De luto, precisamos contar outra História

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A História como Presente: De luto, precisamos contar outra História

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por Vinícius Müller

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Há um risco muito grande quando, por ofício e por experiência, nos arvoramos em uma suposta posição que nos permite contar a História a partir da mistura entre o singular e o plural. Ou seja, quando pensamos que nossa experiência individual é representativa daquilo que concerne à coletividade. Seja ela a família, a geração ou a nação.

Ao mesmo tempo, há um momento, uma inflexão, que por mais que todo o resto negue, nos conecta a algo que nos escapa à vivência individual e nos faz ter certeza de que somos parte de um conjunto maior. Seja ele a família, a geração ou a nação. Aprendi com o sábio professor Carlos Melo que poderíamos sintetizar este momento usando aquilo que Wright Mills chamava de imaginação sociológica.

E, a este aprendizado — e ao sábio professor, a quem agradeço tanto pelo lado pessoal quanto profissional —, respondi que ao longo do tempo da História, reconstruímos esta inflexão, já que os elementos pessoais e coletivos mudam.  E se movimentam em velocidades diferentes, produzindo encontros que, por consequência, também geram resultados diferentes. Assim, já me peguei pensando que minha trajetória pessoal era singular ao ponto de não reconhecê-la entre meus familiares, minha geração e meus pares profissionais. E, por mais que resista, às vezes não a encontro na trajetória da nação.

Contudo, em outros momentos minha trajetória pessoal me parece inteiramente relacionada e coesa com meus vizinhos, geográficos ou emocionais, de modo que a reconheço nos aspectos familiares, nas trajetórias de amigos e amigas, na experiência de outros professores e professoras de História. E quando isso ocorre, a imaginação sociológica de Wright Mills se transforma em um instrumento que me ajuda, pessoal e profissionalmente, a recontar a História.

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Wright Mills

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Desta forma, a cada vez que consigo perceber esta oscilação, que ora me afasta ora me aproxima de alguma coletividade, refaço a pergunta central de quem se debruça sobre a História: o que nos trouxe até aqui? E a cada vez que faço isso mudo ou incluo novos elementos, produzindo resultados diferentes, projetando ou desejando coisas também diferentes. Porque esta é a resposta que, por mais que pareça óbvia, às vezes precisa ser dita com clareza. Não projetamos nada, nenhum plano, nenhum futuro se não tivermos parâmetros. E eles não estão em algo que não conhecemos, mas sim no passado.

Por isso é que em momentos como o de agora, quando as possíveis respostas — aquelas que até hoje fomos capazes de dar à pergunta central — se revelam falhas, é que devemos buscar no passado outros elementos. Não porque as respostas que demos até agora estão erradas. Ao contrário, foram dadas por percepções pessoais, geracionais e mesmo análises profissionais. Elas são falhas porque não nos permitem ter parâmetros que sustentem qualquer plano, qualquer projeção de soluções aos problemas atuais.  Assim, é preciso reconstruir nossa trajetória, de modo a revelar os elementos que talvez para os problemas do passado foram pouco relevantes, mas que para os problemas que hoje enfrentamos são fundamentais. E os problemas atuais são aqueles que esgarçam a possibilidade de qualquer coesão social, cindida por uma versão que nos desagrega, que aposta naquilo que escancara o fracasso e que, por isso, nos impede de termos qualquer parâmetro que não seja o oportunismo tático daqueles que só enxergam a próxima eleição ou suas vaidades pessoais. E que por isso, só projetam a briga de vida e morte — de ‘soma zero’ — que vem nos conduzindo há anos à tragédia que, em nossos dias, ganhou tração promovida pela pandemia.

Portanto, é hora de recontarmos nossa trajetória. O que, nem de longe significa negar as que já foram reveladas e que continuam pertinentes. Mas, ao contrário da História ‘soma zero’, termos uma outra, ‘ganha-ganha’, que nos ajude a sair da armadilha que nos metemos. Por exemplo, se realmente queremos, como nação, enfrentar a desigualdade que nos marca como tatuagem feita com ferro quente, devemos contar a História daquilo que produziu e manteve a desigualdade, mas também perder o pudor de indicar os equívocos que cometemos em nosso passado com propostas e práticas de combate à desigualdade que, por mais que tivessem seriedade e boas intenções, foram mal sucedidas.

Exemplos não nos faltam. Apenas para continuar com o da desigualdade, não enfrentaremos tamanho problema se identificarmos apenas os motivos que fazem de Pernambuco um dos estados mais desiguais do país. Há, também, os motivos que fizeram de Santa Catarina o estado com os menores índices de desigualdade.  E o dever de uma crítica aberta a todos os projetos que, independentemente de quem os tenham formulado, fracassaram em seus objetivos de reduzirem significativamente a desigualdade.

Escrevo este pequeno texto pensando em quanto nos omitimos em identificar e publicar aos quatro cantos que, embora parte significativa do que entendemos ser a elite econômica esteja diretamente vinculada ao nosso passado escravista, outra parte significativa da mesma elite é herdeira de outras fontes, de outra História. E que, portanto, se a desigualdade tem sua origem e se reproduz a partir dos elementos criados pela escravidão — e os dados sobre a realidade, as dificuldades e a torta distribuição das oportunidades dadas aos brasileiros e brasileiras com origens africanas comprovam —, ela também tem origens e elementos diferentes. E, se a desigualdade está relacionada às oportunidades, devemos recuperar a trajetória que indica como muitos que ascenderam socialmente em um país tão desigual como o nosso foram aqueles que encontraram uma brecha, um caminho que muitas vezes não enxergamos: brecha que pode ser o elemento que precisamos enxergar em nossa trajetória, e que nos dará a oportunidade de voltarmos a projetar algo melhor e maior do que nos últimos anos conseguimos. Penso nisso, com pesar, depois de saber do falecimento por Covid de um jovem, com não mais de 30 anos, que um dia foi meu aluno e que nos últimos anos foi meu colega de trabalho. Descendentes de japoneses, Bruno aproveitou todas as pequenas brechas que esta sociedade desigual permite para alguém com a sua origem e condição inicial. Passou por duas escolas superiores diferentes, uma na graduação, outra no mestrado. Ambas entre as mais tradicionais e reconhecidas do país. Apostou na carreira acadêmica e desde então vinha fazendo um trabalho que, senão brilhante, o dava a oportunidade de viver e projetar um futuro digno. Planejava casar nos próximos momentos e trabalhava arduamente, sem, no entanto, deixar de se indignar com o país que não é capaz de perceber que a História dele é a História do Brasil. Ou ao menos a parte que nos omitimos em contar.

Jogamos Bruno e tantos outros aos leões. E estamos discutindo qual será o próximo leão a nos negar o projeto que nos tirará desta enrascada histórica que nos metemos. A História de Bruno é a História que nos tirará desta armadilha. Precisamos contá-la urgentemente.

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Jules Breton, ‘The Song of the Lark’, 1884

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Bruno Mitio era economista e mestre em Administração Púbica e Governo. Faleceu por complicações decorrentes da Covid no último dia 01/05, coincidentemente no dia do trabalhador.

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Vinícius Müller

Vinícius Müller é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.