Cabo Verde, história e literatura

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Cabo Verde: história e literatura

Uma entrevista com Simone Caputo Gomes

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Simone Caputo Gomes (Reprodução)

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por Caio Cesar Esteves de Souza

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Parte da tarefa de escrever textos de divulgação de pesquisas é reconhecer o momento em que, em vez de falar, devemos passar a palavra. Meu último texto publicado aqui foi sobre Liechtenstein, sua história e literatura. Como não conheço especialistas no tema no Brasil, decidi me dedicar a alguns meses de pesquisa preliminar para que pudesse de fato apresentar o país e seus autores aos leitores brasileiros interessados em literatura e história germanófilas. Dando prosseguimento à série de textos sobre os países cujas embaixadas muito gentilmente contribuíram para a minha pequena coleção de mini-bandeiras, hoje gostaria de apresentar aqui a história e a literatura de Cabo Verde, país africano de língua portuguesa.

Embora o país talvez não seja tão conhecido pelo público fora da academia, o Brasil já tem uma tradição bastante respeitável de estudos da literatura e história cabo-verdianas que se estende por várias décadas. E eu tive a imensa sorte de ter sido aluno da maior especialista brasileira no tema, a professora Simone Caputo Gomes, da FFLCH-USP, que muito generosamente aceitou o meu convite para me conceder uma entrevista sobre o assunto apresentando ao público — e também a mim mesmo — alguns dos aspectos mais relevantes da história e da literatura cabo-verdianas.

Um pouco sobre o método da entrevista, aos amigos que se interessam por esse tipo de questão. Eu inicialmente enviei à professora Simone uma série de perguntas por email, às quais ela me respondeu por escrito com total liberdade de extensão e formato, e cujas respostas seriam publicadas aqui sem alterações ou cortes de edições. Após a leitura dessas respostas, como aluno que sou, tive outras perguntas a fazer e as enviei à professora, indicando onde essas perguntas seriam inseridas, muitas vezes de forma intercalada às perguntas originais. Ela novamente as respondeu e, nesse movimento de troca de e-mails e de adição de informações esta entrevista foi sendo composta. O resultado final foi enviado à professora que pôde, enfim, fazer as alterações em suas respostas que julgasse necessárias. O resultado, os amigos podem conferir agora.

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Professora, gostaria mais uma vez de lhe agradecer pela disponibilidade de conceder esta entrevista ao Estado da Arte. Para as pessoas que talvez não conheçam a sua trajetória, a senhora poderia dizer um pouco sobre como e quando começou a se interessar pela literatura cabo-verdiana e como foi que esse interesse se transformou em um projeto de vida acadêmica?

Meu interesse surgiu por volta de 1976 (logo após a independência de Cabo Verde), quando comecei a ler textos para um projeto de dissertação de Mestrado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) com o tema do discurso amoroso na poesia portuguesa. Na época, tive uma verdadeira “iluminação” ao encontrar uma obra chamada A invenção do amor e outros poemas, de Daniel Filipe. Os poemas contavam a história de um contágio amoroso que partiu de um casal no meio da cidade, uma verdadeira epidemia que se alastrava. E a relação com a situação política de Portugal e das colônias na época da escritura era incontornável, apoiada na concepção do amor como um discurso de esquerda, antifascista, anticolonial.  Para minha surpresa, o poeta era um cabo-verdiano residente em Portugal, vivendo, portanto, na diáspora, o fascismo e o colonialismo ao mesmo tempo.

Encantei-me com o texto e passei a ler toda a obra de Daniel Filipe a partir de um texto que era declamado na clandestinidade, que era cantado, como bandeira revolucionária.

Defendi a dissertação em 1979 (em termos cronológicos, o primeiro trabalho, em nível de Pós-graduação stricto sensu, no Brasil na área de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e o segundo no mundo), como texto acadêmico pioneiro. Mais tarde, ao iniciar uma coleção chamada TESE, o Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco publicou a dissertação como seu primeiro volume, homenageando um trabalho considerado basilar para a área de estudos.

