Roberto Calasso: a serviço dos “livros únicos”

por Ana Carolina Romero

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Na noite da quarta-feira, 28/07, faleceu em Roma o escritor e editor italiano Roberto Calasso. Enquanto lia algumas reportagens a respeito de sua morte, encontrei o que me pareceu um bonito ponto de partida para os feitos que Calasso viria, mais tarde, a concretizar. Desde muito novo, Calasso esteve profundamente envolvido com a literatura. Aos treze anos, por exemplo, já tinha lido “Em busca do tempo perdido”, de Proust.

O envolvimento de Calasso com a literatura foi precoce porque também foi precoce sua capacidade de se apaixonar — seja por uma palavra, uma frase, um parágrafo, como pela beleza ou honestidade de uma ideia. Essa precocidade me parece ainda ser explicada pelo fato de a literatura ser muito natural à existência de Calasso, como se reconhecessem e pertencessem um ao outro desde o primeiro contato.

O pertencimento literário de que não mais se desvencilhará é ilustrado por Calasso por meio da imagem de uma linha: “Todo verdadeiro leitor”, escreve, “segue uma linha (se há cem linhas ou apenas uma, é indiferente). Cada vez que abre um livro, recupera a mesma linha e a enrosca, trapaceia, desata, amarra, estica […]”.

Por vezes, o vínculo mantido entre Calasso e os livros aparenta roçar o místico. Segundo o escritor, seria possível, por exemplo, que livro e leitor intuíssem uma identificação entre si, mesmo que anos antes de ela efetivamente ocorrer. O leitor teria um arrebatamento antecipado que fugiria de sua compreensão, mas ao qual obedeceria, como alguém atento a um presságio. Nesse sentido, é interessante a retomada de um trecho do livro Come ordinare una biblioteca:

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 “É essencial comprar muitos livros que não serão lidos imediatamente. Então, depois de um ano, dois anos, cinco, dez, vinte, trinta, quarenta, pode chegar o momento em que você pensará que precisa exatamente daquele livro — e então talvez o encontre numa prateleira pouco visitada da sua biblioteca. Nesse meio tempo, pode acontecer de o livro ter se tornado indisponível e difícil de ser encontrado até mesmo em lojas de antiguidades, dado o seu baixo valor comercial (algumas brochuras parecem ter a capacidade de se dissolver, rapidamente, no ar), ou então porque se tornou uma raridade e agora vale muito mais. O importante é que agora você pode lê-lo imediatamente. Sem ter de buscá-lo, sem ter de tentar encontrá-lo em uma biblioteca. Tarefas trabalhosas que esmagam a inspiração do momento. Sensação estranha, quando o livro se abre. Por um lado, a suspeita de ter antecipado, sem saber, a própria vida, como se um demônio sábio e malicioso tivesse pensado: ‘Um dia, você se envolverá com os bogomilos, ainda que por ora não saiba quase nada a respeito deles.’ Por outro lado, uma sensação de frustração, como se não conseguíssemos nunca reconhecer aquilo que nos diz respeito — a não ser com um grande atraso.”

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Torna-se nítida, portanto, a importância que o escritor italiano dedica aos livros — eles são, sobretudo, o espaço em que se torna possível que passemos a conhecer a nós mesmos. Em realidade, eles brincam e intermediam uma espécie de acesso à consciência daquilo que somos. Nessa concepção se encontra o princípio de como Roberto Calasso enxergou a literatura — como um instrumento precioso de investigação de nós mesmos. A literatura recusa a servilidade, nega quaisquer propósitos que sejam externas a ela mesma. É precisamente nessa autonomia que ela reivindica para si que, segundo Calasso, está a possibilidade de um conhecimento profundo da psique e existência humana.

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Calasso

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A fundação da Adelphi

A busca por essa literatura de descoberta é o que faz com que, em 1962, seja fundada a Adelphi, casa editorial italiana da qual Roberto Calasso foi o diretor. A proposta, muito inovadora para a época, era a de que o trabalho editorial constituísse um gênero literário, como também a de que o catálogo selecionado por um determinado editor fosse interpretado como uma espécie de biografia dele próprio.

A Adelphi também surge como uma resposta a uma cultura editorial italiana que já não parecia interessada em se aventurar ou se reinventar. Friedrich Nietzsche, por exemplo, teve a publicação de sua obra negada pela então maior editora italiana, Einaudi. A recusa em publicar Nietzsche funcionou como um estopim para que se reconhecesse a urgência, na Itália, por outra casa editorial que se propusesse a publicar os livros que Calasso classificou como “únicos”.

O que seriam, precisamente, os “livros únicos”? Em A marca do editor, publicado no Brasil pela editora Âyiné, o editor italiano responde: um livro único “é aquele em que imediatamente se reconhece que aconteceu alguma coisa ao autor e essa coisa terminou por se depositar em um escrito” (p. 14).  Assim, a escrita em si, a experiência da qual se originará o livro, é tão importante quanto modo como ela estará comprometida com o que Calasso entendia ser a investigação da vida humana.

Dada a importância devida à “coisa” que se deposita “em um escrito”, um livro único necessita também daquilo que Calasso define, termo que se origina com Bobi Bazlen, crítico literário e também consultor editorial da Adelphi, como “tom exato” (p. 17): não bastaria que o escritor vivenciasse um evento de importância considerável, mas que também fosse capaz de transpô-la em toda a sua potência para as páginas de um livro. Apesar desse processo de elaboração aparentemente complexo, Calasso pontua que não é exatamente o escritor quem se pretende autor de um livro único — em realidade, o livro único, por necessidade de passar a existir, é que se serve do escritor como intermédio.

É a partir dessa visão — a de um livro que deseja urgentemente se afirmar vivo — que Calasso opera enquanto editor. O surgimento da Adelphi se faz necessário para que que aos livros únicos não seja reservado o esquecimento. É graças ao trabalho de Calasso na Adelphi que Friedrich Nietzsche e Milan Kundera, por exemplo, puderam ser lidos pela primeira vez na Itália.

Dos escritores, assim como dos editores, deve ser sempre celebrada a habilidade de não apenas dar importância às experiências vivenciam, reconhecendo nelas o potencial de alcançar algumas das incógnitas da existência humana, como também a de se deixarem levar pelas necessidades da escrita; a de darem um passo para trás para que a escrita venha à frente e assuma as rédeas, assentindo ao aspecto irrevogável de sua urgência em se realizar.

Na ausência da casa editorial Adelphi, na ausência de Calasso, a cultura livresca na Itália seria, certamente, outra — e seriam muitos os livros únicos que permaneceriam provavelmente inertes, na expectativa de um dia talvez serem descobertos. Não se cumpriria, na Itália, sem Adelphi ou Calasso, o propósito incontornável de um livro único — o de se fazer vivo e de cumprir com a própria existência no momento em que nos faz descobrir um elemento a mais, até então desconhecido ou ocultado, da nossa própria.

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(Detalhe de L’innominable attuale em edição da Adelphi)

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Ana Carolina Romero

Ana Carolina Romero é mestre em Literatura Comparada pela Universidade Estadual de Londrina. Atualmente traduz e colabora com a editora Âyiné.