Dante Alighieri: uma vida em cinco documentos

por Eduardo Henrik Aubert

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Ouvindo o nome de Dante Alighieri (1265-1321), é possível que o leitor imagine um homem sério, retratado de perfil ou em três quartos, trajado em túnica vermelha e coroado de louros. É assim que o Poeta figura em retratos como o de Domenico de Michelino, na Catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença (datado de 1465), o de Sandro Botticelli, hoje na coleção Bodmer em Genebra (de cerca de 1485), o de Rafaello Sanzio, na pintura mural da Stanza della Segnatura, nos Museus Vaticanos (remontando a 1509-1511), entre muitos outros. Talvez nessa imagem mental Dante segure ainda um livro — sua Comédia — como não apenas na detalhada alegoria de Michelino, mas também na mais sugestiva figuração de Bronzino, hoje em coleção particular (por volta de 1530).

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O Dante de Domenico de Michelino

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Imaginando-o assim, o leitor estará prestando homenagem a um sonho de Dante, que pretendia ser coroado de louros, em razão de sua Comédia, no batistério florentino de São João Batista, onde fora batizado em pequeno: “com outra voz então, com outros trajes / retornarei poeta, e na fonte / do meu batismo, tomarei a coroa” (Pd., 25, 7-9). O modelo perseguido por Dante era a coroação poética de seu contemporâneo, o literato paduano Albertino Mussato (1261-1329), laureado em 1315, na sequência da publicação de uma muito apreciada tragédia de veio senequiano, intitulada Ecerinis, reinventando uma nebulosa tradição de coroação poética que depois seria continuada por Petrarca (1304-1374), em 1341, e, em sua esteira, por uma série de humanistas. É nesse contexto, mais precisamente em 1337, que um dos três manuscritos mais antigos da Comédia, copiado por Francesco di ser Nardo, representa Dante coroado de louros por uma figura que vem diretamente do Céu, na página em que se abre o Paraíso.

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Manuscrito Milano, Biblioteca dell’Archivio Storico e Civico e Trivulziana, 1080, f. 70r (detalhe, em Enrico MALATO. Introduzione a La Divina Commedia. Roma: Salerno, 2020)

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A imaginação autobiográfica de Dante é poderosa; o vigor da retratística que emana do declarado intento de tornar-se poeta laureado é apenas um de muitos exemplos dessa capacidade de irradiação da imaginação de Dante sobre si mesmo; desde seus primeiros poemas, fala sobre si, ao mesmo tempo em que vai falando das personagens que gravitavam ao seu redor. Ao mencionar uma “imaginação autobiográfica”, corremos o risco de ser mal compreendidos: “imaginação” aqui não é ilusão ou engodo. Afinal, a fantasia da láurea vem corretamente modalizada como desejo, ainda que com reverberações daquele harmônico profético que infunde todo o texto da Comédia.

Mais que isso, a imaginação autobiográfica de Dante, e mais amplamente sua imaginação biográfica, ao falar de amigos e inimigos, pequenas e grandes personagens de seu tempo, não é tampouco mera função de um pacto literário banalmente ficcional: Dante não está imaginando um mundo que não existe, mas apresentando, dentro do específico pacto literário que estabelece com seu leitorado pretendido, uma imagem existencial, e sobretudo salvífica, do mundo real que ele e seus leitores efetivamente conhecem. A poética de Dante é intervenção na realidade fenomênica que a pressupõe referencialmente e quer dá-la a conhecer, com empenho e engajamento, sob uma peculiar óptica, que trataremos de explorar ao longo desta série.

Desse modo, tanto quanto conhecer as Escrituras e a grande épica antiga, especialmente a Eneida, de Virgílio (70-19 a.C.), conhecer a vida de Dante é fundamental para entender o que ele está a fazer ao transfigurar os referentes da vida em seu poema. Por certo, não se trata de anuir com a provocativa sugestão do romântico August Wilhelm Schlegel (1767-1845), para quem, “se houvesse uma boa biografia de Dante, essa obra tornaria supérflua toda outra introdução à Divina Comédia”. Não é, afinal, uma vida pronta que vem passivamente revelada no poema; é antes um gesto, a um só tempo inextricavelmente poético e humano, social e existencial, que está sendo operado por Dante ao escrever a Comédia.

Desse modo, seria interessante se pudéssemos de algum modo nos colocar — imaginativamente apenas, por certo — em posição externa e coetânea à Comédia para captar o gesto do Poeta. Para tanto, embora as biografias antigas de Dante sejam muito interessantes, elas são já reflexivas: olham para a vida como que de dentro, ou de cima, a posteriori. É essa a apreensão do primeiro grande biógrafo de Dante, Giovanni Boccaccio (1313-1375), que imagina uma existência toda predestinada à realização daquela obra, ao passo que seu grande opositor na matéria, o humanista Leonardo Bruni (1370-1444), pretendeu antes que a vida de Dante foi muito além de seu esforço literário e se desenvolveu em grande medida independentemente dele.

Há, no entanto, outra via para abordar a transfiguração da realidade fenomênica em Dante. Trata-se do rico conjunto de “documentos”, “atos da prática”, ou “diplomas” em que se vazou parte de sua ação no mundo. Por esses termos, designa-se um tipo muito especial de escrito, explorado por uma disciplina própria, a “diplomática”: aqueles textos de relevância jurídica produzidos em momentos de destacada centralidade nas relações interpessoais. Mais especificamente, são textos que funcionam ou como instrumentos (isto é, permitem que um ato jurídico adquira validade e eficácia) ou como documentos em sentido estrito (vale dizer, capazes de fazer prova de um fato jurídico que pode adquirir validade e/ou eficácia por outros meios). São tratados entre entidades políticas, atas de reuniões públicas, contratos de compra e venda, doações, matrículas em corpos profissionais e mais uma miríade de outros textos.

Esses testemunhos, aderentes ao mundo social de Dante, embora em muito menor quantidade do que gostaríamos, existem em relativa abundância, devido ao entrecruzamento de dois fatores: de um lado, o desenvolvimento de uma vibrante cultura notarial nas cidades italianas dos séculos XIII e XIV, de modo que a juridicidade dos atos vai se colando à forma escrita, seja como instrumento, seja como documento; de outro lado, o fato de que Dante esteve, em parte significativa de sua vida, em posições sociais que eram captadas por esse filtro escrito, vale dizer, em posições sociais que gozavam de relevância para a cultura notarial. É evidente que com isso não se esgota o mundo fenomênico dantesco, mas abre-se uma entrada de grande interesse para ele.

Essa documentação foi editada conjuntamente, e concebida, assim, como um corpus, desde 1895, em diferentes empreendimentos editoriais, sob a denominação de Codice Diplomatico Dantesco (CDD, sigla que passamos a adotar). Recentemente, em 2016, em edição primorosa, foram publicados 675 “diplomas” pertinentes à vida de Dante, incluídos seus antepassados e descendentes, em comparação com os 49 da primeira edição do CDD. Desses textos, selecionamos cinco (numerados de acordo com a mais recente edição), que serão na sequência objeto de tradução, parcial ou integral de um breve comentário destinado a dar alguma ideia dessa vida que se exibia para Dante, permitindo-lhe operar transfigurações em sua obra.

