20 anos da Sala São Paulo: Excelência e Epifania

por Jeffis Carvalho

Vista do alto, do balcão superior, tem-se a sensação de que ali, naquele belíssimo conjunto arquitetônico, a música está suspensa e, também, em permanente suspense. Defini-la como um templo seria reduzir a só uma possibilidade a sua infinita gama de possíveis transcendências. Numa humilde definição, diria que a Sala São Paulo é um espaço de excelência e epifania. Ou vice-versa. 

CENA 1 – A descoberta

Demorou um pouco para acontecer o meu primeiro contato com a Sala. Não se deu logo depois de sua inauguração, em julho de 1999. Só ocorreu em meados de 2001 e, mesmo assim, apenas como uma visita técnica em busca de um local para um evento. Na ocasião, quando entrei no Hall Principal, senti uma emoção indefinível, como se ali já estivesse estado muitas vezes. Puxei pela memória…  Mas nada. Logo em seguida cheguei ao Foyer e de lá tive a visão da plataforma da estação. Compreendi, então, a emoção que me tomava. Sim, eu estivera muitas vezes ali, desembarcando ali – ainda que tudo fosse diferente – quando cumpria minha tarefa de office-boy no jornal A Região, um diário publicado em Osasco. Pelo menos uma vez a cada quinze dias, às vezes semanalmente, eu me via no trem da Fepasa, embarcando na velha Estação de Osasco, na Praça Antonio Menk, rumo à Estação Julio Prestes; dali caminhava pela rua Mauá e subia a Avenida Cásper Líbero. O jornal trabalhava com uma clicheria que ficava por ali, mas não me recordo onde exatamente. Corria o ano de 1974, ia fazer 16 anos e fiquei no jornal até 1981. Quando pedi demissão, era o editor-chefe do jornal, recém-formado em Jornalismo e comecei a trabalhar na revisão de textos da Editora Abril. Fui morar em Pinheiros e nunca mais desembarquei de um trem naquela estação.

Quando finalmente entrei na Sala de Concertos, devo ter feito aquela expressão “o sujeito ficou de queixo caído”. E fiquei mesmo. O que era aquela Sala? As colunas, a madeira clara, os camarotes, o coro, o palco, a plateia? Por um instante pensei que estava delirando porque olhei para aquilo tudo e, de repente, uma música em alto volume inundou minha alma. Sim, eu ouvia, sem saber que vinha de minha emoção, o Adágio da suíte do ballet Gayane, de Aram Khachaturian – talvez porque naqueles dias eu escrevia um ensaio sobre 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, e o adágio está na trilha sonora do filme. Era o ano de 2001. Tenho a sensação de que fui às lágrimas, mas não tenho certeza. 

No ano seguinte, 2002, finalmente voltei à Sala para ouvir ali um concerto pela primeira vez. Já tinha ido a muitas apresentações da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, desde os tempos do grande maestro Eleazar de Carvalho, no Theatro Municipal ou no Teatro Cultura Artística. A convite de minha grande amiga Junko Yamanaka, a acompanhei. Sob a regência de John Neschling, a OSESP apresentou uma das grandes paixões da Junko, a Sinfonia nº 3 em mi maior, de Beethoven, da qual ela possuía as grandes execuções – de Furtwangler a Karajan – em CD. 

O que se deu é algo quase indescritível. Foi como se nunca tivesse ouvido nenhum concerto ao vivo antes. Uma descoberta absoluta. Uma experiência que se renova quase toda semana, de março a dezembro. Desde 2007, quando me tornei assinante a convite de minha grande amiga Mônica Waldvogel. Uma experiência que as palavras, por mais que se tente, são incapazes de definir. Fico, então, com a vã tentativa que dá nome a esse ensaio: Excelência & Epifania. Corta.

CENA 2 – A Visão 

“O melhor dos artistas nem pensou em mostrar
Aquilo que a pedra bruta sob a carapaça
Esconde: a magia do mármore quebrar
É mister da mão, que o cérebro realiza.”
(Michelangelo)

Em seu monumental A Escalada do Homem, o cientista J. Bronowski, no capítulo A Textura da Pedra, diz que Michelangelo “iniciou sua vida como escavador de mármore em Carrara, e sentia que o martelo em suas mãos, tanto agora como antes, tateava na pedra à procura de formas nela escondidas”, o que mostra o soneto do artista que ele destaca. Bronowski, num salto de 400 anos, lembra que isso também anima outro grande artista. Diz ele: “as reflexões de Henry Moore são particularmente relevantes, uma vez que se dirigem ao gênio de Carrara”.

