Um mergulho no oceano de Renata Belmonte

"Piscinas Russas", novo romance da autora brasileira, explora os limites instáveis entre experiência, invenção e memória.

Piscinas Russas, romance da escritora baiana Renata Belmonte, apresenta uma arquitetura complexa desde as primeiras páginas: um conjunto de dedicatórias, epígrafes e um fac-símile do frontispício da peça Les Justes, do filósofo franco-argelino Albert Camus, no qual se lê uma dedicatória em português, escrita à caneta, de um irmão à sua irmã. Ato seguinte, um aceno da autora a seu romance anterior, Mundos de uma noite só, em que talvez uma biografia da protagonista de Piscinas Russas é introduzida: Malena Matrice, artista plástica e fotógrafa que, já madura, tenta recompor o sentido de sua trajetória ao se deparar com segredos soterrados de sua história familiar. 

A narrativa se desdobra por três gerações de duas famílias, conectadas por vínculos afetivos, traumas históricos e repetições silenciosas. Ao redor da talvez biografia de Malena, gravitam figuras centrais como a mãe, Vivian, marcada por frustrações e silêncios; a sogra, Aida, presença opressiva e amarga; o marido, Thomas, e os filhos, Nathalia e Edoardo, cada qual portador de impasses que ecoam conflitos. Em paralelo, surgem personagens de outras temporalidades — militantes políticos, artistas, intelectuais, vítimas de regimes autoritários —, compondo uma impressionante tapeçaria genealógica e temporal. A metáfora que dá título ao livro, evocando tanto as bonecas russas quanto a ideia de imersão, organiza formal e tematicamente a obra: cada camada narrativa contém outra, cada história pessoal revela-se atravessada por heranças anteriores, cada voz fala a partir de fissuras que jamais se fecham por completo. 

O leitor rapidamente se dá conta de que o romance não se organiza de forma linear: depoimentos em primeira pessoa, trechos em terceira, cartas, gravações, relatos indiretos, citações e discursos artísticos se alternam e se confundem sem hierarquia fixa. Essa arquitetura romanesca conduz o leitor à experiência radical dessa talvez narrativa, enfatizando que não há uma verdade única sobre o passado, mas versões concorrentes, sempre atravessadas por afetos, lacunas e leituras. O leitor é convocado, então, a se perder na narrativa a partir dessas vozes, assumindo um papel ativo de detetive selvagem diante do texto — a referência não é aleatória.

Formalmente, essa concepção não linear se traduz numa narrativa polifônica controlada. Cada personagem fala a partir de uma língua própria — não apenas no sentido estilístico, mas ético. Há uma recusa explícita dos maniqueísmos, o que se manifesta tanto no plano temático quanto no sintático: as frases frequentemente se constroem por desvios, indagações, interrupções e sobreposições, refletindo uma consciência narrativa que desconfia da linearidade e da clareza excessiva. A linguagem hiperbólica de Belmonte é de uma precisão artesanal, fazendo da repetição um recurso de aprofundamento e não de redundância.

Outro aspecto formal decisivo é a relação entre palavra e imagem. Embora o romance convoque exposições, fotografias, vídeos e pinturas, tudo nele é construído exclusivamente pela linguagem verbal. Esse procedimento reforça a ideia de que a palavra não apenas representa, mas cria o mundo — e o destrói. As imagens em Piscinas Russas não oferecem estabilidade visual; elas são sempre mediadas por discursos, depoimentos, memórias falhas e descaminhos. Assim, o romance afirma a literatura como espaço privilegiado de elaboração simbólica, em oposição a qualquer ilusão de acesso direto ao real.