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Nesse sentido, a senhora e a sua geração foram de fato responsáveis pelo surgimento dos estudos das literaturas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) tanto no Brasil quanto no contexto internacional, correto? Como se deu a constituição desse campo de estudos? Foi algo bem aceito desde o início, ou vocês enfrentaram resistência das instituições à época?

Sim, correto. Foi uma geração de pioneiros e, sobretudo, pioneiras no Brasil e nosso trabalho teve e ainda tem eco nacional e internacional.

Citarei como exemplo minha atuação em vários centros universitários do Brasil, dos países africanos de língua portuguesa e de Portugal, França, Espanha, Estados Unidos da América, Reino Unido, Macau, com a difusão de artigos, capítulos de livros publicados, obras acadêmicas autorais de teoria e crítica literária, coletâneas críticas e antologias literárias organizadas de vários autores, solicitações de prefácios e posfácios por escritores; fui agraciada em concursos com várias bolsas de pesquisa (para Pós-Doutoramentos) obtidas para estudos no exterior, convidada para assessorias em universidades como Sorbonne, Harvard, Minnesota, Massachussetts, King’s College como avaliadora de processos seletivos de professores, bem como de projetos, além de participações em eventos/lives nacionais e internacionais, destacando-se a abertura ou encerramento de eventos.

Como distinções, fui a homenageada de honra, pela comemoração dos meus 70 anos, de um evento internacional (VI Encontro de Letras com a Diversidade e I Encontro Brasil Cabo Verde, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, novembro de 2020) sobre Cabo Verde, tive publicada coletânea de artigos em minha homenagem pelos alunos e ex-alunos de Pós-Graduação das Universidades de São Paulo, Mato Grosso, Federal Fluminense e Federal do Rio de Janeiro (Literatura cabo-verdiana: leituras universitárias, 2015, UNEMAT) e ainda recebi comenda pela contribuição à divulgação e estudo da cultura de um país africano (Medalha do Vulcão de Primeira Classe outorgada pela Presidência da República de Cabo Verde, 2007), sendo ainda admitida como membro da primeira Academia de Letras dos PALOP (Academia Cabo-verdiana de Letras, para a criação da qual assessorei o seu futuro Presidente, Corsino Fortes).

A construção do campo de estudos foi lenta a partir da década de 1970 (quando esses hoje países africanos ainda eram colônias, não se constituiam como Estados independentes, e estavam submetidos à ditadura salazarista), porém plena em frutos que podemos constatar na expansão da área na atualidade, com cursos espalhados por todo o Brasil e redes no exterior. Funcionávamos de início com um sistema de empréstimo de obras, por escassez de bibliografia disponível no Brasil, por intercâmbio entre os poucos pesquisadores/as e introdução discreta da literatura dos PALOP em cursos de extensão, depois Pós-Graduação e, por último, com disciplinas na Graduação, todas essas em caráter panorâmico dos PALOP.

Praticamente nos últimos 14 anos despontaram disciplinas específicas na Graduação, como a denominada “Literaturas Africanas III: Cabo Verde” (que o entrevistador comigo teve a oportunidade de cursar), implantada em 2007 na Universidade de São Paulo, no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, por demanda da equipe de Africanas então atuante naquela universidade e sob minha responsabilidade desde então. Mas a tônica, tanto em Portugal quanto nos países africanos e no Brasil é ainda trabalhar com as cinco Literaturas Africanas de Língua Portuguesa em modo panorâmico ou acopladas às literaturas de Portugal ou Brasil, o que considero não ser o ideal, porque cada sistema literário dos PALOP já tem a sua especificidade, alguns suas Academias e vários escritores premiados em âmbito nacional e internacional. Até os dias de hoje há resistências em se implantar as literaturas dos PALOP como disciplinas independentes e/ou obrigatórias nas grades curriculares brasileiras, permanecendo em geral como eletivas ou optativas na Graduação e esporádicas na Pós-Graduação.