“No princípio, como um jovem escultor, não podia pagar por pedras caras, de modo que as obtinha revirando os estoques até encontrar o que era chamado ‘bloco de descarte’. A partir daí, então, tinha de pensar de modo semelhante ao que Michelangelo talvez fizesse, que consistia em esperar até surgir uma ideia adequada para a forma da pedra, e essa ideia era vista no próprio bloco”.  Henry Moore

Recorro a Michelangelo e Henry Moore, nas observações de Bronowski, na tentativa de mostrar o que o vislumbre é capaz de produzir concretamente. Faço uso da imaginação para descrever o que talvez tenha sido o momento em que o governador Mário Covas, o então secretário de Cultura, Marcos Mendonça, e o maestro John Neschling devem ter visto quando olharam para aquela estação meio abandonada e que já fazia parte de uma história outrora rica econômica e simbolicamente. Um espaço que vivia sua decadência há vários anos, mas que poderia ser trazido à vida novamente. Bastava, antes de tudo, a vontade, o desejo de dar para a sua orquestra – do Estado – uma sede que pudesse ser, também, o espaço para sua própria ressurreição como conjunto musical de excelência. 

Na estação decadente, no pátio “bruto” – assim como o mármore de Carrara – viram uma Sala de Concertos! Da vontade à ordem. Do desejo ao faça-o. A decisão política tomada, entra em cena, então, os Henry Moore da nossa história – aquele que “vê na pedra a escultura que pode surgir”. O arquiteto Nelson Dupré, autor do projeto da Sala São Paulo, e Chris Blair, técnico da Artec, empresa especializada em engenharia acústica. Como lembra o próprio Bronowski, “os monumentos pretendem homenagear reis e religiões, heróis, dogmas, mas, ao final, o que realmente homenageiam são os construtores”. 

Cena 3 – A Excelência da Sala

No depoimento que deu ao livro Sala São Paulo de Concertos, Revitalização da Estação Júlio Prestes: o projeto arquitetônico, Nelson Dupré diz:

Os desafios me pareciam muito grandes: isolamento e tratamento acústico, restauração e nova arquitetura. Minha experiência prévia em restauração e projetos de teatros e auditórios não me pareceu suficiente, e busquei complementá-la visitando salas de concertos citadas como referência na América do Norte e Europa, estudando seus palcos, sistemas acústicos, áreas de apoio, acessos e fluxos, sentindo como elas soavam, vazias ou em concertos”.

Se para o consultor Chris Blair, da Artec, aquele espaço era tudo com o que um engenheiro acústico do mundo sonha, Dupré lembra que não foi sem conflitos que o projeto chegou a ser definido:

“A consultoria acústica norte-americana, a cargo da Artec, havia definido alguns padrões para a ocupação do antigo Grande Hall da Estação em nova sala de concertos. A sugestão do forro móvel, que permitia dar flexibilidade acústica à sala parecia-nos também garantir uma completa visibilidade do espaço arquitetônico. Entretanto, havia conceitos questionáveis, como o tal recobrimento da parte inferior da sala por um balcão corrido e painéis acústicos, que em absoluto garantiam a valorização daquele patrimônio. Nesse debate entre necessidades arquitetônicas e parâmetros acústicos foi fundamental o apoio do consultor acústico brasileiro José Augusto Nepomuceno, e dos profissionais do Condephaat, até chegarmos à solução de balcões individualizados que nos parecia mais adequada.”

O autor do projeto destaca que todos os detalhes foram exaustivamente pensados:

Parecia-me importante chegar a um desenho simples e coordenado para os novos componentes do espaço, evitando interferências com a arquitetura existente. Na madrugada do último dia de uma semana de discussão com a Artec, em Nova York, sentado na cama do hotel, insone, me ocorreu a ideia que seria adotada para revestir os balcões e os módulos do forro da sala. O conceito é simples: se o ponto de emissão do som no palco for fixo, para se ter uma reflexão sonora multidirecional sempre diferenciada, basta se ter um mesmo elemento multifacetado que se repita em todas as faces de todas as superfícies.” 

