundo, a visada era bem mais progressista e democrática, como atestam sua colaboração com a editora Civilização Brasileira, os muitos convites para ser paraninfo de formaturas universitárias, os textos publicados em revistas estudantis então clandestinas. Como você compreende esses dois momentos? A despeito da orientação política distinta, é possível equacioná-los de alguma forma?
Na Áustria da década de 1930, Otto Karpfen estava profundamente envolvido com as forças políticas que defendiam a independência da Áustria frente à Alemanha. E esses setores, conservadores e católicos, tomaram um rumo político equivocado, pois não impediram a anexação de seu país por Hitler. O próprio Carpeaux reconhece isso no seu último livro. Ao mesmo tempo que impôs uma Constituição autoritária, Dollfuss rompeu com os social-democratas, que haviam feito em Viena uma série de mudanças, favorecendo os trabalhadores com conjuntos habitacionais populares, criação de bibliotecas, cinemas. Foi um período muito bonito que ficou conhecido como a Viena Vermelha. Com Dollfuss, à medida que o Ständestaat vai se estabelecendo, toda essa estrutura social vai sendo desmontada e a Áustria segue na direção do autoritarismo. E Carpeaux esteve ligado a esse governo que vai entrar em colapso em 1938. No Brasil dos anos 1960, Carpeaux teve o seu segundo momento de engajamento político, só que agora ele rejeita toda e qualquer experiência autoritária. Escreve artigos políticos, passa a ser editado pela Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, e tem ampla circulação entre os intelectuais de esquerda. Ao contrário do que alguns críticos disseram, essa guinada à esquerda do Carpeaux não foi em hipótese alguma uma decadência ou mesmo oportunismo. Esse engajamento político de Carpeaux nos anos 1960 é fruto da lição do passado que ele aprendeu: ele não queria que o Brasil vivesse algo semelhante ao que ele vivenciou na Áustria. Ele aprendeu a lição e não repetiu o erro do passado.
Sobretudo a partir da publicação do primeiro volume dos Ensaios reunidos (Topbooks, 1999), parece ter havido no Brasil uma apropriação de Carpeaux por leitores de orientação conservadora e que muitas vezes proclamam que a universidade brasileira o esqueceu ou não se importa com sua obra. Embora a presença dos textos de Carpeaux não seja de fato abundante no meio acadêmico (estamos apenas entrando na segunda dezena de teses e dissertações dedicadas aos seus escritos), a própria publicação pela Editora Unesp de O Danúbio não é azul, escrito por um pesquisador que vem se dedicando há trinta anos à obra do ensaísta, já me parece demonstrar a fragilidade de tal afirmação. Como você avalia a presença — termo tão caro ao crítico — de Carpeaux no meio universitário brasileiro?
A vida e a obra de um pensador ou de um artista costumam ser tratadas pela posteridade com indiferença, admiração ou até rejeição. Eu diria que a posteridade tem feito mais pela imagem de Carpeaux do que fizeram os seus contemporâneos. Durante sua vida, Carpeaux nunca teve reconhecido o seu devido valor. Talvez só nos anos 1960. Ele enfrentou muitos preconceitos, críticas, rejeição e sempre foi visto como um estrangeiro. E pagou um preço alto por isso. Já no meio acadêmico brasileiro é possível perceber duas atitudes em relação a ele: primeiro, Carpeaux foi lido por diversos intelectuais e professores que iriam ocupar postos de relevância na universidade brasileira, como Antonio Candido, Alfredo Bosi, Alcides Villaça e vários outros. E não só no eixo Rio-São Paulo, mas também em Pernambuco e Rio Grande do Sul, por exemplo. Os artigos de Carpeaux eram reproduzidos em vários jornais fora do eixo Rio-São Paulo e isso ajudou muito a divulgar seu nome pelo Brasil. Assim, seus textos circulavam na universidade, embora ele não fosse um autor canônico. Eu mesmo descobri Carpeaux no meio acadêmico, no contexto da pós-graduação em Letras. Mais recentemente ele passou a ser apropriado por alguns leitores de viés conservador, que viram naquela visão de mundo católica um ponto de apoio para ideologias conservadoras que foram se disseminando pelo país. Mas essa apropriação é equivocada. Carpeaux não é tão simples assim. E mais: ele foi um leitor fundamentalmente dialético e isso difere muito de uma visão conservadora da realidade. O interesse pela obra de Carpeaux vem aumentando nos últimos anos. Novas gerações de pesquisadores e teóricos vêm descobrindo e estudando os textos de Carpeaux, de modo que temos hoje uma boa quantidade de dissertações e teses sobre ele. Ocorre que sua obra é de difícil interpretação por dois motivos: é uma obra fragmentada em artigos e sua característica principal é ser uma crítica prática. Em Carpeaux, a teorização está sempre submetida à sua análise crítica. Não é uma tarefa fácil descobrir um método ali. Durante muito tempo buscou-se resolver esse problema dizendo que Carpeaux tinha um “método sem método”, na melhor tradição da crítica impressionista. Um dos motivos que me levaram a escrever uma tese sobre o método crítico de Carpeaux foi tentar demonstrar que não era bem assim, que havia ali, latente, um método, valores críticos, algumas premissas que davam unidade a um trabalho profícuo de décadas e décadas de análise crítica. Então, eu diria que a presença de Carpeaux no meio universitário tem sido positiva, produtiva. E nós não podemos esquecer que a interpretação literária tem como primeiro objetivo a análise de obras literárias. Num segundo plano, nós podemos estudar uma obra crítica, que é o que se chama de metacrítica. A função primeira da crítica é estudar obras literárias. Lembro que meu orientador de doutorado, o saudoso professor Roberto Ventura, costumava me dizer que meu objeto de pesquisa não era um trabalho óbvio. Só mais tarde compreendi o que ele queria dizer. Mesmo assim, acredito que Carpeaux continua sendo um autor imprescindível para a formação do crítico e para a compreensão dos métodos de análise de uma obra. A leitura de Carpeaux nos torna mais capazes de resistir às interpretações mecânicas de uma obra. Não tenho dúvida de que a influência e a presença de Carpeaux são ainda significativas se levarmos em conta o conjunto de sua obra e sua trajetória de vida.