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O avô e os tios de Dante emprestam dinheiro a seu pai (CDD 13, 22 de março de 1246)

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Na sequência, no mesmo dia. Redigido em Prato, diante da casa de Accordo di Segadori, estando presentes Belcortese, filho do falecido Cancelliere, Ugolino, filho de Pratolino e Bartolomeu de Melchio, testemunhas requisitadas. Alighiero, filho de Bellincione, declarando que seria emancipado, declarou ter efetivamente recebido e deter em mútuo, da parte de seu pai Bellincione e de seus irmãos, Bello, Gherardo e Donato, cem libras de denários pisanos de boa cunhagem. O mesmo Alighiero prometeu e acordou, por si e por seus herdeiros, restituir e pagar esses denários a seu pai e a seus mencionados irmãos daqui a cinco anos, com os seus rendimentos e lucros, conforme determinar seu pai Bellincione anualmente; e, se, antes do termo final do prazo, obtiver os referidos denários, prometeu dar-lhes anualmente aqueles rendimentos e lucros que disser e quiser o mesmo Bellincione relativamente aos referidos denários. E prometeu não recorrer, etc., não provar o pagamento, etc., a não ser apenas por meio de ato escrito, etc.. Respondem pela dívida todos os seus bens, etc.. Renunciou, etc..

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Trata-se aqui da minuta de um diploma escrito pelo notário Iacopo di Pandelfino, em um livro de minutas que contém atos de entre 1246 e 1262, do qual depois se produziu cópia por extenso (in mundum) a pedido de Bellincione e seus filhos, conforme anotação marginal. A colocação do ato em uma sequência de diplomas, como é próprio desse contexto de registro, vem bem indicada no princípio do texto (“na sequência, no mesmo dia”, item eodem die). Note-se que é por ser uma minuta (inbreviatura), em um momento sucessivo às anotações feitas diante das partes, que as cláusulas finais, inteiramente formulares, vêm abreviadas. Assim, por exemplo, em documento realizado no mesmo dia, uma das cláusulas não se abreviou: “E prometeram não recorrer, etc.; não provar o pagamento, etc.; a não ser apenas por meio de ato escrito ou por este ato cancelado” (CDD 12). É pela mesma razão que alguns elementos que certamente constariam no ato in mundum não se fazem presentes, como a “invocação”, a exemplo do “Em nome de Deus, amém”, com que se abre CDD 9. O texto vai direto para o “dispositivo”, o coração do diploma, isto é, o ato jurídico propriamente dito.

Este documento faz parte de uma série de operações econômicas realizadas por Bellincione (avô de Dante) e por seus filhos, Alighiero (pai de Dante), Brunetto, Drudolo, Gherardo e Donato (seus tios). Alguns desses atos, como aquele traduzido acima (conjuntamente com CDD 14 e 15), todos de mesma data, tratam da transferência de uma soma de dinheiro a Alighiero pelo pai e pelos irmãos, empréstimo que deveria ser pago com juros dentro de cinco anos. O conjunto dessas operações deixa claro que Bellincione, que emprestava dinheiro a juros, envolvera os filhos na mesma atividade profissional, alguns aparentemente já à frente de negócio próprio em 1246 (Brunetto e Drudolo), outros atuando ainda em conjunto com o pai (Bello, Gherardo e Donato). Alighiero justamente apresenta-se aqui no momento de sua emancipação, e certamente as cem libras de denários pisanos tomados à família eram capital a ser investido em seu negócio. Esse pequeno dossiê de 1246 permite estabelecer parte considerável da árvore genealógica de Dante, incluindo seu bisavô; afinal, em CDD 9, Bellincione é nomeado Bellincione Aleghieri, isto é, “Bellincione, filho de Alighiero”. Com o conjunto do CDD, chegamos a um quadro bastante estruturado da família.

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Árvore genealógica simplificada de Dante Alighieri, desprezados os ramos colaterais; os colchetes indicam datas em que essas pessoas são atestadas pela documentação, não suas efetivas datas de nascimento e de morte

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Como se vê, o pai e o avô de Dante, assim como seus tios, eram negociadores de dinheiro, ocupação que envolvia uma série de representações negativas diante da forte oposição da Igreja à usura, segundo a ideia de que o usurário ganha dinheiro com algo que pertence a Deus, e não a si, isto é, o tempo. Em um célebre tenso (ou tenzone, gênero medieval em que poetas dialogam por meio de poemas sucessivos, por vezes com duros ataques) entre Dante e Forese Donati, datável de entre 1283 e 1296, o pai de Dante figura em um soneto de Forese, intitulado L’altra notte mi venne una gran tosse (“Na outra noite, fui acometido de forte tosse”). Após uma noite passada tossindo por não ter nada com que se cobrir, Forese sai para “ganhar dinheiro onde quer que fosse”. Então, o destino lhe reserva a seguinte experiência:

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L’altra notte mi venne una grande tosse,

perch’io non avea che tener a dosso;

ma incontanente che fui di fui mosso

per gir a guadagnar ove che fosse.

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Udite la fortuna ove m’addusse:

ch’i’ credetti trovar perle in un bosso

e be’ fiorin coniati d’oro rosso;

ed i’ trovai Alaghier tra le fosse,

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legato a nodo ch’i’ non saccio ‘l nome,

se fu di Salomone o d’altro saggio.

Allora mi segna’ verso ‘l levante:

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E que’ mi disse: “Per amor di Dante,

scio’ mi”. Ed i’ non potti veder come:

tornai a dietro, e compie’ mi’ viaggio.

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Na outra noite, fui acometido de forte tosse,

pois eu não tinha com o que me vestir;

mas, tão logo raiou o dia, eu me dirigi

a andar para ganhar dinheiro onde quer que fosse.

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Ouvi aonde me levou o destino:

que eu pensei encontrar pérolas em uma vasilha

e belos florins cunhados com ouro vermelho;

e eu encontrei Alighiero nas fossas,

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amarrado com um nó cujo nome desconheço,

se era de Salomão ou de outro sábio.

Então, fiz o sinal da cruz voltado para o Levante:

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E ele me disse: “Por amor a Dante,

liberta-me”. E eu não pude ver como:

dei meia volta e terminei minha viagem.

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(Rime, LXXIV)

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O soneto de resposta de Dante (Rime, LXXV) deixa claro que o nó é um pecado, e o de Forese é a gula. Não é à toa que, décadas depois, na viagem da Comédia, Dante encontrará Forese, que morrera em 1296, no sexto terraço do Purgatório, agora esquelético, a expiar o pecado da gula. Já o pecado de Alighiero é, ao que tudo indica, sobretudo pela temática da penúria e por se encontrar a alma do pai de Dante em meio a pérolas e florins de ouro, a avareza, como decorrência da usura. Aos olhos de Forese, o pai de Dante aparece, pois, como uma alma penada que precisava de ajuda para ser liberto, isto é, para se salvar. Talvez seja por isso que, ao se encontrar com Dante, Forese explica que as preces de sua viúva Nella em muito abreviam seu tempo de purgação (Pg., 23, 85-90); se Forese não sabia como uma alma penada poderia ser salva, agora, por experiência própria, descobriu.