Um díptico

Uma das principais vigas que estruturam as Piscinas Russas é a série de “dípticos emoldurados” que as compõem, como a própria autora insinua. Seus dois romances estão profundamente entrelaçados: Mundos de uma noite só e Piscinas Russas; um outro autor, Albert Camus, também se apresenta duplamente, à guisa de abre-alas filosófico em ambos os romances — Bodas em Tipasa para Mundos, Os Justos para Piscinas; verdade e ficção formam, por sua vez, um par importante nessa instalação literária: a presença de uma personagem homônima à autora, as referências a artistas e eventos históricos reconhecíveis na esfera do mundo real; o eu e o outro, seja na perspectiva de um outro de si mesmo — mantenho o enigma para cuidar de um eventual spoiler — seja na de uma alteridade: a mãe e a filha, a esposa e o marido, a nora e a sogra, o brasileiro e o estrangeiro.

Em Piscinas Russas, Renata Belmonte constrói uma narrativa que se afirma menos como narrativa linear do que como uma arquitetura de vozes, tempos e reflexos do público e do privado. A experiência pessoal surge sempre mediada por personagens, máscaras e dispositivos narrativos que ecoam em seus registros como artistas, militantes ou cidadãos. Assim, o “eu” é continuamente deslocado, fragmentado e problematizado, sobretudo, na relação com os entes familiares. Longe de idealizações, essas relações são apresentadas como espaço de conflito onde se produzem pertencimentos, mas também violências simbólicas, silêncios e destinos herdados. A pergunta que atravessa o livro — “quem são essas pessoas que sempre chamei de família?” — não encontra resposta definitiva. Essa pergunta estrutura o romance familiar de Belmonte. Longe de uma saga genealógica tradicional, o livro apresenta famílias como campos de força marcados por lacunas, traumas e repetições inconscientes. O segredo que atravessa gerações não funciona como mero motor de suspense, mas como operador formal: ele fragmenta a narrativa, justifica a multiplicidade de pontos de vista e impede qualquer síntese conciliadora. A família em Piscinas Russas não é espaço de pertencimento estável, mas de estranhamento contínuo. Os personagens se perguntam reiteradamente quem são, não porque desconheçam seus nomes ou papéis sociais, mas porque percebem que a identidade é sempre herdada de forma incompleta e ambígua. Eis o díptico fundamental da obra: o estranho-familiar freudiano.

Uma autoficção

Piscinas Russas inscreve seu lugar no campo da ficção brasileira contemporânea que tensiona os limites entre vida narrada e invenção formal. Todavia, mais do que aderir à autoficção como expediente temático ou mercadológico, o romance a incorpora como problema estético e epistemológico: quem fala, a partir de onde, e com que direito? Essa indagação atravessa a obra de ponta a ponta, tensionando permanentemente os limites entre experiência, invenção e memória no campo de uma biografia. Sempre um talvez.

A autoficção, na obra de Belmonte, não se apresenta como confissão ou revelação do eu. Ao contrário, opera como uma estratégia de deslocamento discursivo. A presença de uma personagem homônima à autora — procedimento amplamente usado na literatura contemporânea — não busca autenticar ou identificar o relato, mas produzir instabilidade. Ao tornar-se personagem de si mesma e, ao mesmo tempo, criatura dentro da obra de outra personagem — a artista Malena Matrice — Renata Belmonte encena aquilo que sua própria narrativa sugere: o sujeito não é ponto de partida, mas efeito de narrativas cruzadas.

A autoficção em Piscinas Russas é menos uma escrita do eu do que uma escrita do entre — entre autora e personagem, entre lembrança e fabulação, entre documento e ficção. Ao articular autoficção e romance familiar sem ceder ao narcisismo ou à nostalgia, Renata Belmonte produz uma obra rara no panorama contemporâneo, em que a linguagem não serve para explicar o mundo, mas para expor suas fraturas. No fim, a pergunta que atravessa o romance — “somos a nossa história?” — permanece em suspenso. Piscinas Russas sugere que somos, talvez, apenas as narrativas que conseguimos — ou falhamos em — organizar a partir dos restos do que nos antecede. E é precisamente nessa recusa de respostas definitivas que reside a força do romance.


Élvio Cotrim é professor de literatura e francês na UFF, ensaísta e crítico literário.


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