O legado de Marcílio Marques Moreira

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Fontes liberais para a reconstrução da democracia

O legado de Marcílio

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Marcílio Marques Moreira (Wilton Junior/Estadão Conteúdo)

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por Mano Ferreira

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Querer salvar é sublime; julgar-se um salvador é ridículo

San Tiago Dantas

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Áustria, 1939. O rádio transmitia um discurso de Hitler. Aos 8 anos, o pequeno Marcílio preferia prestar atenção na conversa dos adultos sobre os rumos da guerra. Preso à cama, enfrentava sua segunda crise de reumatismo articular agudo. A doença maltratava o seu corpo infantil. Na primeira vez, após quatro meses sem levantar sequer para ir ao banheiro, precisou reaprender a andar. Agora fazia um tratamento agressivo: ouro coloidal direto na veia. A dor diminuía com a gentileza do seu médico. Mas precisou mudar de especialista. O doutor simpático era judeu e foi proibido de continuar o trabalho. O substituto nazista era tão brutal nas injeções que o ex-ministro e embaixador Marcílio Marques Moreira, hoje completando exatos 90 anos, atribui a essa experiência traumática a semente do liberalismo que nutriu de ímpeto a sua produtiva vida pública.

Como intelectual, diplomata, líder empresarial e ministro, Marcílio é um personagem histórico da Nova República que merece a nossa especial atenção nesse momento de necessária reconstrução da democracia brasileira. Para o herdeiro das ideias de San Tiago Dantas, “o destino individual só se realiza plenamente quando consegue entrar em equação com a sua própria época, exprimindo na trajetória de vida a trama dos problemas da sociedade a que pertence”. Sob esse critério, é seguro dizer que o destino individual de Marcílio realizou-se plenamente, contribuindo de forma dedicada à construção da democracia brasileira sobre os escombros do país herdado da ditadura militar.

Em contraste com a destruição institucional em curso do liberismo bolsonarista representado por Paulo Guedes, Marcílio representa um farol do liberalismo brasileiro de inspiração humanista. Se bem compreendido, seu legado pode nos ajudar a traçar caminhos para a reconstrução, tão necessária após a (indi)gestão Jair Bolsonaro, de um projeto nacional que seja solidamente baseado no amor à liberdade, na dignidade pessoal, no “respeito sagrado pelo desenvolvimento da personalidade humana em todas as suas dimensões, isto é, desde o patamar da sobrevivência, até o gozo de bens econômicos mínimos, educação, saúde, liberdade e participação na construção da comunidade em que vivemos”, como escreveu Marcílio em 1978.

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(Reprodução: INAE)

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Formação uniu teoria e prática no setor público e privado

É de Ortega y Gasset a velha máxima: eu sou eu e minhas circunstâncias. É certo que as circunstâncias de Marcílio potencializaram a sua contribuição ao Brasil. Filho do diplomata Mário Moreira da Silva, Marcílio nasceu no Rio, mas passou os primeiros anos da infância em Viena e Budapeste, onde seu pai exerceu funções consulares.

Com a eclosão da guerra, voltou à cidade natal com os irmãos e a mãe, Noêmia. Em abril de 1946, aos 14 anos, foi morar em Berna, capital da Suíça. Já alfabetizado em alemão, precisou aprender francês e inglês. Temerosa de que o cerco linguístico sacrificasse o domínio da língua materna, Noêmia buscou uma professora de português que pudesse acompanhar o seu filho. A missão coube a ninguém menos que Clarice Lispector (a escritora era casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, chefiado por Mário no consulado).