Foi a situação familiar confortável, construída por pai e avô, usurários, que permitiu a Dante dedicar-se às artes liberais e desde cedo se engajar na vida cívica de Florença, por exemplo combatendo a cavalo na célebre Batalha de Campaldino, em 1289, conforme epístola hoje perdida que conhecemos por citação do biógrafo humanista Leonardo Bruni.

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Os bens dotais de Gemma Donati, esposa de Dante (CDD 58 = CDD 223, 9 de fevereiro de 1277, mencionado em 24 de agosto de 1329)

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O senhor Guilhermo, juiz e administrador referido, valendo-se da competência e autoridade de seu cargo e da delegação de poderes que lhe foi concedida pela reforma da comuna de Florença e pela determinação dos senhores priores e do gonfaloneiro de justiça daquela comuna, e por todo modo, caminho e direito com que melhor pôde, liberou, atribuiu, deu e concedeu, no dia 24 de agosto [de 1329], à senhora Gemma, viúva do falecido Dante Alighieri e filha do falecido senhor Manetto di Donato, pelo direito de seu dote de duzentas libras de pequenos florins, segundo consta no instrumento de seu dote, pela mão do senhor Ranaldo, notário de Florença, filho do falecido Oberto di Baldovino, a partir das minutas do senhor Uguccione di Baldovino, notário, feito no ano do senhor de 1277, na sexta indicção, no dia 9 de fevereiro: dos frutos dos bens afetados a Lapo di Tieri di Dietisalvo, na paróquia de São Miguel Visdomini, tributados em três módios de grão, locados a Matteo di Tieri di Dietisalvi, na paróquia de Santa Maria sobre o Arno, por nove módios e dois estaios de grão, dessa soma, 26 estaios de grão pelo ano atual.

O referido juiz fez essa concessão na medida em que os referidos bens não sejam concedidos aos que sustentam a milícia equestre.

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O fato humano central da vida de Dante foi sua condenação ao exílio em 1302; encontrando-se fora da cidade desde o final do ano anterior, a despeito de muito empenho, nunca mais pôs os pés em Florença (ver, abaixo, a sentença do exílio). Esse fato produziu consequências diversas, que testemunhamos mesmo após sua morte, quando, em 1329, surpreende-se a viúva de Dante, Gemma Donati — parente distante de Forese, mencionado na seção anterior — recebendo frutos de seus bens dotais, isto é, aqueles que levou ao matrimônio como dote e que ainda não lhe haviam sido retornados. Esses bens, sequestrados em 1302, serviam para financiar os cavaleiros do exército da comuna (a cavallata) e eram administrados por um funcionário específico (iudex et officialis bonorum rebellium). Desde 1327, foi determinado que as viúvas poderiam receber uma renda anual, com base no valor de seu dote, o que na prática funcionava como espécie de investimento de renda fixa.

Nesse cenário, estamos aqui diante da atribuição da renda devida a Gemma Donati no ano de 1329, quando receberia 26 estaios de grãos (um estaio, staio, em Florença representava 24 litros; um módio, moggio, mencionado no documento, representava 779 litros). Trata-se de valor mais alto do que os 14 estaios que a aplicação das normas de 1327 em princípio lhe confeririam. Esse documento é, contudo, excepcional porque traz informação sobre o contrato dotal de Gemma Donati, que conhecemos apenas por esta citação. Descobrimos que o instrumento desse contrato, não como documento autônomo (in mundum), mas como minuta (inbreviatura) do notário — situação que bastava para lhe conferir plena validade — desempenhava papel central para fazer prova dos direitos. E, mais que isso, descobrimos que o dote tinha o valor de 200 floris pequenos (equivalentes a 125 florins de ouro), uma soma módica paga em 1277, talvez em 1278. Dante contraiu matrimônio, assim, ou comprometeu-se a casar — segundo uma hipótese hoje menos aceita, porque o dote só era pago no momento do matrimônio, e não nos esponsais — muito jovem, aos 12 ou 13 anos.

É bastante provável que o dote pequeno e precocidade do matrimônio indiquem o afã com que Alighiero perseguiu uma estratégia de nobilitação da família, apressando o casamento de Dante com uma prestigiosa família da elite florentina, ainda que em um ramo de menor destaque. O engajamento argentário do pai e do avô de Dante se transmutava ou se prolongava então em uma estratégia de incremento de prestígio social, levada a cabo, como se vê aqui, por uma política matrimonial, bem como, conforme de pronto se verá, na seção seguinte, pela busca de protagonismo na condução dos negócios públicos, o que pode explicar o descolamento de Dante dos negócios de empréstimo da família. O primeiro diploma conservado com o nome de Dante, datado de 1283 ou de 1284, talvez seja justamente expressão desse distanciamento relativamente aos negócios de Alighiero:

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Dante, do falecido Alighiero, da paróquia de San Martino del Vescovo, como herdeiro do pai, vende a Tedaldo, do falecido Orlando Rustichelli, todas as ações, reais e pessoais, que ele tenha contra Donato, do falecido Gherardo del Papa e relativas a certos bens seus nas paróquias de Santa Maria em Ortignano e de Santo Ambrogio, relativamente aos quais o pai de Dante deveria receber, do referido Donato e de Bernardo e Neri, irmãos e filhos do senhor Torrigano, 21 libras. Ser Spigliato d’Aldobrandino, notário a rogo (CDD 65).

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Com essa cessão de direitos de crédito do pai, Dante dá mostras de que, em vez de assumir o lugar social paterno — como o fizera Alighiero com relação a Bellincione — está se afastando daqueles negócios. A estratégia patrimonial faz assim sistema com um redirecionamento dos empenhos. Não parece ocioso, diante disso, que Dante envide tantos esforços na Comédia a assentar uma ascendência nobilitada, calando sobre os negócios paternos e avoengos. É assim quando responde a Farinata degli Uberti, gibelino de nobilíssima família, morto em 1264, a pergunta sobre quem foram seus antepassados (Chi fuor li maggior tui? If., 10, 42); não ouvimos a resposta de Dante, mas Farinata reconhece terem sido seus ferozes adversários, o que provoca uma notável equiparação de estatuto social. É assim sobretudo quando Dante encontra seu trisavô Cacciaguida, em longuíssimo episódio do Paraíso (Pd., 15-17), que se apresenta como cavaleiro e cruzado, logo como marco nobilitante na história familiar.

Cacciaguida é conhecido por três documentos, dos quais aparece vivo em apenas um, como testemunha de um contrato de concessão fundiária (livello), realizado em 28 de abril de 1131 (CDD 1, em que, identificado Cacciaguida como filii Adami, “filho de Adamo”, podemos recuar mais um grau na construção da árvore genealógica). Nos outros documentos, Cacciaguida já está morto e é referido como pai de seus filhos ainda vivos: Preitenittus et Alaghieri fratres, filii olim Cacciaguide (“Preitenitto e Alighiero, filhos do falecido Cacciaguida”, CDD 2, 9 de dezembro de 1189); Allagherii filii Caciaguide (“de Alighiero, filho de Cacciaguida”, CDD 3, 14 de agosto de 1201). Destes, um cuida da obrigação de cortar ou deixar cortar uma figueira que crescera junto à igreja de San Martino, e o outro, em que Alighiero (I) aparece como testemunha, indicar uma posição mais destacada, por se tratar de uma quitação de natureza pública entre Florença e Veneza.