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Nós sabemos que Cabo Verde é um arquipélago na costa da África Ocidental que foi colonizado pelos portugueses a partir de meados do século XV. Essas ilhas eram povoadas antes da chegada dos europeus? E temos informações sobre outros trânsitos marítimos entre outros povos e esses territórios antes que o processo de colonização de fato se iniciasse?

As ilhas de Cabo Verde, segundo os textos históricos (cf. Daniel Pereira), eram desabitadas quando lá chegaram os portugueses, comandados por António da Noli e Diogo Afonso, por volta de 1460. O povoamento começou a realizar-se por europeus entre 1461 e 1462, na ilha de Santiago (depois, a partir de 1466, transportando-se africanos do continente para escravatura) e o principal motivo da ocupação das ilhas de Santiago e Fogo, inicialmente, foi a posição estratégica do arquipélago de Cabo Verde, situado entre 3 continentes (África, América e Europa) como base de apoio logístico à navegação atlântica, para abastecimento de navios em água e víveres. A armada de Vasco da Gama, a caminho da Índia, ancorou na Vila da Praia (1497) e Pedro Álvares Cabral, a caminho do Brasil, fez escala em Cabo Verde, em 1500, assim como Cristóvão Colombo, durante sua terceira viagem (1498).

Pelos documentos oficiais, os portugueses, quando chegaram à ilha de Santiago, encontraram “só multidão de aves e pescaria”, mas nenhum ser humano. Alguns historiadores contestam, relatando que as ilhas de Cabo Verde figuravam em mapas variados antes do século XV e eram também conhecidas por africanos, gregos e geógrafos árabes, mas a ocupação humana das ilhas só se deu efetivamente com a chegada dos portugueses em 1460.

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Um aspecto que sempre me interessou quando penso em Cabo Verde é justamente o fato do país ser um arquipélago. O quanto isso influenciou positiva ou negativamente a constituição de um sentimento de unidade cultural entre as ilhas que o compõem? Os mitos fundadores de um imaginário que hoje podemos chamar de nacional levam em conta a totalidade do arquipélago, ou esses mitos lidam mais com aspectos locais de cada ilha?

Cabo Verde é mais do que isto. Denomino-o de “uma pátria entre mundos”. É um país arquipelágico, insular, mas que se estende ao mundo, porque tem na diáspora quantitativo de cidadãos muito maior do que nas 9 ilhas habitadas (estimada em 564.065 habitantes). De acordo com dados de 2020, em todo o mundo, fora do arquipélago, vivem mais de 800 mil cabo-verdianos ou descendentes. Desses, mais de 45% da população total das 9 ilhas habitadas cabo-verdianas vivem nos Estados Unidos da América.

O que une tanto as ilhas quanto os habitantes da chamada 11ª ilha (a diáspora) são as tradições, a cultura, moeda de troca mais importante de Cabo Verde, segundo Amílcar Cabral: a língua (o “crioulo” de base portuguesa), a música (da qual se destaca a modalidade denominada “morna”), a culinária à base de milho, o batuque (ritual feminino ancestral que remonta aos serões dos escravizados depois do trabalho), entre outras manifestações originárias. Onde esteja, o cabo-verdiano leva a sua cultura e se une na morna, na coladeira, no batuque, na cachupa… mesmo guardando a diversidade da história de sua ilha natal ou adotando os costumes do país de acolhimento (EUA, Portugal, Brasil, Itália, Holanda, Macau etc).

O imaginário das ilhas de “morabeza” (amorabilidade) é uma tônica na história da literatura e nas lendas sobre o arquipélago, referindo ora as ilhas hesperitanas (repletas de árvores com frutos de ouro), ora as ilhas restos da submersão da Atlântida, ora a ilha que os habitantres da diáspora sonham em conhecer como terra de seus pais… o imaginário insular povoa a mente do cabo-verdiano, esteja onde estiver.