Aos 19, Marcílio voltou ao Rio. Em 1951, começou a Faculdade de Direito e seguiu os passos paternos, ingressando no Instituto Rio Branco. Tornou-se um dos expoentes de uma geração de diplomatas-economistas, ao lado de nomes como Barbosa da Silva e Otávio Dias Carneiro. Logo trabalhou na embaixada brasileira em Washington, onde foi chefiado por embaixadores como Amaral Peixoto, Válter Moreira Sales e Roberto Campos, personagens cuja convivência rendeu lições sob os mais diferentes ângulos do Brasil: genro de Getúlio Vargas, o primeiro era presidente do PSD e político experiente de longa carreira; o segundo era um dos principais banqueiros do país e viria a ser ministro da Fazenda no gabinete parlamentarista de João Goulart; e o terceiro foi um dos mais famosos quadros do Instituto Rio Branco, voz contundente no debate econômico nacional desde o período Vargas e JK, vindo a se tornar ministro do planejamento no início da ditadura.

Em 1963, após concluir mestrado em ciência política na Universidade de Georgetown — sendo pioneiro entre os liberais brasileiros egressos deste centro de formação —, Marcílio aceitou convite para integrar a equipe do ministro da Fazenda San Tiago Dantas durante o governo Jango.

Após o golpe de 64, atuou como assessor do BNDE e participou de negociações internacionais até que, em dezembro de 65, passou a trabalhar como quadro executivo no governo da Guanabara. No início de 68, ainda vinculado à Guanabara, foi o presidente fundador da Companhia de Desenvolvimento de Comunidades (Codesco), com a missão de urbanizar favelas. Sob insinuações estapafúrdias de ter alguma inspiração socialista, acabou afastado e passou ao setor privado, convidado por Moreira Sales para assumir a vice-presidência do Unibanco.

Durante os seus anos na iniciativa privada, afastado de qualquer conexão com a ditadura militar, Marcílio publicou artigos na imprensa, com densas contribuições ao debate público. Vários deles foram reunidos nos livros Indicações para o projeto brasileiro (1971) e Poder, Liberdade, Desenvolvimento (1980). Em comum, o cultivo dedicado do espírito democrático, fundamental para a abertura política tão necessária.

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Marcílio, FHC e Marieta de Moraes Ferreira

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Democracia e legitimidade como caminhos do progresso

O elogio da democracia na obra de Marcílio une a superioridade ética dos regimes abertos sobre os fechados e ainda os apontamentos quanto à eficiência da democracia para a realização concreta do desenvolvimento nacional. Quando franjas radicalizadas da sociedade voltam a flertar com soluções autoritárias, em meio a um cenário marcado pelos efeitos devastadores da pandemia já expressos em boa parte dos indicadores sociais, é pertinente recuperarmos sua argumentação.

Ancorando-se em Hannah Arendt, em diálogo profícuo com Celso Lafer, Marcílio argumenta que, seja qual for o regime político, o exercício do poder demanda uma espécie de capital, cujas moedas se materializam através de força, propaganda, ganhos econômicos, medo ou esperança. Ao incluir a participação dos governados na instalação do governo e a voz ativa da sociedade a todo momento, a democracia ganha em legitimidade. E, então, “à medida em que cresce a legitimidade, o governo pode economizar as chamadas moedas do poder, seja a força, a propaganda, os ganhos econômicos, a ameaça do medo ou a esperança de utopia”.

Desse modo, em busca da realização dos objetivos do país, quando devidamente nutrida de legitimidade, a democracia permite a realização de reformas menos custosas para todos, governo, sociedade e cidadãos. Ecoando a defesa do livre mercado de ideias como ferramenta de aperfeiçoamento do processo decisório, formulada por John Stuart Mill, Marcílio também argumenta que, “além de dignificar o cidadão, a liberdade pessoal contribui para enriquecer a boa gestão política ao assegurar ao processo social o pluralismo, autocrítica, imaginação e criatividade indispensáveis à sua vitalidade”.

Aos ouvidos de 2021 — passados 8 anos da explosão popular de junho de 2013, a degeneração moral descortinada pela Operação Lava Jato, e depois nela própria, além da tragédia refletida na ascensão do bolsonarismo — a tarefa de reunir legitimidade e democracia na mesma sentença nos obriga a refletir sobre a qualidade da atividade política e sua representatividade, não apenas no executivo, mas especialmente no legislativo. Afinal, a legitimidade do sistema político passa pelo seu grau de abertura real às demandas da sociedade, entendida como um todo pluralista, não apenas pela soma das ilhas de interesses concentrados e muito mais eficientes na captura de quinhões do Estado.