Nesses poucos documentos, não há nenhum traço de atividades usurárias. A memória de Alighiero (I), filho de Cacciaguida, era aliás suficientemente positiva para que o Poeta o referisse e o alocasse entre os soberbos no Purgatório: “Aquele a partir de quem se nomeia / tua estirpe, e que mais de cem anos / girou no primeiro círculo do monte / foi meu filho e teu bisavô” (Pd., 15, 91-94). Do avô Bellincione e do pai Alighiero, nada se lê. As estratégias de nobilitação, que entrevemos na referência ao instrumento do dote de Gemma Donati, têm assim uma dimensão estrutural na vida de Dante.

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Dante opina em um conselho comunal contra Bonifácio VIII (CDD 125, 19 de junho de 1301)

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Dia 19 do mês de junho [de 1301].

Em conselho formado pelo Conselho dos Cem, pelo Conselho Geral e Especial do Capitão e pelos dirigentes das Doze Artes Maiores, o senhor capitão propôs o que se transcreve abaixo, na presença dos priores e do gonfaloneiro:

primeiramente, relativamente a prestar ao senhor papa um serviço de cem soldados, na forma da carta do senhor Matteo, cardeal;

então, sobre aceitar o requerimento dirigido aos senhores priores e ao gonfaloneiro pela comuna de Colle.

O senhor Ruggero di Ugo Abizzi, notário, opinou que o referido serviço deva ser prestado ao senhor papa segundo a forma da proposição. Na sequência, que o referido requerimento feito pela comuna de Colle aos senhores priores e ao gonfaloneiro deva ser aceito por eles.

Dante Alighieri opinou que nada deva ser feito em relação a prestar o serviço ao senhor papa; na outra proposição, opinou do mesmo modo que o referido primeiro sábio.

O senhor Guidotto Canigiani, juiz, opinou do mesmo modo que o referido primeiro sábio.

O senhor Albizzo Corbinelli, juiz, opinou que por ora se suspendesse a discussão relativa a prestar o serviço ao senhor papa.

Na presença das testemunhas senhor Gentile, do senhor Gualtiero di Firmo, juiz e assessor assistente do referido senhor capitão, e Albizzo Redde, arauto do senhor capitão e do povo florentino e na presença de outras testemunhas.

Feita a votação por sentar e levantar, agradou a todos que se procedesse segundo o referido primeiro sábio relativamente à proposição de Colle. Naquele dia, o referido requerimento foi aceito.

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Manuscrito Firenze, Archivio di Stato, Libri fabarum, 5, f. 9r (detalhe, CDD 125, em Teresa de ROBERTIS; Giuliano MILANI; Laura REGNICOLI; Stefano ZAMPONI [ed.]. Codice diplomatico dantesco. Roma: Salerno, 2016 (Coleção Nuova edizione commentata delle opere di Dante, volume 7, tomo 3)
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O documento a que agora nos voltamos colhe Dante a sete meses do exílio, em plena atividade nas instituições do governo florentino. Esse engajamento é, no entanto, anterior, havendo dois momentos fortes de empenho cívico do Poeta, primeiramente entre 1295 e 1296, quando se pronunciou em diversas assembleias comunais (CDD 74, 76 e 80), e depois entre 1300 e 1301, quando não apenas falou em assembleias (CDD 122, 123, 125, 126, 130, 131 e 132), mas representou Florença como embaixador em San Giminiano (CDD 114) e exerceu a magistratura suprema do priorado, no mandato de 15 de junho a 15 de agosto de 1301 (CDD 116 e 117). Nessa documentação, desponta Dante como engajado orador, que se manifesta relativamente aos assuntos sobre os quais ele e os colegas devem deliberar. Infelizmente a forma do registro não consente uma transcrição, mas apenas um apontamento do conteúdo.

Essa oratória cívica é praticada no contexto de instituições públicas que também se ocupam do seu registro, resultantes de um profundo processo de transformações sociais que se estenderam ao longo do século XIII e acabaram por desenhar um arranjo estável entre 1282 e 1295. No topo desse arranjo, está o priorado, órgão supremo instalado em 1282, que representa em seu primeiro decênio os grandes popolani (os ricos membros das principais corporações, chamadas Arti em Florença), muito intento em limitar o poder dos magnati (as linhagens aristocráticas tradicionais). O movimento culmina em 1293, com a promulgação, pelos priores, de uma reforma constitucional consubstanciada nas Ordenações de Justiça, particularmente duras contra os aristocratas. Além de conferir centralidade maior às corporações, criam a figura do gonfaloneiro de justiça (vexilliferum, em latim), que atua como presidente dos priores. A radicalização se aprofunda com Giano della Bella († antes de 1306), prior de destaque que busca ir mais adiante. A reação não tarda a chegar, com uma reforma atenuante das Ordenações em 1295, refreando a oposição aos magnati. São esses os priores e o gonfaloneiro que nosso documento menciona por último, como que observando a deliberação, do alto de seus cargos.

Esse desenho se sobrepõe a duas magistraturas fundamentais do século precedente, alterando as relações que elas pretendiam sedimentar: o podestà, magistrado permanente em Florença desde 1207, recrutado no exterior para aplicar a justiça, e o capitano del popolo, instituído em 1250 para ser um contraponto popolano ao podestà, também recrutado fora da cidade. Esses magistrados são secundados por conselhos, que se estabilizam e se redesenham em 1282, os dois conselhos do podestà, referidos mais amiúde agora como “conselhos da comuna” (com 300 e 90 integrantes), e os dois conselhos do capitano, chamados simplesmente conselhos geral (com 150 membros) e especial (com 36). Em 1289, instala-se ainda o Conselho dos Cem, destinado a deliberar especificamente sobre despesas extraordinárias e sobre matérias sensíveis. São os conselhos do capitano e dos Cem, conjuntamente com os dirigentes das 12 principais corporações — figuras essenciais instituídas pelas Ordenações de Justiça que elegem os priores, juntamente com “sábios” designados ad hoc pelos priores em exercício — que estão a deliberar na assembleia expandida que o documento em questão nos apresenta.

É, ademais, um dos abrandamentos aos Ordenamentos de Justiça aportados em 1295 que permite a Dante essa ativa participação na vida pública, pois então se decidiu que bastava estar inscrito em uma das corporações, sem necessariamente exercer com habitualidade o ofício, para poder integrar as diferentes assembleias, e não apenas os conselhos do podestà, abertos aos não matriculados. Guardamos, no CDD 121, a transcrição feita em 1447 do registro da matrícula de Dante na corporação dos médicos e boticários, registro que data de entre 1297 e 1301, embora a matrícula seja certamente de 1295, dada a participação política de Dante como ativo orador nas assembleias cívicas.