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Pensando nessa questão da diáspora, quando se estuda a literatura cabo-verdiana atualmente, há um interesse maior pelas letras produzidas por cabo-verdianos em países estrangeiros, ou os estudos tendem a se centrar naqueles que vivem nas 10 ilhas e, em certa medida, em Portugal? Há exemplos de escritores e escritoras cabo-verdianos/as em diáspora que recebem hoje uma atenção considerável da crítica?

            Primeiro esclarecimento: só 9 ilhas de Cabo Verde são habitadas, a ilha de Santa Luzia é apenas uma reserva natural. Os escritores mais estudados têm sido os ilhéus e os que se deslocaram para Portugal, em virtude de dominarem o mercado editorial de Cabo Verde e da diáspora portuguesa. O arquipélago teve uma (o Instituto Cabo-verdiano do Livro) e depois pouquíssimas editoras durante muito tempo, o que dificultou bastante a divulgação das obras literárias nacionais. Editoras portuguesas publicavam mais, com destaque para Daniel Filipe, Manuel Lopes, Germano Almeida (Prémio Camões 2018), entre outros cabo-verdianos.

Hoje, com mais editoras nas ilhas e com a fundação de editora de cabo-verdianos em terras lisboetas, temos a oportunidade de conhecer obras como a do Prémio Camões 2009 Arménio Vieira, de Carlota de Barros, Dina Salústio, José Luís Hopffer Almada e José Luís Tavares (hoje residentes na capital portuguesa), de Maria Helena Sato (residente em São Paulo, Brasil) e de Luis Romano (falecido em Natal, Brasil), entre outros autores. Obras poéticas como as de António de Névada (residente em Portugal) e Teobaldo Virgínio (que viveu na diáspora norte-americana) também merecem um olhar mais demorado da crítica, bem como os poemas do guineense de ascendência cabo-verdiana Amílcar Cabral.

A crítica acadêmica específica sobre obras cabo-verdianas nunca teve no Brasil, durante décadas, o mesmo interesse daquela sobre obras angolanas ou moçambicanas, sobretudo porque o mercado editorial brasileiro despertou há pouco tempo para o “nicho” cabo-verdiano, verdadeiro filão à espera de ser explorado; mas também porque havia dificuldade em trazer obras produzidas no arquipélago e na diáspora cabo-verdiana para o nosso país, por motivos vários, inclusive correio e transporte. Muitas obras foram introduzidas, e isso me tem dado imenso prazer, pelo meu trabalho de investigação, minhas conferências e aulas nas universidades, pelo sistema de fotocópias que disponibilizava, plantando sementes que até hoje frutificam, desde a década de 1970.

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Quando pensamos na colonização europeia da África, um dos primeiros temas que surgem é justamente o da barbárie da escravização de povos africanos e a vasta rede de comércio escravista que se desenvolveu sobretudo no Oceano Atlântico. Qual foi o impacto desse processo escravista na sociedade e na história cabo-verdiana e o papel desempenhado por Cabo Verde nessa rede de comércio de pessoas escravizadas?

No processo expansionista europeu, Cabo Verde, situado no cruzamento das rotas do Oceano Atlântico, foi a plataforma giratória que os portugueses escolheram para o comércio de víveres, produtos e pessoas. O sistema esclavagista foi instituído a partir de 1466, com a importação de africanos da Costa da Guiné (que era vasta) para a ilha de Santiago. Desfavorável à ocupação humana devido à sua aridez desértica, a ilha foi palco de experimentação de espécies agrícolas e funcionou como entreposto escravista até a abolição da escravatura, em 1876. A identidade cabo-verdiana tem a marca indelével do negro africano, segundo Daniel Pereira (Das relações históricas Cabo Verde/Brasil, 2011, p. 26). António Carreira relata que, à época da ocupação, os portugueses fixados em Cabo Verde eram minoria, sendo enorme o contingente de africanos escravizados e de etnias variadas, o que muito cedo contribuiu para o nascimento de um pidgin (o “crioulo”), que, mais tarde, transformou-se na língua cabo-verdiana.