Em 2015, o jornal britânico The Guardian elegeu a Sala São Paulo como uma das 10 melhores salas de concerto do mundo. Quinze anos antes, em 2000, o projeto da Sala recebeu o prêmio de honra da USITT – United States Institute of Theatre Technology. Lembra Nelson Dupré que ao anunciar o prêmio, o arquiteto Richard Blinde, responsável pela restauração da Grand Central Station de Nova York, disse que a obra era merecedora da distinção “pelo impressionante trabalho de arquitetura efetuado ao transformar uma estação ferroviária em operação em uma fantástica sala de concertos, com os incríveis desafios de acústica que a obra apresentava”. A primeira sala de concertos do Brasil recebia um reconhecimento internacional da sua excelência.

CENA 4 – A Excelência da Orquestra 

Para além de sua excelência arquitetônica e acústica, a Sala São Paulo contribuiu, também, para a renovação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, um processo de urgência no seu início, mas de longa e constante maturação, rumo à excelência artística. A evolução do conjunto orquestral da OSESP – da chegada de músicos estrangeiros formados nas melhores escolas do mundo e com experiência em grandes orquestras -, ao intercâmbio de músicos brasileiros e à incorporação de novos talentos formados em sua Academia – tornou-se, também, um paradigma para outras orquestras brasileiras. 

Em todo esse processo de evolução, a Sala São Paulo foi essencial. Mais do que nunca, ela proporcionou o espaço profissional, a estrutura administrativa e a qualidade acústica que fizeram a diferença. Afinal, uma orquestra só atinge a excelência se tiver, a priori, uma sede para efetivamente chamar de sua. 

Como destaca Arthur Nestrovski, diretor artístico da OSESP, “a simples organização de uma temporada de concertos, com programas definidos para o ano inteiro e venda de assinaturas, já significou considerável evolução, e isso só foi possível porque existe a Sala. O privilégio de ensaiar e tocar em tal espaço também merece realce: para os instrumentistas e cantores da OSESP, a Sala é uma verdadeira parceira musical, à altura do seu talento”. Marcelo Lopes, diretor executivo da Fundação Osesp, lembra que é “inegável o papel simbólico da OSESP no país. Para além de sua dimensão cultural, o complexo que abrange tantas atividades – Orquestra, Coro, projetos educacionais e a própria Sala – atingiu um grau de maturidade que reflete o trabalho de algumas gerações”. 

CENA 5 – A Epifania

“Grandes obras de arte são a cura para a nossa solidão metafísica. Mesmo se a mensagem delas não der conforto algum, como a nona e a décima sinfonias de Mahler, ou a sexta de Tchaikovski, é um desconforto que nos conforta, por assim dizer, a prova para o ouvinte atormentado de que ele não está sozinho.”
(Roger Scruton, A Alma do Mundo)

Ver/ouvir a um concerto é como vivenciar uma experiência única, porque ao vivo, já que a música, de todas as artes, é aquela que só se torna arte no momento mesmo da execução. Na partitura ela é só escrita, não é música. E ouvi-la em uma sala de concertos de excelência é viver um momento propício a muitas transcendências. Em uma palavra, a epifanias. 

Ao longo desses vinte anos, OSESP e Sala São Paulo, em comunhão, tocaram a alma de seus frequentadores – uns mais, outros um pouco menos – mas sempre nos tocando. Com certeza foram incontáveis esses momentos. Como frequentador assíduo da Sala desde 2003, vivi ali grandes experiências estéticas emocionais. Como trato, agora, de epifanias, de pura emoção, deixo-me levar apenas pela memória emocional e, antecipadamente, peço perdão se for traído pela lembrança, e se o que relato não encontrar total respaldo nos fatos. 

Da Eróica, de Beethoven, em 2002, ao Bach de A Paixão Segundo São Mateus, de 2019 – primeira e última das grandes emoções vividas na Sala com a OSESP – quase toda semana sinto sempre a sensação inerente da música suspensa, como se atingisse uma altura que não corresponde à realidade, porque é mesmo fruto de um sentimento. Já ouvi concertos de todos os lugares da Sala – plateia central, balcão mezanino, camarotes (mezanino e superior), coro, balcão superior, plateia elevada. 

Compartilhando minhas lembranças com o maestro e amigo Leandro Oliveira, responsável pelo Falando de Música da OSESP, destacamos a descoberta de Os Sete Portões de Jerusalém, do grande compositor polonês Krzysztof Penderecki, em sua primeira execução no Brasil, em 2006.  E sua presença à frente da orquestra, em 2017, para apresentar o seu maravilhoso Hino a São Daniel, e a violinista Isabelle Faust no Concerto nº 1 para Violino, de Karol Szymanowski. 