Visto nesse contexto, o documento em tela ganha espessura. Trata-se de uma ampla assembleia em vias de deliberar assuntos em sua forma habitual: convocado o conselho e apresentada por um dos magistrados a pauta, passa-se às manifestações, isto é, aos discursos, em que alguns conselheiros defendem o voto em determinada direção (de onde o verbo formular, consuluit, com que se registra o sentido da manifestação daqueles que tomaram a palavra), passando-se enfim ao voto, que poderia ser simples, como aqui, pela verificação da posição dos conselheiros, se sentados ou de pé (ad sedendum et levandum), ou escrupulosa, em outros contextos, com urnas e votos (ad pissides et palloctas).

Se Dante frequentemente se expressou para concordar com as propostas, e no sentido vencedor (consuluit secundum propositionem, “aconselhou segundo a proposição”, CDD 74; consuluit secundum propositiones predictas, “aconselhou segundo as proposições já referidas”, CDD 80), aqui ele se opõe claramente à proposição e à posição do primeiro conselheiro, desaconselhando a que a cidade emprestasse o auxílio militar requerido pelo papa Bonifácio VIII (que pontificou entre 1294 e 1303), na campanha que movia contra Margherita Aldobrandeschi. O assunto não era nada simples e foi suspendido após sugestão de um conselheiro, reservado para discussão restrita no Conselho dos Cem, no mesmo dia, onde Dante novamente discursou, mas restou vencido, em uma votação ad pissides et palloctas que expõe notável divisão dos conselheiros presentes (48 votos contra 32, CDD 126). Para comparação, a outra matéria de que se ocupou o Conselho foi aprovada por 80 votos a 1.

O empenho de Dante — que, já veremos, era muito relevante na matéria — é resultado de um ambiente muito tensionado, e os seus discursos, que apenas podemos imaginar, devem ter sido firmes. As tensões que escalavam entre 1293 e 1295 não se haviam resolvido, mas antes se complicaram, resultando em uma polarização entre dois grupos que, tomando o exemplo da aliada Pistoia, denominaram-se “negros” e “brancos”: aqueles mais próximos a Bonifácio VIII, opositores do reformismo popular de Giano della Bella e liderados por Corso Donati, logo mais próximos aos grandes popolani e aos magnatas; estes mais hostis ao papa, mais alinhados com Giano e liderados pelos Cerchi, e assim afinados antes com as camadas médias do popolo.

O branco Dante, vencido na votação em dia em que discursou por duas vezes para afastar a sorte de Florença dos desígnios do papado, foi definitivamente vencido quando, mandado orador a Roma para tentar demover Bonifácio VIII de seus intentos, o emissário papal, Carlos de Valois (1270-1325), paciere da Toscana, invadiu Florença, em 1º de novembro de 1301, fazendo também voltar Corso, que fora expulso no ano anterior, e devolvendo o poder aos negros.

O cronista branco Dino Compagni (c. 1255-1324) retrata Corso — que Dante entende ser “aquele que tem a maior culpa” (Pg., 24, 82) na ruína de Florença — como homem de bela aparência, especialmente agradável nas palavras (piacevole parlatore), mas “com o ânimo sempre posto a fazer o mal” (Crônica, 2.20), tecedor de ilusões e enganos. É o que se manifesta no relato de sua morte:

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O senhor Corso, doente de gota, fugia na direção da abadia de San Salvi, onde já havia cometido e feito cometer muitos males. Os soldados catalães o apreenderam e o reconheceram: e, querendo manipulá-los, defendia-se com belas palavras, tal qual um sábio cavaleiro. No entanto, sobreveio um jovem cunhado do marechal. Estimulado por outros a matá-lo, não o quis fazer; e voltando, foi mandado de volta; e, na segunda vez, enfiou-lhe uma lança catalã pela boca e desferiu-lhe outro golpe no flanco; e Corso caiu por terra (Crônica, 3.21).

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A lança na boca deve ser tópica — comparece também na crônica de Giovanni Villani, em narrativa diversa — a indicar ataque contra o instrumento de tantos males, a boca com que pronunciava palavras melífluas e enganosas.

A crônica de Compagni, que faz breve menção a Dante (Crônica, 2.2), ao reportar a lista dos exilados de 1302, situa-se exatamente no mesmo momento histórico da viagem da Comédia (propondo-se a deitar por escrito “os perigosos eventos infaustos que sofreu a nobre cidade filha de Roma [Florença], por muitos anos, e especialmente ao tempo do jubileu do ano de 1300”, Crônica, Proêmio) com que compartilha ainda a perspectiva de que os eventos que opuseram brancos e negros estão no centro da ruína de Florença. Assim, Dante também, como muitos outros mais, relata uma morte funesta para Corso, profetizada pelo irmão Forese (já que só viria a ocorrer em 6 de outubro de 1308, isto é, depois do tempo narrativo da Comédia): “aquele que tem a maior culpa / eu o vejo amarrado à cauda de uma besta / em direção ao vale onde não há escusa. / A besta a cada passo vai mais rápido, / sempre acelerando, até que ela o golpeia / e deixa o corpo vilmente desfeito” (Pg., 24, 82-87).

Dante não dá nome nem voz a Corso, nem aqui, nem na outra menção a ele, pela também irmã Picarda, arrancada a seus votos monásticos por obra sua (Pd., 3, 103-108), mas lhe confere uma morte que também ataca sua aparência, agora física — ele que, para Compagni, era “belo de corpo” (Crônica, 2.20), “de corpo belíssimo até sua velhice, de bela forma com feições graciosas” (Crônica, 3.20). É nesse contexto, e potencialmente com muitas dessas imagens compartilhadas com seu grupo político, que Dante discursava em 1301 diante de uma cidade cindida, certamente reconhecendo, pela técnica compartilhada, aqueles oradores que só tinham palavras agradáveis, mas péssimo intento. O tema, veremos em outra oportunidade, é estruturante na Comédia.

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A sentença ao exílio (CDD 134, 27 de janeiro de 1302)

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[…]

[2] Nós, Cante, referido podestà, damos e proferimos as sentenças condenatórias abaixo transcritas do seguinte modo.