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Uma impressão que sempre tive ao ler textos sobre os estudos de literaturas dos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOPs) é que os especialistas parecem sempre iniciar seus estudos já no século XIX. Como alguém que estuda as velharias coloniais luso-brasileiras, isso sempre me causou algum estranhamento. O que nós sabemos sobre a literatura produzida em Cabo Verde antes do século XIX? Pensando em paralelos com o Brasil, nós também temos em Cabo Verde aquela vasta produção encomiástica colonial que encontramos por aqui, principalmente em contextos de festas públicas em homenagem a figuras ilustres do mando colonial? 

É corrente nos estudos africanos acadêmicos situar a produção literária após o aparecimento do prelo nas colônias. Mas é necessário rever alguns dados.

Manuel Ferreira (FERREIRA, Manuel. Literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa, 1977. V.1, p. 13 e 100) cita, como ensaístas precursores de uma temática cabo-verdiana, os escritores André Álvares de Almada, cabo-verdiano, com seu Tratado breve dos reinos (ou rios) da Guiné (1594) e André Dornelha(las), de origem cabo-verdiana, elaborador da Descrição da Serra Leoa e dos Rios de Guiné e do Cabo Verde (1625).

Em nossos projetos “Para uma história do conto cabo-verdiano” e “Para uma história da literatura cabo-verdiana”, desenvolvidos nas Universidades de São Paulo e Aveiro, já ressaltávamos a importância da literatura de viagens para o nascimento de uma literatura de temática cabo-verdiana, na expressão de seu dilema principal, partir/ficar, numa perspectiva de espaço.

A vocação migratória e transnacional assoma desde os primórdios da Literatura Cabo-verdiana, na literatura de viagens, que expressava o desejo dos habitantes da ilha de Santiago de alcançar e povoar a fresca Serra Leoa (na chamada costa da Guiné), como alternativa às secas e aos traumas das fomes cabo-verdianas, como a de 1583, na ilha de Santiago.

Os escritos encomiásticos não foram comuns na produção de Cabo Verde. Mas valerá a pena uma imersão nos Almanaques de lembranças (Luso-brasileiro e Luso-africano) para verificar esta vertente.

Uma investigação atenta à produção de cabo-verdianos espalhados pelas sete partidas do mundo deverá retomar também, por exemplo, o ilustre nome de Antónia Gertrudes Pusich (S. Nicolau, 1805 – Lisboa, 1883), poeta, jornalista e uma das primeiras mulheres a incitar que estas se instruíssem e se lançassem à escrita. Como ressalta Manuel Ferreira, da lavra desta cabo-verdiana surge, provavelmente, “a mais antiga obra literária de um autor africano” (FERREIRA, Manuel. Literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa, 1977. V.1. p. 13), o poemeto “Elegia à memória das infelizes victimas assassinadas por Francisco de Mattos Lobo, na noute de 25 de junho de 1844 (sic)”, publicado em Lisboa. Ferreira data o poema de 1844, mas, na verdade, o texto se refere ao crime cometido por Francisco de Mattos Lobo em 25 de julho de 1841, sendo este o ano provável da publicação da obra de Pusich. O filme realizado por Francisco Manso, “O último condenado à morte”, de 2009, alude à pena sofrida pelo assassino de toda uma família, enforcado a 17 de abril de 1842, drama retratado por Antónia Pusich.

Assim, embora se afirme nos manuais mais conhecidos de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa que a publicação, em 1849, de Espontaneidades da minha alma, do angolano José da Silva Maia Ferreira, seja a primeira produção africana de Língua Portuguesa, a menção do trabalho de Antónia Pusich, brilhante intelectual que iniciou seus escritos literários e políticos por volta de 1841 (um ano antes da instauração do prelo em Cabo Verde, a primeira colônia a possuir uma Typographia Nacional) e com publicações em jornais e revistas portugueses, realizando ainda numerosas conferências e outras intervenções públicas, já nos incita a um resgate de textos invisíveis no cânone em seu atual estado da arte, publicados, inclusive, fora do arquipélago (confira-se também Henrique Vieira de Vasconcelos, 1876, nascido na ilha do Fogo e falecido em Lisboa, 1924, diplomata, escritor e jornalista, com vasta obra publicada na transição do século XIX para o XX, citado por FERREIRA, 1977, p. 22).

