Seria possível não fazer filosofia?

por Giovanni Rolla

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Não é raro ouvirmos por aí que a filosofia não tem propósito, que não tem lugar neste mundo. Às vezes esse discurso é acompanhado da sugestão de que deveríamos dedicar nosso empenho intelectual para coisas palpáveis, para coisas que geram algum progresso real—assim pressupondo que a filosofia não se presta para tanto. Às vezes, por outro lado, o mesmo discurso é acompanhado de um sentimento de que a filosofia não tem nenhum ponto de contato com as nossas questões de dia-a-dia e que, portanto, é uma grande perda de tempo.

Em ambos os casos, constatamos uma perspectiva ignorante (no sentido literal) ou preconceituosa sobre o que é fazer filosofia—além de uma concepção imediatista e equivocada do avanço científico, bem como uma estreiteza de espírito sobre os questionamentos genuinamente filosóficos pelos quais todos passamos, às vezes sem sequer saber que passamos, no nosso cotidiano.

Seria uma simplificação grosseira pensar a ciência como a mera aplicação de uma técnica, como se ela não envolvesse pressupostos teóricos. Seria igualmente simplista assumir que essas bases teóricas não tocam, às vezes de modo apenas tangencial, problemas que, por sua vez, não podem ser resolvidos cientificamente. Nem sempre os cientistas chegam a lidar com esses problemas explicitamente—mas eles estão lá, como que à espreita, apenas esperando a ocasião em que uma cientista tem de dar um passo atrás sobre seus resultados e depois um passo atrás sobre o uso de seus instrumentos e ainda outro sobre os seus pressupostos teóricos. E, finalmente, um passo atrás sobre o que significa lidar com aqueles conceitos. É a partir desse ponto que a filosofia se torna viva para a prática científica. E, é claro, o caminho contrário também é possível: não é raro que resultados filosóficos tenham implicações científicas, de modo que a fronteira que divide as duas disciplinas, filosofia e ciência, acabe por se tornar difusa.

Tomemos como exemplo a criação dos xenobots, que foram desenvolvidos recentemente por pesquisadores das universidades de Vermont e Tufts nos Estados Unidos. Compostos por células retiradas da pele e do coração de rãs-de-unhas-africanas, os xenobots são máquinas orgânicas com menos de um milímetro de largura capazes de locomover-se e de interagir entre si. Sua concepção partiu de modelos computacionais que encontraram (depois de muitas simulações) a melhor combinação estrutural para esses dois tipos de célula de rã—as da pele, que permanecem imóveis, e as do coração, capazes de contração—com a finalidade de montar um organismo multicelular capaz de se locomover autonomamente. Ou seja, xenobots são máquinas vivas cujas aplicações podem ir desde levar medicamentos dentro do corpo humano a reunir micro-plásticos nos oceanos e a limpar resíduos radioativos. Na medida em que xenobots podem interagir entre si e dar origem a novos comportamentos não planejados, os chamados comportamentos emergentes, faz sentido concebê-los como seres vivos. E agora cabe perguntar: o que essa descoberta mostra sobre o nosso conceito de ser vivo? Ou ainda, seria moralmente permissível dar origem a um organismo artificial, por mais que os propósitos sejam úteis para nós? Como todo bom cientista sabe, perguntas desse tipo, como tantas outras, não parecem poder ser respondidas apenas cientificamente. Elas requerem reflexões filosóficas.

A filosofia não está apenas presente no horizonte da prática científica. Ela também está, por incrível que pareça, nas lacunas do nosso senso comum (tomo essa expressão de modo não pejorativo, indicando apenas o conjunto de crenças que surgem no cotidiano). Mesmo as nossas mais mundanas dificuldades de dia-a-dia às vezes deixam dúvidas que, se examinadas com a devida atenção, levam-nos inevitavelmente a questionamentos filosóficos. Eu me aproprio do caso real relatado por um grande amigo meu, que, na fila do supermercado, presenciou o seguinte diálogo entre uma mãe e seu filho pequeno:

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—Mãe, se hoje é segunda, onde está domingo?

—Como assim? Domingo já passou…

—Mas para onde vão os dias que já passaram?