Em seu sentido mais profundo, a democracia liberal não se resume à frieza legal das instituições. Nas palavras de Marcílio, “democracia social, comunidade pluralista, sociedade aberta, estado legítimo não devem confundir-se com formas contingentes que revestiram na história, nem serem encarados como moldes prontos para vir a lume por golpe de mágica. Não são pontos de chegada, mas caminhos a trilhar na busca do bem comum”.

E como podemos reconstruir e retomar essa trilha no Brasil? Marcílio procurou respostas em Tocqueville, analisando os fundamentos descritos no clássico Democracia na América, que valoriza o papel ativo da sociedade civil descentralizada. “O projeto político brasileiro transcende a responsabilidade do Governo, para ser de todos os poderes, de todos os segmentos vivos da nação — militares, empresariado, Universidade, organizações profissionais, estudantes, trabalhadores, políticos, todos os cidadãos”. Esse chamado à cidadania, lançado por Marcílio na década de 1970, precisa ser resgatado.

“O esforço de promover condições políticas, sociais e econômicas para que cada pessoa humana possa viver em dignidade e desenvolver-se plenamente é processo incessante, em que todos tem o direito e o dever de participar, afim de procurar construir um Brasil que corresponda às esperanças, à operosidade e à dedicação de um povo generoso”.

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Hannah Arendt

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Construindo um liberalismo genuinamente brasileiro

Se uma sociedade civil ativa é elemento essencial para erguer uma democracia liberal digna do nome, também era preciso fornecer substância liberal ao debate público, ressecado pelos anos de domínio do autoritarismo. Nesse sentido, Marcílio foi uma importante liderança intelectual que se empenhou em elucidar os fundamentos da tradição plural das ideias de liberdade e, ao mesmo tempo, construir uma voz liberal consistente, humanista e genuinamente brasileira, em contraste com expressões simplificadoras que contaminaram alguns círculos empresariais e seus críticos, à esquerda e à direita, como uma caricatura do liberalismo.

Em plena década de 1970, Marcílio já alertava: “Liberalismo não é anarquia. […] O liberalismo moderno procura assegurar condições econômicas, sociais e políticas para o pleno desenvolvimento da personalidade humana, buscando o difícil, mas necessário, equilíbrio entre gestão eficaz do poder e o respeito às liberdades fundamentais do homem”.

Para essa missão, uma compreensão adequada do liberalismo precisa passar muito mais pela assimilação de princípios fundamentais do que pela importação de modelos fechados. “Inere ao credo liberal evitar dogmatismos estanques, contrastes cortantes, e mesmo definições inequívocas. Faz parte da condição humana o progredir por aproximações sucessivas, vacilações ocasionais e avanços assintóticos. A democracia, assim entendida, não é modelo acabado a ser outorgado à sociedade ou ser por esta procurada como fruto a pender de altitude olímpica. É, ao contrário, processo contínuo de acertos e de erros, de conflitos e de conciliações, de desvios e redefinições, de esperas e de progressos; é, portanto, caminho a ser trilhado”, esclarece.

Nessa toada, a posição liberal deve ser menos marcada por “um apego a formas contingentes de atuação política”, como modelos eleitorais específicos, ou “comportamento econômico (livre-cambismo irrestrito)” do que pelas “fontes liberais do pensamento político”: “o direito natural, a defesa dos direitos humanos, a afirmação da liberdade criativa, a aspiração à justiça”. Para Marcílio, tratam-se de fontes perenes, que não se esgotam, “porque derivam de uma origem, um princípio mais alto que coloca o homem, e seu desenvolvimento integral, no cerne das preocupações econômicas, sociais, políticas e filosóficas”.