É ainda Antónia Gertrudes Pusich que funda e dirige, em 1849, em Lisboa, A Assembleia Literária, jornal consagrado ao sexo feminino, um marco na divulgação da escrita de mulheres, já que a partir dele seus nomes (e não mais pseudônimos, muitas vezes masculinos, como nos Almanaques) passavam a constar regularmente junto aos respectivos artigos. Na senda de Pusich, numerosas mulheres vieram a destacar-se nos jornais literários, de moda, noticiosos ou políticos, o que representou o início de uma luta pela sua visibilidade e pelo seu reconhecimento para além do agregado familiar, no espaço público. Meu trabalho de pesquisa tem profundo interesse pela produção de mulheres e de sua contribuição para o edifício do cânone literário cabo-verdiano na sua real dimensão.

Ressalto outras iniciativas de vulto, como a instalação da Typographia Nacional e a publicação do Boletim Official do Governo-Geral de Cabo-Verde, em 1842, sucedidas pelo incremento, por parte do Governo da Metrópole, à instrução pública no Ultramar, com a criação da Escola Principal de Instrução Primária de Cabo Verde (Brava, 1847), do Lyceu Nacional da Província de Cabo Verde (Praia, 1860) e do Seminário Eclesiástico da Diocese de Cabo Verde (S. Nicolau, 1866), que adubaram o solo para a formação da série literária cabo-verdiana.

Avulta, pois, a necessidade de acompanhar os processos de sua formação e consolidação, buscando também desvendar certas obras ou iniciativas que, até então, têm sido silenciadas ou minimizadas pela crítica, como as já citadas de Antónia Pusich, de Henrique Vieira de Vasconcelos e da recém-descoberta em nossas pesquisas, Maria de Spencer Freitas (poeta), com publicações esparsas provavelmente anteriores (1818) às de Antónia Gertrudes Pusich, que demandarão mais minuciosa investigação.

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Tendo todos esses antecedentes (muitos que são de fato desconhecidos do público, mesmo entre acadêmicos) em vista, como a literatura cabo-verdiana se desenvolve desde o surgimento do prelo até os dias atuais? É possível traçarmos um paralelo histórico entre as principais tendências estéticas em voga nas ilhas e o que se desenrolou em outras colônias portuguesas, seja no Brasil ou nos outros países africanos de língua portuguesa, ou Cabo Verde teve um desenvolvimento literário bastante independente do resto do mundo lusófono?

Como já ressaltei em artigo publicado na década de 1990 (Rumos e tendências da poesia africana em língua portuguesa publicada nos anos 80/90. In: Flores verbais… Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995, p. 369-388), quando investigava a poesia dos PALOP produzida entre as décadas de 1970 e 1990, com bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, 1995), buscando tendências dominantes, com semelhanças e, claro, também especificidades, constatei um processo que parte de temas comuns a um momento de união das colônias em busca de libertação do fascismo (como o cantalutismo, os conteúdos revolucionários expressos em antologias como Na noite grávida de punhais, 1976, e O canto armado, 1980, organizadas para a editora lisboeta Sá da Costa pelo angolano Mário de Andrade, trazendo textos dos PALOP produzidos em geral antes das independências) e que empreenderá pouco a pouco um gradativo afastamento de uma retórica revolucionária eufórica e utópica para demonstrar outras linhas de criação como: preocupações ontológicas (o amor, a existência, a morte, a escrita), aguda visão crítica do real (utilizando os discursos do humor ou do desencanto, com imagens de decadência), culto do hedonismo e do erotismo, emergência de uma produção de autoria feminina,  inquirição do individual frente ao projeto coletivo,  exploração da alegoria, do ludismo, do experimentalismo na linguagem, a intertextualidade e a interlocução com outras artes (GOMES, Op. cit, 1995, p. 371).