[3] Quando a rapacidade iníqua do pastor se volta a pôr a perder o rebanho, não há então maior ataque lupino nem nenhuma peste mais eficaz em causar o mal. Pois é assim que ocorre quando aqueles que o povo quis honrar atribuindo-lhes sua própria custódia, para que eles, como pastores solícitos e castíssimos guardiães, cuidem de conduzir o povo em uma ordenação salvífica, desviam o juízo correto a ações desviadas e injustas, com seu semblante envolto em trevas, sem respeitar nem considerar o fato de que o povo os eleva ao cargo público para que, atendendo à justiça, o iluminem e deem a cada um aquilo que lhe cabe com justiça. Se administram os negócios públicos de outro modo, emprestando ouvidos a extorsões iníquas e estendendo a mão a lucros ilícitos, contra o dever de honestidade, então o próprio povo se faz discorde e, tornado discorde, desagrega-se de sua unidade e, desagregado, decai em imensa perturbação. Deve-se, portanto, aplicar uma pena punitiva aos que cometem tais atos, para que, por meio daquela culpabilização merecida, confessem abertamente e se favoreça, com o exemplo, a todos os demais a cujo ouvido ele chegue. […]

[9] O senhor Palmerio Altoviti, do sestiere de Borgo, Dante Alighieri, do sestiere de San Pietro Maggiore, Lippo di Becci, do sestiere de Oltrarno, Orlanduccio Orlandi, do sestiere de Porta Duomo; contra os quais se procedeu por inquirição a partir de nossa determinação e daquela de nossa corte, sobre isto e aquilo que, relatado pelo rumor público, chegou a nossos ouvidos e aos de nossa corte, isto é, que referidos senhores, quando eles ou algum deles exercia o cargo de prior ou, não o exercendo ou havendo deixando o cargo de prior, no período compreendido pela inquirição, cometeram, por si ou por outrem, corrupção, lucros ilícitos, extorsões ilícitas em dinheiro ou bens. […]

[15] e que cometeram ou causaram o cometimento de fraude ou corrupção no dinheiro ou nos bens da comuna de Florença ou fizeram com que fossem versados ou expendidos contra o sumo pontífice e o senhor Carlos, para resistir à sua vinda ou contra o estado de paz da cidade de Florença e do partido guelfo; […]

[17] e, ademais daquilo que cometeram ou fizeram cometer ou causaram que fosse feito, fraude, falsidade, dolo ou malícia, corrupção ou extorsão ilícita, eles cuidam ou algum deles cuida de dividir e cindir a cidade de Pistoia dentro de si, ao mesmo tempo retirando-a da unidade que havia, e cuidaram para que os anciãos e o gonfaloneiro da referida cidade de Pistoia fossem apenas de um partido, e causaram que se deliberasse, ocasionasse ou ordenasse a expulsão, para fora da referida cidade, daqueles que se chamam “negros”, fieis devotos da santa Igreja romana, e que a referida cidade se apartasse da união e dos desígnios da cidade de Florença e da sujeição à santa Igreja romana ou ao senhor Carlos, pacificador na Toscana.

[18] O senhor Palmerio, Dante, Orlanduccio e Lippo foram citados e intimados legitimamente, por um emissário da comuna de Florença, para que, em determinado prazo, já escoado, comparecessem diante de nós e de nossa cúria e viessem eles mesmos ou quem deles o quisesse, para submeter-se a nossos mandados e para se defender e exculpar da referida inquirição; e não vieram, mas antes aceitaram ser banidos da comuna de Florença por [não terem pagado] 5 mil pequenos florins por cada um, por Duccio di Francesco, banidor público da mesma comuna, pena em que incorreram ao se ausentar em contumácia, consoante consta mais amplamente a respeito de todos os referidos nas atas de nossa corte.

[19] Por isso, para que recebam plenamente o fruto da colheita segundo a semente plantada, e para que sejam remunerados com a retribuição devida por seus méritos, de acordo com os delitos cometidos, em razão de sua contumácia, o senhor Palmerio, Dante, Orlanduccio e Lippo, são tidos por confessos, de acordo com a forma do direito, dos estatutos da comuna e do povo da cidade de Florença, das Ordenações de Justiça, das reformas e com apoio no poder de nossa discrição, são condenados em 5 mil florins pequenos, a ser dados e pagos por cada um ao tesouro da comuna de Florença, que deve recebê-los em prol da própria comuna, e devem restituir o que foi extorquido ilicitamente aos que o provarem legitimamente;

[20] e, se não pagarem a condenação dentro de três dias, computados a partir do dia da sentença, que todos os bens daquele que não pagar sejam confiscados ou devastados e destruídos e que devastados e destruídos permaneçam na comuna;

[21] e se eles pagarem ou algum deles pagar a referida condenação, aquele que pagar deve ademais permanecer para além das fronteiras da província da Toscana por dois anos; e, para que se faça perpétua memória dos referidos senhor Palmerio, Dante, Lippo e Orlanduccio, que os nomes deles sejam inscritos nos estatutos do popolo; [22] e, como falsários e corruptos, em tempo algum possam ter cargo ou benefício em prol da comuna ou pela comuna de Florença, na cidade, no contado, na jurisdição ou alhures, quer paguem, quer não paguem a condenação, e assim os condenamos, por meio do que está aqui escrito em forma de sentença, integrando-se o exílio à presente condenação. […]

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A sentença de Dante é uma das várias sentenças promulgadas contra os brancos em 1302; não dispomos, contudo, do original, mas de cópias realizadas em meados do século XIV, como parte de uma estratégia para atacar determinados indivíduos em razão das faltas dos antepassados. De todo modo, graças a essas cópias, hoje conseguimos compreender a dinâmica de prolação dessas sentenças a partir de três tribunais excepcionais instaurados na sequência dos eventos de novembro de 1301 (ver a seção precedente), dentre os quais aquele presidido por Cante Gabrielle de Gubbio, tornado podestà de Florença em 9 de novembro. As condenações se abriam por um proêmio geral muito interessante (“Quando a rapacidade…”), a que retornaremos ao fim desta seção, desfilando então oito sentenças, datadas de entre 18 de janeiro e 10 de fevereiro de 1302, dentre as quais a que pôs Dante no exílio.

O tribunal havia procedido por meio de uma investigação inquisitória, isto é, ex officio: sem se apoiar em uma acusação, o tribunal entendeu que os sentenciados haviam incorrido no delito de barattaria, isto é, corrupção no exercício de cargos públicos, equiparada a uma forma de fraude porque os criminosos buscavam o próprio ganho em vez de procurar o bem dos cidadãos; teriam-no feito especialmente pervertendo a eleição de priores e gonfaloneiros e modificando leis em seu benefício ou de seus aliados. No caso da sentença que golpeou o Poeta, isso teria se dado com relevantes circunstâncias agravantes, como a oposição ao papa e a Carlos de Valois e a interferência na política de Pistoia. Julgados culpados, sem terem se apresentado no curso da investigação para se defender, foram condenados a uma pesadíssima multa de cinco mil florins pequenos cada, e, mesmo que pagassem, ainda assim ficariam banidos da Toscana por dois anos e impedidos de ocupar cargos públicos por toda a vida; se não pagassem, além do exílio, perderiam todos os seus bens.

Ora, os condenados não pagaram a multa e, como consequência, em 10 de março, Cante os condenou, Dante incluído, à morte: “se alguns dos já referidos em algum momento vier ao território desta cidade, que aquele que vier seja queimado no fogo de forma que morra” (CDD 135). As condenações de Dante, no entanto, não acabaram por aí, em razão de novos desdobramentos da política peninsular.

A situação política de Florença e da Itália se alterou consideravelmente a partir de 1308, quando Henrique, duque de Luxemburgo (c. 1275-1313), foi eleito imperador, assumindo o título de Henrique VII. Empenhou-se em submeter a Itália ao império, pondo fim à facciosidade e reintegrando os exilados. Foi bem recebido por algumas cidades, mas não por outras, como Florença, que se aliou a Roberto de Anjou, rei de Nápoles (1276-1343), contra as pretensões imperiais e prestou auxílio a diversas cidades opostas ao imperador. Henrique chegou a cercar a cidade em setembro de 1312, durante cerca de seis semanas, mas terminou recuando. Quando, muito reforçado, estava em vias de subjugar a Toscana, cercando Siena, foi acometido de malária e acabou morrendo em 24 de agosto de 1313, embora as guerras por ele iniciadas tenham se prolongado até 1315.