Partindo dessas elucidações e princípios, Marcílio trouxe reflexões essenciais sobre a realidade social de vasta pobreza e desigualdade que caracterizam o país. “Não podemos ignorar as dificuldades inerentes à adoção de regime liberal em países subdesenvolvidos, como o Brasil, com estruturas sociais muitas vezes deformadas, com raízes históricas impregnadas de autoritarismo ou caudilhismo, com sociedades civis extremamente débeis e atravessando rápido processo de modernização, que tende a produzir tensões sociais desestabilizadoras ou fenômenos de burocratização prematura e desproporcionada”, ponderou.

Seria então uma espécie de recusa das soluções liberais para o Brasil? Só se entendêssemos “soluções liberais” como enlatados prontos, importados acriticamente. Trata-se, pelo contrário, de uma defesa contundente da elaboração brasileira de soluções inspiradas nos princípios liberais para os problemas sociais concretos que nos afligem. “Se apesar de tudo, me permito um certo otimismo cauteloso, não é por deixar de enxergar os desafios, mas sim por julgar que as sociedades liberais são capazes de enfrentá-los”, responde. E então argumenta: “A vitalidade que decorre da periódica reciclagem de lideranças, da criatividade inerente ao exercício da liberdade, da legitimidade que facilita a mobilização em torno de ideais comuns, da eficácia do processo decisório quando é alto o grau de participação da comunidade, assegura às sociedades liberais dinamismo e estabilidade, assim como maior capacidade para enfrentar inimigos externos e para superar dissensões internas”.

Há, nessa argumentação, pistas preciosas sobre caminhos a seguir na necessária revitalização da nossa democracia. Como podemos reformar o sistema político a fim de propiciar, de fato, a periódica reciclagem de lideranças? Como fazer com que nossos partidos políticos, de fato, se munam da legitimidade que facilita a mobilização em torno de ideais comuns? E em decorrência disso, como ampliar a abertura do sistema político para que ele, de fato, seja capaz de incorporar a participação da comunidade?

Como reconhecimento ao papel de liderança intelectual inspiradora de Marcílio, pelo menos dois textos fundamentais de expoentes desta geração liberal da redemocratização foram dedicados a Marcílio: O Argumento Liberal (1981), de José Guilherme Merquior; e Liberalismo, Contratualismo e Pacto Social (1985), de Celso Lafer. Vale o registro, aliás, de que em 1982, os três autores — Marcílio, Merquior e Lafer — participaram, contando ainda com o reforço de Sergio Paulo Rouanet, de painel promovido pela Revista IstoÉ com o objetivo de sistematizar a contribuição do pensamento liberal no contexto da redemocratização, evento que originou também uma edição da Revista Tempo Brasileiro.

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Marcílio Marques Moreira (Reprodução: ACRJ)

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O interesse público acima do governismo

No ambiente da redemocratização, Marcílio voltou a contribuir ativamente no setor público. Primeiro, como assessor para assuntos internacionais do então candidato Tancredo Neves, do MDB. Com a posse de José Sarney, aceitou a missão estratégica de servir como embaixador nos Estados Unidos, sendo responsável por empreender uma transição na imagem internacional do Brasil.

“Falam muito do Brasil hoje. O Brasil daquela época não era melhor. Éramos considerados uma ditadura, queimadores de floresta, caloteiros da dívida externa e violadores dos direitos humanos, com fama de leniência e impunidade para agressores de mulheres”, relata Marcílio, em entrevista ao podcast Casa das Garças.

A redemocratização foi a principal bandeira utilizada na missão de resgatar o respeito do Brasil perante a comunidade internacional. Nesse processo, houve um trabalho de remoção do entulho autoritário. Coube a Marcílio, por exemplo, convencer o presidente Sarney a revogar portarias da ditadura que proibiam as embaixadas brasileiras de manterem relações com organizações de direitos humanos e defesa do meio ambiente — então considerados “assuntos de interesse nacional” — para, em seguida, iniciar um trabalho de aproximação entre o país e essas iniciativas.