De uma literatura que começa sua história com escritos de viagens (processo semelhante ao da literatura brasileira) com intuito de expansão geográfica das ilhas áridas para a fresca Serra Leoa, a literatura cabo-verdiana vai percorrendo, na sua viagem, caminhos que passam pela produção do século XIX (com a pioneira Antónia Gertrudes Pusich, publicando em Lisboa sua poesia antes do surgimento do prelo em Cabo Verde, com Eugénio Tavares, José Lopes e Pedro Cardoso fundando sua poesia no solo de cada uma de suas respectivas ilhas natais) e se espraia pelo arquipélago como espaço estendido de identidade nos poemas de Jorge Barbosa. Ganha asas na poesia de Corsino Fortes, aliando Pão (Pátria sonhada) a Fonema (potência da letra), conseguindo equilibrar com mestria o discurso da nação que sonha em se libertar e afinal se liberta (Árvore & tambor) construindo-se, com a (des)construção da e na linguagem. Muito cedo, a literatura cabo-verdiana introduz novos olhares sobre a poética e a prosa dos PALOP, tecendo, com Corsino, Arménio Vieira, e depois Filinto Elísio e Jorge Carlos Fonseca o experimentalismo no poema e no romance, a radicalização da função do autor-leitor que discute em seus textos auto-reflexivos a própria literatura, a literatura mundial.

Pelo exposto, nota-se também que a noção de insularidade marca o início da produção literária do arquipélago (à diferença de literaturas continentais como as de Angola e Moçambique), partindo como referente espaço-cultural da ilha natal de cada escritor, estendendo-se às ilhas (Arquipélago, 1935, obra seminal de Jorge Barbosa) e, mais recentemente, marcando a vocação de Cabo Verde como ponte atlântica para o mundo, numa trajetória que, no momento colonial, imaginava as ilhas gradeadas pelo mar e hoje as concebe como possibilidade de trânsitos, como abertura planetária.

Em que pese a importância de obras como as de Francisco José Tenreiro, José Craveirinha, Luandino Vieira, Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Luís Carlos Patraquim, Noémia de Sousa, Alda Espírito Santo, Conceição Lima, Olinda Beja, Alda Lara, Paula Tavares, entre outros/as grandes criadores/as dos demais países africanos de língua portuguesa, algumas tendências despontaram com força na literatura de Cabo Verde no final do século XX e neste século XXI, como: a emergência de muitas escritoras que discutiam (e discutem) a hegemonia masculina no contexto e no sistema literário e davam (dão) protagonismo a mulheres em voz e ação; e como a emergência de discursos da diversidade e da desigualdade, conforme expressos, por exemplo, nas obras ficcionais de Evel Rocha (com destaque para Marginais, romance), Fernando Monteiro (Na roda do sexo, contos) e Helder Fortes (Dame um café).

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Professora, gostaria de encerrar a entrevista lhe pedindo um pequeno presente para os nossos leitores. Pensando em um leitor que até hoje nunca tenha tido contato com qualquer obra da literatura cabo-verdiana, mas que gostaria de começar a se enveredar por essas letras, a senhora poderia sugerir alguns autores e obras, sejam contemporâneos ou já canônicos dessa tradição? Além disso, caso a senhora pudesse apontar alguns(mas) autores(as) recentes cujas obras a senhora acredite que mereçam receber mais atenção do que têm recebido atualmente de nosso público leitor e da crítica, também seria algo muito bem-vindo aqui.

            São muitos os escritores que abrilhantam essa literatura. Citarei alguns, dando destaque aos que usam como meio de expressão a língua portuguesa, para facilitar a leitura aos brasileiros.

