Quando o regresso se impõe

por Alberto Aggio

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em parceria com o Horizontes Democráticos

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Muitos analistas da política contemporânea têm recorrido a uma nota dos Cadernos do Cárcere de Antonio Gramsci na qual se afirma que “a crise consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer: nesse interregno verificam-se os fenômenos mórbidos mais variados”. Parece ser, efetivamente, a situação em que nos encontramos ao redor do globo. Nessa situação emergem fenômenos que tumultuam, ameaçam e agridem diversas dimensões da vida, causando mal-estar e desorientação.

Não se trata, portanto, de algo localizado, específico de um país determinado. Há nele uma dimensão estrutural, global, a exigir mudanças mais profundas. Alguns chegam a ver em tais fenômenos uma definição para o nosso tempo, demarcando o século XXI como o “século do populismo”[1]. Questionando tal demarcação, a virada, não apenas eleitoral, que ocorreu nos EUA com a eleição de Joe Biden, superando Donald Trump, não deixa de ser um alerta a um tipo de caracterização apressada como essa. O que não significa que estejamos eliminando o fato de que estamos diante de um quadro de muita incerteza e insegurança, em que não se vê claramente o que pode vir adiante.

Diante desses fenômenos e da dificuldade de superá-los geralmente aparecem os tais sintomas doentios ou seduções de regresso se instalam como se fossem soluções mágicas. A política brasileira não está, certamente, fora desse enquadramento e não é difícil observar uma certa sensação de regresso, de retorno a cenários e situações já vividas, uma aparente volta ao passado.

Há muitos elementos que corroboram essa sensação. O fim da Lava-Jato, imposto pelo STF e saudado por Bolsonaro, acentuou essa impressão. Sabia-se que havia muitos equívocos ali, mas o seu fim gerou apreensão: voltamos quantos anos? Alguém ainda confia na ação da Justiça como parte do arcabouço democrático do país? Na mesma toada, a anulação das condenações de Lula em Curitiba, pelo mesmo STF, revolveu todo o cenário político e fez aumentar a sensação mencionada. Lula retorna ao centro da conjuntura na qual a sucessão presidencial definirá o andamento da conjuntura política até o final de 2022. Com ele voltam a cantilena do golpe de 2016, o “paraíso sobre a terra” dos “anos dourados” do lulismo, sem se mencionar a compra de deputados no Congresso, achincalhando a República, o desastre econômico do governo Dilma, os bilhões desviados da Petrobras e a situação caótica que o país passou a viver desde então. A cantilena do golpe de 2016 tornou-se narrativa, álibi e raiz da dissimulação petista em relação ao impeachment de Bolsonaro.

Com o retorno de Lula volta também a miséria intelectual de adoração do líder que avassala o campo cultural, especialmente a universidade, como se não tivéssemos mais capacidade de alinhavar coletivamente um novo caminho generoso para o futuro e transformá-lo numa proposta política democrática. É o regresso do outro mito, como se não bastasse o que já temos, para acentuar a sensação de morbidez. Entre o declínio, o desespero e os blefes de ocasião, Bolsonaro vai rodopiando em torno do aceno de um “plano pronto” de intervenção das FFAA, da mobilização selvagem da sua base mais radical e do descaso diante do avanço sem paradeiro de uma epidemia que ceifa todos os dias milhares de brasileiros. Estamos enfermos, contaminados e imersos num cenário no qual as alternativas parecem reduzir-se a quase a zero.

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(Reprodução)

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É conhecida a passagem de um dos mais belos romances de Mario Vargas Llosa, quando um dos personagens se pergunta “cuando Peru se jodió”?[2]. É um tema que ronda a história recente de muitos países. Recentemente, o ex-dirigente do PCI e fundador do Partido Democrático (PD), Walter Veltroni, utilizou-se do mesmo argumento de Gramsci ao sugerir que desde o assassinado de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas, em 1978, a política italiana perdeu o eixo e as consequências disso são sentidas até hoje[3]. Não seria desprovido de sentido pensar que, no Brasil, a fratura no seio das forças que fizeram a transição democrática, por volta do final da década de 1980 — tendo como ato simbólico a recusa do apoio de Ulisses Guimarães no 2º. Turno —, ocupe o mesmo lugar nas dificuldades que temos até hoje de confeccionar uma unidade robusta e estratégica entre as forças democráticas no país.