Dante havia depositado elevadas esperanças nos empreendimentos de Henrique, o “alto Henrique / que para endireitar a Itália virá antes que ela esteja disposta” (Pd.30, 137-138). Com isso, que acabara por se transmudar, no vocabulário próprio do século anterior, em um gibelino, isto é, em um defensor do poder imperial, em oposição aos guelfos, seus opositores, alinhados à primazia papal. É assim que, quando, em 1311, para fazer frente às campanhas de Henrique, Florença decreta uma anistia a uma série de exilados, com o fito de obter recursos e estreitar alianças, Dante, entre outros, fica expressamente excluído (CDD 161). Em 1315, sofreu nova condenação, no contexto da guerra que Florença ainda conduzia contra os gibelinos: ele e os filhos, juntamente com novo banimento (CDD 172), vinham condenados à morte em 15 de outubro de 1315: “que a cabeça deles seja amputada dos ombros, de forma que morram” (CDD 172).

Esse conjunto de eventos deixa profundos ecos na Comédia, conforme teremos ocasião de verificar seguidamente. Desde logo, contudo, um particular entrecruzamento lexical chama a atenção entre o elaborado prólogo das sentenças de banimento de 1302 e o princípio da Comédia. Com efeito, aquele texto figura os maus governantes como pastores pervertidos, mais nocivos que lobos (lupina offensio), responsáveis em princípio por conduzir (regere) o rebanho, mas que, envoltos em escuridão (facie tecta caligine), desviam os retos a caminhos desordenados (rectos… ad indirecta… pervertunt). Essa peculiar acumulação de imagens tem correspondentes muito precisos na primeira tercina da Comédia, na selva oscura (“selva escura”, If.1.2 ≈ tecta caligine) e na diritta via… smarrita (“reta via… perdida”, If.1.3 ≈ rectos… ad indirecta… pervertunt), bem como na última fera que ameaça Dante e o faz recuar em direção à selva de que parecia sair, a lupa que mi porse tanto di gravezza (“loba […] me prestou tanto pesar”, If.1.49 e 52 ≈ lupina offensio).

É evidente que essas imagens, assentadas em metáforas amplamente difundidas, que remetem em última instância às Escrituras, não estão apoiadas apenas naquele texto, mas em diversos modelos, tornando a identificação de alusões pontuais trabalho em grande medida especulativo. Assim, por exemplo, Prov.2.3-14: qui relinquunt iter rectum, at ambulant per vias tenebrosas, qui laetantur cum malefecerint, et exultant in rebus pessimis (“os que abandonam a via reta ao passo que caminham por vias tenebrosas, que se alegram ao praticarem o mal e exultam diante das piores coisas”, ver ainda Prov.4.18-19 e II Pet.2.15, para a “via reta”, e Ier.5.6 para as três feras). Contudo, a acumulação de correspondências em pontos exordiais, parece-nos, entretece esses dois textos fundamentais, opondo sua Comédia ao texto que lhe procurara tanta dificuldade.

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Como procurador, Dante celebra a paz com o bispo de Luna, em Castelnuovo (CDD 145, 6 de outubro de 1306)

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[1] Em nome do Senhor, amém. No ano 1306 de sua natividade, na quarta indicção, no dia 6 de outubro, na hora de terça.

[2] Triunfando por tempo demasiado longo a potência diabólica, tendo surgido combates, inimizades e ódios entre o venerável pai e senhor, o senhor Antonio, pela graça de Deus bispo e conde de Luna, e os nobres homens e excelsos senhores, Morroello, Francesco e Conradino e seus irmãos, marqueses de Malaspina, a partir dos quais se seguiram guerras, inimizades e ódios, homicídios, lesões, assassinatos, incêndios, devastações, danos e muitos perigos, e a província da Lunigiana foi de muitos modos dilacerada, os referidos senhores bispo e marqueses, tendo presente o exemplo do Pai supremo dizendo aos seus apóstolos “Eu vos dou a minha paz, eu vos deixo a minha paz”, e escolhendo o mesmo termo para seus empenhos, por meio de um tratado do venerável homem e senhor, frei Guilherme Malaspina e do frei Guilherme de Godano, da santíssima ordem dos frades menores, considerando ainda que a tranquilidade deve ser desejável para todo reino, estado em que os povos progridem, o interesse das gentes é resguardado, ela que é a mãe apropriada das artes liberais, multiplica o gênero humano, com uma descendência renovada, estende as capacidades, aperfeiçoa os costumes, e mal se estima o seu valor, comprazendo-se na tranquilidade ociosa de seus amigos, sequazes e súditos e na plácida amenidade da paz, iluminando-os a graça do excelso Salvador, chegavam à paz e à verdadeira e perpétua concórdia transcrita abaixo, a saber. […]

[7] E, de outro lado, o referido Dante, procurador, na qualidade de procurador do senhor Franceschino, marquês, em nome e no lugar dos senhores Morroello e Conradino, marqueses já referidos, pelos quais o referido procurador promete, com a ratificação, conforme acima exposto, e em prol de todos os sequazes deles — isto é, dos homens dos territórios acima referidos dos senhores marqueses e dos partidos deles em Sarzana e no castelo, comuna e entre os homens de Carrara, da comuna e dos homens de Ponzano, da comuna e dos homens de Bibola, do partido de Santo Stefano e Bolano — fez e entregou ao referido venerável pai, que recebeu por si e pela igreja de Luna e por cada um de seus sequazes, acima referidos, uma paz verdadeira e perpétua, relativamente a todos e a cada um dos excessos e ofensas já referidos; e, em sinal de verdadeira e perpétua paz, o referido pai venerável, senhor bispo, e o já referido Dante beijaram-se mutuamente.

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Em comparação com o bem documentado período de 1300 a 1301, os vinte últimos anos da vida de Dante contam com fontes mais escassas, pois agora o Poeta vem posto em situações que escapam amiúde das estruturas de registro notarial. Contudo, em outubro de 1306, Dante surge em papel de grande relevância na província da Lunigiana, no contexto de pacificação das relações turbulentas entre o bispo de Luna e os marqueses Malaspina, linhagem com diversas ramificações e distintos alinhamentos, mas que atua aqui em função de interesses comuns diante dos empreendimentos que levaram à expansão das terras sob seus domínios nos decênios precedentes e desaguaram em disputas violentas com o bispado. É no ato fundamental de pacificação dessas relações que surge Dante, como procurador e amplo negociador (procuratorem, actorem, factorem et nuncium specialem, CDD 144) de Franceschino Malaspina e de seus primos, Moroello e Conradino, junto ao bispo.