Marcílio também teve atuação relevante no âmbito da sustentabilidade, trabalhando pela articulação da Rio92, primeiro evento da ONU sediado no Brasil, que discutiu acordos de proteção ao meio ambiente. O tema não era uma novidade para ele. Em artigo de 1973, Marcílio já considerava “emergente a preocupação pela crise ecológica do planeta, isto é, pelo perigo de a poluição do ar, da água, da terra, enfim, de todo meio ambiente vir a provocar tal ruptura no equilíbrio ecológico do mundo, a ponto de temer-se que a sobrevivência biológica, ou a vida em condições mínimas de qualidade, estariam sendo irremediavelmente comprometidas”.

Após o desastre do Plano Collor, que confiscou as poupanças sob a gestão da ministra Zélia Cardoso de Melo, Marcílio aceitou o convite para deixar a Embaixada e se tornou ministro da Fazenda, Economia e Planejamento do presidente Fernando Collor, unificando pastas múltiplas, de modo que hoje chamamos de “superministério”. Montou uma equipe econômica mesclando profissionais com experiência na máquina da burocracia, na academia e no mercado, revelando ao setor público jovens talentos liberais, como Armínio Fraga, Gustavo Loyola e os Pedros: Malan, Parente e Bodin, que seriam figuras importantes da economia brasileira pelas décadas seguintes.

A gestão de 17 meses de Marcílio no ministério ficou marcada pelo programa de privatizações, pela mais ampla abertura econômica já feita no Brasil, pelos avanços na negociação da dívida externa, pela tentativa de equilibrar as contas (inclusive para devolver as poupanças confiscadas) e pela ausência de choques heterodoxos, que estavam na moda com sucessivos planos fracassados de combate à inflação. Nesse contexto, sob coordenação de Celso Lafer no Ministério das Relações Exteriores, realizou-se a Rio92, com a presença de centenas de chefes de Estado.

Em evento realizado pela Fundação FHC em parceria com o Livres, Persio Arida nos ajuda a entender o papel de Marcílio na estabilização da economia brasileira. Persio viu por dentro os fundamentos fiscais do país em duas oportunidades. Primeiro, como parte da equipe do Plano Cruzado, no governo Sarney, quando o cenário herdado pela ditadura era de caos generalizado: não havia orçamento único e as contas bancadas pelo Tesouro caíam do céu, sem nenhuma previsibilidade. Na segunda passagem, já no governo Itamar Franco, Persio foi protagonista da implementação do Plano Real e encontrou um quadro que, certamente ainda longe do ideal, já era muito mais organizado.

“O período Marcílio fez as bases do Plano Real, de uma forma que pouca gente entende até hoje. Ele desarmou bombas colossais: a devolução dos Cruzados, o descongelamento de preços, a estabilização do câmbio, uma série de heranças malditas que vieram do Plano Collor. E mudou o debate econômico, com o projeto do Emendão, que não foi aprovado, mas chamou a atenção para a importância de mudanças constitucionais para a realização das reformas estruturais. E por fim, a firmeza do ministro Marcílio em dizer que não congelaria preços de jeito nenhum também mudou o comportamento dos agentes econômicos, reconquistando as condições para implantação do Plano Real, conforme havíamos desenhado no Paper do Larida”, explica Persio.

O momento mais crítico, contudo, se deu com a grave crise política que findou com o impeachment de Fernando Collor. Nunca é demais lembrar: tratava-se do primeiro governo civil eleito diretamente pelo voto popular após a ditadura militar e, portanto, aquela era a primeira grande crise política a ser enfrentada pela Nova República. Era preciso conter as incertezas e desconfianças que o contexto levantava, especialmente quanto às tentações intervencionistas das Forças Armadas recém recolocadas na caserna. Nesse contexto, Marcílio desempenhou um papel fundamental na preservação da estabilidade democrática, atuando com seriedade, a serviço do país, como integrante do chamado Ministério dos Notáveis, ao lado de nomes como Célio Borja, Hélio Jaguaribe e Celso Lafer, nomes cuja credibilidade transcendiam o cargo ocupado no governo.

