A linguagem fascista e seus neofalantes

por William Zeytounlian

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Em uma tirada famosa, Groucho Marx nos deixou um raciocínio dos mais úteis. Dizia o comediante: “ele pode parecer um idiota e falar como um idiota, mas não se engane: ele realmente é um idiota”. O valor da piada reside em nos lembrar que, às vezes, para tocarmos as implicações mais cruciais e profundas de um discurso, não é preciso esmiuçar os meandros abissais do enunciado ou psicanalisar selvagemente o orador. Não. Seguindo as pistas de Marx (o Groucho), pelo contrário, bastaria estarmos atentos àquilo que é mais superficial e evidente nesse discurso, com a condição de não querermos ser enganados por ele.

O livro “A linguagem fascista” se coloca uma tarefa simples e importante como essa. Reunindo textos do historiador italiano Emilio Gentile — professor da Universidade La Sapienza, de Roma, e um dos principais estudiosos do fascismo — e do linguista brasileiro Carlos Piovezani — professor da Universidade Federal de São Carlos, especialista em análise do discurso —, o objetivo do livro poderia ser colocado nos termos da seguinte problematização: “Bolsonaro fala como um fascista e age como um fascista. Estaríamos enganados em dizer que ele é um fascista?”.

Como as opiniões de Piovezani e Gentile parecem nos conduzir a respostas distintas, o leitor é guiado, ao longo de três capítulos, por uma reconstituição histórica da ascensão de Mussolini e Bolsonaro, de modo a tirar suas próprias conclusões.

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(Reprodução)

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No primeiro capítulo, Piovezani introduz o tema apresentando-nos a referência que anima o estudo. Trata-se do estudo fundamental de Victor Klemperer sobre a Linguagem do Terceiro Reich (a LTI, Lingua Tertii Imperii, a língua do Terceiro Império). Em seu livro, Klemperer demonstrou que o uso de palavras estrangeiras, a alteração de seu sentido, a performatividade corporal patética, a eleição e construção superlativa do inimigo comum, o uso de adjetivos, o anti-intelectualismo, entre outros recursos, foram fundamentais para produzir, na massa hitlerista, uma realidade em que “a diferença é reduzida a medo, repulsa e chacota, e o diálogo, a ódio, violência e extermínio”.

Isto permite a Piovezani avançar sobre a diferenciação pertinente entre demagogia, populismo e fascismo. A distinção é crucial para termos claro o ponto de que cada um desses fenômenos é dotado de sua historicidade particular, singularidade, aliás, que está no cerne da discordância entre Gentile e Piovezani.

Para Gentile, só podemos falar de fascismo ao tratarmos do fenômeno histórico do entre-guerras. Ao ampliar o uso do termo para fenômenos contemporâneos (Trump, Putin, Bolsonaro, Orbán) perderíamos de vista a “novidade destes fenômenos”. No segundo capítulo do livro, de sua autoria, o autor faz uma verdadeira crônica da ascensão de Mussolini, de sua infância à liderança do movimento fascista, passando por sua trajetória no partido socialista.

Ao longo dessas páginas, o autor resgata, sem anacronismos, as metamorfoses da oratória mussoliniana levando em consideração sua produção em “sucessivas situações históricas, sempre novas inesperadas e imprevisíveis”. Assim, não projeta retrospectivamente o líder totalitário sobre as outras figuras que Mussolini foi sucessivamente: o socialista revolucionário, o fascista libertário e o fascista intervencionista.

Seguindo esses passos, podemos remontar, peça a peça, os pilares característicos da arte retórica mussoliniana: a) a política como arte e conflito, b) a canalização de afetos por mitos, c) o desprezo pelas massas (em nome das quais pretende falar), d) uma filosofia da história monumental e não-teleológica, e) o líder como guia de novos homens e f) uma visão pessimista da natureza humana.

Piovezani, por sua vez, retraça no terceiro capítulo do livro a trajetória de Bolsonaro desde sua indisposição com os superiores no Exército, nos anos 1980, até os primeiros meses da pandemia, em 2020, passando por seus mandatos como vereador e deputado federal.

O autor faz recordar elementos ainda vivos na memória recente de todos nós. São sobretudo entrevistas e declarações em que Bolsonaro fez uso de fórmulas fáceis, simplistas e pregnantes, de modo a fazer passar — sob o pretexto de ser um “porta-voz” do povo, aquele que fala a verdade que todos queriam dizer, mas eram impedidos pelo sistema — uma mensagem de tipo violento e paranoide.

Produto acabado de um país que, ao invés de punir, praticamente premia a quebra de decoro e a incitação ao ódio, Bolsonaro soube usar dos novos recursos digitais de modo a se apresentar como a própria encarnação da morte ao petismo. Reforçando a atmosfera odienta do pós-2013, ele forjou o “mito” de que representava a solução (violenta) para a limpeza moral que o “povo” exigia, mas era incapaz de operar.