O maestro russo Gennady Rozhdestvensky regendo seu próprio filho, o violinista Sasha Rozhdestvensky, no Concerto nº 1, de Prokofiev, com a Sinfonia nº 10 de Shostakovich e As Estações, de Glazunov, completando o programa. Francesca da Rimini, ópera de Rachmaninoff, em versão concerto com o grande barítono russo Sergei Leiferkus, regência de John Neschling.

Nós, do público, percebíamos que os músicos sentiam algo mágico quando à frente da orquestra estava o grande maestro inglês Frank Shipway. Ele regeu um maravilhoso Os Mestres Cantores, de Richard Wagner, o Concerto para violoncelo em si menor, Op.104, de Dvorák, com solo de Anne Gastinel; e as Variações Enigma, de Edward Elgar.

Fui às lágrimas no adágio final da Terceira Sinfonia de Gustav Mahler regida por Giancarlo Guerrero, talvez a maior de todas as emoções que vivi na Sala. Depois, quando Marin Alsop a regeu, passei a ouvir sempre as três apresentações de Mahler – quinta e sexta-feira e sábado. Um dos grandes impactos sonoros foi o apogeu dramático do Dies Irae, no primeiro movimento da Sinfonia nº 2 de Mahler, sob a regência de Alondra de la Parra. Maestro e orquestra atingiram o sublime na Nona de Mahler, sob a batuta de Isaac Karabtchevsky. O adágio da Sexta Sinfonia de Mahler e o seu último movimento me proporcionaram sensações diferentes em cada uma das apresentações a que assisti, sob a regência de Marin Alsop – no balcão mezanino, a primeira; da plateia central, na segunda vez; e a terceira, do coro. 

Se Mahler me toca (e tocou) além da conta, na Sala, com a OSESP, descobri que Arnold Schönberg e Alban Berg podem ser sublimes em sua modernidade. O Gurre-Lieder, de Shönberg, sob a regência de Isaac Karabtchevski, tornou-se um concerto histórico da nossa orquestra, com um final que aliou a música com a arquitetura da sala – o “sol” explode no grande vitral do antigo pátio da Estrada de Ferro Sorocabana. O grande regente polonês Stanislaw Skrowaczewski regeu o maravilhoso Concerto para Violino – À Memória de um Anjo, de Alban Berg, com solo de Akiko Suwanai. Descoberta, também, e das mais tocantes, foi de Charles Ives, no recital em que o pianista Jeremy Denk executou a sua Sonata nº 2 – Concord, seguida pelas Variações Goldberg, BWV 988, de Bach. Com meu saudoso amigo Marco Mora tivemos a surpresa-sublime do maestro Arvo Volmer que regeu a nossa orquestra no Swansong, de Arvo Pärt, o maior compositor vivo. 

O que dizer da OSESP e do pianista Paul Lewis, sob a regência de Marin Alsop, no tour de force que foi a excepcional execução dos Cinco Concertos para Piano e Orquestra de Beethoven, em um único fim de semana? Biscoito finíssimo! E ver surgir, no meio da orquestra e como solista, Emmanuel Pahud, maior flautista da atualidade, titular na Filarmônica de Berlim, para tocar, sob a regência de Thierry Fischer, o Concerto para Flauta, de Philippe Manoury. O Concerto nº 2 para piano e orquestra, de Brahms, com solo de Nelson Freire; as Quatro Sinfonias de Brahms, com Marin Alsop; a Oitava de Bruckner, com Frank Shipway: e a Sétima, também de Bruckner, com Giancarlo Guerrero. 

O melhor lugar da Sala? O balcão mezanino – visão total da orquestra, projeção sonora inigualável. 

Cena 6 – Epílogo

Epifanias. A cada semana, uma promessa. A cada concerto, novas possibilidades, novas experiências. 

A Sala São Paulo faz vinte anos esta semana. Vinte anos de Excelência e Epifania. Parafraseando Paulinho da Viola e Hermínio Belo de Carvalho, a Sala São Paulo é tão grande que nem cabe explicação.

Jeffis Carvalho

Jeffis Carvalho é jornalista, roteirista, pesquisador de cinema e consultor de comunicação.