No momento mais turbulento da crise, em 24 de agosto, o relatório final da CPI que investigava as denúncias de corrupção contra o presidente concluiu pela abertura do processo de impeachment. No dia seguinte, à revelia do interesse político do presidente Collor, houve a divulgação da Carta à Nação, manifesto articulado principalmente por Marcílio e Célio Borja, assinado por todos os ministros do governo. No texto, defenderam a honradez de suas vidas e justificaram a permanência no governo, em nome do bem público e da governabilidade, até a votação do pedido de impeachment, com o compromisso de se demitirem coletivamente ao final da crise, qualquer que fosse o desfecho. Como resultado, conseguiram desvincular a crise política do prosseguimento administrativo do governo, diminuindo o efeito da instabilidade sobre a vida real dos brasileiros e afastando riscos à democracia.

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Marcílio

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Não há solução possível sem decência e dignidade

Após sua passagem como ministro, Marcílio seguiu contribuindo com a vida pública nacional. Foi conselheiro do prefeito Cesar Maia, do Rio. Como presidente da Comissão de Ética Pública, durante o primeiro governo Lula, criou polêmica ao defender a incompatibilidade, por conflito de interesses, entre o acúmulo das funções de Ministro de Estado e presidente de partido político, manifestando-se a partir de caso concreto envolvendo Carlos Lupi, então ministro do trabalho e presidente do PDT. Em reação, a pressão política foi tão grande, acusando uma suposta “criminalização da política”, que Marcílio acabou deixando o cargo.

Em 2017, junto a membros da sua equipe no ministério, Marcílio lançou Quixote no Planalto: O resgate da dignidade em tempos adversos, livro em que refletiu sobre a experiência no governo Collor. Seu ensaio Ética e Economia, de março de 2010, é um presente de lucidez contundente, cada vez mais urgente.

Partindo de Adam Smith, em diálogo com Amartya Sen e ainda recorrendo a Aristóteles, Marcílio recusa a perspectiva egoísta do ser humano como simples maximizador utilitário. Ele demonstra que, numa perspectiva consistentemente liberal, a sociedade demanda relações de confiança e boa fé, seja no âmbito das relações privadas, para a criação de um apropriado ambiente de negócios ou para o êxito de políticas públicas.

Tal necessidade se dá não apenas na relação entre governantes e governados, de maneira vertical, mas também entre os membros da sociedade, de modo horizontal. Em outras palavras, a natureza ética do agir precisa ser cultivada no âmbito dos governos — onde são criadas as regras de regulação da vida coletiva —, como também no âmbito dos mercados e da sociedade — onde o imperativo é respeitar as regras do jogo.

Se, por um lado, precisamos superar preconceitos contra o lucro, por outro não podemos aceitar a redução das belezas e complexidades da vida humana à sua busca cega. Como argumenta Marcílio, “toda empresa não pode prescindir do lucro, da mesma maneira que nós precisamos respirar para viver. Mas nós não vivemos para respirar e, da mesma forma, a empresa e o empresário não vivem para lucrar”. Precisamos, portanto, dimensionar adequadamente o propósito das nossas ações: “O lucro deve servir a empresa e não a empresa servir ao lucro. Tocar uma empresa vai muito além de gerar lucros, pois ela tem de ter em conta não só o bem-estar do acionista (shareholder), mas também o de todos os outros stakeholders — funcionários, clientes, fornecedores, meio ambiente, comunidades em que se inserem, além da sociedade em geral”, defende.

Nesse sentido, Marcílio afirma o necessário papel dos mercados para o funcionamento eficiente da economia, sem com isso tratá-los como condição suficiente para a vida em sociedade. Até porque, como ele sempre pontua, a defesa da liberdade não se concebe sem a companhia da consideração acerca da responsabilidade individual, assim como a ênfase na responsabilidade humana só tem procedência quando considerada a capacidade de agência e escolha individual.