O recurso a uma linguagem que fala às massas tomando o líder (Duce, Führer, Mito) como porta-voz ou executor de uma purificação política feita em termos de aniquilamento do adversário são os traços que Piovezani destaca para, na contramão de Gentile, afirmar que sim, podemos dizer que Bolsonaro é um fascista.

Aqui, me parece, Piovezani dá testemunho da influência inestimável que a conferência “O fascismo eterno”, de Umberto Eco, exerceu sobre seu pensamento. De fato, é tão difícil percorrer as palavras de Eco sem traçar paralelos com nossa época, que vale a pena retomarmos os catorze pontos daquilo que o intelectual italiano denominou “nebulosa fascista”.

……………..(i) O fascismo eterno usa do culto à tradição (por exemplo quando Bolsonaro repetiu, em 2020, o lema integralista: “Deus, pátria e família”).

……………..(ii) O fascismo eterno recusa a modernidade (como quando Bolsonaro retirou do ar a campanha do Banco do Brasil por conter termos ligados ao universo LGBTQI+).

……………..(iii) O fascismo eterno depende do culto da “ação pela ação” (como quando Bolsonaro pediu a seus apoiadores para filmar hospitais de campanha ou Carla Zambelli incitou seus eleitores a confirmarem se caixões estavam sendo enterrados vazios ou não).

……………..(iv) Para o fascismo eterno, crítica e desacordo são formas de traição (basta lembrarmos o destino de Hasselmann, Bebianno, Santos Cruz, Alexandre Frota, João Dória e tantos outros).

……………..(v) O Ur-fascismo busca o consenso e despreza a divergência (é a lógica do “um manda, o outro obedece” que fez cair tantos ministros da saúde). 

……………..(vi) O fascismo eterno interpela as classes médias frustradas (como no apelo ao “cidadão de bem”, que de fato tem “bens”, mas não tantos).

……………..(vii) O fascismo eterno é nacionalista (dos protestos de verde-amarelo ao lema militar, “Brasil acima de tudo” que apenas ecoa o “Deutschland über alles).

……………..(viii) O Ur-fascismo mobiliza o perigo de um inimigo forte (aqui, os melhores exemplos são os delírios conspiracionistas e “globalistas” que veem nos órgãos da ONU, como a UNESCO e a OMS, instrumentos da implementação do comunismo global ou do marxismo cultural).

……………..(ix) O fascismo eterno se alimenta de uma concepção de vida como guerra permanente (institucionalizado pelo bolsonarismo na forma do “Gabinete do ódio”, milícia digital cuja função é fomentar conflitos para inflamar a base).

……………..(x) O fascismo eterno tem desprezo pelos fracos (pois, como disse o presidente, o Brasil precisa deixar de ser um “país de maricas” e histéricos).

……………..(xi) No fascismo sempre à espreita, cada um deve se tornar um herói (preferencialmente armado, que possa lutar contra os bandidos, terroristas e ditadores perigosos).

……………..(xii) O Ur-fascista, segundo Eco, “transfere sua vontade de poder para questões sexuais” (pois além de “imbrocháveis e incomíveis” portadores de brasões fálicos, eles também lutam contra a ditadura gayzista e fiscalizam a sexualidade alheia).

……………..(xiii) O fascismo eterno pratica um “populismo qualitativo” em que a vontade da suposta maioria, supostamente traduzida pelo líder, é imposta à minoria. (Trocando em miúdos, a “minoria tem que se curvar à maioria”).

……………..(xiv) O fascismo eterno fala a “novilíngua”, usa um léxico próprio, mas elementar, que delimita falantes e não falantes, e limita a capacidade de complexidade e crítica. (Como bem nos explica Carlos Bolsonaro que, no dia 11 de junho de 2020, tuitou “prudência, sofisticação, biografia, bacon, boneco chucky, brinquedo Gepeto, capivara, tucano, budião, tuiuiú, badejo mira, socialismo e liberdade!”).

Ainda que Piovezani e Gentile discordem quanto ao uso do termo “fascista”, o próprio fato de seus textos coexistirem, em divergência, no mesmo volume, é um exemplo em ato do que significa um pensamento antifascista (no sentido histórico ou atualizado). Segundo Tales Ab’Saber — psicanalista e coordenador da coleção da qual faz parte o livro — o fascista “extirpa, como um cirurgião carniceiro do simbólico, mundos e mais mundos de possibilidades de sentido e de experiência, que desfalecem em conjunto com a morte programada do outro na cultura”. Dessa forma, um pensamento não-fascista só pode florescer em uma atmosfera em que a linguagem comporte espaço para a existência do outro e em que dois — três, cinco, 220 milhões — possam “concordar em discordar”.

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Marx (O Groucho)

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William Zeytounlian

William Zeytounlian é historiador, psicanalista e tradutor.