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Mal sabiam eles, mas o filho havia esbarrado no problema filosófico sobre a irrealidade do passado. O que, por sua vez, engendra também outras questões: suponhamos por um momento que o passado não exista (domingo, afinal, já passou), e que tudo que existe é o aqui e o agora. Mas, e acredito que ninguém duvidaria disso, nós somos tipicamente capazes de lembrar do que aconteceu conosco no nosso passado. Eu lembro, por exemplo, do que eu fiz no domingo—dormi até mais tarde, li um pouco, preparei o almoço, etc. Mas, se o passado não existe, como podemos nos lembrar dele? Como podemos acessar, através da nossa memória, algo que não existe? O interessante é que, quando nos permitimos sermos levados por esse tipo de curiosidade, começamos a fazer filosofia (e muitas vezes podemos contar com a ajuda da ciência, é claro). Ao longo dos séculos, filósofos e filósofas desenvolveram um arsenal de técnicas e de conceitos para avaliar criticamente e responder a problemas desse tipo. Se desenvolvemos esse inquérito de modo sistemático, examinando o que outras pessoas descobriram a respeito e dialogando com elas, somos levados a descobertas impressionantes, algumas que solapam nossas inclinações iniciais, outras que engendram paradoxos, e outras ainda que nos permitem vislumbrar uma nova e rica rede de problemas. Geralmente, descobrimos mais problemas do que soluções, mas assim é a vida.

Assim, e respondendo logo à pergunta que lanço no título deste ensaio, eu não acho que seria possível não fazer filosofia. Filosofia está a cada esquina do nosso dia-a-dia (basta olhar com cuidado e atenção), e também é a liga que mantém de pé o edifício do nosso conhecimento científico. Talvez uma metáfora mais adequada nesse caso seja o barco que construímos enquanto navegamos. De qualquer modo, a filosofia está lá, e, embora seja possível ignorá-la por um tempo, por causa das urgências da vida prática, ela continua sempre por perto, sempre cativando as mentes atentas e abertas. Não fazer filosofia seria renunciar de parte substancial da nossa curiosidade e da nossa capacidade intelectual.

Mas o que, afinal de contas, é fazer filosofia? Nós, os filósofos, somos em boa parte culpados por não dizer claramente o que entendemos por essa expressão, talvez porque não haja um amplo consenso sobre a natureza da nossa prática. Eu—e falo por mim apenas, pois é muito provável que alguns colegas discordem—entendo que fazer filosofia não é apenas examinar, por mais minuciosamente que seja, o sistema de pensamento de outras pessoas como se esse exame fosse um fim em si mesmo. Entendo que essa atividade interpretativa e histórica seja importante, crucial para avançar a resolução de questões filosóficas, mas discordo que essa possa ser a finalidade do inquérito filosófico. Naturalmente, o exame atento do pensamento de filósofos e filósofas é necessário para nossa cultura filosófica, mas esse enriquecimento cultural não pode vir com o preço de silenciar a nossa curiosidade leiga. Essa curiosidade, com efeito, é aquilo que muitas vezes nos atrai para as discussões filosóficas—e não o anseio pela reconstrução do sistema de pensamento de outros. Positivamente (e metaforicamente, eu admito), eu diria que fazer filosofia é seguir destemidamente a trilha do pensamento. Mais precisamente: fazer filosofia consiste em analisar conceitos, examinar argumentos, imaginar cenários hipotéticos para testar nossas afirmações, avaliar consequências, questionar pressuposições e ponderar intuições e inclinações. Naturalmente, há alguma justaposição aqui entre fazer filosofia e fazer ciência (para o desgosto de alguns puristas de ambos os lados dessa suposta disputa). Mas, como eu disse, eu acredito que essas duas atividades não são claramente distinguíveis entre si. É por isso que acredito que, em alguns casos, fazer filosofia envolve comparar evidências científicas com nossos resultados filosóficos, bem como examinar resultados científicos sob a luz de nossos esclarecimentos filosóficos.

Foi com esse tipo de visão em mente—focando, portanto, não na história da filosofia nem na reconstrução do pensamento de outros, mas na avaliação de temas e problemas filosóficos—que escrevi o livro Filosofia: uma introdução temática (NEL: Florianópolis, 2021). Nesse livro, eu procuro tratar de algumas questões fulcrais às discussões filosóficas contemporâneas sem pressupor dos leitores e das leitoras conhecimento prévio na área. Essas questões são, por exemplo: as diferenças e as semelhanças entre filosofia, ciência e senso comum, a natureza de problemas filosóficos, as relações entre linguagem e mundo, a posição que a filosofia deveria arrogar para si em defesa da racionalidade científica, e algumas dificuldades morais, como a ameaça relativista. O livro se encontra disponível gratuitamente.

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(Reprodução)

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Giovanni Rolla

Giovanni Rolla é Professor de Filosofia na Universidade Federal da Bahia.