Para além dos três livros europeus já conhecidos dos estudiosos do autor — Wege nach Rom [Caminhos para Roma] (1934), Osterreichs europäische Sendung [A missão europeia da Áustria] (1935) e Van Habsburg tot Hitler [Dos habsburgo a Hitler] (1938) —, você lista ao final do livro cerca de trinta textos de Karpfen publicados em periódicos austríacos e alemães que suas pesquisas revelaram até o momento. Tendo em mente a prodigalidade da produção escrita de Carpeaux no Brasil, na casa de centenas, algumas delas ainda por serem efetivamente listadas, transcritas e repostas em circulação, você acredita que conseguiremos ver um dia a obra completa de Karpfen/Carpeaux ou ao menos sua metade brasileira enfim reunida?
Lembro que há muitos anos o professor Zenir Campos Reis, que foi um dos primeiros a se empenhar no resgate dos artigos de Carpeaux (juntamente com o professor Alfredo Bosi), referiu-se a essa tarefa como sendo um trabalho coletivo. Não é um trabalho para uma pessoa, para uma editora. Mesmo assim, já temos uma quantidade significativa de estudos individuais sobre Carpeaux realizados no âmbito acadêmico. Isso sem falar na iniciativa pioneira da Editora Topbooks, com os Ensaios Reunidos (em dois volumes), além de outras coletâneas com artigos dispersos. Espero que mais pessoas se engajem nessa tarefa, seja através de estudos, seja na organização de textos. É um trabalho para as gerações presentes e futuras, e uma prova de que a obra de Carpeaux continuará sendo objeto de admiração, estudo e de atenção.
Até onde se sabe, Karpfen/Carpeaux parece ter tido uma atuação bem limitada como tradutor, destino esse, infelizmente, ainda partilhado por sua obra. Após as décadas dedicadas a pesquisar e estudar seus escritos, tentando “atar as duas pontas da vida” do crítico, o que ele ainda tem a nos dizer?
Você aborda duas questões muito importantes. Primeiro, a tradução da obra do Carpeaux para o alemão. Ele é completamente desconhecido em Viena, na Áustria e na Alemanha. Assim, seria muito importante traduzir a obra brasileira de Carpeaux para o alemão. A ideia seria começar com uma coletânea e oferecer a uma editora austríaca. O leitor de língua alemã precisa conhecer esse austríaco-brasileiro que continuou fiel às suas verdades, aos seus valores literários, à sua vocação de crítico e de intermediário da cultura, que divulgou a literatura europeia no Brasil. A outra questão muito importante que você coloca é o que Carpeaux ainda tem a nos dizer. A primeira coisa é sobre a força imprescindível da leitura, e o quanto a leitura nos torna fortes e preparados para exercer a crítica. A obra dele é um exemplo incontestável do quanto é preciso ter repertório cultural para exercer a atividade crítica, principalmente a crítica comparada. Mas ele também tem muito a nos dizer sobre o uso que cada crítico faz ou pode fazer do método. Num momento em que vivenciamos imposições de método (é o que os pareceristas mais cobram…), em que as ciências humanas e sociais buscam guiar-se por parâmetros das ciências físicas e matemáticas, a lição que Carpeaux nos deixa é a de que primeiro é preciso olhar o objeto e só depois escolher o método mais apropriado. Ora, é o objeto que funda o método e não o contrário. Ao estudar Carpeaux no meu doutorado, aprendi essa lição e a levei para a minha vida acadêmica. Desde então, tenho dito sempre aos meus orientandos de iniciação científica, de mestrado e até de doutorado que a primeira atitude do pesquisador é olhar com atenção para o objeto e extrair dele intuições iniciais, pensando, sobretudo, em qual seria o método mais adequado para ler determinada obra ou fenômeno. Como orientador de pós-graduação, busquei colocar em prática o que aprendi com Carpeaux: primeiro, o olhar detido, pormenorizado sobre o objeto, e só então a sondagem dos métodos disponíveis a fim de escolher aquele que seria mais capaz de iluminar o objeto de estudo. Eu me considero, em sentido musical, um intérprete, e a interpretação não é uma ciência matemática. É uma palavra a ser dita sempre no plural, pois existem múltiplas interpretações de uma obra. E esta também foi uma lição que aprendi com Carpeaux.
Guilherme Mazzafera é doutor em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP (2024), onde também realizou seu mestrado (2017) e graduação em Letras (2013). Atua como professor, crítico literário, revisor e tradutor, tendo vertido para o português, entre outros, O Hobbit Anotado (J.R.R. Tolkien; Douglas Anderson, HarperCollins Brasil, 2021) e Prefácio ao Paraíso Perdido (C.S. Lewis, Thomas Nelson Brasil, 2024).