Nesse dossiê, que envolve a procuração, a própria paz e diversos atos do bispo em cumprimento ao acordado (CDD 144 a 148), evidentemente a paz (CDD 145), celebrada em Castelnuovo, é a peça central, em que está registrado o ato simbólico tradicional em que Dante e o bispo selam o fim das inimizades com o beijo da paz. O documento, redigido pelo notário Giovanni Parente di Stupio, encontra-se em suas imbreviature. Para além de seu interesse para entender os tipos de serviços prestados por Dante no exílio e suas relações com os poderes senhoriais da península, este específico texto tem um interesse excepcional pelo elaborado prólogo aqui traduzido (“Triunfando por tempo demasiado…”), em que diversos estudiosos sentiram relevante influência de Dante, problema mais recentemente enfrentado por Emiliano Bertin, que aduziu uma série de argumentos em prol de uma paternidade dantesca daquele segmento.

Além da disparidade para com os demais textos do mesmo notário e, com efeito, demais desse notário, também para com os demais atos de paz que poderiam apontar para modelos compartilhados, o prólogo em questão está vazado em linguagem muito elaborada, em uma grande e complexa frase periódica, recorrendo ademais a cadências bastante favorecidas por Dante. Mais notável, contudo, é que o texto da paz propriamente dita, após o prólogo, contém elenco dos males que afligiam a Lunigiana que é muito próximo à forma como os males também são listados na procuração, mas simultaneamente muito distantes do que está no proêmio. A formulação de Giovanni di Stupio é: “de todas e cada uma das injúrias, guerras, inimizades, ofensas, incêndios, danos, rebeliões, feridas, homicídios e todos os outros delitos ou celeridades perpetrados, deliberados ou determinados”. Já no proêmio, há uma estrita ordenação: primeiramente, três violências devidas à malevolência do diabo (guerris inimiciis odiisque), em seguida três consequências físicas para a pessoa (homicidia vulnera cedes) e enfim três consequências patrimoniais (incendia vasta dampna).

Foi também Bertin a perceber que essa construção é perfeitamente paralela a trecho da Comédia em que Virgílio está a explicar a Dante a estrutura da porção mais baixa do Inferno. Veja-se:

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homicídios, lesões, assassinatos, incêndios, devastações, danos (proêmio da Paz de Castelnuovo)

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Morte violenta e feridas dolorosas

dão-se ao próximo, e em seus bens

ruínas, incêndios e usurpações danosas;

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por isso, homicidas e todos os que infligem feridas,

devastadores e saqueadores, a todos atormenta

o primeiro círculo, em diversos grupos.

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(If. 11, 34-39)

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A hipótese de atribuição dantesca se fortalece ainda por não haver nada de semelhante na ordenação dos males em todo o conjunto de atos privados de paz na Toscana medieval, conforme se verifica na ampla recolha de Masi. Diante dessas constatações, a conclusão que se impõe é estarmos diante de relevantíssimo testemunho da mútua compenetração, por mãos do próprio Dante, entre a experiência vivida no mundo e a experiência imaginada na Comédia, sugerindo que a transfiguração da vida no poema podia muito bem servir, sucessivamente, de enquadramento para o manejo das relações interpessoais.

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O Dante de Luca Signorelli

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Indicações de leitura

Devo, antes de tudo agradecer a Alexandre Pinheiro Hasegawa e João Carlos Mettlach pela leitura atenta deste texto e pelas importantes sugestões de que me beneficiei.

Os documentos aqui comentados foram todos extraídos da seguinte edição e numerados de acordo com ela: Teresa de ROBERTIS; Giuliano MILANI; Laura REGNICOLI; Stefano ZAMPONI (ed.). Codice diplomatico dantesco. Roma: Salerno, 2016 (Coleção Nuova edizione commentata delle opere di Dante, volume 7, tomo 3). Cada documento é objeto de rico comentário que forneceu importantes pistas e informações para este texto. Também construímos a árvore genealógica a partir da mais ampla apresentada no livro. A edição anterior do CDD, embora agora superada, é no entanto aquela que se encontra citada em boa parte da bibliografia dos últimos 80 anos: Renato PIATTOLI (ed.). Codice diplomatico dantesco [1940]. 2.ed. Firenze: Luigi Gonnelli & Figli, 1950. Mencionamos ainda, pontualmente: Gino MASI (ed.). Collectio chartarum pacis privatae medii aevi ad regionem Tusciae pertinentium. Milano: Vita e Pensiero, 1943.

As biografias de Dante são, como todo setor da dantística, exabundantes. A primeira grande biografia moderna é: Michele BARBI. Dante: vita, opere e fortune. Firenze: Sansoni, 1933. Ainda o principal ponto de referência: Giorgio PETROCCHI. Vita di Dante. Bari: Laterza, 1984. Duas contribuições recentes muito importantes, porque calcadas não na pretensão de colmatar lacunas insanáveis, mas direcionadas a avaliar em espessura os textos de que efetivamente dispomos são: Giorgio INGLESE. Vita di Dante: una biografia possibile [2015]. 2.ed. Roma: Carocci, 2018; Elisa BRILLI; Giuliano MILANI. Dante: des vies nouvelles. Paris: Fayard, 2021. Este último volume tem abordagem inovadora e refinada, na esteira dos grandes trabalhos de Jacques Le Goff sobre a biografia histórica.

Entre os estudos dedicados a questões específicas da biografia de Dante, deparamo-nos novamente com Barbi: Michele BARBI. Problemi di critica dantesca. Firenze: Sansoni, 1934-1941, 2 v. Mais recentemente, são indispensáveis os ensaios reunidos em: Giuseppe INDIZIO. Problemi di biografia dantesca. Ravenna: Longo, 2014. Um artigo fundamental para compreender a sentença de 1302: Giuliano MILANI. Appunti per una riconsiderazione del bando di Dante. Bollettino di italianistica, n. 8 (2), 2011, p. 42-70. Sobre a Paz de Castelnuovo: Emiliano BERTIN. La pace di Castelnuovo Magra (6 ottobre 1306): otto argomenti per la paternità dantesca. Italia medioevale e umanistica, n. 46, 2005, p. 1-34. O texto mencionado de Schlegel é: August Wilhelm SCHLEGEL. Dante: über die götttliche Komödie [1791]. In: IDEM. Sprache und Poetik. Ed. Edgar Lohner. Stuttgart: Kohlhammer, 1962, p. 67-87.

Para o contexto histórico mais geral, além de um importante anexo  de autoria de Giuliano Milani, inserto na biografia acima citada de Inglese (“I contesti politici e sociali”), leia-se em primeiro lugar: John M. NAJEMY. A history of Florence: 1200-1575. Oxford: Blackwell, 2006. Um volume recente que abre um panorama esplêndido é: Zygmunt G. BARAŃSKI; Lino PERTILE (ed.). Dante in context. Cambridge: Cambridge University Press, 2015.

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Eduardo Henrik Aubert

Eduardo Henrik Aubert é Doutor em História (2011), Direito (2019) e Letras (2020), Mestre em História (2007), Bacharel em História (2003), Direito (2018) e Letras (2020). Desenvolveu pesquisa em estágio pós-doutoral na University of Cambridge, entre 2012 e 2014, e na USP, entre 2015 e 2017. É coordenador do LATHIMM-USP (Laboratório de Teoria e de História das Mídias Medievais).