Refletindo sobre as condições necessárias para o florescimento de um ambiente saudável para a cooperação humana, Marcílio destaca a importância de que as atuações públicas tenham um compromisso com a busca pela verdade, questão elementar em tempos tão contaminados por fake news: “a verdade,  tal como a confiança, constitui valor exigido pelo agir ético, tanto do empresário privado quanto da autoridade pública. Ambos têm de conscientizar-se que, enquanto líderes, não só têm de cumprir seus deveres com rigor, senão também servir de exemplo para seus liderados, seja por suas ideias, seja por suas ações, o que inclui compromisso com a verdade e exige transparência das ações do governo e dos agentes do mercado”.

Quando tanto se fala sobre a adesão da Faria Lima ao projeto de poder bolsonarista, vale recuperar o alerta que o ex-executivo do Unibanco já fazia no contexto de adesão de elites empresariais aos deslumbramentos desenvolvimentistas de Guido Mantega e Dilma Rousseff, com vultosos financiamentos à “indústria nacional” e seus “campeões nacionais”: “é ingênuo pensar que crise moral e simultâneo deslumbramento hoje vivenciados entre nós, tanto na esfera privada quanto na pública, não acabem corroendo o processo econômico, social e político, ao preferir mitos à realidade e afastar do debate público temas relevantes. E constituem solo fértil para insidiosas sementes — falta de confiança nas instituições e cinismo generalizado”.

Os ganhos de curto prazo, sejam eles financeiros ou políticos, não compensam, de modo algum, as tragédias das vidas marcadas pelas injustiças da sociedade. “Desenvolvimento e sustentabilidade são processos, não pontos de chegada, e, portanto, é essencial preservar a coerência intertemporal, seguir o imperativo da justiça intergeracional, e preocupar-se com as gerações a vir. Não se pode ceder à tentação do curto prazismo, mesmo que esta renda frutos imediatos e fácil popularidade. A contemporização com o presente, em detrimento de uma abertura ao futuro, é uma “dessas formas de deslealdade com a história” que, segundo San Tiago Dantas, “não consegue ser […] de duração prolongada”, escreve.

Recorrendo a Elinor Ostrom, Marcílio refaz o chamado cidadão a todos os setores nacionais, alertando que “desprezar reciprocidade, cooperação e cidadania é um desperdício de recursos humanos e materiais e representa um grave desafio à sustentabilidade no tempo de instituições democráticas”.

Nas palavras precisas e necessárias de Marcílio: “Urge que o Estado, o mercado e a sociedade civil reaprendam — já que parecem ter esquecido — a mostrar apreço à confiança, à verdade, à perseverança, à obediência à lei, ao respeito à coisa pública e à propriedade privada, à solidariedade com o outro, assim como ao compromisso com as qualidades morais mais nobres que, só elas, serão capazes de emprestar sentido pleno ao viver em sociedade, substituindo fúteis deslumbramentos ou estéreis pessimismos por tranquila segurança, enobrecedora dignidade e renovada esperança no porvir”.

Quanta lucidez! Como um jovem liberal brasileiro de inspiração humanista, nutrido pelo “otimismo cauteloso” que Marcílio registrou em tempos muito mais sombrios do que os nossos, e com a esperança de quem reconhece como conseguimos avançar desde lá, apesar de tudo, cabe-me dizer, com votos de que possamos continuar desfrutando, por muito tempo, da sua referência viva para o agir ético, pelo futuro do Brasil e da nossa democracia: obrigado, Marcílio, por seus 90 anos de contribuições ao cultivo do amor à liberdade!

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Marcílio Marques (Foto: Roque de Sá/Agência Senado)

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Mano Ferreira

Mano Ferreira é jornalista e especialista em comunicação política, cofundador e diretor de comunicação do Livres. Alumni da International Academy for Leadership da Fundação Friedrich Naumann Pela Liberdade, da Alemanha, é cofundador do Students For Liberty no Brasil.