Reprodutibilidade científica

Entrevista com Marcus Vinícius Baldo, Maria Elice de Brzezinski Prestes e Olavo Amaral. Por Marcelo Consentino.

Rádio Estado da Arte.

Como os teólogos na Idade Média, os cientistas são a suprema autoridade intelectual no nosso tempo. Veja a confiança que inspiram fórmulas como “cientificamente comprovado” ou “cientistas demonstram que…”. Nossa esperança pelo progresso vive da fé na ciência. E a pedra angular da ciência é a reprodutibilidade. Se o resultado de um experimento é real e robusto, qualquer pesquisador deve ser capaz de obtê-lo reproduzindo os mesmos procedimentos.

Mas em 2005 um médico e cientista constatou: a maioria dos resultados reproduzidos em pesquisas são falsos. No artigo que caiu como uma bomba na comunidade científica, John Ioannidis demonstra que a maioria das publicações não atinge padrões mínimos de evidência. Desde que a chamada “Crise da Reprodutibilidade” foi detonada, os cientistas têm aprimorado a verificação de evidências (ou de sua ausência), naquilo que alguns chamam “Metaciência”. Mas quanto ainda podemos confiar nos cientistas? Até onde seus vieses alteram a produção e a reprodução de seus dados? Será verdade, como disse um filósofo, que não existem fatos, só interpretações?

A bem da verdade, não existe a Ciência, só as ciências, cada qual com seus objetos e métodos. A crise não é igualmente crítica para as ciências humanas, as biológicas e as físicas. A própria crítica hiperbólica de Ioannidis se referia, mais restritamente, às pesquisas médicas, e significa, mais rigorosamente, não que os resultados são majoritariamente “falsos”, mas que “não foram comprovados” ou na pior das hipóteses “não podem ser”.

Como atividade humana, a ciência é por definição falível, falsificável, deturpável a ponto de se tornar um culto. Mas mesmo que um certo obscurantismo ou um ceticismo extremado apontem as inconsistências, fraquezas e vícios dos cientistas para desacreditá-los, podemos confiar que, junto com filósofos ou teólogos, cada qual com seus objetos e métodos, eles aproximam a humanidade da verdade. Se, como disse o filósofo Karl Popper, “acontecimentos singulares não reprodutíveis não têm importância para a ciência” — e nossas experiências mais singulares da beleza, do bem, da verdade, são por definição irrepetíveis, únicas —, a boa ciência sabe que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia e o coração tem razões que a razão desconhece. Mas ela ainda é a mais formidável máquina de verificar fatos, revelar as leis que os regem, e alavancar inovações tecnológicas. É razoável e demonstravelmente racional confiar o progresso humano à vigilância dos cientistas. Mas quem vigia os vigilantes? E como vigia?

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Cena do filme Just Imagine (1930)

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Convidados

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Marcus Vinícius Baldo: professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.

Maria Elice de Brzezinski Prestes: professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.

Olavo Amaral: professor do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Apresentação: Marcelo Consentino.

Produção técnicaCompasso Coolab.

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