Entristecidos, desorientados e dominados por mitos, pairam muitas ameaças sobre nossas cabeças, seja a desastrosa polarização de 2018, sejam descaminhos que trilhamos anteriormente. O velho está morrendo e o novo não consegue nascer parece ser uma imagem justa sobre nós, que caminhamos céleres e desgovernados de volta para o passado. É o pesadelo da razão. Não à toa se projeta a conclusão antecipada do pleito sucessório de 2022, referendada pelas pesquisas que são feitas nos dias que correm. Uma projeção que dá de antemão o embate entre Lula versus Bolsonaro como aquele que dirigirá a campanha até seus resultados finais.

Sem se afiançar na “grande política” e sem buscar uma ultrapassagem histórica dos limites que as forças democráticas acabaram por se impor há décadas, afora a ausência de ações autônomas, virtuosas e produtivas, iniciativas surpreendentes que aparentemente jogariam a favor da superação dessa situação, como o recente encontro entre Fernando Henrique Cardoso e Lula, são reveladoras do ponto em que chegamos.

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(Reprodução)

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No encontro entre os dois líderes há muito mais do que civilidade e antibolsonarismo. Para os dois personagens, de certa forma, são duas coisas óbvias. Ao contrário do esperado, no entanto, a imagem que predomina e que se tornou análise dominante é que tudo se reduziu à política eleitoral. Se para Lula não há nenhum problema numa reunião com esse caráter, já que está abertamente em campanha e ajustado ao tempo certo para dialogar e buscar composições de apoio, para FHC não é o mesmo. Mas, no movimento de FHC há cálculo também: é a busca de um rumo para o país, como ele gosta de enfatizar. Seria injusto imaginar que o movimento de FHC seria apenas tática eleitoral. Sendo assim, o que fica da reunião é que o rumo está dado, com o apoio a Lula, no segundo turno. Mas se for necessário até no primeiro turno, se o petista antecipar o segundo turno e se tornar um candidato de união nacional contra o “fascismo”. FHC adere, sem pejo, a tal da Frente Ampla de que falam os petistas desde a vitória de Bolsonaro.

Não seria descabido encontrar outros sentidos para o movimento de FHC: 1. que, como liderança inquestionável, não será fiador de uma terceira via vinda do PSDB, especialmente se esta for Dória Jr, governador de SP; 2. que o PSDB não tem mais função nacional: reduziu-se a um partido de líderes locais e regionais, sem capacidade de formular um projeto de poder e de país — cedendo a Lula, FHC define o campo do “progressismo” em torno de Lula; 3. Para, FHC, hoje, não há mais liderança capaz de (re)costurar um projeto nacional a não ser Lula, inclusive por suas ambiguidades, o que deixa terreno aberto a negociações que, fixadas à esquerda (com a qual FHC sempre acalentou estar), pode ir até a centro-direita. O resto, especialmente as declarações posteriores, são dissimulações, nada mais.

Quando uma liderança do porte de FHC realiza um movimento dessa natureza, a despeito das reações de outras linhagens do centro democrático, fica difícil imaginar a possibilidade de se levantar a bandeira de um candidato de centro, projetando-se o apoio a Lula como definição estratégica. Nessas circunstâncias e sob essas condições, não seria descabido falar francamente em suicídio antecipado de qualquer candidato de centro.

Tal definição estratégica dará, portanto, o rumo à conjuntura política. O desenho estabelecido nos encaminha para uma situação fáctica, entre dois contendores, a despeito de suas distinções, em alguns planos, bastante fortes e evidentes. Ao contrário do que se poderia imaginar, não há hipótese de que tais atores se coloquem à altura dos desafios colocados pelo tempo. Permaneceremos, como certa vez definiu Luiz Werneck Vianna, em um estado de suspensão, de apartação entre os atores e os fatos, dando continuidade, em todos os sentidos, à nossa infeliz e miserável trajetória política.

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Werneck Vianna (Wilton Jr./Estadão)

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Notas:

[1] Cas Mudde, “O Século XXI é a era dos populismos” entrevista ao Público, 17 de março de 2017; https://www.publico.pt/2017/03/11/mundo/noticia/o-seculo-xxi-e-a-era-dos-populismos-1764729 ; também MUDDE, C. & ROVIRA K., Cristóbal. Populismo – uma brevíssima introdução. Lisboa: Gradiva, 2017; ROSANVALLON, Pierre. El siglo del populismo. Galaxia Gutenberg: Barcelona, 2020.

[2] A expressão é de Santiago Zavala, o Zavalita, protagonista do romance Conversa na Catedral de Mario Vargas Llosa, publicado originalmente em 1969.

[3] VELTRONI, Walter, Il caso Moro e la Prima Repubblica – breve storia di uma lunga stagione política. Roma: Solferino, 2021.

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Alberto Aggio

Alberto Aggio é Professor Titular de História da UNESP e editor do https://horizontesdemocraticos.com.br/.