Considero canônicos, com obras-marco da Literatura Cabo-verdiana: Eugénio Tavares (poesia em língua portuguesa e Mornas, cantigas crioulas, em língua cabo-verdiana), Jorge Barbosa (poesia), Baltasar Lopes (Chiquinho, romance; “A caderneta”, conto), Manuel Lopes (Flagelados do vento leste, romance), António Aurélio Gonçalves (As virgens loucas, noveletas), António Nunes (Poemas de longe), Luis Romano (Famintos: romance de um povo), Daniel Filipe (A ilha e a solidão, A invenção do amor e outros poemas), Teixeira de Sousa (Ilhéu de contenda, romance), Corsino Fortes (A cabeça calva de Deus, poesia), Ovídio Martins (Gritarei, berrarei, matarei: não vou para pasárgada, poesia), Germano Almeida (O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, romance), Orlanda Amarílis (Cais-do-Sodré té Salamansa, contos), Vera Duarte (O arquipélago da paixão, poesia), Dina Salústio (Mornas eram as noites, contos), Fátima Bettencourt (Semear em pó, contos), Evel Rocha (Marginais, romance).

Mais recentes e que merecem mais fortuna crítica: Arménio Vieira (Prémio Camões 2009, que considero canônico pela sua importância na assunção de um olhar renovado para a série cabo-verdiana como literatura-mundo), tanto a obra poética quanto o romance No inferno; Jorge Carlos Fonseca (atual Presidente da República de Cabo Verde), com seu O albergue espanhol. Essas duas obras podem ser lidas no diapasão do anti-romance ou do questionamento da forma do romance burguês, dentro da concepção dos dois escritores de que tudo é… Poesia. Já fiz a leitura comparativa dessas obras-primas em ensaio sobre a obra poética de Fonseca, na publicação em homenagem aos seus 70 anos (2021), mas o filão pode (e deve) ser desenvolvido, apontando ainda para o tópico atualíssimo da Literatura-mundo (que merece também considerações, por ser tema frutífero na literatura de Cabo Verde e não somente).

As obras de Abraão Vicente, António de Névada, Carlota de Barros, David Hopffer Almada, Daniel Medina, Danny Spínola, Eurídice Monteiro, Ivone Aida, João Vário, Joaquim Arena, José Lopes Graça, José Luís Hopffer Almada, José Vicente Lopes, Kaká Barbosa, Madalena Neves, Mário Fonseca, Margarida Fontes, Mário Lúcio Sousa, Ondina Ferreira, Onésimo Silveira, Oswaldo Osório, Tchalé Figueira, Tomé Varela da Silva, Vadinho Velhinho, Vasco Martins, entre outros, também merecem mais atenção da crítica, embora tenham sido objeto de aulas, trabalhos de alunos em níveis de Graduação e Pós-Graduação, e publicações ao correr de mais de quatro décadas de meu contato prazeroso com essa literatura. Ressalto ainda os escritores que usam como meio também a língua cabo-verdiana: o já citado Eugénio Tavares, Corsino Fortes, e os mais recentes Kaká Barbosa, Danny Spínola (Euricles Rodrigues) e Tomé Varela.

Fico à disposição para continuarmos esta viagem pela cultura e literatura cabo-verdianas e agradeço imensamente a oportunidade de divulgá-la mais uma vez.

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(Alex Paganelli/Unsplash)

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Caio Cesar Esteves de Souza

Caio Cesar Esteves de Souza é formado em Letras pela FFLCH-USP, onde também desenvolveu pesquisas de pós-graduação por vários anos. Publicou as Obras Poéticas de Alvarenga Peixoto em 2020 pela Ateliê Editorial, com o apoio do David Rockefeller Center for Latin American Studies (DRCLAS). É tradutor do inglês e tem interesse em poesia, prosa e história sobretudo anteriores ao século XIX, nas mais diversas tradições letradas. Atualmente, desenvolve seu doutorado em Romance Languages and Literatures na Harvard University (EUA). Já apresentou os resultados de suas pesquisas em diversos congressos no Brasil, Portugal, Itália, Polônia e EUA. e-mail: caio.esteves.souza@gmail.com